Olá, pessoas!

Estou aqui mais uma vez, com uma nova fic intitulada "Sem coração", ou SC, para os mais íntimos...

Contudo, antes de qualquer palavra, deixem-me fazer um esclarecimento final e definitivo sobre "Um Admirador Especial"... (quem nunca leu "UAE" ou está curioso para ler a fic, sinta-se a vontade para pular essa parte!)

Tem muita gente mandando reviews me perguntando sobre que fim se deu o Eriol e a Tomoyo... bom... em "UAE", acabou-se naquele ponto e fim de papo, ou seja, não terá um epílogo ou algum tipo de especial... falando sobre que fim se deu os personagens...

Mas, antes que vocês me trucidem, eu tenho em meus projetos uma fic que seria a continuação direta de "UAE"... uma fic diferente, entendam. Nela eu vou focar o relacionamento da Tomoyo com o Eriol. O que aconteceu em "UAE" (não vou mencionar aqui exatamente o que, caso alguém que ainda não tenha lido se interesse!) foi apenas para deixar uma insinuação de que vai rolar algo mais... e só!

Eu já tinha explicado esse fato lá na comunidade "Fãs da Cherry Hi", mas como nem todo mundo tem Orkut ou não conhece a comu, então achei melhor repetir a explicação... Ah! E quando vai sair esse projeto de continuação? Bom... eu quero realizar (contando com SC, claro!) uns dois projetos diferentes e só então voltarei com a contuação de "UAE"... certo?

Agora voltemos ao presente... apenas para finalizar, gostaria de declarar que Sakura Card Captors e seus personagens não me pertencem e sim ao CLAMP (-Disclaimer-) e que a fic, apesar de ter sido classificada como K , contém cenas de violência.

SEM CORAÇÃO

Cap 1 – Do menino rebelde...

Escrito por: Cherry hi

Revisado por: Yoruki Hiiragizawa

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França, meados do século XIX.

O luar banhava um dos estreitos atalhos do bosque, interrompido constantemente pela sombra das árvores frondosas. Ouvia-se o pio de uma coruja aqui e ali e o vento sussurrava entre as folhas, segredando confidências milenares.

Passos apressados feriram o silêncio natural do lugar. Eles ficaram cada vez mais altos, até que um vulto pequenino se materializou no meio da escuridão absoluta. Era um garoto, que por ali não ficou muito tempo, para apreciar a paisagem (embora realmente não houvesse muito o que olhar – eram só árvores e galhos secos). Provavelmente, estava com muita pressa.

Ele continuou correndo, escutando o som ofegante de sua própria respiração e o martelar descontrolado de seu coração. Tropeçou em uma pedra e foi ao chão. Sentiu um pouco do gosto metálico de seu sangue na boca, mas não se importou de estar ferido. Escutou vozes ao longe e levantou-se, sem ligar´para a sujeira que suas roupas carregavam. Tinha que continuar! Não agüentava mais aquele internato francês e, principalmente, não agüentava mais aquele professor que pensava ser o senhor do mundo só porque tinha uma palmatória nas mãos. De todas as coisas cruéis que seu pai lhe fizera, mandar-lhe para aquele lugar poderia ser considerada a pior de todas! Decidido a nunca mais voltar para lá, ele recomeçou a correr.

Correu por lugares que, em circunstâncias normais, acharia assustadores, mas que, naquele momento, eram só os meios para se afastar o máximo possível de onde estava fugindo.

Deu-se ao luxo de parar outra vez quando deixara de ouvir as vozes de seus perseguidores. Colocou as mãos nos joelhos, ofegante, pingando suor da ponta do nariz e dos cabelos bagunçados pela corrida.. havia um pequeno rio que corria bem próximo e ele se abaixou, para sorver grandes goles da água fresca e também para molhar o rosto. Ficou sentado por ali, olhando para os fios de prata que eram os reflexos da lua na correnteza. Então, escutou um barulho.

