-... Eu me tornei filha de Fausto VIII, o homem que me deu uma chance de viver e também me jogou nessa vida.

Capítulo 12: Rewrite.

Ela olhou para o rosto de Hao que estava sentado de pernas cruzadas, ele mantinha a expressão fechada, as sobrancelhas se juntavam enquanto ele apertava os olhos, ela suspirou e olhou para o teto pedindo forças para continuar, ela o viu fechar os olhos e respirar fundo, ele também estava tentando, por hora isso era suficiente.

-
Eu vou tentar poupá-lo do drama, mas é inevitável que eu acabe tornando tudo isso muito melodramático.

-Por favor. - Ele disse ainda de olhos fechados.

Tudo começou na Itália, há 9 anos...

-Marion? A filha dos Fauna? Me poupe, sustentar minha família já é difícil, eu não tenho tempo pra criar filho dos outros.
-Fauna? Não, eu não tenho mais idade para educar uma criança.
-Mande-a para um reformatório!

Todos ignoravam ninguém realmente se importa. Ela podia ouvi-los, mesmo estando na sala ao lado, suas pernas curtas balançavam enquanto ela permanecia sentada no banco de espera, olhando para as linhas tortas do chão de madeira.

Quando o homem de cabelos bagunçados com um cigarro na boca saiu da sala, ela se levantou sem nem olhá-lo, andaram lado a lado olhando para frente. Eles seguiram de carro, o tempo estava chuvoso como pedia um enterro. Uma família pequena que ninguém se lembraria, a casa com paredes gotejando e pintura feia que todos comentariam.

Quão fútil as pessoas se tornam. Comentando a vilha alheia, desejando pêsames, quando não se importam. Isso não é educação. Para aquela criança, sentada no banco do carona, olhando o parabrisas ir e vir, vendo os pingos d'água bateram fortes, ela desejava poder escorrer como a água, cair nos bueiros e desaparecer.

Ninguém realmente se importa.

Ela fechou a porta do carro e correu até a entrada, o homem mais velho veio logo em seguida, com um guarda-chuva, ele destrancou a casa e Marion tirou os sapatos e correu para seu quarto que ficava no segundo andar. Um pequeno cômodo, antes usado como depósito.

Era simples, como sua antiga casa. O papel de parede estava saindo e ela podia desenhar em toda a parede. Nas partes mais baixas, haviam vários gatos pretos e bruxas voando. Ela havia gasto toda a canetinha que trouxera em sua única bagadem de mão. Suas roupas, os vestidos com babados feitos por sua mãe à beira do leito, tudo desaparecera.

Tudo dado, distribuído e/ou vendido.

Ela fingiu não se importar quando isso aconteceu, mas ela chorou por duas noites. Roupas também eram lembranças, principalmente quando feitas com tanto carinho. Aquelas pessoas não se importavam. Aquelas pessoas gastavam todo o dinheiro comprando, apenas olhando o preço e o tamanho, ninguém mais pergunta "Qual a sua cor favorita?".

Isso é uma questão importante.

Ela olhou para a bolsa de pano ainda com suas coisas dentro. E calçou o sapato de boneca que estava meio úmido, pegou a bolsa e desceu as escadas com cuidado para não escorregar, aquela madeira era traiçoeira, só fazia cinco dias, mas ela já havia caído e tropeçado várias vezes.Talvez a intenção fosse mesmo essa. Cair, bater com a cabeça e morrer.

Ninguém iria se importar.

Ela passou pela sala receosa e com medo de que o homem, amigo de seus pais, a segurasse e a trancasse naquele quarto velho com cheiro de mofo, mas ao descer o último degrau, ela o viu baixar os olhos do jornal e ficar a encarando como se pensasse em algo, Marion parou de andar e também o encarou, esperando sua ação.

-Você vai voltar?

