Capítulo 12

Os olhos azuis foram para além da janela, para os enormes guindastes que riscavam os céus enquanto erguiam em seu cabos materiais pesados para o topo dos prédios sendo reformados, foram para as ruas ao longe movimentadas e logo depois perderam-se no horizonte enquanto o dono das íris claras perdia-se em pensamentos.

Por três anos a reconstrução de Zathar estava sendo vagarosa e cuidadosamente planejada, pois embora o pequeno planeta tenha sofrido um ataque ou outro ao longo dos anos, nada foi tão grandioso e intenso quanto a invasão de Mar'De-Gra. Prédios vieram abaixo como se tivessem sido derrubados pelo sopro do vento, encerrando com os seus escombros a vida de centenas de zatharianos. Valas surgiram nos asfaltos das ruas, criando enormes feridas no meio da capital. Lojas foram depredadas, as casas dos cidadãos invadidas e saqueadas, pessoas foram feitas prisioneiras, outras escravas. O trauma de tudo que aconteceu ainda podia ser visto nos rostos dos habitantes do planeta e na expressão cansada daqueles que tentavam consertar tudo o que aconteceu.

Na expressão cansada de Rhian.

A volta da família real a Zathar foi uma notícia bem recebida por muitos e vista com desagrado por outros simplesmente porque a partida da mesma, em primeiro lugar, foi considerada um ato de covardia por vários integrantes da população. E mesmo que a razão de seu governante ter deixado Zathar tenha sido explicada, ainda sim ele era alvo de críticas severas cada vez que algo dava errado no processo de reconstrução do planeta.

Os zatharianos souberam que algo tinha mudado na guerra no momento em que os soldados híbridos controlados por Mar'De-Gra deixaram de se mover, oferecendo uma oportunidade para o contra-ataque. Mas a notícia de que eles realmente poderiam respirar aliviados veio quando Aldric enviou uma mensagem ao Conselho de Guerra informando sobre a derrota do inimigo que havia os seguido até a Terra.

Entretanto, retornar a Zathar e trazê-la de volta a sua antiga glória era mais fácil de fazer na teoria do que na prática. O planeta se tornou um local de risco para investimentos externos e Rhian trabalhou intensamente nos primeiros meses de seu retorno para refazer alianças que foram perdidas com a guerra. Alianças essas que o fizeram trincar os dentes de raiva pois obrigaram o monarca a permitir algumas regalias aos seus novos aliados se quisesse a ajuda deles para reerguer o planeta.

Novos tratados de comércio foram feitos, novos acordos políticos selados. Nos últimos três anos não se passou um dia em que Rhian pôde respirar aliviado porque teria o prazer de acordar um pouco mais tarde ou passear pelos jardins do palácio recém reformado. Não quando desde o momento em que ele abria os olhos até o cair da noite tudo o que ocupava o seu tempo eram reuniões, encontros de Estado, tratados e discussões sobre o que fazer para auxiliar uma ou outra província de Zathar.

E nesses momentos Rhian sentia saudades de ser apenas Hans, aquele que nada mais era do que o guarda real de um príncipe fugido e que entre uma armação e outra era arrastado por uma cidade terráquea por uma adolescente de expressivos olhos azuis e sorriso largo no rosto bonito.

- Uma moeda por seus pensamentos. - Rhian piscou, desviando o olhar da janela para Eileen que acabara de entrar no aposento e fechava a porta atrás de si.

Rhian suspirou. Cada vez que a sua irmã aparecia era porque algo precisava ser revisado, lido ou assinado. Automaticamente ele recolheu a caneta tinteiro para rabiscar na linha marcada. Ultimamente vinha fazendo isto sem nem ao menos passar os olhos sobre o contrato. Com certeza deve ter vendido a alma para alguém umas vinte vezes sem nem ao menos saber.

- Sem nada para assinar hoje. - Eileen explicou quando viu a reação do irmão a sua presença e com um sorriso puxou a cadeira em frente a mesa dele e sentou. Rhian somente suspirou e largou a caneta sobre a mesa, arqueando as sobrancelhas para a mulher.

Ambos passaram minutos em silêncio, somente olhando um para o outro.

- E então? - Rhian perguntou quando se cansou de estar sob o olhar avaliador de Eileen. Algo ela queria, podia ver na expressão dela.

- No que estava pensando? - a mulher perguntou, o que a fez receber do irmão uma expressão descrente.

- Nada em particular. - disse, desviando o olhar do rosto dela para os papeis sobre a mesa perdidos entre pastas, material de escritório, alguns bibelôs, presentes de dignatários estrangeiros, e duas ou três molduras com fotos.

Eileen acompanhou o movimento de Rhian com o olhar até que o viu mirar por mais de dois segundos uma moldura antes de desviar os olhos novamente para o rosto dela.