Colocou-se imediatamente em alerta, para logo em seguida relaxar outra vez: aquilo pareciam ser rodas de carruagem e seus perseguidores estavam a pé. Além disso, o som vinha do sentido contrário ao que ele estava fugindo... deduziu que um pouco mais adiante estaria alguma estrada que fazia ligação entre o campo e Paris. Ficou quieto, esperando que a carruagem passasse e fosse embora, para que ele continuasse com sua fuga. Quando o veículo parecia ter emparelhado com o lugar onde ele estava, ele escutou uma voz em tom de comando ríspida. Os cavalos foram bruscamente detidos. Curioso, ele aproximou-se devagar da origem do som, tomando cuidado para não esbarrar em alguma moita ou pisar em algum bicho e assim fazer barulho. Escondido, sentiu o coração disparar ao ver, na estrada, dois homens a cavalo apontando pistolas para o cocheiro que, apavorado, estendia suas mãos para o alto, em um claro sinal de rendição. Eles tinham lenços rotos amarrados no pescoço que cobriam parcialmente seus rostos e falavam em francês rústico, um linguajar próprio das periferias de Paris.

Provavelmente, pensou o garoto, aqueles homens estavam de tocaia do outro lado da estrada, caso contrário, teriam-no visto ou ouvido e, com certeza, ele estaria encrencado. Observou os homens se aproximarem mais do veículo. Um deles lançou um olhar cobiçoso para a belíssima parelha de cavalos negros, dizendo rudemente, porém com vagar:

- Mal posso esperar para montar nesses cavalos de primeiro mundo!

O outro abriu a porta da carruagem e apontou a pistola vigorosamente, dizendo qualquer coisa tão rapidamente que o menino não entendeu. Seu francês ainda não era bom. Viu um homem descer da carruagem também de braços erguidos. Era alto, esguio, de talhe elegante e, ao mesmo tempo, arrogante. Tratava-se certamente de um nobre francês, de uns quarenta anos. Seu rosto era comprido e fino, porém muito agradável. Tinha olhos astutos, um deles protegido por um monóculo, nariz adunco. Sua boca, circundada por um bigode fino e um cavanhaque bem aparado, revelava todo o desagrado por estar naquela situação. Vestia traje de noite elegante, com várias condecorações na lapela. Obviamente, ele estava a caminho de alguma festa importante nas redondezas.

Os ladrões mandaram que ele entregasse a carteira, o alfinete que prendia sua gravata e o relógio de ouro. Depois, um deles entrou na carruagem. Ouviu-se um gritinho delicado e o rapazinho percebeu, aflito, que ainda havia uma senhora lá dentro. Sem pensar direito, o rapaz se expôs, correndo até o animal do bandido que continuava montado, dando-lhe um forte tapa nas ancas. O cavalo empinou e derrubou o ladrão. O cocheiro e o nobre de cara comprida só conseguiram olhar, espantados com aquela estranha interferência.

Então o outro bandido, surgido do nada, agarrou o menino por trás. Ele tentou desvencilhar-se, mas o homem apenas riu debochado e disse, bem perto dele, permitindo que o garoto sentisse o hálito fétido que ele emanava:

- Jacques, seu estúpido! Surpreendido por um molecote! O que a turma vai dizer quando souber, hein?!

O que se chamava Jacques levantou-se, furioso. Olhou para o garoto e desferiu-lhe um tapa tão forte que ele sentiu que seu pescoço quase se deslocou. Quando virou-se de novo para enfrentá-lo, viu que ele havia sacado a sua arma, apontando diretamente para a cabeça dele. E disse, com um sorriso cruel:

- Se o garoto não existir mais, essa interferência nunca terá acontecido!

Ele engatilhou. O menino arregalou os olhos, paralisado... iria morrer!