Era uma questão idiota, uma vez que ela segurava a pequena mala contra o corpo, e ele olhava diretamente para o detalhe em questão. Ela balançou a cabeça negativamente, ele correu novamente os olhos pelo jornal, procurando onde havia parado.

-Tranque o portão quando sair.

Ele não ergueu novamente os olhos, ela também não queria isso, e foi com um sorriso que ela concordou com a cabeça e saiu da casa saltitando, o céu escuro e sem nuvens era um bom sinal, já não chovia e isso a alegrou. Ela trancou o portão e olhou para a casa ainda com as mãos se fechando nas grades negras do portão que rangia desagradavelmente.

Ele era uma pessoa. E pessoas não se importam.

Assim como seus falecidos pais. Ela subiu no ônibus que a levou para longe, paisagens que ela desconhecia na noite silenciosa. O vento gelado, barulho de grilos, isso tudo era surpreendente. Foi com um sorriso encantado que ela desceu da plataforma e caminhou olhando para todas as direções, como se todo aquele mundo fosse novo.

Para uma criança de 9 anos, de fato era.

-Mas vamos ao que interessa.

Ela precisava de um lugar para ficare sem nenhum mapa ou dinheiro, ela decidiu dormir na porta de um estabelecimento barulhento, quando a acordou estava em uma cama de colchão macio, o quarto tinha um cheiro forte de perfume, as paredes tinham um papel de parede vermelho com detalhes em preto bem forte.

-Parece que você acordou.

A voz do estranho a despertou por completo, ela afastou as cobertas e se sentou na cama de pernas cruzadas, olhando para o homem de cabelos loiros e maquiagem, ele segurava uma cartola preta com uma flor azul.

-Quem... - Ela percebeu que sua voz era muito baixa e limpou a garganta. - Quem é o senhor?

-Fausto VIII e você minha pequena dorminhoca?

-Ma-marion Fauna.

Respondeu com o rosto corado. Aquele homem sorria e andava elegantemente, ele era humano?

-Marion, que lindo nome! - Ele disse sorrindo ainda mais e puxou uma cadeira a colocando em frente a cama e ali se sentou de pernas cruzadas, olhando para a menina. - Porque estava dormindo ali?

-Não tenho para onde ir.

-Por quê? - Ele parecia tão curioso quanto uma criança.

-Porque não quero ir para um internato.

-Seus pais? - Perguntou usando um tom que combinava mais com um adulto.

-Faleceram.

Era a primeira vez que ela usava essa palavra, era estranho, tudo era estranho, o lugar, aquele homem, não seria tudo um sonho? Mas aquela pessoa diante de si que não se parecia com seres humanos, ela sentia o coração bater acelerado e não era medo, não tinha receio algum por estar naquela casa.

"Não fale com estranhos" a maioria dos pais diria, mas os dela... não, eles nunca a ensinaram isso.

-Oh. - Ele murmurou surpreso.

Ela piscou seguidamente como se esperasse que ele completasse a frase com "Meus pêsames" ou "Eu sinto muito", passaram alguns segundos e ele voltou a sorrir. Ela riu baixo e ele a observava com curiosidade.

Ele não era humano. Não podia ser.

-Eu viveria naquela casa, pagando com a minha ajuda, eu acordava cedo e arrumava as camas, na cozinha eu ajudava a lavar a louça e a descascar alimentos, eu não faria limpezas pois uma criança é sempre uma criança, no resto do tempo eu ficaria num quarto pequeno e confortável e estudaria.

-Outro livro? - Ela perguntou assim que ele entrou no quarto com uma sacola.

-Para a minha querida, hoje é seu aniversário não é?

-É, mas é segredo lembra? Não quero ninguém me dando parabéns. - Ela disse emburrada

-E eu também não contei para ninguém, feliz aniversário de 15 anos.

-Você também não precisava. - Ela disse sem esconder o sorriso ao pegar a sacola e a abrindo rapidamente, ela folheou o livro e depois o fechou. - Muito obrigada, mas eu também preciso de roupas, estou cansada dessas usadas.

