Uma face

Ainda recordo daquela cena, daquele sentimento, daquele desespero infantil e impensado daquela criança insana. Seria mentira se falasse que sinto falta dela, mas seria uma mentira maior ainda dizer que não sinto, aquela era a minha mascara, o meu disfarce.. Sem ele não me resta mais o que esconder, mas por algum motivo ainda utilizo daquela ridícula mascara laranja e guardo em minha mente aquelas palavras: "Esse rosto não é meu". Pirralho prepotente que pensou que poderia algum dia tomar o controle desse corpo e mente, eu lhe dou a chance de viver e tudo o que recebo em troca são uma tentativa ridícula de morrer ao lado de quem amou. Deveria ter sido grato a mim, se não fosse por mim ele jamais teria tido a chance de experimentar, a chance de viver e amar.. Mas no final eu ainda fui gentil e dei a ele o que ele tanto desejou, a morte ao lado do amado, claro, rancor era o sentimento que ele possuía naquele instante quando perfurei a garganta daquela outra criança..

Tobi, minha pequena criação da mente mais perturbada e insana que poderia gerar, meu filho, meu pupilo e meu maior erro. Ainda recordo de quando lhe despertei, esperei que cuidasse desse corpo até o momento certo, afinal, mesmo eu sendo alguém forte sou ainda humano, não suporto a existência continua de minha alma passando de geração por geração. Pensei que ao colocar uma mente de uma mera criança no poder teria sido o suficiente para assim eu descansar até o momento certo, mas desde que você conheceu aquela outra criança parou de agir da forma que eu desejei. Tolo, Tobi, o jovem tolo, que tipo de humano correria para a morte sem trazer no coração medo ou desespero? Levava consigo aquele sentimento conturbado e confuso no qual você mesmo dizia a si que só podia ser amor.. Onde já se viu uma criança como você se apaixonar e desejar morrer por essa paixão? Não era o certo, não era a sua função! E agora estou aqui, exaltado escrevendo tais palavras nulas, e o motivo de tudo isso? Aquela criança que nunca existiu, aquela criança na qual foi só uma criação artificial minha mas que de alguma forma achei necessário registrar essa história e os sentimentos dele relacionados a ela.

Esperava que, ao perfurar o corpo daquele jovem em sua frente faria a criança calar-se eternamente, mas não foi como eu imaginava, por algum motivo que ainda desconheço você não teve a existência apagada. Ainda lembro do que você foi, e mesmo que não fale mais dentro dessa mente ou deixe expostas as suas vontades ainda sinto aquele pequeno sentimento que você guardou. Compartilhamos o mesmo coração por três anos, pensei que seria o tempo necessário para fazê-lo entender quem eu era e qual ra a sua função, mas me surpreendeu notar que você sequer sentiu a minha existência. Estava tão envolvido com a sua própria luxuria infantil e prematura que esqueceu por um segundo que não era ninguém, só uma simples materialização de vontades infantis.

Creio que não seja mais necessário incluir meus pensamentos dentro dessa obra, por isso optarei pela tradicional narração, afinal, essa história não é minha e sim dele. Da minha pequena criação defeituosa, do meu único e verdadeiro primogênito do passar dos séculos, a perturbada criação na qual se auto-nomeou Tobi. Com o tempo que passei conheci um dos meus descendentes e ele oferecerá a mim o corpo de seu melhor amigo para eu poder habitar, o que aceitei no mesmo instante. Estava fraco, tinha acabado de sair do selamento daquela maldita raposa, na qual por algum motivo engraçado, aqueles meros humanos nos quais eu enojo nesse instante foram os responsáveis por acabarem com o poder dela e a minha prisão. Aos poucos recuperei meu poder e minhas técnicas, mas vamos direto ao Tobi, quando coloquei aquela criança no poder do meu corpo..

- Ahm?! -

Um jovem de aparentes quinze anos despertava, estava dormindo ao relento, eram aproximadamente dez da noite, o céu estava estrelado e era apenas mais um dia quente de verão como todos os outros. O jovem possuía cabelos curtos castanhos escuros, sua pele era clara porém possuía um leve bronzeado devido a constantes horas que passará no sol. Seu corpo ainda não era definido, por isso trazia consigo um corpo esbelto e longo sem músculos ou traços fortes, seu rosto não demonstrava nenhuma aparência exuberante, era apenas um jovem normal. Seus olhos em um tom escuro, quase que negro, mas não eram marcantes, eram opacos e sem graça, em geral não parecia uma pessoa excepcional.

- O que..? - levantou-se confuso, olhando em volta perdido. Por que estava ali? Mas quem era ele para estar ali? Como podia saber coisas como falar, o que eram pessoas e não ter a mínima idéia de quem era? O que havia feito ontem? Por que não trazia memórias consigo? Por que ficava se questionando essas mesmas perguntas?