Um tiro! Sangue espiralou ao redor, sujando o rosto do garoto, porém... milagrosamente, ele ainda estava vivo e não sentia nada. Olhou para a cara do bandido que o segurava e viu que ele estava imóvel, de olhos arregalados, com um buraco de bala bem no meio da testa. Outro tiro. O segundo bandido recebeu o mesmo destino do primeiro. Os dois caíram ao mesmo tempo e acabaram levando o garoto junto. Depois que conseguiu se libertar daqueles braços pesados e sem vida, ele olhou para o nobre. Ele segurava elegantemente uma pistola de duelo, que ainda fumegava, e exibia um sorriso triunfante. Parecendo nem um pouco assustado, o menino correu até ele e exclamou, a voz transparecendo toda a admiração que sentia:

- UAU! Foi incrível! Como o senhor fez isso?!

O nobre deu uma risada jovial e falou, guardando a arma no bolso interno do casaco:

- Anos de prática e um bom estande de tiros em casa – ele olhou bem para o garotinho e perguntou – Vejo que não é daqui, pelo seu sotaque. Por acaso é inglês?

- É... sou! – respondeu o garoto, em sua própria língua – Vim a França para estudar.

O rapazinho fez uma careta e o homem o observou, com dobrado interesse, alisando as pontas de seus bigodes finos com seus dedos e falou, num inglês perfeito:

- Hum... conheço este uniforme... você por acaso estuda na Academia para Meninos Noire Lissé? – o menino fechou a cara e não respondeu. O nobre tomou aquilo como um "sim" e deu uma risadinha – Ah, meu rapaz! Sei bem como se sente! Passei os piores dois anos da minha vida naquele lugar! É a primeira vez que tenta fugir?!

- É... é! – confirmou o garoto, surpreso. Primeira vez?

O nobre viu a pergunta estampada no olhar dele e disse:

- Não se surpreenda. Pelo menos, três a cada cinco meninos tentam fugir de lá. Eu mesmo tentei fugir cinco vezes.

O menino o olhou ainda mais admirado. Ele era de linhagem nobre, disso ele não tinha dúvidas, mas parecia ser bem mais divertido que a maioria dos amigos de seu pai, que só sabiam fumar charutos e beber brandy. Ia falar alguma coisa, quando uma voz suave antecipou-se, perguntando:

- Já é seguro sair, Maurice?

- Sim, minha cara! – respondeu o nobre, adiantando-se até a carruagem e estendendo sua mão – Já dei àqueles bandidos a merecida lição por assustá-la. Mas devo reconhecer que estou em débito com esse homenzinho, por tê-los distraídos.

- Então, preciso agradecer a ele também... e pessoalmente!

Uma mão, protegida por uma luva prateada, envolveu a do nobre. Os dedos eram compridos e bem-feitos. Então, da carruagem, surgiu a visão da mulher mais linda que ele já havia visto em seus oito anos de vida: não era muito alta, magra, de proporções delicadas e perfeitas. Sua pele era branca como leite, levemente corada no rosto. Seus cabelos ondulados estavam presos em um belo penteado, mas pela escuridão, não dava para ver direito qual era sua cor, nem mesmo a cor de seus grandes olhos. O nariz era reto, levemente arrebitado. Os lábios eram angelicais e rosados. Usava um elegante vestido de noite branco, com detalhes em prata nas barras e nas mangas bufantes. Para completar, um belo colar de pedras faiscantes contornava o colo alvo. Usava um xale debruado em com zibelina. Era simplesmente... perfeita!

Ela sorriu docemente e se aproximou do menino, que parecia ter virado uma estátua de pedra. Nunca havia visto tanta graça, beleza e suavidade reunidos em uma pessoa só. Ela disse então, num inglês sem sotaque:

- Mas que mocinho corajoso! Obrigada por nos ajudar. – o menino não conseguia abrir a boca para dizer qualquer coisa que fosse.

Ela sorriu ainda mais e virou-se para o seu acompanhante e falou

- Querido, quero fazer alguma coisa por ele!

- E nós vamos! – disse ele, animadamente, porém com o rosto sério – Vamos levá-lo de volta para Noire Lissé!

Finalmente, o menino conseguiu falar. Virou-se para o nobre e disse, furioso:

- Como pode pensar que estaria me ajudando me devolvendo para aquele lugar horrível? Eu salvei vocês e é assim que me agradecem?!