-Hn, você poderá comprar as suas.

-É mesmo? Como?

-Fazendo dinheiro. - Ele disse com um sorriso de lado.

-Eu não sei fazer mágica, não posso fabricar dinheiro. - Ela disse num tom divertido.

-Mas pode ganhar.

Ela estreitou os olhos e ele continuou, dando os detalhes e pela primeira vez explicando o que era aquela casa com muitos quartos, mulheres e tantas festas à noite. Marion não se surpreendeu em um dos livros que recebera falava sobre uma casa de prostituição, talvez Fausto estivesse tentando dar algumas pistas.

Só não havia percebido porque não quisera, ignorava tudo que via, ficava no quarto lendo à noite, pela manhã fazia todo o serviço, à tarde cuidava da cozinha e no final do dia saia para caminhar, ia até a cidade e contava as novidades para Fausto que vinha vê-la umas duas vezes por semanas, e também para cuidar dos negócios.

-Acordo é acordo Marion.

Ele disse andando pelo pequeno quarto, balançando o sobretudo branco e as botas altas estalando no chão de madeira, não era o mesmo homem que entrara naquele quarto. Essa era a figura de Fausto VIII um dos homens mais ricos daquela cidade esquecida pelo tempo.

-Eu não tenho 18 anos. - Disse abraçando o livro.

-Sei e por isso ainda está em minha guarda.

-Você quer que... eu trabalhe aqui?

-Você quer trabalhar aqui?

O silêncio respondeu a pergunta.

-Pense minha querida. - E com isso ele fechou a porta.

-O acordo significava que eu ficaria na guarda de Fausto VIII até que completasse 18 anos, com isso, sem dar lucro algum para ele eu teria que ir embora e viver por minha conta.

Era madrugada e o andar debaixo estava cheio de homens bêbados e fedidos a cigarro a música não era alta, mas ninguém prestava de fato atenção na vitrola. Marion estava na cozinha adiantando o trabalho, pois estava sem paciência para ler o novo livro. Uma mulher de cabelos compridos e tingidos em azul entrou na sala meio zonza.

-Marion? - Ela perguntou com a voz embriagada.

A loira se levantou do banco e foi até a porta ajudá-la, elas se sentaram na grande mesa de preparo, Kana segurava o cigarro acesso e olhava para o nada. Poderia dizer que aquela mulher era sua amiga, mas amigas são confidentes e isso não era o que definia a relação das duas.

-Fausto me chamou para trabalhar aqui. - Disse começando a conversa.

-E aí? - Ela não parecia interessada.

-Acho que vou aceitar.

-Você é burra.

-Mas assim eu terei dinheiro!

-Tudo bem, mas se você me disser que um cara me disser que um cara irá te buscar e vocês irão se casar eu vou rir na sua cara. Toda menina idiota cai nessa conversa, sabe o que aconteceu no final? Fausto não as quer mais aqui, elas se viram com a mixaria que tem e tentam sobreviver, vão para as estradas dar pra qualquer um.

A italiana engoliu em seco, não queria nunca sentir a ira de Fausto, mas sabia que se não aceitasse o trabalho ele também ficaria desapontado. Fora que ela queria o dinheiro, queria comprar roupas e alguns acessórios que via as pessoas usando, estava cansada de viver dentro de um quarto e só ler o tempo todo.

Kana era como uma mãe preguiçosa, não lhe dava a atenção necessária, mas ensinava o que era importante, principalmente para Marion que estava ali desde os nove anos de idade. Quando ficara menstruada pela primeira vez, fora Kana quem viera a seu socorro.

-Se eu ficar sem dinheiro, Fausto simplesmente me abandonará quando eu tiver 18 anos, e sem um centavo eu serei obrigada a fazer o mesmo que aquelas mulheres, ir para a estrada. Não quero viver assim.

-Volte para os seus parentes então.

-Não tenho. - Disse séria.

