Disclaimer: Inuyasha é propriedade de Rumiko-sensei. Faço este fic sem fins lucrativos, apenas por diversão.

Missin' Melody

Capítulo Um: Aulas de Piano

Presente de Amigo Secreto para Juliane.chan

Revisado por Palas Lis

O tempo estava ótimo para uma caminhada naquela manhã. O sol de primavera ainda não estava tão forte e os ventos sopravam levemente os galhos das grandes árvores de cerejeira dos parques de Tokyo. Talvez fosse ainda melhor se a caminhada fosse em uma praia, sem maiores preocupações ou nem trabalho, apenas para relaxar, mas as coisas infelizmente não eram bem assim.

A manhã era de domingo e estava voltando do trabalho no momento. Tivera que passar a noite toda no hospital na companhia de uma jovem paciente que estava com pneumonia. Por vezes, isso acontecia. Pelo menos a garota estava melhor. Sim, uma garota de dez anos apenas. Fazia algum tempo que trabalhava como enfermeira no hospital central de Tokyo. Era bem grande e atendia a um largo número de pessoas. Atuava especialmente na ala de pediatria, como enfermeira.

Não tinha necessariamente do que reclamar. Gostava de cuidar de crianças e, às vezes, elas eram bem mais resistentes do que os adultos. Quando sabia o jeito certo de tratá-las, poderiam aceitar a ajuda bem mais rápido também. Também não podia negar que era um trabalho cansativo, e principalmente porque trabalhava mais no horário da noite. Portanto, naquele momento queria apenas chegar até sua casa e deitar em sua cama para dormir pelo menos até a hora do almoço.

Depois de andar mais uns cinco minutos da estação de metrô, parou diante de uma pequena loja de instrumentos musicais de primeiro andar. Além da vitrine, dava pra ver alguns poucos instrumentos clássicos que estavam em exibição ali. A porta ficava bem ao lado da vitrine e estava no momento fechada e trancada à chave. As coisas lá dentro estavam bem calmas também, como era visível através da vidraça.

Ela olhou sua aparência parcialmente refletida no vidro e viu que realmente precisava de um descanso. Seus bonitos olhos castanhos claros estavam rodeados por profundas marcas escuras acentuadas sobre a pele clara. Os cabelos negros estavam presos num rabo-de-cavalo baixo. Eram tão longos que certamente ela achara difícil amarrá-los num coque. A franja era cortada em duas camadas diferentes e no momento caíam desleixadamente sobre seus olhos.

Ela evitou que um suspiro escapasse de seus lábios e buscou a bolsa para encontrar a chave do local. Depois de uns minutos, estava abrindo a porta da pequena loja e entrando, voltando a fechá-la depois disso.

Olhou ao redor ao entrar. O lugar estava pouco iluminado pela luz do sol que ultrapassava as vidraças, mas era o suficiente para ver como estava em perfeito estado. Alguém estivera arrumando aquele lugar pouco tempo atrás.

A mulher deixou que um pequeno sorriso escapasse de seus lábios e então, andou até o fundo da loja. Passou pelo balcão do vendedor e entrou por uma porta que ficava bem no canto esquerdo da parede. Andou por um estreito corredor e subiu as escadas que levavam até o primeiro andar. Ao chegar lá em cima, deixou a bolsa e um casaco que vinha carregando nos braços sobre uma mesinha no canto do novo corredor.

Andou até um portal que sabia dar para a cozinha e não se impressionou ao ver um homem ali, virado para a pia, com o que parecia ser uma chaleira em mãos. Ele estava um tanto quanto curvado e dava pra ver apenas os ralos cabelos grisalhos penteados cuidadosamente para trás.

– Otou-san, sabia que hoje é um dia de domingo? – ela perguntou, encostada à batente da porta, ainda observando o senhor.

– Ah, Izayoi… não percebi que tinha chegado. – o senhor se virou para encarar a mulher com os pequenos olhos escuros parcialmente abertos. A aparência dele realmente não mostrava a sua idade, parecia mais velho do que realmente era, tinha um semblante cansado de quem já tinha visto muita coisa durante a vida. – Sente-se, acabei de preparar um chá.

– O senhor não devia se esforçar tanto. – ela disse, seguindo até uma das mesas e bocejando discretamente.

– Talvez isso seja uma coisa de família. – o senhor respondeu no mesmo tom calmo de voz. – E eu não estou tão velho assim. Ainda tenho muito tempo de vida até que você se case.

– Não fale essas coisas, otou-san. – a mulher sorriu, aceitando o chá que ele lhe servia.

– E como foi o trabalho? – ele sentou-se, tentando começar uma conversa com a filha.

– Uma paciente da minha ala ficou muito mal essa noite. Está com pneumonia. – Izayoi respondeu, levando a xícara até os lábios. – Ela não dormiu direito a noite toda. Só conseguiu melhorar agora cedo. Por isso demorei tanto.

– Entendo.

– E o senhor, esteve limpando a loja enquanto eu não chegava, não foi? – ela o olhou acusadora. – Já disse que eu posso fazer isso, e hoje é domingo, não precisava ter se importado.

– Iza, você tem o seu trabalho, não precisa se importar mesmo com a loja. Eu cuido dela como sempre fiz todos esses anos. – o senhor retrucou. – Agora, você deve ir descansar. Passou a noite inteira acordada e ontem também não dormiu direito.

– Mas a loja…

– Pra cama, Matsumoto Izayoi, agora. – o senhor disse, num tom que parecia bem autoritário.

– Hai, hai. – ela finalmente concordou.

– Boa menina. – seu pai respondeu, agora com um sorriso simples no rosto. – Durma bem.

Izayoi apenas acenou com a cabeça e seguiu para fora da cozinha. Passou pela sala de estar e logo adentrou um pequeno corredor com três portas. Entrou na primeira delas e se deparou com um quarto pouco espaçoso. Tinha uma cama de solteiro encostada à parede no lado esquerdo e do lado direito havia uma escrivaninha e um guarda-roupa. Havia também uma janela que ficava bem na parede contrária à da porta. Antes de qualquer coisa, ela andou até o guarda-roupa, descalçando os sapatos com os próprios pés e deixando-os largados no meio do quarto. Pegou uma toalha e saiu, indo até a segunda porta do corredor.

Demorou-se pelo menos uns dez minutos no banho e então, saiu indo direto pra o quarto. Vestiu-se rapidamente com um vestido leve e andou até a cama. Fechou as janelas para deixar o quarto escuro e em poucos minutos havia adormecido.

