Capítulo I

Behind my douths

Um grande pensador do século XIX dizia que a morte só tem importância para o ser humano quando leva aqueles a quem amamos. Certas vezes, a perda deixa marcas tão profundas que são capazes de nos fazer sentir como mortos também. Ou nos infringe mudanças tão bruscas que nos tornamos incapazes de reconhecer o que, um dia, já fomos.

Ele era brilhante. Inteligente, estudioso, empenhado, seria grande e poderoso. Eu, sempre mediano, sempre à sombra do grande bruxo que ele, aos poucos, tornava-se. Eu era apenas o garoto coberto de cicatrizes, fraco e doente, que ele acolhera e tomara para si. Não me importava. O que queria mesmo era compartilhar da companhia dele, do toque delicado de suas mãos, do profundo azul de seus pequenos olhos, do cheiro doce e suave que emanava de seus longos cabelos ruivos, quase sempre soltos displicentemente, no máximo presos por um rabo de cavalo na altura da nuca. Eu precisava dele tanto quanto qualquer ser vivo precisa de ar para respirar.

Eu amava Albus Dumbledore.

Acredito que levarei esse amor comigo para o túmulo. Porém, errei ao julgar que ele seria eterno. Errei ao abandonar Albus no momento em que mais precisou de mim. Fui tolo, julgando que me receberia de braços abertos quando retornasse cheio de novidades sobre a viagem que planejamos e a qual ele não pôde fazer ao meu lado. As responsabilidades com a família fizeram com que Albus amadurecesse depressa. Aos 18 anos eu era apenas um menino, interessado nas maravilhas do mundo e no quanto ele era vasto e imenso. Não podia me prender. Não perderia a oportunidade de conhecer as maravilhas que me aguardavam lá fora. Era como um passarinho que precisava voar. Albus não me pediu para ficar, embora eu soubesse que ele assim o desejava quando me abraçou na despedida. Eu, tolo, deslumbrado, achava que haveria tempo. Achava que voltaríamos a ser um só. Mal sabia que, quando eu retornasse, Albus já estaria completo. E eu o veria, em silêncio, tornando-se um só nos braços de outro.

Minha viagem estava quase no fim. Encontrava-me num museu antigo localizado no interior do Ministério da Magia francês quando recebi a coruja com a triste notícia. Fixei os olhos no pedaço de pergaminho, a letra tão conhecida, a tinta manchada em vários pontos por marcas que eu supus serem lágrimas. Albus precisava de mim novamente. Ariana havia partido.

Desta vez eu não falharia. Voltei para a Inglaterra naquela mesma noite, aparatando do saguão do hotel bruxo diretamente para Godric's Hollow. Naquela época era comum realizar funerais em casa, e depois seguir o longo cortejo até o cemitério do povoado, no alto de uma colina e ligeiramente afastado das casas. Os poucos moradores de Godric's Hollow costumavam fofocar muito sobre os Dumbledore desde que haviam se mudado para lá após a prisão perpétua de Percival em Azkaban, em 1890, condenado pelo Ministério da Magia por torturar e assassinar um grupo de trouxas. Por serem bastante discretos e evitarem o envolvimento com os vizinhos, a família de Albus era tachada de puro-sangue preconceituosa. Muitos acreditavam que eles eram aliados às artes das trevas.

Uma das poucas pessoas do povoado que mantinha uma amizade sincera, embora discreta, com os Dumbledore era Bathilda Bagshot. Naquela época a historiadora era ainda relativamente jovem, mas já famosa. Foi ela quem ajudou Albus e seu irmão Aberforth em todos os momentos desde a partida de Kendra. Baixa, bastante magra e com a pele macilenta de quem há muito não vê a luz do sol, Bathilda foi a primeira pessoa que encontrei ao entrar na grande e fria casa procurando por Albus.

- Elphias, meu querido rapaz! Como está moço, e bastante elegante também – ela falou, enquanto eu lhe segurava a mão e levava até meus lábios, num cumprimento valorizado por ela. – Pena que as circunstâncias de nosso encontro não sejam as mais agradáveis.

