Epílogo


A mulher suspirou, enquanto subia os degraus de sua casa, na parte oeste de Grosvenor Square. O carro que a viera deixar em casa partiu silenciosamente, de volta às ruas de Londres.

Passava das oito na noite e, graças ao bom Deus, era sexta-feira. Teria dois dias inteiros para se refazer antes de voltar ao trabalho. Ela olhou para o braço, apoiado numa tipóia, levantando a outra mão, preparando-se para bater.

Não teve tempo para tanto. Antes que os nós dos dedos enluvados pudessem se conectar com a antiga e sólida porta de mogno, ela abriu-se de chofre, revelando um rapaz de óculos, olhos de um verde-claro e cabelos dourados.

As sobrancelhas dele se arquearam em espanto ao ver a tipóia e foi a vez de ele dar um suspiro resignado.

- O pai vai me matar...

Ela teria cruzado os braços se fosse capaz.

- Realmente, Nathan, essa é uma bela maneira de cumprimentar sua mãe à porta. Especialmente se considerarmos o frio que está fazendo.

O rapaz deu um passo para o lado, permitindo que ela entrasse afinal na casa. Ela sorriu diante da temperatura agradável que fazia à sala, livrando-se do capuz que tinha sobre a cabeça, antes de arrumar os óculos, que insistiam em escorregar para a ponta do nariz.

- Como a senhora conseguiu isso? – ele perguntou, apontando para a tipóia – Supunha-se que eu deveria ficar de olho na senhora, enquanto o pai está viajando.

- Eu tenho mais do dobro da sua idade e sou sua mãe. – ela resmungou – Sinceramente, o que Isaac tinha na cabeça quando decidiu que você deveria "cuidar" de mim?

Nathan meneou a cabeça, mas não respondeu. Sua mãe podia ser bem teimosa e malcriada se quisesse, tão infantil quanto Hannah, com seus cinco anos e meio, como fazia questão de informar a todos que conhecesse. Especialmente quando chegava em casa com alguma mancha roxa e recebia do marido um sermão exasperado sobre segurança e concentração.

Geralmente ela respondia colocando meio palmo de língua para fora...

- Seus irmãos já jantaram? – ela perguntou, tentando despir o sobretudo com uma mão só.

- O que aconteceu com a mamãe? – foi a resposta que ela recebeu.

Erguendo os olhares, Nathan e Mina encontraram as outras três crianças da casa. Tyr observava a mãe com o mesmo olhar resignado de Nathan. Gwyn fora quem fizera a pergunta, os olhos escuros brilhando de preocupação, enquanto Hannah se remexia em seu colo, tentando alcançar o chão.

Mina respirou fundo. Podia dizer que se machucara heroicamente numa missão. E assim que a notícia chegasse nos ouvidos de Isaac, ele iria chispando fogo até a Scotland Yard perguntar o que diabos estavam fazendo com a esposa dele.

Teria que ser a verdade...

- Mamãe tropeçou em um cachorro e levou uma queda de uma escada. Nada demais, eram só sete ou oito degraus. – ela sorriu, tirando o braço da tipóia, abrindo a fechando a mão para mostrar que estava tudo bem – Estão vendo? E eu nem tive de engessar dessa vez.

Nesse instante, a manga da blusa que ela usava escorregou, revelando uma extensa equimose, preta no centro e mudando de tom em todas as miríades de roxo e vermelho. Hannah arregalou os olhos, já embargados, correndo para abraçá-la.

- Mamãe!

Nathan escondeu o rosto nas mãos.

- O pai vai me matar.

Tyr e Gwyn apenas se encararam.

- Ok, ok, vamos parar com isso, seu pai está na Itália, aproveitando o sol, as praias e as escavações dele; quando finalmente chegar não vai ter nem sombra disso aqui, ninguém precisa saber e vivemos todos felizes para sempre. Abençoado seja o Vesúvio. – ela abaixou-se, puxando Hannah para seus braços – Agora não precisa chorar, querida... – ela voltou-se para os três meninos – Vocês já jantaram?