O nobre chamado Maurice não se abalou e disse:

- Certamente não posso deixá-lo a mercê dos bandidos e de tantos outros perigos que a noite oculta! Além do que, você pode não compreender agora, mas aquela escola é a melhor para educar futuros vencedores.

- Mas você mesmo disse que tentou fugir de lá cinco vezes! – volveu o garoto, ainda mais furioso – se esta escola forma pessoas MAL-AGRADECIDAS como você, eu prefiro passar longe!!

Maurice ia fazer algum comentário ácido, porém a moça interpôs:

- Por favor, Maurice, querido. Pode deixar que eu convencerei esse rapazinho.

O menino já ia dizer que jamais seria convencido, quando ela se abaixou e ficou com os olhos no nível dos dele. Assim de perto, sua beleza, chegava a ser sufocante e ele sentiu o rosto e o pescoço esquentarem. Ela disse:

- Meu bom menino, não percebe que queremos apenas o melhor para você? Não concordo com métodos cruéis de castigo, mas... se estudar, você há de se tornar um grande homem, um verdadeiro vencedor. Você diz que Maurice é um hipócrita, mas ele é um grande homem.

- Isso mesmo, rapaz! – inteirou Maurice, orgulhoso – Depois que descobri o estandarte de tiro, minha vida lá tornou-se tolerável. Você mesmo não ficou admirado com minhas habilidades? Treine e será melhor!

Ele ainda olhava irado para o nobre. E a linda mulher insistiu:

- Se fugir agora, chamarão você de covarde no futuro e eu sei que você não o é, pois foi muito corajoso enfrentando os bandidos. – ela tirou um lencinho de linho fino da bolsinha que carregava e começou a limpar o rostinho sujo de sangue. Ele sentiu-se ainda mais quente, corando furiosamente, ante aquele toque gentil. Ela pareceu não notar e continuou – Precisa ficar e enfrentar seus problemas, caso contrário, eles se tornarão ainda maiores.

- Ela tem razão! – concordou Maurice – E então? Entende por que queremos que você volte? Por favor, seja bonzinho e concorde conosco!

Algo dentro dele queria que ele se rebelasse, mas estava achando muito difícil. O lenço passava carinhosamente pelo seu rosto e a força daquele olhar era magnífica. Não sabia de que cor eram aqueles olhos, mas eram claros e insinuantes. Escutou as palavras saindo da sua boca antes que pudesse controlá-las:

- Esta bem... eu irei.

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Depois disso, tudo aconteceu tão rápido que ele mal conseguiu registrar em sua mente. Só notou que agora estava sentado no interior da carruagem luxuosa, entre o nobre e a bela mulher. Os cavalos seguiam rapidamente, como se também quisessem se afastar o mais rapidamente possível daquele lugar. Os bandidos foram deixados onde estavam e Maurice dissera que, quando o encontrassem, provavelmente pensariam que os dois haviam se matado ou coisa parecida. Mas não parecia preocupado.

Após alguns instantes em silêncio, o homem virou-se para ele e disse, sorrindo:

- Ora, ora! Agora percebo que ainda não nos apresentamos! Eu sou o duque D'Avingnon e esta encantadora jovem é Lady Avalon.

- É um prazer conhecê-lo, Monsieur... a você também, Mademoiselle. – disse o menino, ainda um pouco atordoado.

Lady Avalon sorriu, divertida:

- Obrigada, meu menino, mas creio que não sou Mademoiselle e sim, Madame. Sou viúva.

- Mas Made... quero dizer, madame... me parece ainda muito jovem... – ele comentou, genuinamente surpreso.

- É verdade... casei-me com apenas 16 anos, porém meu marido, que nunca foi um homem de boa saúde, morreu dois meses depois... e somente agora, quase dois anos depois, decidi casar-me outra vez, com Maurice. – ela piscou – Porém, isto é um segredo, certo?

- E assim, me fez o homem mais feliz desse mundo! – Replicou o duque, com uma nota apaixonada na voz. Então se voltou para o garoto – E você? Qual é o seu nome?