A foto na moldura não tinha nada de interessante. Era uma foto de Eileen segurando no colo Aldric ainda bebê. Mas era a pequena foto presa no canto superior direito da moldura que chamava mais a atenção.

Haviam duas pessoas na imagem, sendo uma delas o próprio Rhian quando ele ainda se passava por Hans, com uma expressão séria no rosto mas um brilho divertido nos olhos enquanto era abraçado pelos ombros por uma menina de longos cabelos negros e sorriso largo. Era uma foto daquelas tiradas em cabines de fotografia que Eileen viu em uma esquina ou outra de Tóquio nas poucas vezes em que pôde passear pela cidade sem o peso da culpa do que estava prestes a acontecer pesando em suas costas. Não sabia quando Rhian tirou aquela foto com a princesa, mas sabia que a mesma, agora, era o bem mais precioso do irmão.

- Tem notícias da Terra? - perguntou Eileen em um tom como se perguntasse sobre o tempo e Rhian encolheu os ombros.

O rei havia se tornado uma persona non grata no planeta azul, mesmo que tenha recebido o perdão da rainha Serenity e do rei Endymion (embora Endymion tenha oferecido o seu perdão de maneira bastante contrariada, somente cedendo quando recebeu um olhar atravessado da esposa). Entretanto, para algumas senshis – e nisto Rhian destacava particularmente a Neo Sailor Moon – ele seria fritado no lugar se ao menos considerasse aparecer na frente delas novamente (palavras de Sailor Europa).

- A reconstrução de Tóquio de Cristal foi encerrada seis meses atrás. Sabe que o reino é muito melhor preparado para esse tipo de ataque. - ficou surpreso quando recebeu a notícia da própria rainha Serenity, informando sobre a finalização das obras, e a mulher somente riu quando viu a expressão chocada dele na tela do comunicador subespacial que ela cedeu ao rei antes da partida dele para assim ambos manterem contato.

Rhian evitava usar o dito comunicador mais do que o necessário pois embora os satélites e portos espaciais, com antenas transmissoras, que cobriam a distância entre a Terra e Zathar permitissem com as mesmas tivessem contato, cada vez que o homem via o rosto sorridente da monarca na tela do aparelho, sentia o peso da culpa em seu estômago, o fazendo ficar nauseado.

Por muitas vezes, entre diálogos sobre acordos de cooperação, conselhos sobre como dividir a renda para a recuperação de Zathar, Rhian viu-se abrindo a boca e a fechando em seguida, engolindo a pergunta que martelava na sua mente desde que subiu na nave oferecida pelo governo de Tóquio de Cristal e partiu do mesmo com suprimentos e mão de obra para auxiliar na reconstrução do planeta. Muitas foram as vezes em que Rhian simplesmente teve que se refrear para não dizer: "e Selene, como ela está?"

Estava curioso. Serenity falava sobre tudo e nada em suas breves conversas. Falava sobre como a cidade se recuperava, dizia que não o culpava pelo que fez e que compreendia como ninguém o apego e devoção que ele tinha ao seu povo. Rhian tentava se justificar, dizendo que devoção nenhuma perdoava o fato de que ele quase tirou a vida de Sailor Estelar. Ao ouvir isto, Serenity apenas sorria levemente, um sorriso triste e cheio de segredos que Rhian não compreendia, e mudava de assunto rapidamente.

E então a conversa voltava para planejamentos e acordos políticos e normalmente era interrompida quando Serenity ou Rhian tinham a presença requisitada por algum funcionário os lembrando de alguma reunião que lhes escapou da mente.

Entretanto, em todos os contatos que tiveram, a rainha evitava mencionar a família. Mentira, a rainha falava sobre Serena, sobre como ela conseguiu uma vaga na Universidade de Tóquio. Falava sobre Endymion e como o rei estava em viagem diplomática em países e planetas vizinhos, falava sobre o pequeno Endie e suas peripécias. Mas jamais falava sobre Selene e Rhian simplesmente não conseguia inquirir pela garota.

Contudo, sabia que ela estava bem, acreditava nisso. Quando partiu da Terra, partiu com a notícia de que Selene havia despertado de seu coma e se recuperava pouco a pouco. Não fora visitá-la depois que ela acordou. Nas poucas vezes em que a vira sobre uma cama de hospital, conectada a vários aparelhos, após receber olhares atravessados das neo senshis, Selene dormia profundamente. Nesses momentos Rhian segurava na mão pálida e frágil dela, lhe acariciava os cabelos e pedia perdão repetidamente até a sua voz ficar rouca.

Mas após ela ter acordado, o rei simplesmente assentiu positivamente com a cabeça, agradando-se diante da boa notícia, subiu na nave e foi embora da Terra sem olhar para trás.