Assim como tinha imaginado, só acordou por volta da hora do almoço, e seu pai ainda precisara chamá-la. Precisou levantar completamente a contragosto. E quando chegou à cozinha, a comida estava preparada também com mesa posta.

– Eu queria saber cozinhar melhor que o senhor. – Izayoi brincou, assim que se sentou à mesa. Seu pai tinha virado um especialista na cozinha desde a morte de sua mãe.

– Como se já não soubesse. – o homem terminou de colocar a comida na mesa e sentou-se também.

Eles almoçaram tranqüilamente, conversando sobre alguns assuntos fúteis enquanto isso. Fazia alguns dias que homem da casa parecia um tanto quanto preocupado com alguma coisa. Claro que ela não sabia o que era e, se perguntasse, ele não lhe responderia. Mesmo com seus vinte e sete anos continuava a morar com o seu único parente vivo, cuidando mais dele do que de si mesma. Nem conseguia se lembrar a última vez que saíra para um encontro, tão preocupada ficava com a saúde do pai e com o sustento dos dois e daquela loja de instrumentos musicais.

Quando terminaram o almoço, ela precisou praticamente expulsar o pai da cozinha para que ele fosse descansar e ela cuidasse de todo o resto, lavar os pratos e organizar a casa. Sorriu consigo mesma diante das ações preocupadas dele enquanto lavava a louça. Não se arrependia nem um dia de ter ficado com ele até o momento. Quando finalmente terminou o serviço, andou direto até o pequeno corredor que dava nas escadas. Desceu-as rapidamente e logo estava na loja de instrumentos mais uma vez.

Ela passou pelo balcão e percorreu os olhos pela sala, detendo-os num instrumento em particular que tomava grande parte da pequena loja. Sorriu e andou até lá. O piano de cauda parecia muito novo, quase brilhava, principalmente por conta de todo o cuidado que ela e o pai tinham com ele. Era certamente um dos instrumentos mais preciosos que tinham, especialmente por seu valor sentimental.

Sentou-se no pequeno banco e fitou as teclas por um segundo. Mais um pouco e deixou que seus dedos começassem a tocar as notas habilmente. A melodia era suave e invadia todo o ambiente. Ela fechou os olhos e deixou que seus dedos continuassem a produzir a mesma melodia harmoniosa. Seus olhos fecharam e ela se concentrou ainda mais na música. Fazia tanto tempo que não parava para tocar piano. Estava sempre tão ocupada com o trabalho ou cansada dele que ficava difícil.

Por vários minutos seguintes ela apenas continuou a tocar, sem se preocupar com qualquer coisa que pudesse acontecer ao seu redor. Não percebeu realmente quanto tempo tinha se passado ao terminar a melodia, apenas abriu os olhos e repousou os dedos sobre o teclado do piano, sem produzir som algum. Teria ficado observando-os, caso um som peculiar não tivesse lhe chamado a atenção.

Quando virou o rosto para o balcão, seu pai estava batendo palmas.

– Você continua ótima, como sempre. – ele fez questão de comentar, apoiando-se no balcão.

– Achei que estava mais enferrujada. – ela disse, abaixando a proteção do teclado e se virando para o pai, ainda sentada. – E também achei que o senhor estava descansando.

– Eu não preciso descansar. – ele disse, tossindo levemente. – Vou ter tempo suficiente quando morrer.

– Não fale desse jeito, otou-san. – Izayoi o repreendeu, não recebendo nada mais que um sorriso como resposta. – É melhor voltarmos lá pra cima. Já disse que não é pra ficar subindo e descendo essas escadas toda hora.

– Não, toque mais alguma coisa. – ele pediu, antes mesmo que ela pudesse se levantar. – Estava bom escutar o piano de novo. Faz tempo que ele está parado.

– Certo, então.

Novamente ela se posicionou e depois de levantar a proteção, tocou as melodias que sempre estavam vivas em sua memória. Sequer precisava de qualquer tipo de partitura, nem mesmo para aquelas mais difíceis que aprendera com sua mãe muito tempo atrás.

Durante o resto da tarde, os dois apenas ficaram conversando na loja e tocando outras músicas conhecidas. Só quando escureceu eles voltaram a subir para preparar o jantar e dormir mais tarde. O senhor Matsumoto ainda foi dormir mais cedo do que Izayoi que ficou assistindo televisão enquanto olhava as cartas que estavam empilhadas sobre a mesinha de centro desde a sexta-feira.

Passou as cobranças da conta de luz e telefone, poderia dar conta delas rapidamente quando recebesse ainda naquela semana, mas seus olhos se detiveram numa terceira cobrança. Pelo visto, o aluguel da casa estava atrasado há dois meses, e aquilo era um pequeno grande problema. Se deixasse passar mais um mês, com certeza receberiam um aviso de despejo. Sabia que a única conta que ficava sob a responsabilidade do pai era aquela, pagar o aluguel. Contudo, com as parcelas atrasadas, talvez as coisas se complicassem ainda mais.

Aquilo era uma bela prova de que as coisas na loja de instrumentos não estavam indo nada bem. Ela suspirou pesadamente com a conta em mãos. Não fazia idéia de como fazer para cobrir aqueles gastos. Pelo visto seria bom dobrar as horas extras que fazia no hospital ou então começar a trabalhar fixo durante a noite também, mesmo sabendo que ainda assim não ganharia o suficiente.

Ficou rolando de um lado a outro na cama, tentando achar alguma solução viável para os problemas financeiros, mas não conseguia pensar em nada. Acabou adormecendo sem nenhuma solução em mente, e também não queria comentar aquilo com seu pai, sabia que ele provavelmente estivera fazendo o melhor para tentar esconder aquilo dela e dar um jeito sozinho. O melhor a fazer era achar a solução antes de comentar com ele.

Daquela vez, ela acordou depois de um longo sono, com o som do despertador bem ao seu lado. Ainda eram seis da manhã, mas devia começar a se arrumar para chegar ao hospital pelo menos antes das 7h30min. Arrumou-se o mais rápido que conseguiu e preparou um desjejum rápido. Apenas quando pegou a bolsa e as chaves de casa, percebeu que seu pai tinha acordado.

– Ah, ohayou, otou-san. – ela o cumprimentou, andando até ele rapidamente. – Bom, eu tenho que me apressar, talvez eu chegue um pouco mais tarde hoje, depende de como as coisas lá no hospital estão. Vejo o senhor depois.

– Bom trabalho, Iza. – ele desejou, quando a mulher depositou-lhe um beijo na bochecha direita e correu até as escadas, para sair de casa.