-Bobagem. - E soprou a fumaça.

-Eles não ligam, ninguém se importa.

-Ninguém se importa porque todos têm suas próprias preocupações, não precisam carregar a dos outros. Você é a única sortuda aqui, acha que todas vieram pra cá porque dormiram na porta? Todo mundo tem suas razões, por isso, ninguém vai se importar se você for embora.

-Então o que eu faço?

-Volte para a sua família, pare de perder seu tempo. – E antes que Marion retrucasse, ela continuou. – Estou te dizendo garota, isso aqui não vai continuar por muito tempo, Eu posso ver que Fausto tem outros planos.

-Que planos? – Ela perguntou curiosa, os olhos verdes brilhando.

-Pare de besteira, volte para sua casa. – Disse com raiva, sacudindo o cigarro, deixando que as cinzas caíssem no chão.

-Eu farei parte dos planos de Fausto, eu não ficarei nas ruas. – Disse engolindo as lágrimas e balançando o corpo para frente e para trás.

-Garota tola, você não faz idéia de como é horrível. – E soprou a fumaça olhando para o teto.

Marion encolheu os ombros, de fato estava sendo egoísta, mas que culpa tinha? O que ia fazer naquela altura do campeonato? Pegar o ônibus e bater na porta dos parentes que planejavam jogá-la num internato qualquer? Eles não estavam nem aí se ela estava viva ou morta.

Vou poupá-lo de como tudo aconteceu, mas a essa altura eu já trabalhava como as outras garotas, mas Fausto mexia na minha agenda, ele indicava quem ficaria comigo, e eu também ganha muito, eu não entendia direito o porquê, mas pagavam muito caro.

-Estou rica. – Disse rindo jogando um bolo de notas para o ar.

-Sorte a sua. – Murmurou uma baixinha de cabelos laranjas que estava sentada em frente ao espelho, passando rímel.

-O que você acha que eu posso fazer com esse dinheiro, hein Matilda? – Perguntou aparecendo atrás da garota.

A mulher estreitou os olhos com a aproximação de Marion, mas a italiana nem percebeu e passou a arrumar a franja loira que caia sobre os olhos.

-Você está em cima da luz, Marion, da o fora. – Disse girando a cadeira a empurrando.

-Porque você está tão estressada? – Perguntou sentando-se sobre a própria cama que tinha uma colcha de renda roxa importada da França, presente de Fausto quando completara 17 anos.

-Você é a única queridinha aqui! Veja isso! – E apontou para todas as caixas de maquiagem que estavam sobre a penteadeira.

-Eu divido com as minhas amigas. – Disse fazendo um bico. – Qual o problema?

-Arg! – E se levantou dando um chute na cadeira, Marion encolheu os ombros assustada.- Você é idiota? Acha que alguém aqui é sua amiga?

A italiana arregalou os olhos e Matilda riu da expressão de Marion, riu alto e jogou a cabeça para trás, uma perfeita bruxa de um conto de fadas.

-Não é... minha... amiga? – Perguntou com direito a pausas, pois ainda não acreditava no que ouvia. Quem acreditaria? Era uma criança que nada sabia da vida, uma criança que tentava se manter viva sem saber as regras, andando por um caminho que desenhavam para ela.

-Não! Ninguém é, pois você é a queridinha do Senhor Fausto, pois ele da tudo pra você! Pois você é a mais bonita, pois você tem o cabelo e os olhos mais bonitos. E os clientes que pagam melhor! Tudo pra você!!

-Não é verdade, não é verdade. – Disse colocando as mãos sobre os ouvidos e balançando a cabeça negativamente. – Eu não tinha nada, eu só ficava vendo, eu só ganhava presentes no meu aniversário.

-E eu que tinha que trabalhar no dia do meu aniversário!? Você acha que alguém se importa? Quando você chegou aqui sem dar dinheiro algum! Era apenas mais uma boca pra comer, um problema! E de repente você está ganhando mais do que todas e tem tudo! Todas de odeiam, Você deveria desaparecer!!