Naquele momento nascia um jovem no qual nunca tinha existido e não possuía real motivo para sua existência, levantou-se e começou a vagar, a procura de alguém que o entendesse, que lhe desse respostas. Em dois meses de sua existência entendeu que estava sozinho no mundo, que ninguém olharia para ele ou o escutaria, as pessoas não perdiam tempo com desconhecidos. O mundo que via pela primeira vez mas já sentia conhecer, a rejeição que sentia a cada diz mas jurava já ter realizado alguma vez, a nostalgia de momentos que jamais ocorreram ou viriam a ocorrer.

O jovem sentou-se na margem de um riacho, ficava parado fitando o seu reflexo por horas, tentando entender o que era aquilo que via, até mesmo pessoas desmemoriadas deveriam saber quem eram, ou não? Então por que nada dos traços de seu rosto lhe pareciam familiar? Logo entenderá que quando ficava tempo demais em um lugar recebia olhares de desprezo e ouvia sempre a mesma pergunta "Tobidasu ie o?" Que poderia ser interpretada como "Ele fugiu de casa?". Se perguntava se aquelas pessoas tinham razão, ele tinha fugido de casa? Mas por que tinha o feito? Por que não conseguia saber o que era ou o que tinha feito e nem mesmo reconhecia a si mesmo? Nas margens daquele riacho ele sentiu uma leve perturbação, suas roupas negras e largas com um rastro de terra que as deixará sujas tornavam a sua aparência desagradável e afastava as pessoas a sua volta, por que isso seria diferente agora? Com um olhar inexpressivo e indiferente voltou o olhar para trás, para fitar quem se aproximará, se fosse inconveniente ia matar essa pessoa... Afinal, por algum motivo não conseguia temer o sangue, vermelho, olhos vermelhos.. Isso era algo que lhe atrai de alguma maneira, lhe fazia sentir que assim poderia se lembrar de algo.

Seu olhar deu de encontro com o inesperado, uma criança, uma menininha de pele clara, cabelos cortados um pouco acima dos ombros em um tom magnífico e brilhante. Era como longos fios de ouro emoldurando uma bela obra prima, um rosto infantil e delicado de uma menininha de seus prováveis treze anos. Seus lábios delicados e finos, levemente avermelhados abriram-se lentamente ao fitar o jovem, seus olhos em um magnífico tom de azul, tão claro e puro como o céu ou a água mostravam um pouco de interesse e curiosidade. Deu alguns dois passos em direção do jovem moreno lentamente e de modo apreensivo, como se estivesse vendo algo que não deveria ver, logo esboçou um olhar penetrante e irritado e mordeu os lábios, como se estivesse tentando repreender a atitude do outro.

- Saia daqui, un! - falou com o olhar frio e gélido, apertando os punhos como se prepara-se para feri-lo. Seu tom de voz além de demonstrar impaciência e irritação não fazia jus a sua aparência, sendo um pouco grosso e forte.

- Esse lugar é seu..? - perguntou o jovem de maneira quase que depressiva, fitando a atitude da menina, ela parecia tão irritada, como se ele tivesse feito algo que não deveria, não entendia isso, não sabia o que tinha feito de errado. Apenas continuou a observá-la de modo depressivo, como se no fundo não encontrasse uma motivação forte para fazê-lo levantar-se e continuar a andar sem destino.

- É sim, saia daqui, un!! - falava em um tom mais alto e exaltado que antes, esperando assim vê-lo reagir. Aquele era o seu lugar e odiava que ousava penetrá-lo sem sua autorização! Ia tirar aquele garoto maltrapilho dali de qualquer jeito, ninguém podia invadir o seu espaço e sair impune daquele modo, mesmo ele sendo mais velho ia tirá-lo dali!

O moreno apenas ficou em silêncio observando-a, a forma que ela se expressava de modo quase que exagerado, o tom da sua voz indo contra a sua delicada aparência, a sua própria atitude indo contra a sua aparência. Fitou-a compenetrado, indo com atenção às roupas dela, folgadas e em tom azul escuro, estavam sujas, em seu pescoço estava uma bandana negra com uma chapa de ferro no meio. Sabia o que aquilo significava, a bandana era o símbolo dos ninjas e assassinos, o desenho no meio da chapa de ferro era o que utilizavam para diferenciar para qual vila e país serviam.

- Vamos, mecha-se ou irei machucá-lo! - falou agora em um tom ameaçador, apontando para a bandana em seu pescoço ao notar o olhar do outro sobre ela. Ia mostrar que era um shinobi e estava pronta para lutar em qualquer situação, principalmente contra um garoto pobre no qual não era daquela região e parecia fraco e confuso! Não que estivesse pensando em ferir os fracos, mas se são fracos podem ser facilmente feridos e isso é só uma conseqüência.