Quando olhou o relógio, eram quase sete horas. Devia se apressar até a estação de metrô para não perder o horário. Quando finalmente chegou à plataforma de embarque, depois de passos realmente apressados, o seu metrô estava quase indo embora. Conseguiu embarcar por sorte, ou só teria o próximo meia hora depois.

Estava mais aliviada, segurando-se a uma das barras de ferro, sem nenhum lugar livre para se sentar. Não havia muitas pessoas de pé, e não demorou a escutar uma conhecida voz chamando por seu nome.

– Iza!

Ela virou o rosto para encarar uma mulher que estava sentada a alguns passos de distância de onde ela estava. A mulher tinha cabelos castanhos escuros, amarrados cuidadosamente num coque baixo, seus olhos eram da mesma cor dos cabelos. Vestia uma saia social que ia até os joelhos, sapatos sociais, uma camisa branca de botões e um blazer por cima. Ela segurava uma pasta sobre suas pernas e olhava sorridente para Izayoi.

– Ah, ohayo, Amano. – Izayoi andou alguns passos até ficar de frente para a mulher. – Como vai você?

– Estou muito bem. – a mulher respondeu. – Faz tempo que não falo com você. Como andam as coisas? Tudo bem com seu pai?

– Sim, ele é teimoso, mas acho que está tudo bem. – Izayoi disse, quase forçando um sorriso ao lembrar-se das contas.

– Tem certeza? – Amano perguntou, notando o sorriso forçado da mulher. – Não está com uma cara assim tão feliz.

– Mesmo? – Izayoi perguntou, tentando se safar das questões dela. – Acho que tem razão.

– Tem alguma coisa que não me contou? – a mulher que estava sentada perguntou, prestando atenção nas expressões da amiga. – Olha que eu te conheço desde a faculdade, hein!

– É, você me conhece. – Izayoi confirmou, sentindo o metrô começar a parar e algumas pessoas se levantaram para descer. Ela aproveitou e sentou ao lado da amiga, descansando as pernas finalmente.

– Então, qual a preocupação?

– Contas. – Izayoi respondeu, virando o rosto para encarar a amiga. – Elas são a preocupação de todo mundo. Acabei de descobrir que estamos com o aluguel atrasado há dois meses.

– Nossa, isso é ruim. – Amano comentou, percebendo que a preocupação era realmente bem grande.

– Vou ver se arrumo mais horas extras no hospital. – Izayoi disse, vagamente. – Eu acabo dando um jeito.

– Bom, eu espero que sim. – a outra mulher sorriu, encorajadora, percebendo que o metrô ia fazer mais uma parada. – É minha hora de descer agora. Vamos marcar um dia para sair por aí.

– Certo, eu ligo pra você depois. – Izayoi concordou, seguindo-a com os olhos.

Elas apenas trocaram acenos até que Amano desceu do metrô, deixando Izayoi para esperar mais uns dez minutos até a sua parada. Ia ser mais um dia apenas na sua rotina, como sempre.

Quando chegou ao hospital, seguiu direto até o quarto da jovem garota que estava com pneumonia no dia anterior, confirmando a melhora dela. Trabalhou o resto do dia até o final da tarde, como era costume, mas não conseguiu pensar em nada que pudesse dar uma solução definitiva aos seus problemas financeiros.

O resto da semana não foi muito diferente. Era quinta-feira e nem tinha conseguido comentar aquilo com seu pai, do mesmo jeito que ele parecia não querer contar nada a ela. Tinha chegado do trabalho há pouco tempo e estava sentada assistindo televisão, enquanto seu pai terminava de fechar a loja de instrumentos, quando ouviu o telefone tocar na mesinha perto da parede.

– Alô? – ela atendeu ao segundo toque.

Iza? Aqui é a Amano… – ouviu a conhecida voz feminina do outro lado da linha.

– Ah, tudo bem com você? – Izayoi sorriu ao reconhecer a voz.

Tudo ótimo, e você? Já conseguiu resolver os problemas? – Amano falava num tom um pouco animado para quem devia estar preocupada com a situação da amiga.

– Ainda não, mas vou achar um jeito.

Você ainda toca piano, não é? Eu lembro que tocava muito bem quando estávamos na faculdade, ou será que já esqueceu?

– Eu toco… – Izayoi respondeu, um tanto confusa com a pergunta súbita da mulher, afinal o que o piano tinha a ver com a conversa anterior delas? – Por que está perguntando?

Porque eu acabei de resolver seus problemas. Você vai dar aulas de piano, então, vai dar pra pagar o aluguel rapidinho! – Amano respondeu, animada com a idéia.

Izayoi não conseguiu se conter e soltou uma pequena risada.

– Amano, de onde você tirou essa idéia? – ela perguntou, curiosa. – Eu não vou dar aulas de piano, mulher.

Ah, você vai, sim. E fique preparada porque Myouga-sama vai aí para ver se você é adequada para ser a nova professora de piano dos Taisho. – Amano falou, confundindo completamente a cabeça de Izayoi.

– Do que você está falando? Professora de piano? De onde tirou isso? – ela tornou a perguntar, deixando que a risada sumisse.

Esses dias eu escutei que o meu chefe está procurando por um professor de piano para dar aulas particulares ao filho dele. Daí eu lembrei que você tocava piano, e muito bem. Acredite, ele é bem rico e pode pagar hora-aula pra você muito bem. Isso vai ajudar para poder pagar o aluguel. Eu já indiquei você ao assistente pessoal dele, Myouga-sama, e até dei o endereço. Ele disse que amanhã de tarde deve estar passando por aí para falar com você. Então, esteja em casa e esteja preparada. – Amano falou tudo em uma velocidade que por pouco Izayoi não deixara todo o fio da conversa escapar.

– Amano, você é maluca. – foi a única coisa que Izayoi conseguiu dizer naquele minuto. – Que idéia é essa de dar aulas de piano? Eu não sou uma professora de piano!

A partir de agora é. – a outra insistiu. – Sua mãe era professora de piano e você aprendeu tudo antes mesmo de começar a andar, então isso vai ser moleza. Não reclame e apenas aceite o trabalho, eu sei que vai ajudar.

– Mas…

Eu posso ligar para Myouga-sama e confirmar o encontro amanhã?

Izayoi parou pensativa por um tempo. Realmente a possibilidade de ser professora particular de piano não era uma coisa que tivesse passado pela sua cabeça durante toda a sua vida, mas, naquele momento, parecia até uma opção bem viável.

Iza? Você ainda 'tá aí? Responde, mulher! – Amano falou, depois dos minutos de silêncio por parte da amiga.

– Estou, estou. – ela respondeu rapidamente, saindo de seu transe temporário.