-Não!

Marion se levantou da cama e saiu correndo para fora da casa, o horário de "trabalho" ainda não havia começado, por isso todas estavam conversando em diversos cantos da casa ou simplesmente já se arrumando, ninguém ligou quando a loira passou pela porta da frente apressada, ninguém tentou impedi-la.

-É a mesma coisa. É a mesma coisa. Todas essas pessoas e eu me sinto sozinha! A Kana não liga a Matilda não liga, porque ninguém se importa!?

Ela parou de correr quando sentiu as pernas doendo, apesar de tudo não tinha muita condição física e sentia o peito chiar, aquilo estava a deixando doente, havia tanta coisa em sua mente.

De repente juntar tudo e pegar um ônibus não era errado.

Porque seria? Quem iria ligar se ela fosse embora?

-Marion.

Ela olhou pra trás, vendo a figura de Fausto que havia estacionado o carro e caminhava na direção dela, ela correu o abraçando fortemente, enterrando o rosto em seu peito e chorando.

-O que foi Marion?

-Todas... Todas são tão ruins... Eu não fiz nada... Porque me tratam desse jeito?... Eu tenho que ter menos direitos pra ser amiga delas...?

Ele sorriu tristemente e passou a acariciá-la, os dedos passando facilmente pelos longos cabelos loiros de Marion que iam quase até a cintura.

-Sabe querida, você gostaria de viajar?

-Viajar...? – Ela repetiu erguendo o rosto e encontrando o mesmo sorriso que estava sempre desenhado nos finos lábios daquele homem.

-Sim, para outro país.

-O senhor vai me levar!?

A alegria em sua voz e em seu rosto era evidente, era como se houvesse parado um holofote, Marion brilhava, se tornando muito mais encantadora e até mesmo mais bonita do que quando estava de fato maquiada, com os lábios pintados de vermelho ou preto, os olhos preenchidos de uma forte camada de preto, tanto em cima quanto embaixo.

Ela não precisava de nada disso. E ele sabia.

-Mas é somente a mim... Você não vai levar as outras...

-Não.

-Por quê?

-Eu direi se aceitar o meu convite.

Ela ficou algum tempo olhando para os próprios pés, os sapatos pretos de boneca que tanto gostara há anos atrás e que juntara dinheiro rapidamente para comprá-los.

-Eu aceito.

Nós não demoramos a partir, tudo foi rápido, eu não tinha muita bagagem apesar de gostar de comprar, eu deixei várias coisas para Kana e para Matilda, minhas roupas não davam nelas, então essas eu tive que levar comigo, mas coisas como maquiagem, prendedores de cabelo, meias, livros e enfeites ficaram.

Eu me encontraria pela primeira vez no Japão, quando ainda tinha 17 anos para fazer 18, Fausto me levou direto para a casa onde eu estava vivendo, daquela mesmo jeito que você conheceu, ela era exatamente igual.

-O que nós faremos aqui?

-Você viverá aqui. – Disse sentando-se no sofá, fazendo com que a loira fizesse o mesmo.

-E você?

-Estarei resolvendo algumas outras coisas, darei algum destino para aquelas meninas... Não posso continuar assim.

-O que quer dizer?

-Sabe Marion, você me perguntou por que eu te escolhi, não é? – Ela concordou lentamente com a cabeça. – Eu tinha uma irmã mais nova... ela... tinha os meus olhos que os seus. O mesmo brilho.

-Eu... me pareço com a sua irmã... – Disse tocando a própria face com a ponta dos dedos.

-É claro que eu gosto de você pelo que você é... mas a semelhança me atormenta um pouco, assim como eu não poderia deixá-la continuar na rua eu não poderia deixá-la vivendo naquela casa. Por isso você vai começar aqui, num país novo, com pessoas novas. O seu dinheiro todo está numa conta, eu já te expliquei como acessar, você poderá me ligar quando puder e sempre que der eu passarei aqui para visitá-la.