- Meu nome é Shaoran... Shaoran Li.

- Li? Mas este é um sobrenome chinês! – exclamou a moça, surpresa.

- Sim, madame. – rebateu o menino, encabulado – Minha mãe é chinesa, porém eu sou inglês... meu pai é o conde de Lisbury!

Falou as últimas palavras com amargura. O duque comentou então, meio assombrado:

- Então você é filho daquele que chamam de o "velho leão"?

- Sim.

- Oh, puxa! Agora entendo porque se sente tão mal. – disse Maurice, olhando Shaoran com certa compaixão e explicou à Lady Avalon – O conde de Lisbury é um homem muito inteligente e respeitado. Foi representante das Embaixadas britânicas na França, Índia e em Hong Kong, onde, imagino, tenha conhecido sua mãe. – Shaoran confirmou com a cabeça e o duque continuou – Mas todos sabem que ele é um homem muito difícil, além de autoritário e teimoso.

A linda mulher assentiu e olhou para o garoto, que mantinha o olhar fixo em um ponto qualquer. Difícil era uma palavra doce para descrever seu pai...

- Mas, de qualquer maneira, Noire Lissé é uma boa escola, querendo ou não aceitar este fato, e você sairá de lá com uma excelente formação. – disse o duque a guisa de consolo.

Shaoran o olhou como se não acreditasse muito nas palavras dele e então reprimiu um bocejo. Lady Avalon notou e disse:

- Meu pequeno, deve estar cansado, depois de tudo o que passou. Venha – ela o abraçou pelos ombros e o aconchegou ao seu corpo – Tente dormir um pouco... parece que ainda estamos longe.

- Mas... Ma-madame... vou s-sujar seu vestido! Estou i-imundo! – o garoto exclamou, muito embaraçado com aquela proximidade.

Ela sorriu e disse, com voz suave:

- Não se preocupe com isso. Agora... descanse.

Ela começou a acariciar os cabelos castanhos do menino. O toque, o balanço da carruagem e a doce fragrância floral que emanava do corpo dela... tudo contribuiu para que ele sentisse os olhos pesarem... e ele adormeceu.

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Shaoran acordou bruscamente. Notou que a carruagem estava parada... e bem em frente ao prédio principal do internato. Ele se aprumou imediatamente e começou a tremer nervoso. Só estavam ele e Lady Avalon no veículo e esta sorriu, colocando a mão sobre a dele, para confortá-lo. O duque abriu a porta pelo lado de fora e disse:

- Já conversei com o diretor. Ele estava bastante preocupado por você ter fugido, mas pedi que ele pegasse leve com você!

Por trás dele, Shaoran podia ver a cara nada amigável do diretor. Com certeza, sua mão não seria a mesma por muitas semanas... ele olhou, suplicante para a mulher, que sorriu e disse:

- Vamos... seja corajoso. Vou descer com você.

O duque ajudou a moça a descer da carruagem e ela lhe estendeu a mão. Ele hesitou por vários momentos, mas por fim aceitou-a. Juntos, eles subiram as escadarias que davam para a imensa porta principal, muito bem iluminada. Assim que chegaram em frente a porta, o diretor, um homem corpulento, careca e com cara de poucos amigos, disse:

- Shaoran... infelizmente sabe qual será o resultado de seu mau comportamento, não sabe?

O garoto engoliu em seco e apertou, sem querer, a mão da moça. Ela olhou severamente para o homem, que parecia muito impressionado com a beleza dela, e atalhou:

- Mas... o duque falou como você os ajudou, então... isso ajudará a amenizar seu castigo... um pouco.

Aquele não era um comentário animador. Lady Avalon nada falou. Ela levou a mão livre aos cabelos e do complexo penteado, retirou um pente dourado, cravejado de brilhantes e com uma bela esmeralda incrustada no meio, que fazia par com outro pente semelhante que ainda usava. Ela ofereceu para o menino, que lhe olhou espantado, e falou:

- Isto é um presente, por sua coragem... e para se lembrar do que fez hoje por mim. Lembre-se, sempre que olhar para ele, que sua coragem é a maior arma que você tem contra o mundo.