E então, vai aceitar o trabalho?

– Certo. – Izayoi finalmente concordou, nem pensando duas vezes no assunto, era como se a resposta tivesse saído completamente automática.

Que ótimo! Vou confirmar com Myouga-sama. Pode esperar preparada amanhã. Já tenho a solução dos seus problemas.

– Obrigada. – foi a única coisa que ela conseguiu pronunciar no momento. Se aquela idéia maluca desse certo, seria ótimo poder ganhar dinheiro fazendo mais uma das coisas que mais gostava.

Não foi nada. Fico feliz de poder ajudar. – Amano respondeu, do outro lado da linha. – Até outro dia, então. Ja ne.

– Ja. – Izayoi respondeu, recolocando o telefone no gancho.

Ela ainda ficou parada por uns minutos, fitando o telefone como se aquilo não tivesse acabado de acontecer. Dar aulas de piano era a última coisa na qual poderia pensar no momento, mas poderia vir a ser bem útil.

Mesmo depois de desligar o telefone, continuou a fitar a parede incerta. E se não fosse boa o suficiente? Afinal, era pra ser professora particular de uma grande família, pelo visto. Todavia, agora que tinha concordado com Amano – mesmo tendo sido uma coisa quase subconsciente – não tinha mais volta.

Pouco tempo depois o seu pai apareceu subindo as escadas depois de fechar a loja. Apenas naquele momento ela lembrou que precisava se levantar para preparar o jantar. Os dois fizeram a refeição em silêncio na maior parte do tempo; ambos sempre concentrados em alguma coisa que estava além do assunto que tratavam na mesa.

Izayoi ainda foi dormir com aquela esperança de arrumar um bom emprego logo no dia seguinte, portanto, tinha que pensar em sair mais cedo do trabalho e estar em casa pelo menos para o almoço. Amano tinha comentado sobre o homem aparecer durante a tarde, mas não tinha falado nada sobre o horário que ele apareceria.

Mesmo depois de uma noite de sono e um despertador a fazendo acordar tão cedo na manhã, a primeira coisa que Izayoi podia se lembrar no momento era sobre dar aulas de piano. Não teve chance de encontrar Amano no metrô indo ao trabalho, mas assim que chegou, certificou-se de que trabalharia apenas até o horário do almoço. Seria tão mais fácil se Amano tivesse lhe dado o telefone do tal homem para marcar uma hora certa.

Por volta do meio-dia, ela recolheu sua bolsa e trocou a usual roupa branca por uma saia que ia além dos joelhos e uma camisa simples de botões. Saiu do hospital despedindo-se dos colegas de trabalho e em poucos minutos estava na rua, a caminho da estação do metrô. Quando parou para atravessar a rua até a conhecida estação, viu um suntuoso carro negro passando bem à sua frente.

Não conseguiu evitar pensar que talvez fosse aquele tipo de carro que encontrasse na casa em que poderia trabalhar. "Pare de pensar besteiras, Iza. Nem sabe se vai mesmo dar aulas de piano, devia se concentrar nas horas extras no hospital e não começar a sair mais cedo do trabalho", ela pensava, enquanto seus olhos certificavam-se de que o caminho estava livre para atravessar a rua.

Cerca de vinte minutos e ela desembarcou, arrumando os cabelos num coque desleixado ao começar a subir as escadas para sair da estação de metrô. Estava tão cansada do trabalho que se pudesse, aproveitaria aquela tarde apenas para descansar, mas seria um tanto quanto impossível, tão ansiosa se encontrava no momento. Ao chegar até a loja, seu pai estava limpando o balcão e não prestou atenção na entrada dela.

– Quantas vezes o senhor limpou esse balcão hoje, otou-san? – Izayoi perguntou, debruçando-se sobre o balcão e fazendo seu pai se sobressaltar com a surpresa.

– Iza… o que faz aqui tão cedo? Não devia chegar só mais tarde? – ele perguntou, sentando-se numa cadeira bem ao lado do caixa.

– É, mas a Amano me arrumou um tipo de entrevista de novo emprego. – Izayoi respondeu, sorridente. – Então, precisei voltar um pouco mais cedo, vou ver se dá certo.

– Entrevista de emprego? Mas, por que quer um novo emprego? Aconteceu alguma coisa no hospital? – ele perguntou, visivelmente preocupado.

– Não, não é nada disso, otou-san. Não se preocupe. – Izayoi sorriu com a idéia. – Na verdade, talvez eu dê aulas de piano.

– Oh… – foi o único som compreensível que saiu da boca do senhor, parecendo bastante surpreso com a notícia.

– Não é uma boa idéia? – Izayoi perguntou, sem ter reação do pai até então.

– Não, não! É uma ótima idéia. – o homem finalmente sorriu. – Sua mãe ficaria orgulhosa de saber que vai se dedicar mais ao piano.

– Sim, tem razão. – Izayoi sorriu de volta.

– Então, por que não comemora e toca um pouco pra gente? – o senhor indicou o piano. – Agora vai ter que ficar mais afinada para poder dar aulas, se quiser impressionar o seu futuro contratante.

– O senhor tem razão. – Izayoi confirmou, colocando sua bolsa sobre o balcão. – Vou tocar alguma coisa rápida para subir e tomar um banho e almoçar.

Seu pai apenas meneou com a cabeça num gesto afirmativo, enquanto ela andava até o piano e se sentava. Observou as teclas por uns minutos, pensando talvez na melodia que iria tocar. Mais uns segundos e a música invadiu toda a pequena loja enquanto os dedos dela percorriam o teclado agilmente. Ela mesma se perdeu no bonito som enquanto continuava a tocar, por conseguinte, não notou uma nova presença na loja.

Quando resolveu finalmente descansar os dedos sobre as teclas e abrir os olhos, escutou as usuais palmas de seu pai, mas dessa vez, pareciam acompanhadas. Com o novo som, ela ergueu a cabeça de imediato e então, finalmente notou a segunda presença ali. Um homenzinho baixo e calvo estava parado ao lado do balcão, vestia uma roupa social, com um terno e uma gravata bem arrumados. Ele tinha um sorriso gentil no rosto e Izayoi quase corou ao perceber que mais alguém estava escutando-a tocar sem sequer se dar conta.

– Ah… er… boa tarde. – ela sorriu para o homem, que parecia ter visto alguma coisa muito interessante nela.

– Você deve ser Matsumoto Izayoi-san, certo? – o homem perguntou, aproximando-se dela. – Prazer, eu sou Senri Myouga. Eu trabalho para o senhor Taisho, a sua amiga Amano-san falou sobre você.