Poderia contatá-la. A rainha havia sido matreira o suficiente para inserir no comunicador a frequência do comunicador de Sailor Estelar, por isso evitava falar sobre ela, porque Rhian poderia esclarecer as suas dúvidas por ele mesmo. Mas o homem não tinha coragem.

Não tinha coragem de pressionar os números e esperar a conexão se completar. Não tinha coragem de ver o rosto dela aparecer na tela porque tinha medo do que iria encontrar nele. Será que encontraria a mesma tristeza profunda que inundou os olhos azuis quando se despediram naquela estufa durante o ataque final de Mar'De-Gra? Ou ela o receberia com um sorriso enorme no rosto, o mesmo que lhe deu quando se beijaram sob a luz da lua no topo de uma das torres do palácio de cristal? Veria uma expressão furiosa? Uma compassiva? Uma amorosa? Não queria saber.

Embora as lembranças boas que tinha de Selene fossem poucas, eram o suficiente para afogar as ruins e preferia mantê-las do que tê-las arruinadas por uma simples ligação.

- Eu sempre achei irritante como a contagem de tempo para nós, em relação a Terra, é extremamente diferente. - a voz de Eileen trouxe Rhian de volta de seus devaneios. - Enquanto para os terráqueos mil anos é muito tempo, para nós é muito pouco. - Rhian suspirou longamente.

Essa discussão de relatividade entre espaço e tempo era antiga entre os irmãos e extremamente irritante. Era difícil explicar em comparação a alguns outros planetas a razão da longevidade dos zatharianos, pois a explicação era uma mistura de física, química, astrologia e sobrenatural que era complicado de equacionar.

- Mas quando Zathar entrou em contato, pela primeira vez, com o reino da Terra, eu ainda estava em processo de existência. - Rhian suspirou, permanecendo calado somente para saber onde isso tudo iria dar. - E você havia acabado de ascender ao trono. - Ark-Ra suspirou mais uma vez. Quando foi coroado rei ainda era um molecote para os padrões de maturidade zathariana. Mas o seu pai havia perecido.

Diferente de Rhian, o velho rei Aldric viveu muitas centenas de anos antes de se casar e ter herdeiros. Diferente de Rhian, apesar de carregar o sangue da Casa dos Ra nas veias, o homem não possuía um terço do poder do filho. Logo, quando a longa temporada inverno assolou Za-Xmyr, deixando muitos adoentados, o rei foi um daqueles que pereceu diante do clima adverso, deixando para trás uma rainha viúva e grávida de seu segundo filho e um príncipe despreparado.

Logo, assim que foi declarado rei e sob o conselho do parlamento, Rhian começou a visitar aliados e procurar novos em reinos distantes, indo parar, assim, na Terra.

- Há alguma razão para esta conversa, Eileen?

- Mamãe ainda me carregava na barriga quando você conheceu Estela. Ela me contou como a guerreira terráquea simplesmente virou com a sua cabeça de modo que o fez parecer novamente o príncipe irresponsável que foi na sua juventude ao invés do rei que deveria ser. Mas ela também me contou que Estela trouxe de volta ao seu rosto algo que pensaria nunca mais ver: um sorriso.

Rhian suspirou. Quando se tornou rei, foi para substituir um monarca que por anos governou Zathar com pulso firme e estabilidade. O planeta prosperou, avançou militarmente, tecnologicamente e culturalmente por causa de seu pai. Rei Aldric fizera muitas coisas pelo seu povo, consertando muitas besteiras feitas pelo seu predecessor que quase levou Zathar ao buraco. Logo Rhian soube que era um fardo pesado que ele teria que carregar. O seu avô Wulfric quase destruíra Zathar com a sua tirania e a sua paranoia beirando a loucura. O poder lhe subira a cabeça de tal maneira que aquele que se opusesse à ele perdia, literalmente, a cabeça. Apagar a imagem ruim que o homem deixou mesmo após a morte foi a primeira missão de Aldric quando ascendeu ao trono.

Agora, com ele morto e Rhian no poder, o mesmo sentiu que precisava honrar a memória do pai de maneira a fazer todos perceberem que ele estava disposto a seguir os passos de Aldric e não de seu avô.

Logo Rhian tornou-se distante, sério, abandonou a postura indiferente e irresponsável da juventude e vestiu o manto de soberano de maneira a transformar o mesmo em uma barreira intransponível entre o mundo real e os seus sentimentos. Estela, com um olhar, o despiu sem nem ao menos pedir permissão, o deixando exposto de maneira dolorosa para o mundo.

E então, quando ela morreu, escolhendo Endymion à ele, Rhian novamente se enrolou no manto da seriedade e responsabilidade e adicionou ao mesmo uma camada extra de zaphira para assim torná-lo realmente impenetrável.