Shaoran quase não ouvira aquelas palavras. Olhava fascinado para ela. Finalmente podia ver a cor de seus olhos e nada mais importava: eram verdes, verdes como aquela esmeralda que jazia no pente que segurava... e neles havia uma força estranha, quase hipnotizadora, que fazia querer apenas olhá-los... e nada mais! Completamente confuso, ele conseguiu balbuciar:

- Eu... eu me lembrarei.

O duque D'Avingnon chegou e pegou na mão de sua noiva, dizendo:

- Temos que ir, querida.

Ela puxou a mão da do menino. E ele despertou de seus devaneios. Desejou desesperadamente pedir para que ela ficasse, ou, ainda, que ele fosse embora com ela... ela parecia ser tão especial... Queria ficar com ela para sempre... ela se afastava cada vez mais dele, sorrindo e dizendo:

- Adeus, Shaoran... espero ter um filho como você, um dia... seja sempre corajoso...

Ele assistiu o duque lhe bater com as mãos. Viu ela entrando na carruagem, viu ela se afastar lentamente... e sentiu uma grande tristeza que parecia paralisar todo o seu ser... embora desejasse ardentemente perseguir a carruagem...

- Agora, vamos, seu moleque! – disse o diretor, com raiva no olhar, puxando rudemente Shaoran para dentro – Agora você vai levar a pior surra que já tomou na vida, para aprender a ser bonzinho!

Shaoran o olhou, tolamente, ainda incapaz de raciocinar direito... parecia que parte dele havia ido embora com ela. O diretor deu mais um puxão forte no braço dele e disse:

- Que foi? Virou um desmiolado? Ande logo!!! Você vai ter que trabalhar muito para compensar o tempo perdido!

Shaoran parecia não conseguir processar as palavras direito. O homem explodiu de raiva e, então, tentou tirar o pente das mãos do menino... ele pareceu finalmente acordar. Rápido, ele reagiu e escondeu com o corpo o objeto, dizendo firmemente:

- Está bem... eu irei... e aceitarei o castigo que você me impor, mas deixe-me ficar com este pente.

O diretor pareceu genuinamente surpreso. Desde a sua chegada, aquele garoto havia se mostrado selvagem e rebelde. Era a primeira vez que agia com educação e isso o desarmou um pouco. Ele falou:

- Muito bem... permitirei que fique com o pente, mas saiba que você será severamente castigado, independente do que o duque falou para você.

O garoto não se importou. Ele olhou mais uma vez para o objeto que trazia em suas mãos. Sentia que ele o enchia de coragem, de força para suportar todos os desafios que teria pela frente. Pela última vez, depois que entrou no prédio, ele olhou para a estrada , por onde a carruagem havia sumido... e as portas se fecharam a sua frente.

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Depois de algumas horas, o duque e Lady Avalon chegaram na "Maison de Avingnon". Resolveram que, depois do susto tão grande, era melhor não irem ao baile ao qual estavam a caminho. O duque sentou-se na sua cadeira, em frente a lareira e tomou um gole de Brandy, pois julgava precisar de algo mais forte que o champanhe. Falou então para sua noiva:

- Que susto passamos, não querida? Se não fosse o jovem Lisbury, provavelmente estaríamos a pé, neste momento... ainda voltando para casa, ou coisa pior!

- É verdade... – concordou a moça, pensativa – e poderia ter acontecido coisas piores mesmo!

O duque estremeceu por um momento e disse, com a voz um pouco mais suave:

- Eu tenho pena do garoto... sei exatamente como aquela escola pode ser cruel... mas lá aprendi lições valiosas... você só precisa ser durão o suficiente para agüentar!

A moça sorriu de falou:

- Eu sei que ele é durão... e que vai agüentar!