– Ah! – ela finalmente pareceu associar o que estava ouvindo. – Muito prazer, Myouga-sama. Que bom que veio.

– Eu fico satisfeito de ter vindo também. – ele respondeu. – Creio que Amano-san tenha comentado com você exatamente como serão as coisas, não? Taisho-sama quer que dê aulas particulares três vezes por semana, duas horas por dia. Que tal segunda, quarta e sexta?

– Mas… mas o senhor nem perguntou nada, nem… – antes que ela terminasse de falar, Myouga fez um movimento com a mão, indicando que ela se calasse.

– Não precisa. Acho que já vi o suficiente. – ele sorriu. – A não ser que a senhorita tenha alguma coisa contra as aulas.

– Não, não tenho… – Izayoi disse imediatamente, sorrindo.

– Então, como eu dizia, concorda com os dias das aulas? – Myouga tornou a perguntar, pegando uma agenda que Izayoi não notara estar sobre o balcão e começando a anotar alguma coisa com uma caneta que tinha tirado do bolso.

– Sim, sim. – ela acenou a cabeça rapidamente. – Vai ser pela manhã?

– Não, Sesshoumaru-sama estuda pela manhã. Que tal das 15h às 17h? – ele continuava mais concentrado nas anotações do que em Izayoi.

– Tudo bem. – ela concordou novamente.

– Bom, podemos combinar o pagamento quando for dar a primeira aula. – Myouga olhou o relógio de pulso. – Desculpe-me, preciso ir agora.

– Mas… e eu não sei o endereço… – Izayoi acompanhou o pequeno homem com os olhos quando ele estava seguindo para a saída da loja, visivelmente apressado.

– Não se preocupe, o motorista virá buscá-la às 14h30min na segunda-feira. – Myouga disse, acenando brevemente e sorrindo de volta para a mulher. – Taisho-sama gosta de ter os melhores empregados e com o tratamento que merecem.

– Hai. – foi a única resposta que saiu da boca dela, ao sentir um frio percorrer sua espinha.

– Até segunda-feira, Izayoi-san. – Myouga saiu e fechou a porta. Apenas naquele momento Izayoi notou o bonito carro preto que tinha estacionado ali na frente.

A mulher dona dos claros olhos castanhos ainda ficou observando a porta estática por uns segundos. Tudo aquilo que tinha acontecido parecia tão… surreal. Piscou os olhos duas vezes ao perceber que seu pai estava lhe chamando.

– Iza…

– Ah, desculpe, o que dizia, otou-san? – ela virou-se de súbito para o pai, ainda não acreditando no que tinha acabado de acontecer.

– Não parece muito feliz com a idéia. – ele sorria, apoiado no balcão.

– Não é isso. É que foi tudo tão de repente… – Izayoi respondeu, andando até o balcão e pegando a bolsa que tinha deixado lá ao chegar.

– Você merece isso, querida. – o homem falou. – Agora, porque não vai tomar aquele banho que queria e almoçar? Precisa descansar um pouco.

– Tem razão. Eu vou indo. – Izayoi disse, passando pelo balcão e subindo as escadas. Agora eu vou ter que falar lá no hospital para mudar os horários.

Ela ainda precisou do resto da tarde para poder associar a idéia. Às vezes, pegava-se perdida em pensamentos. Na verdade, as últimas palavras de Myouga eram que estavam lhe incomodando. Ele dizia que o tal do Taisho-sama queria ter os melhores empregados e eles teriam o tratamento devido. Não sabia se era boa o suficiente para eles. Afinal, Myouga só a escutara tocando uma composição de Chopin, isso não podia dar uma idéia melhor do que ela podia ou não fazer principalmente como professora particular de um homem rico.

No dia seguinte, ela readaptava o seu horário no hospital. Durante os dias que daria aula para o tal do Sesshoumaru, mudou o horário de trabalho da tarde para a noite. Portanto, seus dias seriam bem corridos. Precisava ir ao hospital de manhã, ir para casa no almoço e depois para a casa dos Taisho, por último, voltaria para o hospital para cumprir a sua extensa carga-horária. Foi apenas naquilo que pensou durante o resto do fim de semana. Ao menos, agora teria dinheiro suficiente para pagar as contas e o aluguel da casa. Só esperava ter o suficiente para pagar ao menos um mês do aluguel até o final daquele mês.

Izayoi estava visivelmente ansiosa com o início de seus dias como professora. Não que fosse ficar nervosa ou alguma coisa do gênero, mas queria pelo menos saber como era o seu futuro aluno. Acabou acordando pouco antes do despertador e tentou seguir a sua rotina diária. Exceto que naquela manhã de segunda ela estava bem mais confusa sobre como se fazia o café. Quase riu de si mesma ao perceber que sequer tinha ligado o fogão.

Apenas quando chegou ao hospital sentiu a tensão ser aliviada. Não precisava realmente se preocupar com uma coisa que sabia fazer direito. Era boa em lidar com as pessoas e também entendia piano como ninguém. Era a mesma coisa que estar trabalhando ali, naquele hospital, cuidando de crianças enfermas. Ela sabia o quê fazer e como fazer. Não seria diferente algumas horas mais tarde quando fosse até a mansão dos Taisho.

Saiu do hospital no novo horário combinado e chegou em casa com tempo de sobra. Tomou banho e almoçou na companhia de seu pai que fazia questão de lembrar-lhe que tudo ia dar certo, mas estava bem tranqüila e não precisava realmente daqueles conselhos.

As duas e meia, ela estava pronta e fazia companhia ao seu pai na loja, quando escutaram a porta se abrindo. Izayoi esticou o pescoço para ver de quem se tratava e levantou-se de imediato ao ver um homem bem vestido e com um cap típico de motoristas em mãos. Ele parecia jovem e tinha curtos cabelos pretos bem arrumados.

– Matsumoto-san? – ele perguntou ao se aproximar o suficiente da mulher. – Meu nome é Hiroaki. Eu vim buscá-la sob ordens de Myouga-sama. Está pronta?

– Sim, estou. – a mulher respondeu, levantando-se e virando-se para o pai. – Até mais tarde, otou-san.

– Até mais, querida. – ele lhe beijou a testa e ela seguiu para fora da loja com o motorista.

Ela usava um vestido florido de cintura alta que alcançava uma altura um pouco abaixo dos joelhos. Ainda usava um pequeno casaco transparente por cima. Os cabelos estavam amarrados num rabo-de-cavalo baixo, deixando a franja solta balançando com o vento.