Somente para vê-lo ruir em cacos, centenas de anos depois, diante de um simples olhar da princesa Selene.

- Eileen... - Rhian chamou em um tom cansado. Por um acaso a sua irmã pretendia chegar a algum lugar com aquela história?

- Olhe. - Eileen apontou para a moldura onde a pequena foto estava presa e Rhian desviou o olhar para a mesma. - Não vejo lábios se alargando e dentes à mostra, mas até mesmo em uma imagem imóvel e congelada no tempo eu consigo ver o brilho de um sorriso em seu olhar.

- Onde você quer chegar com isto, Eileen?

- Zathar está se reerguendo, as críticas sobre a nossa partida diante do ataque estão esmorecendo, logo voltaremos ao nosso auge e acredito que o parlamento esteja certo: está na hora, depois de tanto tempo, de termos um casal real no trono. - Rhian alargou levemente os olhos. - E acho que você já encontrou a sua rainha, não é mesmo?

- Não seja ridícula. Pensei que já tínhamos resolvido isto quando nomeei Aldric meu herdeiro. - Eileen assentiu positivamente com a cabeça diante das palavras dele.

Quando o parlamento começou a pressionar Rhian, anos atrás, sobre casamento e herdeiros, o homem resolveu o problema em dois tempos nomeando o sobrinho o seu herdeiro legal ao trono. Aldric ficou surpreso na época e extremamente assustado diante dessa virada em sua vida, pois da noite para o dia ele deixou de ser um simples lorde para virar um príncipe, mas aceitou a nova responsabilidade com dignidade e zelo.

Contudo Eileen sabia que era algo que o filho não queria para si, mas como era dedicado ao povo de Zathar, assim como Rhian, iria aceitar o peso da coroa porque as outras opções não eram das melhores (um primo distante em um dos arquipélagos que não era muito regulado das ideias e um outro que fazia parte do parlamento e cuja ambição fazia todos temerem que ele se tornasse um novo Wulfric Ark-Ra).

- Verdade... Mas Aldric me confidenciou que tem desejos de retornar à Terra, concluir os seus estudos por lá e nesse meio tempo cortejar uma certa princesa. - Rhian quis bater com a testa no tampo da mesa, o que ele fez de pronto.

Sabia que Aldric estava escondendo algo desde que voltaram a Zathar. O sobrinho sempre lhe lançava longos olhares e abria a boca para dizer alguma coisa, mas mudava de ideia no meio do caminho e nada dizia. Sabia, também, que o jovem não tinha desejo de ser rei, mas como era a única opção viável para o cargo não objetava sobre a decisão de Rhian, o que deixava o homem mais velho ainda mais culpado.

E agora vinha Eileen com essa conversa para piorar o seu dia.

- E se o namorico dele com a princesa Serena não der certo? - Rhian cutucou. Sabia que Aldric queria voltar a Terra mais por Serena do que pelos estudos.

- Ele ainda seria um ótimo embaixador de Zathar na Terra, não acha? Creio que ter Endymion e Serenity como fortes aliados é uma boa maneira de evitar, futuramente, incidentes como esses. E se você se casar com Selene então...

- Eileen! - Rhian espalmou a mão no tampo da mesa, ocasionando um som seco e estalado que interrompeu a mulher. - Não tenho interesse em me casar, ainda mais com a princesa Selene. - Eileen mirou o irmão longamente e recostou-se na cadeira, cruzando os braços sobre o peito.

- Não? Então por que deixou o brasão de nossa família na posse de Selene? - Rhian arregalou os olhos diante das implicações da irmã e um rubor surgiu em suas bochechas morenas. Como ela sabia disso? - Não é apenas você que mantém contato com a Terra. A rainha Serenity me conta coisas muito interessantes sobre o dia a dia da corte.

- Eileen...

- Você deixou o nosso brasão com Selene. O rei de Zathar deixou o brasão da família real com a princesa da Terra. Se o parlamento descobrir, você sabe o que isso significa. Mesmo que tenha feito isso sem outras razões por detrás dos seus atos ainda sim, inconscientemente, você fez uma escolha.

Rhian não podia desmentir a irmã e muito menos negar as palavras dela. Havia deixado o brasão como uma lembrança sua para Selene e talvez, inconscientemente, realmente tenha feito a sua escolha.

Era uma das tradições mais antigas de Zathar entre os reis do planeta.

Quando ainda príncipes, lhes eram entregues um cordão feito de zaphira bruta, diferente da refinada que era usada para o comércio, com o brasão da família real entalhado na mesma. Um brasão que indicava a alta posição da pessoa em Zathar e que só saía do pescoço da mesma em uma única ocasião:

Quando o rei escolhia a sua futura rainha.

O brasão era entregue como um símbolo de compromisso e o mesmo devia ser honrado.