-Ele está... me abandonado, me largando nesse país... F-foi... por isso que eu tive aulas de língua estrangeira? Por isso que você comprava tantos livros para mim?

-Sim. E-eu tenho que resolver algumas coisas agora, por isso cuide-se, está bem? Tudo fica muito perto dessa casa, não tem como se perder.

Fausto saiu rapidamente da casa e Marion escorregou do sofá para o chão, passando as unhas pelo rosto com força, chegando a marcá-los, pois era muito branca, ela gritava e sacudia o corpo de um lado para o outro.

-Porque somente eu? Eu estou sozinha, eu estou sozinha. Eu tenho medo! Não me deixe aqui! Kana! Matilda! Fausto!!

Para uma criança, mesmo que vivendo sozinha, não era divertido, dormir era um problema e foi com isso que a loira passou a visitar o hospital, fazia algumas consultas e comprava remédios para se acalmar.

A casa era muito silenciosa, embora a rua não fosse, mas ela estava acostumada com a barulheira e a música alta, ela passava a maior parte do tempo deitada na cama, olhando para o teto, ou então na banheira com a água ligada, não se importando quando começava a escorrer pelo chão.

Viver era um tédio. E ela estava sozinha.

Numa sociedade rigorosa como o Japão, os vizinhos sabiam muito bem que a estrangeira não freqüentava o colégio ou trabalhava, eles não se sentiam bem com a presença dela na rua ou nas lojas.

Em uma noite qualquer, Marion voltava de uma farmácia com os remédios para dormir, andava cabisbaixa, Fausto lhe mandava uma boa mesada, mas ela não gastava mais o dinheiro com outras bobagens, sempre que via as lojas na cidade lembrava-se de Matilda e das outras, que nunca tinham o suficiente nem para elas.

-O que elas podem estar fazendo agora... ? Estarão todas na rua? – Se perguntou olhando para a lua que estava vermelha.

-Ei garota, eu pago 35,000 yens.

-Hn? – Ela se virou para o homem ligeiramente bêbado, com a gravata torta que sacudia uma carteira de couro.

-Está bem. – Disse dando de ombros.

Ele pareceu surpreso a principio e eles foram para a casa de Marion.

-;-

-Espera um pouco! – Hao a interrompeu pela primeira vez.

-O que?

-Você voltou a se prostituir por qual razão?

-Eu me sentia menos sozinha, tinha alguém naquela casa me fazendo companhia, os velhos falavam sobre filosofia e os garotos até aceitavam ficar para beber. – E deu de ombros.

-Marion...

-Então... Você ainda pode me dizer q—

Ela foi impedida, por Hao que num impulso a abraçou fortemente, ela sorriu sem jeito e retribuiu o abraço como conseguiu, pois ele impedia seus movimentos com os braços.

-Eu te amo, eu te amo, eu te amo, milhões de vezes, eu te amo.

Ela riu baixo chorando.

-Eu também te amo, Hao. - Sussurrou sorrindo ternamente, ele se afastou um pouco, escorregando os dedos pela face úmida da menina que mantinha o sorriso, ele aproximou o rosto lentamente, ela fechou os olhos devagar, sentindo a respiração quente dele batendo contra seus lábios, fazendo com que ela engolisse em seco e sentisse uma espécie de vazio no estômago, uma sensação estranha, mas ela de forma alguma se sentia mal, não era ruim, apenas desconhecida.

Seus lábios apenas se tocaram, escorregando um contra o outro, um toque simples e delicado, mas fazendo com que uma corrente elétrica percorresse o corpo de ambos, os fazendo arrepiarem-se, eles sorriram discretamente, as mãos de Hao tocaram a nuca da loira, trazendo-a para mais perto e assim selando seus lábios afoitamente.

Nada poderia ser comparada a sensação de ter o amor correspondido.

Ainda não acabou.