O duque sorriu e olhou com imenso carinho para a moça, estendendo-lhe a mão:

- Ele me parece ser um rapaz especial... mas creio que o conde não veja que filho maravilhoso tem – ele suspirou e sorriu, acariciando suavemente a palma branca da mão dela – Eu espero que você possa me dar filhos tão especiais como ele...

De repente, a moça retesou-se. Retirou sua mão da dele e afastou-se, devagar, ficando de costas para o homem, que a olhou, confuso:

- Querida... o que aconteceu? Está se sentido bem?

- Eu...

Ela parecia não ter palavras para dizer o que tinha que dizer. Olhou para sua mão direita e viu o belo anel de noivado, com um rubi imenso engastado, faiscar a luz do fogo da lareira. Depois de um longo silêncio, ela falou hesitante:

- Maurice... eu... eu não quero mais me casar com você.

Uma madeira estalou alto no fogo. Na verdade, o fogo crepitante e o som do vento forçando as janelas eram os únicos sons audíveis. Talvez... se ela tivesse jogado uma bomba ali, ele não ficaria mais surpreendido. Depois de um longo tempo, ele conseguiu balbuciar:

- O que... o que você acabou de dizer?

- Eu... não posso... eu não quero mais me casar com você, Maurice! – ela volveu, calmamente.

Seus olhos arregalaram-se tanto que seu monóculo caiu e quebrou-se. Sua boca estava entreaberta e seu desalento era tanto que ele parecia extremamente patético. Ela já sabia que ele ia fazer aquela pergunta, mas esperou pacientemente, até ele conseguir forças para simplesmente questionar...

- ... por quê?

Ela olhou firmemente para o fogo, quando falou, meio hesitante:

- Eu... bem... depois de tudo o que aconteceu hoje... eu... eu pensei mais sobre mim... sobre o que eu realmente quero... e percebi que... eu... eu não desejo realmente me casar com você. – ela se virou e o encarou, com tristeza – Você é uma pessoa maravilhosa... o jeito como você agiu hoje foi espetacular, salvando a mim e ao menino de um destino terrível, mas... mas... eu não amo você.

- Não... me... ama? – perguntou o homem, como se hipnotizado, vivendo um terrível pesadelo do qual não conseguia acordar.

Ela negou com a cabeça:

- Não... eu não o amo! E... desejo me casar... por amor.

Então, o desespero, caiu sobre o homem. Deixou o copo cair, espalhando o líquido de cheiro forte em boa parte do tapete caro, ajoelhou-se, ferindo-se com os cacos de vidro, mas não se importando, foi até ela, naquela posição totalmente submissa e constrangedora e agarrou a barra de seu vestido, gritando:

- Por quê... POR QUÊ????!!! O que foi que eu lhe fiz?! Qual é o meu problema? ME FALE!!! Me fale e farei de tudo para mudar... e ser perfeito aos seus olhos! É alguma coisa que eu fiz?! São meus modos? É algo na minha aparência?! – ela nada respondeu e ele ficou ainda mais desesperado, se possível – Me diga! Porque eu faço qualquer coisa... farei qualquer coisa para você me amar como eu a amo!!!

Mas ela parecia decidida. Afastou-se dele e disse, com uma voz quase sumida:

- O problema não é você... mas sim os meus sentimentos... não consigo amá-lo, só o vejo como um bom amigo! Nada mais. Eu sinto muito, Maurice... mas... não dá.

Ele ficou imóvel, incapaz de falar qualquer coisa. Seu desespero era palpável. A moça, um pouco constrangida, falou então:

- Eu... eu vou embora... o mais breve possível... – e voltou a se desculpar – Eu realmente sinto muito, Maurice...

E saiu da sala, deixando o homem preso a um terrível sofrimento... tudo parecia estar tão perfeito... o que ele fizera? O que acontecera para ela mudar de idéia? E a pergunta que não saia da sua cabeça... por mais que ela tenha explicado...

...por quê???

...POR QUÊ???!!!!