Ela parou ao sair da loja. Aquele mesmo carro negro e luxuoso estava parado bem ali, à sua frente, e o motorista estava segurando a porta do banco de trás para que ela entrasse. Ela sorriu em agradecimento e entrou, deixando que ele fechasse a porta. A mulher ainda percorreu todo o interior do carro com os olhos curiosos. Era realmente muito bonito. Deixou a pasta que carregava bem ao seu lado no banco e colocou a bolsa de alça sobre as pernas.

O carro deu partida e ela começou a olhar o caminho que ele percorria através das janelas escuras e fechadas. Não trocou sequer uma palavra com o motorista durante todo o caminho que percorreram. Ele parecia bem concentrado na estrada ou então não podia conversar com os outros empregados. E ela estava tão concentrada em decorar o caminho até a nova casa que também não se importou muito em falar com ele.

Depois de uns vinte minutos percorrendo a cidade, o carro finalmente parou diante de enormes portões brancos de ferro. Tinha uma câmera no topo do muro ao lado esquerdo dos portões e assim que o homem estacionou o carro, as portas se abriram automaticamente.

Os olhos de Izayoi se tornaram mais atentos ao local, depois de passar pelos portões externos, o carro passou por uma pequena estrada de ladrilhos em meio ao enorme jardim em direção à casa principal. Ela abriu a janela pela metade e ficou a fitar o lugar.

Quando encarara os portões externos do lugar, a primeira coisa que lhe surgiu à cabeça foi como uma pessoa em sã consciência podia gastar tanto dinheiro num lugar enorme como aquele? Qual a necessidade de todo aquele exagero? Não conseguia se imaginar vivendo num lugar daqueles. Contudo, depois que o carro cruzou a estrada através dos jardins, precisou se admitir impressionada com a beleza do local.

As árvores de cerejeira desabrochavam várias flores naquela época do ano. Estavam na primavera, a mais bela estação do ano – em sua opinião. Observou como a estrada tinha sido feita de modo a desviar das árvores mais anciãs. Precisou desviar os olhos das árvores e da beleza do jardim quando finalmente alcançaram a casa principal, ou deveria dizer… a mansão principal.

A casa se estendia por três andares; as paredes impecavelmente brancas eram decoradas com janelas de vidro. As colunas diante da porta da frente davam um aspecto realmente antigo ao local. Talvez tivesse sido reformada várias vezes durante os anos. Apenas desviou os olhos da mansão quando sentiu o carro parar bem diante da pequena escadaria que dava para o portão de entrada. Antes mesmo que pudesse mover os braços para abrir a porta, o motorista já o tinha feito, com uma velocidade que ela pensou em como ele tinha chegado ali tão rápido.

Pegou sua pasta que estava bem ao seu lado, no banco, e virou as pernas para sair do carro. Sorriu para o motorista e fez um aceno com a cabeça, agradecendo. Ele acenou de volta e fechou a porta, voltando para dentro do carro em seguida.

Ela parou por uns instantes, encarando as enormes portas de carvalho que emolduravam a entrada. Sentiu o vento soprar forte em seus longos cabelos castanhos, fazendo com que a parte maior da franja voasse sobre seus olhos. Levantou a mão para levar os finos fios para trás da orelha, sentindo o vento diminuir. Voltou os olhos para as portas novamente, prestes a subir as escadarias. Impressionou-se ao ver uma nova figura ali, diante da porta aberta.

Uma senhora de aparência realmente idosa sorria para ela. Izayoi ainda pensou duas vezes antes de começar a andar, mas logo deu os primeiros passos para subir as escadas, sentindo o vento mais uma vez balançar seus cabelos. Assim que alcançou o topo das escadas, a senhora a cumprimentou.

– Boa tarde. Você deve ser Izayoi-san, certo? – a senhora perguntou, ainda sorridente.

– Hai. – ela respondeu, sorrindo de volta. – Muito prazer.

– Eu sou Kaede. O prazer é meu, senhorita. – a senhora falou. – Venha, entre. Vamos conversar lá dentro. Sesshoumaru-sama está à espera das aulas.

– Ah, claro. – Izayoi concordou, seguindo com a mulher para dentro da enorme mansão.

Assim que passaram pela porta, elas se fecharam e Izayoi precisou virar o rosto para notar um empregado que estivera ali desde o começo, provavelmente escondido atrás da porta.

Logo em seguida, ela voltou os olhos para dentro do local onde se encontrava. Era incrível: o teto era muito alto e a sala tinha um formato semicircular, com uma escadaria que seguia a curva da parede até o primeiro andar. O salão de entrada era enorme, com um lustre de cristal que enfeitava ainda mais o local. Para todo lado que olhasse, via algum quadro ou escultura que pareciam muito caros. Havia também dois portais que davam para as salas seguintes, um deles sob a escada e outro bem ao seu lado esquerdo, ao lado do começo da escada.

– Eu sou a governanta da casa. – Kaede falou e ela precisou desviar os olhos da beleza impecável do lugar para prestar atenção ao que a senhora falava. – Qualquer coisa que precisar, pode falar comigo.

– Claro. – ela concordou, continuando a andar seguindo a mulher até as escadas.

– Você vai dar aulas todas as segundas, quartas e sextas. De acordo com o que Taisho-sama decidiu. – Kaede continuou a falar, ainda subindo as escadas.

– Sim, sim. – Izayoi concordou. – Pela tarde. Myouga-sama me informou sobre isso.

– Exato. – Kaede sorriu. – Ele é o assistente pessoal de Taisho-sama e tutor de Sesshoumaru-sama.

– Taisho-sama não se encontra? – Izayoi perguntou, estranhando, já que ele era o homem que tinha mandado contratá-la e sequer o conhecia.

– Não, ele está sempre muito ocupado, mas não se preocupe. Estou responsável por tudo aqui. Você vai dar aulas ao filho dele. – Kaede disse, quando finalmente terminaram de subir as escadas. – Sesshoumaru-sama está à espera. Bom, vou deixar que comece a aula e acertaremos o pagamento depois.

– Como quiser. – Izayoi acenou a cabeça ao concordar, parando bem ao lado de Kaede quando ficaram diante de uma porta também de carvalho.

Kaede abriu a porta e fez um sinal com a mão para que a mulher entrasse. Exatamente no momento que o trinco foi girado e a porta empurrada, Izayoi logo ouviu um som suave vindo de dentro da sala. Um som suave e bem conhecido. Ela entrou, silenciosamente, deixando que Kaede fechasse a porta atrás de si. Não pôde evitar franzir o cenho ao encarar um garoto que estava sentado no banco diante do piano, tocando uma música calmamente.