Rhian não havia pensado nisso quando tirou a joia de seu pescoço e passou por sobre a cabeça de uma Selene inconsciente. A única coisa que ele pensou no momento foi que ela o perdoasse e que lembrasse dele carinhosamente cada vez que olhasse para o brasão pois, mesmo sem ter uma nota explicando, ele tinha certeza de que ela saberia a quem pertencia aquele colar.

E talvez em algum momento ele imaginou tê-la ao seu lado para todo o sempre.

- E o que você espera que eu faça? - não era como se pudesse voltar a Terra e dizer ao rei e a rainha que estava ali para pedir a mão da filha deles em casamento. Rei Endymion, no mínimo, iria lançar um raio em seu traseiro. Neo Sailor Moon o pulverizaria em um instante sem nem ao menos considerar o tamanho da confusão política que isso iria dar.

- Você sempre lutou tanto por Zathar, mas acho que está na hora de lutar um pouco por você.

- Eileen...

- Não! Eu não quero ouvir desculpas, eu não quero ouvir mais nada! O que eu quero é ver você no espaço porto agora mesmo porque há um transportador prestes a sair da doca cinco em direção a estação espacial seis onde uma nave o aguarda para levá-lo a Terra. As suas malas já foram despachadas. - Rhian arregalou os olhos. Eileen era perigosa quando colocava uma ideia na cabeça.

- E o parlamento?

- Desse cuido eu.

- Mas...

- Mas nada Rhian! VAI! - gritou exasperada e Rhian deu um pulo, saindo da cadeira e deixando o escritório rapidamente diante da expressão furiosa da irmã.

Eileen sorriu presunçosa quando ouviu a porta do aposento bater diante da partida abrupta de Rhian. Agora tinha que contatar Serenity para informar a ela que o teimoso do seu irmão estava a caminho e que a sua parte do plano foi concluída. Agora tudo estava nas mãos da rainha da Terra. E que eles tivessem muita sorte, porque iriam precisar.

oOo

- Pela sua cara, parece que você está indo para um funeral. - Selene desviou o olhar das enormes janelas no corredor que davam vistas para uma recém reconstruída Tóquio de Cristal, para Serena que vinha em sua direção trajando um belo vestido longo de festa tomara que caia em uma cor azul marinho. Os seus cabelos rosados não estavam no usual penteado de marias-chiquinhas, mas sim com parte deles preso em um elegante coque no topo da cabeça e a outra parte descendo em cachos largos sobre os ombros desnudos.

- Não estou em espírito festivo. - Selene deu de ombros. O seu longo vestido perolado possuía uma única alça bordada do lado esquerdo, com detalhes em dourado, e os cabelos negros estavam soltos e jogados sobre o ombro direito.

- É o seu aniversário! - Serena exclamou e recebeu de Selene um olhar que dizia: sim e daí?

Serena suspirou, erguendo levemente a saia de seu vestido e se acomodando no parapeito da janela onde a irmã encontrava-se sentada apreciando a paisagem noturna de Tóquio e as luzes brilhando a distância.

- Não é todo o dia que fazemos dezoito anos. - disse e Selene a mirou por um segundo com as sobrancelhas arqueadas antes de voltar o olhar para a janela e os prédios ao longe. - As pessoas estão perguntando...

- Você é boa em inventar desculpas, sei que vai cobrir por mim. - Selene a cortou e Serena suspirou.

Sentia falta da sua irmã, da menina geniosa que discutia com ela deveres e direitos de ser uma Sailor. Da garota que dava caretas quando era arrastada para uma reunião diplomática e que sumia com um rastro de poeira da escola assim que o último sinal do dia tocava. Sentia falta da irmã que a abrigava nas noites de tempestades enquanto trovões e raios ressoavam pelos céus, que guardava dos pais os seus segredos sobre paqueras da escola e a quem ajudava nas lições de casa. Porque a jovem na sua frente não era mais ela.

Ao menos não em muitos aspectos.

O gênio estourado deu lugar a um temperamento moderado. Selene parecia ter medo das consequências se perdesse por um minuto que fosse a paciência. As caretas não eram mais dadas quando tinha que participar de uma reunião. Apenas um leve desagrado aparecia em sua expressão mas mais nada ela dizia. A escola tornou-se o refúgio de Selene. Estar na mesma, imersa em livros, a fazia esquecer a paisagem caótica da cidade e o barulho das máquinas quebrando e reconstruindo prédios e casas.

E quanto as discussões sobre os direitos e deveres de ser uma Sailor? Essas não existiam mais. Sailor Estelar morreu no dia em que Selene acordou do coma, no hospital, há três anos.

Hoje, o que havia na frente de Serena era a personificação da princesa ideal: recatada, calma, diplomática e graciosa. Como uma estátua perfeita de mármore sem emoções.