Assenti com pesar, e corri os olhos pela sala a procura de Albus. Mesmo com a má fama dos Dumbledore, o aposento no qual se realizava o velório estava cheio de curiosos. Franzi o cenho diante dos grupinhos de mulheres que cochichavam encostadas às paredes, cobertas por véus negros de seda fina, aproveitando-se dos canapés e coquetéis dispostos na mesa. Bathilda continuava falando qualquer coisa que eu já não era mais capaz de escutar, algo sobre o destino trágico dos Dumbledore ou qualquer coisa do gênero. Meus ouvidos eram invadidos pelos sons dos cochichos multiplicados por dez, e aquilo me deixava absolutamente irritado. Como aquela gente ousava permanecer ali, aproveitando-se da situação de dor e desespero do meu Albus?

Foi então que eu o vi. Estava sentado ao lado do caixão de madeira escura, que flutuava magicamente sem qualquer apoio. Ao fundo havia uma cortina vermelha e candelabros dourados que sustentavam velas brancas, acesas mesmo durante o dia. Ao lado do caixão, uma foto de Ariana ainda em vida, num de seus raros momentos de calma, sorria de maneira tímida e levava as mãos de tempos em tempos aos longos cabelos acaju. Da jovem verdadeira só conseguia divisar, ao longe, os mesmos longos cabelos que escapavam dos limites do caixão, enfeitados com flores-do-campo brancas.

Pedi licença a Bathilda e me aproximei vagarosamente, abrindo caminho por entre os curiosos. À medida que caminhava o barulho da casa era suprimido, fazendo com que eu só ouvisse as batidas do coração de Albus, guiando-me até ele. Era quase como se eu pudesse ouvi-lo gritar, implorar para que tudo aquilo fosse mentira, para que ele acordasse daquele maldito pesadelo e recuperasse a vida feliz e brilhante que sonhou para si enquanto estávamos em Hogwarts. Ao me aproximar o suficiente, vi seu rosto contorcido de dor, a cabeça baixa apoiada nas mãos, os cabelos cobrindo os olhos azuis nos quais eu tanto gostava de mergulhar. A cena só provava o que eu já era capaz de sentir em meu peito: Albus enfrentava uma agonia profunda, e um sentimento de impotência diante da fatalidade da morte.

- Al... – disse eu, agachando-me ao lado dele e o obrigando a pousar os olhos em mim. Senti o chão se abrir sob meus pés quando ele o fez, mas rapidamente desviou o olhar, levantando a cabeça para contemplar o vazio.

– Eu sinto muito, Al... Vim o mais rápido que pude.

- Obrigado, Dodgy – ele disse, meio disperso, e se levantou em seguida para permanecer prostrado ao lado do caixão.

Também levantei, seguindo seus gestos quase como se houvesse nele um ímã capaz de atrair somente a mim. Observei suas mãos apertarem a borda do caixão, os nós dos dedos esbranquiçados pela força. Deixei que minha visão saísse dele e pousasse sobre a jovem Ariana. Observando-a deitada ali, de olhos fechados e os cabelos lhe servindo de moldura para o belo e pálido rosto, não pude deixar de sentir um desconforto no estômago: a figura era incrivelmente parecida com Albus. A jovem tinha apenas 14 anos, meu Deus! Talvez pudesse ter se tornado uma bruxa brilhante, uma mulher atraente que seria feliz e perpetuaria o nome da família. Porém, Ariana teve uma vida eternamente marcada por conta do brutal ataque dos trouxas em sua infância, coisa que poucas pessoas sabiam. Tratava-se de um segredo de família, que Albus dividira comigo no início de nosso relacionamento. Coisas demais eram secretas na vida do brilhante Albus. Eu era uma delas.

- Queria entrar em seu coração e arrancar dele toda a dor – disse, aproximando-me do ouvido de Albus enquanto ele permanecia com o olhar perdido em um ponto qualquer, distante da tragédia que se abatia sobre sua família. Não sei exatamente por que falei tal coisa naquele momento. Talvez por pensar que, se ele se sentisse amado de verdade, aquela dor imensa sairia dos olhos dele. – Se dependesse de mim e do meu amor, você sabe que eu não me importaria com nenhuma convenção social. Eu gritaria aos quatro ventos que o amo. Duvida?