- Qual é.. o seu nome? - perguntou instintivamente, aquela jovem de alguma maneira tinha lhe despertado o interesse. Provavelmente ao se levantar dali não ia retornar a vê-la novamente, então se tivesse um nome.. se tivesse um nome talvez pudesse ter alguma razão! A sua primeira lembrança, a primeira pessoa que por algum motivo perturbara e havia notado a sua presença, que de algum modo tinha lhe direcionado a palavra.

- Para que você quer saber, un? - deu um passo para trás, hesitando em continuar aproximar-se - Sabia que é falta de educação perguntar o nome de alguém sem se apresentar, un? - bufou, respirando fundo e forçando um ar confiante, de modo indiscreto e bruto levando a mão a uma pequena bolsinha ao lado do quadril, pendurada em sua calça e retirando de dela algo parecido com uma massinha.

- Eu.. - voltou o olhar para o riacho pensativo, não havia como se apresentar, afinal, não era ninguém. Rejeição, mais uma vez essa cena se repetia, as pessoas lhe rejeitavam, levantou-se lentamente ainda com o olhar deprimido voltado para a água. - Estou indo.. - disse sem voltar o olhar a jovem, entrando dentro das águas do riacho sem temer molhar os sapatos e os pés, atravessando-o indiferente. Mais uma vez o momento estava sendo passado em sua vida sem possuir qualquer valor, não trazia consigo lembranças agradáveis ou desagradáveis, só vazio.

- Isso mesmo, lembre que esse território é do Deidara, ninja da Iwagakure! - gritou a jovem esboçando um enorme sorriso de vitória no rosto, em seguida jogando uma porção da argila na qual segurava em direção do outro e fazendo uns rápidos selos na mão gritando - KATSU!

O jovem voltou o olhar para trás, Deidara? Um nome masculino, o que será que significava? No mesmo instante notou a jovem jogar em sua direção, aquela massa de cor branca, mas antes de atingir seu rosto, criar uma pequena explosão fazendo a massa se despedaçar em vários pedaços e um vir em sua direção rapidamente, batendo em seu rosto. Aquilo era mole e melecoso, tirou com cuidado de seu rosto, voltando o olhar para a margem do riacho a procura da jovem, mas ela não estava mais ali. Teria fugido temendo arrumar alguma confusão com sua atitude ou algo próximo a isso? Voltou o olhar para o pedaço de massa que tinha em mãos, era argila, a menina provavelmente estava treinando explodir a argila mas ainda não possuía habilidade, fazendo-a apenas se romper em vários pedaços.

Virou-se de costas para voltar a seguir o seu caminho, atravessando por fim o riacho e andando em passos lentos para dentro de uma floresta. Seu olhar ainda se matinha compenetrado naquele pedaço de argila em suas mãos, tinha batido com tanta força em seu rosto que esboçava agora algo próximo a uma mascara. Devido ao baque da explosão havia algumas linhas parecidas com uma espiral, sua primeira lembrança havia sido formada, ia guardá-la como o ponto de partida para a criação de suas emoções. Mas.. havia algo ainda confuso, como criaria lembranças sem ser alguém? Precisava ser alguém, afinal, ninguém é nada e nada não tem lembranças, ele não podia continuar a ser nada, precisava ser alguém! O que precisava para ser alguém? Um passado? A garota de cabelos loiros.. Um nome? 'Tobidasu ie o?' era o que as pessoas sempre diziam ao vê-lo.. Mas isso não era um nome.. Tobi! Seu nome seria Tobi! Agora o que mais precisava? Um corpo ou aparência.. Sim, tinha aquele que usava mas.. não era ele! Se fosse ele então sentiria.. aquele rosto não era o dele, sabia disso! A argila! Era isso, uma mascara! Seu rosto seria aquilo!

Não tardou de começar os preparativos para a sua nova pessoa, roubou em uma pequena vila dois itens, dois potes de tinta de duas cores nas quais escolherá e um pouco de gesso. Vermelho, a cor que tanto lhe atraia e amarelo, a cor dos cabelos da jovem menina que acabará por conhecer. Usou gesso e argila que possuía para criar um molde, ao ficar seco notará que não enxergaria com aquilo, então o que deveria fazer? No meio das inspirais introduziu um buraco, o suficiente para assim poder enxergar sem danificar muito a aparência da mascara, afinal, agora aquela era a sua fase! Em seguida pintou toda a mascara de vermelho e após fazê-lo começou a pintá-la de amarelo, queria expor aquelas duas características na mascara, o cabelo da jovem e a sua atração por vermelho. O resultado final foi diferente do que esperava, ficará laranja.. Mas a partir de agora tinha o que tanto precisava, lembranças, um nome e uma aparência, finalmente era alguém: Tobi.