Serena a odiava.

E queria gritar, chorar, sacudi-la até ver um relance que fosse da menina com quem cresceu. Porque sabia que ela estava escondida por detrás da máscara impassível no rosto da irmã. Podia senti-la pela conexão espiritual que ligava o príncipe e as princesas. Sabia que Selene estava lá no fundo dessa menina estranha, gritando, implorando para ser libertada e tendo as suas súplicas abafadas pela indiferença da princesa na sua frente.

- Selene... - tentou negociar, mas a irmã não mais prestava atenção na sua pessoa, ocupada demais em apreciar a paisagem da cidade enquanto rolava entre os dedos o medalhão que sempre carregava desde que encontrou o mesmo em seu pescoço ao acordar no hospital.

Serena suspirou mais uma vez e se levantou.

- Quando estiver pronta, estamos te esperando no salão. - declarou. Sabia que Selene daria o ar de sua graça na própria festa, mas provavelmente quando essa já estivesse no auge com muitos dos convidados embriagados o suficiente para esquecerem que a anfitriã não se encontrava no local.

Selene nem ao menos reconheceu as palavras da irmã ou o fato de que a mesma lhe lançou um longo olhar triste antes de virar sobre os saltos e sumir corredor abaixo, pois os seus olhos estavam mais ocupados não em ver a paisagem ao longe, mas sim o reflexo que o vidro da enorme janela lhe mostrava.

Ela não gostava do que via. A estranha a mirando de volta não era ela ou ao menos, Selene não a reconhecia.

O rosto não havia mudado muito, apenas amadurecido, os olhos azuis grandes e expressivos agora eram opacos e distantes e os lábios que viviam abertos em um sorriso permaneciam eternamente cerrados em uma expressão séria. Era como olhar para uma pintura mal feita dela mesma e achar estranho mas ao mesmo tempo reconhecer nos traços a própria imagem.

Mas o pior não era o reflexo indesejado, mas sim o vazio.

Havia um vazio dentro dela que Selene não sabia classificar.

Não sabia dizer se foi ocasionado pela culpa, pela saudade ou pelo fato de que ela proibira-se de usar os poderes do Cristal Estelar novamente. Porque essa era a pior parte.

Selene sentia a energia pulsando dentro dela, mais intensa do que antes de sua breve morte e quanto mais ela a reprimia, mais ela latejava como em um gesto de rebeldia diante da opressão de sua mestra. Sentia a energia percorrendo por sob a sua pele, ocasionando faíscas nas pontas de seus dedos quando algum embaixador ou conselheiro a irritava a ponto de fazê-la trincar os dentes de raiva, sentia a energia querendo explodir em todo o seu ser e forçar uma transformação que ela não queria que ocorresse.

Uma batalha acontecia entre Selene e o Cristal Estelar dentro da mesma. Por um lado Selene recusava ouvir o chamado do cristal para reassumir o seu posto de Guardiã Estelar, de Sailor Estelar, por outro o próprio cristal gritava mais alto em seus ouvidos a lembrando de que esse era o seu destino e que Selene não podia fugir dele para sempre.

E, também, haviam os sonhos.

Estela parecia ter feito de sua missão retornar do mundo dos mortos para assombrá-la em pesadelos. A diferença era que desta vez a mulher não lhe mostrava imagens de sua curta vida, mas sim imagens do que Selene poderia ter tido. Porque os seus sonhos não eram estrelados por Rhian e Estela, mas sim por Hans e Selene.

Coisas simples como passeios no parque, discussões mundanas entre namorados, decisões de casal, jantares a dois, os seus sonhos eram regados de uma rotina como se ela estivesse vivendo um relacionamento sério com Hans em seu inconsciente e isto a machucava. Machucava porque quando abria os olhos pela manhã, sempre desejava não tê-lo feito. Desejava que este mundo fosse o sonho e o outro a realidade. E o seu desejo nunca era realizado.

E então, o que lhe sobrava era o medalhão que encontrou em seu pescoço ao acordar no hospital, o medalhão que ela sabia pertencer a Hans por tê-lo visto várias vezes repousado sobre o peito dele. A única e cruel lembrança que tinha dele. Essa e os malditos sonhos.

Suspirou, baixando os olhos para a joia em suas mãos. Sabia que depois de três anos, de tanto apreciá-la, poderia descrever cada detalhe dela a um bom desenhista, possibilitando que a mesma fosse recriada com perfeição.

O som de um farfalhar de tecido e alguém sentando-se na sua frente fez Selene soltar outro suspiro. Deduziu que pelo par de pernas coberto por uma calça negra a qual via por entre os cílios indicava que o seu novo acompanhante deveria o ser o seu pai. Endymion parecia fazer de sua missão trazer do buraco em que Selene se escondia a menina teimosa que era a sua filha.