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Do lado de fora da sala, ainda encostada na porta, a moça suspirou. Fora difícil, mas conseguira! Caminhou pelo corredor calmamente, até chegar em frente a porta principal, onde um lacaio que fazia a vigília noturna jazia sentado, meio sonolento, em uma cadeira de espaldar alto. Ele se pôs imediatamente alerta ao ver a moça e perguntou:

- Vai sair agora, Madame? Está um pouco tarde...

- Vou dar uma volta pelo jardim, estou sentindo aqui dentro um pouco abafado.

O moço sorriu cortesmente, e, sem fazer mais perguntas, abriu a porta, permitindo que ela saísse. A lua continuava firme lá no céu, iluminando o caminho até os belos jardins que, naquela época, ainda sustentavam os últimos botões de rosas desabrochados, antes que o derradeiro outono chegasse. Mas não pensava nas flores e sim no pesado anel de noivado. Sentia-se mal por fazer aquilo, mas sabia que não poderia enganar o duque daquele jeito. Retirou o anel do dedo... o duque ficara tão desnorteado que acabara esquecendo-se de pedi-lo de volta...

Ela deu um pequeno sorriso, misterioso e indecifrável, e guardou o anel dentro da bolsa. Então, ela penetrou ainda mais pelo jardim, deixando que as sebes altas encobrissem a luz da lua e a mergulhasse na escuridão, pensando que logo chegaria aonde ela queria...

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Fim do primeiro capítulo... o que vocês acharam??

Se vocês estiverem um pouco confusos, não vou estranhar... na verdade, até pra mim mesmo é uma grande novidade: um romance histórico. Sempre adorei Barbara Cartland e, bem... livros de banca de revista (Sabrina, Júlia... vocês sabem, enfim!). Quando leio um livro desses, me encanto com as histórias, com a época, com as tradições, os bailes, os vestidos... enfim, tudo... e "Sem coração" foi uma idéia que surgiu assim como um cometa fumegante em minha imaginação (se vocês repararem na minha bios, ela nem está ainda classificada no tópico "projetos")... detalhada, estruturada... e o mais importante: com começo, meio e fim. Claro que ainda falta definir algumas coisas, mas minha imaginação não está me deixando na mão então... é de se esperar que essa história se encaminhe bem... mas, antes de mais nada, vamos esclarecer mais algumas coisas...

Escolhi o século XIX porque eu simplesmente adoro a chamada "Era vitoriana", que durou 64 anos e começou, segundo alguns historiadores, em 1837. Porém, prestem atenção, eu não defini uma data certinha. Talvez futuramente eu faça alguma referência que dê uma idéia de ano exato, mas por enquanto, não defini nada ainda...

Vocês devem ter percebido que eu mudei alguns nomes, não é? Essa mudança vai ficar ainda mais acentuada no 2 cap em diante, mas vou logo fazer algumas colocações. Seguinte: como se trata de uma fic que se passa na Europa, achei, por bem, mudar os sobrenomes. O sobrenome do Shaoran foi um dos únicos que eu mudei completamente, embora o Li se mantenha como sobrenome da mãe dele e também seja uma abreviação de Lisbury. Mais explicações, cap 2.

Noire Lissé é o nome de um internato fictício.

Eu sei que o capítulo está pequeno, mas, quem já leu UAE percebeu que, ao longo dos capítulos, o número de palavras vai aumentando significantemente. SC não deverá ser uma exceção.

Algumas notas culturais: "Noire" significa negro, trevas em francês.

"Mansion" é mesmo que mansão, casa, em francês.

Brandy é uma bebida que corresponde ao conhaque, muito apreciada pelos europeus.

Por fim, mas não menos importante... eu quero agradecer muito a minha amiga Yoruki Hiiragizawa, que mais uma vez concordou em fazer a revisão da minha fic e que me quebra sempre os meu galhos... XDD

Bom... por enquanto é só... eu sei que é só o começo e que ainda tem muito chão pela frente, mas, por favor, mandem reviews, certo? Lembrem-se que o incentivo é super importante para mim...

Por aqui eu vou ficando...

KISSUS... Cherry hi