Ele tinha longos cabelos branco-prateados que alcançavam pouco menos que o meio das costas. Estava de costas para ela, portanto, não podia dizer muito sobre o rosto dele. Usava roupas simples, uma camisa de mangas curtas e uma calça folgada.

Ela ficou parada ali, perto da porta de entrada, apenas observando enquanto ele tocava concentrado. Devia ter o que? Uns dez anos talvez, pelo tamanho. Era tão novo e tocava tão bem. Claro, a melodia era bem simples para ser aprendida, uma melodia que todo mundo tinha escutado pelo menos uma vez na vida, Für Elise. Mas agora estava curiosa. Era ele que precisava de aulas de piano? Se era, então por que Kaede e o tal do Myouga, quando a procurara, tinham se referido a ele por "-sama"?

Nem deu mais um passo e a música foi interrompida bruscamente, quando o garoto tocou dez teclas aleatórias de uma só vez, com as duas mãos. Ela se assustou um pouco, estranhando o ato dele, até que ouviu a voz que devia ser dele invadir seus ouvidos.

– Pretende ficar parada aí o dia todo?

– Ah, desculpe, não queria interrompê-lo. – Izayoi sorriu sem graça, andando até o garoto, que sequer tinha virado para encará-la. Ele tinha uma boa percepção, pelo visto. – Você é Sesshoumaru? – ela perguntou, parando ao lado dele, ainda com a pasta entre as mãos.

– Hai. – ele respondeu, finalmente virando o rosto para encará-la.

Izayoi parou, encarando-o por uns breves segundos. Ele tinha olhos incrivelmente claros, praticamente dourados. E, acima de tudo, não tinha o mesmo semblante e o brilho nos olhos que uma criança da idade dele devia ter. Parecia sério demais para a sua idade.

– Bom, pelo visto, você sabe alguma coisa de piano, acho que nossas aulas não vão demorar tanto assim. – Izayoi sorriu para ele, colocando a pasta sobre uma mesa ao lado do piano. – Então, sabe tocar outras composições além de Für Elise?

– Iie. – ele respondeu, voltando a olhar para o piano.

– Bom, vamos aprender mais. – ela continuava sorridente, seu tom de voz sempre brando e suave. – Mas já sabemos que tem habilidade com o piano.

Ele não respondeu, continuou a olhar para o piano, sem nem parecer se importar com a presença dela ali. Ela o fitou por uns segundos e então, suspirou, voltando-se para sua pasta. Abriu e tirou umas folhas de lá.

Nunca tinha trabalhado muito com a parte teórica da música. Isso era mais com a sua mãe. Tocava há tanto tempo que muitas vezes dispensava as partituras, como fazia ao tocar em sua casa. Mas agora, estava na hora de colocar em prática o que tinha visto na mesma idade que Sesshoumaru.

– Bom, vamos começar com a parte teórica. Então, não precisa ficar mesmo aí ao lado do piano. – Izayoi disse, correndo os olhos pela sala até encontrar o que queria. Havia uma mesa ali, pequena, com um tampo de vidro e um arranjo no meio dela. Tinha lugar para quatro pessoas. – Ali, podemos nos sentar ali para cuidar dessa parte, não?

Sesshoumaru apenas olhou dela para a mesa que indicava e então, levantou-se, andando até ocupar uma das cadeiras acolchoadas. Não demorou até que Izayoi percebesse que ele não estava realmente muito interessado em encará-la; na verdade, estava começando a lhe correr a idéia de que ele talvez não estivesse tão interessado nas aulas de piano.

Suspirando discretamente, ela o seguiu e sentou-se na cadeira bem diante dele, levando a pasta consigo. Talvez, a coisa não fosse tão fácil quanto pensava.

As duas horas de aula se passaram de um jeito que Izayoi não esperava. Completamente contrário ao que estava pensando, Sesshoumaru não parecia nem interessado nem desinteressado. Era verdade que não falava demais e também não parecia querer se dar bem com ela, mas ao mesmo tempo, parecia prestar atenção em cada mínima palavra que ela dizia, fazendo tudo o que mandava e aprendendo com uma incrível velocidade.

Ela não conteve um sorriso de satisfação ao perceber que tudo tinha dado certo. Fitou o relógio ao notar que faltavam cinco minutos para as cinco horas.

– Bom, até que não foi tão ruim. – Izayoi disse para o garoto que voltara a sentar diante do bonito piano. Ele não respondeu nada, estava virado para ela dessa vez e encarava-a vez ou outra. – Você se saiu muito bem, Sesshoumaru. Agora, nos vemos de novo só na quarta. Continue praticando o que aprendemos hoje, sim?

Ele a encarou, mas não respondeu propriamente. Se ele ia responder, foram interrompidos por leves batidas na porta.

Izayoi terminou de arrumar a sua pasta e virou-se, para avisar que podiam entrar. Quando a porta se abriu, Kaede estava lá, com uma outra empregada de aparência jovem ao seu lado, com as mãos juntas diante do corpo.

– A aula acabou, Izayoi-san? – Kaede perguntou, sorrindo para a mulher.

– Sim, sim. – Izayoi respondeu, recolhendo suas coisas e parando de frente para a senhora.

– Bom, então… Sesshoumaru-sama, o jantar vai ser servido apenas daqui a duas horas, Minato vai acompanhá-lo, caso deseje algo. – Kaede disse, virando-se para Sesshoumaru e fazendo uma breve reverência.

– Hai. – o garoto respondeu, levantando-se e andando até a porta, para ser acompanhado pela empregada que estava ao lado de Kaede.

Izayoi levantou um pouco as sobrancelhas ao comprovar o tratamento que o jovem recebia. Certo que ele era o filho do dono da casa, mas ainda assim, ele era uma criança… e já tinha um ar tão estranhamente adulto, principalmente com aquelas pessoas ao redor tratando-o tão formalmente.

– Izayoi-san… se puder me acompanhar. – Kaede disse, indicando a porta para que elas seguissem para fora do lugar.

– Claro. – Izayoi varreu Sesshoumaru de seus pensamentos e então, seguiu Kaede ao longo do corredor.

Elas pararam diante de uma porta um pouco mais longe da sala onde ela tinha dado as aulas a Sesshoumaru. Kaede entrou e ela fez o mesmo. A sala era como um pequeno escritório. Tinham prateleiras cheias de livro, um gabinete grande ao fundo da sala e um computador. A mulher mais velha pegou alguma coisa sobre a mesa e seguiu até Izayoi.