- Eu irei em breve para o salão, me dê apenas alguns minutos. - falou antes que o rei pudesse dizer qualquer coisa, com os seus olhos ainda mirando o medalhão em suas mãos.

- Sem pressa. - a voz que a respondeu não era de seu pai e isto fez Selene erguer a cabeça em um estalo e mirar com os olhos largos o homem na sua frente.

Hans estava ali e ao mesmo tempo não estava porque o que se apresentava diante dos seus olhos não era o guerreiro, mas sim o rei. Imponente, sentado elegantemente no parapeito da janela, com trajes de gala e olhar intenso sobre a sua pessoa e Selene se perguntou se não havia adormecido contra o vidro enquanto ponderava a sua vida.

Rei Rhian de Zathar estava na sua frente como um príncipe encantado que viera resgatá-la do seu mundo de pesadelos.

- O que faz aqui? - perguntou com a voz falha e discretamente se beliscou, percebendo pela dor que subiu por seu braço que estava bem acordada.

- Fui convidado. - Rhian respondeu enquanto com os olhos avaliava a jovem na sua frente.

Ela estava exatamente como Serenity a descrevera quando a sua nave pousou no espaço porto da Terra e Rhian foi de encontro a rainha. A mulher lhe dissera para se preparar, pois não iria encontrar a mesma Selene de três anos atrás, e ela estava certa. A princesa havia crescido, obviamente, tornado-se ainda mais bela do que se lembrava, mas possuía uma aura tão triste a cercando que fazia o coração de Rhian se apertar no peito.

- Convidado? - Selene franziu as sobrancelhas. - Por minha mãe. - concluiu.

- Como sabe?

- Serena e meu pai o matariam assim que o visse. Minha mãe é a única que não recorreria a tal atitude. Além do mais, esse tipo de armação é bem a cara dela. - as histórias da rainha Serenity em sua adolescência bancando o cupido para as melhores amigas eram conhecidas em praticamente todo o reino. Selene acreditava que até mesmo um musical foi feito usando como base uma delas.

Silêncio imperou entre os dois por alguns minutos.

- Serenity me contou o que aconteceu. - Rhian falou. Tudo o que a rainha não lhe disse nos últimos anos de contato através do comunicador ela lhe falara em uma reunião privada de quatro horas no solário do palácio.

- Veio me dizer que a culpa não é minha? - porque, sinceramente, Selene não precisava ouvir isso. Três anos de conversas e consolos e muita terapia administrada por Sailor Saturno não mudaram os seus pensamentos.

- Não. Não faria muita diferença, não é mesmo?

- Então veio me dizer que eu não posso mudar quem eu sou, que eu tenho um trabalho como senshi...

- Também não.

- Então por que está aqui? - perguntou em um tom ácido, com os sentimentos que enterrou há três anos retornando ao seu peito.

Acordar naquele hospital e ver o estrago que fizera na cidade, que quase fizera no mundo, não foi pior do que saber que Hans tinha ido embora sem ao menos dizer adeus. Depois de tudo que ela fez por ele, depois de todos os sacrifícios, foi ele que a abandonou em vez do inverso. Que deu as costas e a deixou para trás.

Serenity, obviamente, tentou justificá-lo. Disse que como rei, Hans possuía um compromisso com o seu povo, que Zathar precisava dele para se reerguer, e Selene entendeu. Mas Serenity também informou que havia entregue ao homem um comunicador pessoal que tinha contato direto com Serenity e a frequência de algumas Sailors para o caso de alguma emergência. E, dentre elas, Sailor Estelar. E durante três anos Hans não disse um oi.

- Porque eu senti a sua falta. - a declaração, tão calma e sincera, quebrou Selene por inteiro e de pronto apagou a chama da raiva que crescia dentro dela. - Eu senti terrivelmente a sua falta em cada hora, cada minuto, cada dia passado desses últimos três anos. E mesmo assim fui um covarde porque tive medo de falar com você. - as mãos grandes de Rhian foram até as pequenas e delicadas de Selene, envolvendo os dedos dela entre os seus.

A zaphira fria com a qual era feito o medalhão entrou em contato com a pele morna de Rhian e o homem sorriu ao perceber que era isso que a jovem tanto apreciava a ponto de ignorar por um minuto a sua presença quando ele se aproximou.

Selene ofegou e o seu coração deu um pulo no peito ao ver o sorriso no rosto de Hans. O mesmo era tão belo e tão estrangeiro que ela não soube como reagir.

- Não vou dizer que não foi sua culpa porque sei como se sente, não vou dizer que você precisa reassumir as suas responsabilidades como senshi porque sei que você está com medo. Mas vou dizer que não deixei de pensar um dia sequer em você e que espero que você acredite quando eu digo... - Rhian pausou, mirando das mãos entrelaçadas para o rosto de Selene que tinha uma expressão surpresa no mesmo.