Estufei o peito, pronto para declarar ao mundo o meu amor. Porém, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, senti o toque frio como gelo da mão de Albus sobre a minha. Então, os olhos antes desfocados pousaram sobre meu rosto, e pude ver que estavam secos, sem nenhuma lágrima. Carregavam uma expressão carinhosa, porém determinada quando ele falou num tom de voz baixo:

- Não o faça.

- Por quê? – perguntei, e notei o quanto a minha voz parecia suplicante.

- Porque será em vão. Eu estou morto, não vê?

Uma sombra negra passou por detrás do azul e meu coração quase parou entre uma batida e outra. Assustado, dei dois passos para trás e continuei observando o homem parado a minha frente, aquele a quem eu amava intensamente desde que nos encontramos pela primeira vez. O que haviam feito com Albus? O que aconteceu enquanto estive fora?

Não consegui enxergar de imediato o erro que havia cometido com a única pessoa que amava de verdade na vida, a única que me deu a chance de me sentir feliz apenas por ser eu mesmo. Mas algo dentro de mim dizia que eu o havia perdido, embora meu coração não quisesse aceitar. Desesperado com aquelas palavras, agarrei seu pulso com força e perguntei entre os dentes para nos poupar de olhares inconvenientes:

- O que foi que aconteceu com você, Al?

Albus deu de ombros e me olhou com tristeza. Era uma dor crua, em sua mais pura e miserável forma, a dor que apenas alguém que tem seus sonhos esmigalhados pode sentir. Mas ele tentou esconder, tentou fazer disso mais um segredo, trancar mais uma porta para que eu não pudesse entrar.

- Esqueça, Dodgy... Estou contente que tenha vindo. O quarto de hóspedes está arrumado, pode passar a noite aqui. Aberforth não irá se importar. Agora, se me dá licença...

Com um trejeito e um leve aceno de cabeça, Albus se afastou, a comprida capa negra que usava em respeito ao luto pela irmã arrastando levemente sobre o chão de madeira brilhante da casa. Permaneci parado ao lado do caixão de Ariana, tentando colocar as idéias no lugar. Observei os contornos delicados da jovem, e quase poderia jurar que ela estava apenas adormecida, que tudo aquilo não passava de uma brincadeira de extremo mau gosto. Enquanto tentava entender o comportamento de Albus, meu coração implorava para que eu o seguisse e, ao me dar conta do que fazia, meus pés me levaram até uma porta no fim de um extenso corredor, um pouco afastada do aposento onde ocorria o velório. Por detrás da madeira escura, por uma fresta entreaberta, ouvi a voz dele. Precipitei-me para a maçaneta de ferro e entraria naquele momento se não ouvisse também a voz de Aberforth, num tom que tentava, sem sucesso, ser baixo. Parecia carregado de mágoa quando me encostei ao batente da porta para ouvir melhor:

- Eu não sairei desta sala, Albus! Não quero ver Ariana, a minha Ariana, deitada naquele caixão! – pela fresta, conseguia visualizar Aberforth entrar e sair de cena, caminhando com passos duros pela sala e torcendo nervosamente os dedos das mãos. – Você não se importa, nunca se importou, mas eu sim! Eu cuidei dela, eu a amava, Albus! Algum dia você entenderá o valor dessa palavra? Acho que sua maldita ambição te deixou cego para a sua própria família, seu desejo por glória e poder e aquele maldito Grindelwald te enlouqueceram!

- Não fale esse nome! NÃO FALE!

Pela fresta da porta, era possível ver a mão de Albus, a varinha em riste bem próxima ao peito de Aberforth. Eu sabia que os irmãos não eram grandes amigos, mas chegar àquele ponto? Albus era sempre centrado, preteria brigas em favor das conversas inteligentes e cheias de argumentos palpáveis. Raramente se irritava. Assustado, recuei alguns passos, mas a curiosidade era grande e, aos poucos, voltei a me encolher próximo à fresta. E uma dúvida martelou em minha mente: quem era Grindelwald?