– Aqui, esse é o pagamento combinado por Taisho-sama. – Kaede disse, entregando um cheque assinado para a mulher. – Como o combinado, receberá por hora-aula. Nesse cheque estão incluídos as duas horas de hoje.

Quando os olhos castanhos pousaram sobre o pequeno pedaço de papel, foi impossível não arregalar ligeiramente os olhos. Ela não conseguiu responder nada coerente a Kaede naquele momento. Jamais imaginaria que poderia receber tanto só por duas horas de aula de piano. Só podia haver alguma coisa errada ali. Se continuasse recebendo tanto em todas as outras aulas, contas realmente não seriam um grande problema no fim do mês.

– Foi esse o valor? – ela finalmente conseguiu perguntar.

– Sim. Não está bom? – Kaede perguntou.

– De maneira alguma! – Izayoi respondeu, desviando os olhos do cheque. – É que… não imaginava que seria tanto.

– Não fale desse jeito, querida. – Kaede sorriu com a reação dela. – Apenas precisa fazer o que lhe foi dito, com certeza você merece isso.

– Muito obrigada. – a dona dos longos cabelos negros se curvou numa reverência de agradecimento.

– Não precisa fazer isso, não precisa. – Kaede disse, colocando a mão sobre o ombro dela. – Venha, Hiroaki está esperando para levá-la de volta para casa.

– Hai.

Izayoi saiu da sala, seguindo Kaede todo o caminho de volta até descerem as escadarias. Antes que elas conseguissem alcançar as enormes portas da entrada, elas se abriram e então, um novo homem apareceu por elas. Ele era bem alto, tinha cabelos longos e amarrados no topo da cabeça, branco-prateados. Seus olhos eram estreitos e da mesma cor dos de Sesshoumaru. Quando ele entrou, deixou a pasta com uma das empregadas que estava ali e tirou um sobretudo, entregando a outra das empregadas. Vestia uma roupa social, com um terno acinzentado e uma gravata de mesma cor.

Izayoi observou quando ele comentou alguma coisa com um terceiro homem, que apenas naquele momento ela notou ser Myouga que vinha o acompanhando. De fato, ao desviar os olhos do novo homem foi que percebeu que tinham bem mais empregados enfileirados apenas para recebê-lo.

No momento que voltou os olhos para ele, percebeu que tinha virado o rosto para encará-la. Observando-o diretamente nos olhos, ele parecia ser uma pessoa bem severa. Seus olhos eram frios e quase inexpressivos. Ela certamente não teria conseguido desviar o olhar do dele, caso ele não o tivesse feito.

Virou o rosto com completo descaso e continuou a caminhar até o portal que ficava sob as escadarias, falando alguma coisa em tom baixo para Myouga, que o acompanhava a passos apressados com suas pequenas pernas.

– Izayoi-san.

Ela desviou os olhos do portal quando o homem desapareceu, virando-se para Kaede que estava lhe chamando.

– Ah, desculpe-me. – Izayoi falou, percebendo que Kaede a chamava havia algum tempo.

– Aquele era Taisho-sama. – Kaede respondeu ao questionamento mental que Izayoi se fazia no momento. – Ele está sempre muito ocupado com o trabalho, por isso, está sempre com pressa, como pode ver.

– Entendo… – a mulher respondeu, um tanto quanto constrangida por perceber que deixara seus pensamentos transpassarem seu rosto tão facilmente.

– Bom, é melhor irmos. Está ficando tarde. – Kaede disse, continuando a andar até a porta da casa.

Apenas naquele momento Izayoi se lembrou que ainda tinha que ir direto para o hospital, então, apressou o passo e seguiu a senhora. Despediu-se rapidamente e entrou no carro, quando a porta foi fechada por Hiroaki e eles saíram da mansão.

Ela olhou o relógio de pulso quando o carro alcançou a estrada, percebendo que estava em cima da hora. Curvou-se um pouco no banco para frente e chamou a atenção do motorista.

– Será que você poderia me deixar no Hospital Central, por favor? – ela perguntou, olhando o relógio novamente.

– Alguma coisa errada, Matsumoto-san? – Hiroaki perguntou, como se ela fosse ao hospital para se tratar.

– Ah, não. É que eu trabalho lá. – ela respondeu rapidamente.

– Ah, certo. Como quiser. – o homem suspirou aliviado com a explicação e então, virou na próxima esquina.

Izayoi se recostou mais uma vez e olhou através da janela. Apenas naquele momento deixou a preocupação de se atrasar para o trabalho para pensar no homem que Kaede dizia ser o tal do Taisho-sama. Não podia negar que era um homem realmente bonito e que deixava uma impressão… mas não exatamente uma boa impressão.

Pelo contrário, ele tinha sido um tanto quanto mal educado por passar direto sem ao menos cumprimentá-la direito. Será que era assim que costumava tratar todos os que trabalhavam para ele? Lembrava-se apenas de Myouga tentando acompanhá-lo e das empregadas sobre as quais ele praticamente jogara as suas coisas.

Ele realmente parecia com Sesshoumaru na aparência. Ainda assim, esperava não descobrir que a personalidade do garoto era como a do pai. Ele simplesmente tinha continuado o seu caminho como se ela não fosse ninguém.

No entanto, naquele momento não importava realmente se ele queria ou não cumprimentar a professora do seu filho. Continuaria fazendo o seu trabalho, ensinando Sesshoumaru a tocar piano, e não fazia diferença se o senhor Taisho estaria ou não por perto. Provavelmente, ficaria tão ocupado com o trabalho que ela não o veria mais.

Suspirou mais uma vez ao olhar através da janela. Estava feliz. Podia cuidar de seus problemas financeiros fazendo uma coisa que realmente gostava. Precisava se lembrar de ligar para Amano o mais rápido possível para agradecê-la. Desviou os olhos da janela e olhou para a pasta com as teorias que tinham trabalhado naquela tarde e as partituras. Sorriu novamente.

Final do Capítulo Um

Bom, mais uma vez eu venho aqui com um presente de amigo secreto do mundo dos fics. Dessa vez, a minha amiga secreta foi a Juliane.chan!

Eu gostei muito de começar esse fic aqui porque foi com um casal até interessante. Esse vai ser IzaTaisho!

Espero que a senhorita goste do presente! Foi de coração... eu já gostava muito das fics dela de CDZ, e é um prazer tirá-la no amigo secreto! Acho que por enquanto é só.

Espero que os outros também gostem do novo casal, e ficarei grata em receber reviews!

Agradecimentos especiais para minha amiga Palas Lis que fez o favor de revisar o capítulo para mim.

Kissus para todos, até a próxima!

Ja!