A ideia, quando aproximou-se dela, era de apenas conversar, pedir desculpas e ver onde tudo iria acabar. Mas quando a viu sentada no parapeito da janela, lindamente vestida em um traje de gala e sendo banhada pela luz da lua, o seu coração parou e o fez perceber em como sentiu falta dela. Pouco foi o tempo que passaram juntos enquanto ele tramava, enquanto ele planejava um ataque ao reino da Terra para salvar Zathar, mas foi tempo o suficiente para criar um elo entre eles mais forte do que teve com Estela.

E quando a viu tão perdida em pensamentos, tão solitária, com a atenção presa em algo em suas mãos, Rhian percebeu que talvez o fato de ter dado o brasão da Casa de Ra para Selene não tenha sido um gesto tão inconsciente assim.

- Hans? - Selene o chamou quando o viu hesitar e voltou os olhos para as mãos dele sobre as suas quando as mesmas a apertaram levemente.

Selene sorriu, o primeiro sorriso sincero que dava em três anos.

- Selene, eu... - Rhian engoliu em seco. Sentir era mais fácil do que falar e sabia que precisava usar palavras, Selene precisava ouvir cada vírgula do seu pedido de desculpas, da sua declaração apaixonada, da sua súplica por perdão.

- Eu sei. - ela o interrompeu, retirando as mãos de entre as dele e erguendo o medalhão, passando a corrente do mesmo por sobre a cabeça e repousando o brasão sobre o colo que subia e descia em uma respiração compassada.

- Sabe? - Rhian franziu as sobrancelhas. O que ela sabia?

- Talvez eu seja mais parecida com a minha mãe do que todos pensam. Talvez eu só precise de um príncipe encantado para me salvar.

- Você não precisa que ninguém a salve. É durona, sabe fazer isso sozinha.

- Eu sei. Mas, às vezes, cansa ser o pilar forte de uma construção. E nos últimos anos o pilar foi abalado e todos esperam que eu me torne sólida novamente, como se algo assim fosse ser resolvido do dia para a noite. Não é. Leva tempo. Nunca vou deixar de sentir medo com o que sou capaz de fazer, nunca vou deixar de sentir culpa pelo que eu fiz, mas recuperar a confiança em mim mesma leva tempo. E quando o vi na minha frente, pensei que a minha mãe tinha resolvido dar o golpe de misericórdia e usado você para me sacudir do meu torpor.

- Não vou te dar sermões Selene, até porque não tenho moral para isso. E estou sendo egoísta. Não estou aqui para resolver problemas políticos ou de segurança de Estado... - Selene sorriu mais uma vez.

- Percebi isto quando você começou a se declarar para mim no pedido de casamento mais vagabundo que eu já ouvi na minha vida. - Rhian arregalou os olhos.

- O quê?

- Não sou idiota Hans. O medalhão? Sei o que significa. Ter um poder sobrenatural dentro de mim cuja origem é zathariana e a criação foi por parte de um antepassado seu me faz ter algumas noções sobre a cultura e tradições de Zathar. - o rosto de Rhian, pela primeira vez em séculos, ficou rubro de vergonha. - Nos últimos três anos duvidei que o gesto significava o que significava, mas então você apareceu e abriu a boca para falar e eu percebi que o gesto era realmente o que eu pensei que fosse.

- Me desculpe se demorei tanto tempo.

- Só peço por paciência. A Selene que você conheceu há três anos... - ela foi interrompida pela palma morna da mão de Rhian tocando a sua bochecha esquerda.

- Ainda é a mesma, apenas mais machucada pela vida, mas que ainda está aí dentro de você.

- Uma vez eu disse a Plutão que as lembranças que tinha de Estela e você mais pareciam uma versão mal feita do romance trágico que foi a história de Serenity e Endymion no primeiro reinado deles. Talvez isso tenha acontecido porque o seu final feliz era para ser comigo. - disse presunçosa e Rhian sorriu.

Lembrar de Estela não mais doía como antes. Fizera as pazes com a memória da mulher no momento em que percebeu que eles não eram para ser. A existência de Selene o fez perceber que Estela foi apenas um amor que passou em sua vida e deixou marcas, mas que não era para ser permanente.

Selene era permanente. Ela era e sempre seria a escolhida.

- Nesse caso... - aproximou o rosto do dela, sussurrando contra os lábios rosados. - Casa comigo? - e então os olhos de Selene adquiriram o brilho da adolescência, o mesmo brilho que fez Rhian se encantar por eles, enquanto ela sorriu e respondeu tão baixo quanto ele:

- Sim.

FIM