- Por que, Albus? – continuou o mais novo de uma maneira que eu jamais o havia visto falar. – Será porque você levará para sempre a dúvida de quem matou Ariana? Porque eu levarei, mas sei que isso não importa para você. Não tanto quanto a sua glória, o seu poder, os seus malditos Hallows!

Engoli em seco. Ariana foi morta? Afinal, o que havia acontecido? Não havia sido um acidente, uma queda da escada, como Albus me contara por correio-coruja? E o que eram aqueles Hallows citados por Aberforth? Sem querer perder um só minuto da discussão, concentrei-me novamente nas palavras dos dois homens no interior da sala.

- Você não tem o direito de dizer que não me importo! Sempre cuidei de vocês, me comprometi a fazer isso quando mamãe se foi. E eu o fiz!

- Largá-la sozinha enquanto discute planos para dominar o mundo com Grindelwald? Ou enquanto está aos beijos com ele? – senti meu pulso acelerar e o coração começou a bater incomodamente mais rápido, como se quisesse explodir minhas costelas e sair dali. Aberforth continuava, descontrolado, mas eu não podia mais enxergá-los porque haviam se afastado do meu campo de visão por entre a fresta da porta. – Acorde, Albus, eu não sou cego! Posso não ser admirado e premiado pela minha inteligência, como o senhor perfeito aqui, mas não sou burro. Sei que você se apaixonou por ele!

O som de vidro quebrado ecoou pelo aposento e, embora estivesse absolutamente chocado com o que acabara de ouvir, empurrei a porta e pude ver os irmãos brigando, ambos caídos sobre uma mesa de tampo de vidro rachada ao meio, as varinhas longe do alcance das mãos. Albus e Aberforth trocavam socos e pontapés, tentando atingir as partes mais frágeis dos corpos de cada um, numa ânsia insana em provocar dor. Corri até Albus e o puxei, de forma a fazer com que saísse de cima de Aberforth e interrompesse aquela briga estúpida. Afinal, eles eram dois adultos, por Merlin!

- Albus, pare! É seu irmão! – eu falava em voz alta, tentando acalmá-lo enquanto olhava seu rosto vermelho, em fúria, a respiração ofegante. – É tudo o que resta da sua família!

Segurei-lhe os braços enquanto Aberforth o encarava, levantando-se e enxugando o sangue que escorria de seus lábios. Seu supercílio também estava aberto, e havia machucados no cotovelo por conta da mesa de vidro quebrada. Numa análise rápida, Albus me pareceu bem. Observei os movimentos do mais novo e julguei que ele caminhava para fora da sala. Porém, ele se virou num gesto extremamente rápido e acertou o rosto do mais velho com uma força que eu não julgava que possuísse. Assustado, segurei Albus pelos ombros para impedir que ele caísse. Involuntariamente, ele levou ambas as mãos ao nariz, do qual o sangue escorria aos borbotões, gotas grossas e escuras pingando no carpete caro.

- Aberforth! Você enlouqueceu? – perguntei enquanto ele abandonava a sala. O nariz de Albus estava coberto de sangue, num ângulo estranho que fatalmente denunciava um osso quebrado.

- Não seja estúpido, Doge! – Aberforth se virou para me encarar, e percebi o quanto ele parecia abalado com tudo o que havia acontecido. Olhei para meus braços em volta de Albus e percebi que tremiam sem que eu pudesse contê-los. – Você trata o meu irmão como se raios de sol escapassem por cada um de seus orifícios, como se ele fosse um ser luminoso e cheio de bondade. Pois eu o aconselharia a perguntar a ele como Ariana morreu. Pergunte e veja se ele continuará sendo o santo perfeito que você imagina.

E ao dizer isso, abandonou o aposento. Eu apenas abracei Albus e passei a mão por seus cabelos, sem coragem para dizer mais nada além do feitiço que lhe estancou o sangue do nariz, mas que era incapaz de conter a hemorragia que se instalava em seu coração.