- Estávamos esperando a senhora. – foi Nathan quem respondeu, estendendo o braço para tirar Hannah do colo dela – Venha, Hannah, mamãe precisa descansar para se recuperar do machucado.

Mina deu um ligeiro sorriso. A cada dia que se passava, Nathan ficava mais parecido com o pai em sua personalidade. Fazia realmente dezesseis anos que ela o segurara pela primeira vez?

Os olhos dela se fixaram nos dois outros filhos, que a acompanhavam agora até a sala de jantar. Tyr viera três anos depois de Nathan e Gwyn, três anos depois de Tyr. Por fim, quando achava que já tinha tido o suficiente de fraldas e mamadeiras para o resto da vida, viera Hannah. Culpa de Isaac, obviamente, que insistira que queria uma menina e não lhe deu sossego até conseguir seu objetivo. Não que ela pudesse reclamar da atenção do marido...

Suas bochechas ficaram carmim e ela revirou os olhos para si mesma, embora não deixasse de sorrir, imaginando como seria quando Hannah crescesse um pouco mais, cercada por um pai coruja e três irmãos mais velhos, especialmente se ela tivesse puxado seu gênio.

- Mãe? - Tyr chamou, observando-a - A senhora está mesmo bem? Não bateu a cabeça ou coisa do tipo?

Ela sorriu, voltando sua atenção para ele.

- A mancha no braço é justamente porque eu me apoiei nele para não bater a cabeça. Agora, será que um de vocês poderia pedir que colocassem o jantar enquanto eu tomo um banho e arranjo alguma pomada para passar nisso? - ela perguntou, os olhos voltando-se para Nathan - Se não estiverem agüentando de fome, podem ir beliscando alguma coisa. Eu prometo que não vou demorar.

- Hannah já jantou e nós podemos perfeitamente esperar. - o rapaz respondeu, orgulhoso - Não seria muito cavalheiro da nossa parte começar a comer sem a senhora.

Definitivamente, Nathan era parecido demais com o pai para seu próprio bem.

- Tudo bem, então, me dêem só quinze minutos. - ela respondeu, já avançando para a escada.

Pouco depois, Mina sumia na direção do primeiro andar e os quatro irmãos voltaram-se para a sala de jantar, onde, só então, Nathan colocou a irmã caçula no chão. Tyr sumiu na direção da cozinha, e Gwyn abaixou-se para brincar com a irmã, enquanto Nathan observava as fotos das paredes.

Nesse instante, a campainha tocou. O mais velho olhou por alguns instantes para o hall que tinha acabado de deixar, enquanto um criado passava por eles, indo atendê-la. Ele estivera esperando a mãe junto à janela desde que começara a escurecer, por isso, pudera vê-la antes que ela batesse à porta. Só esperava que não fosse alguém da Scotland Yard para levá-la de novo para o escritório.

Entretanto, a voz que ecoou no hall lhe era conhecida demais e um calafrio perpassou sua espinha. Vesúvio, hein? Ele estava frito. Seu pai lhe dera ordens de ficar de olho na mãe enquanto estava fora. Mas, francamente, o que ele podia fazer? Se o próprio pai não conseguia controlar a mãe, o que ele achava que o filho podia fazer?

- Boa noite. - Isaac cumprimentou, assomando à porta da sala.

Hannah foi a primeira a reagir, rapidamente jogando-se nos braços do pai, enquanto soltava gritos de prazer. Gwyn levantou-se, sorrindo, enquanto Tyr reaparecia, juntamente com a senhora Lonsdale, vindos da cozinha. O homem riu, enquanto abraçava a pequena, antes de voltar a atenção para os outros filhos.

- Está tudo bem por aqui?

- Absolutamente. - foi Tyr quem respondeu, dando um meio sorriso, após trocar um ligeiro olhar com o irmão mais velho - Não esperávamos o senhor.

- Creio que eu ainda não precise mandar um telegrama para minha própria casa perguntando se sou bem-vindo. - ele respondeu, com certo bom humor - Ainda estão de férias, eu presumo?

- As aulas começam daqui a duas semanas. - dessa vez, Gwyn foi quem respondeu, orgulhoso - Vai ser minha primeira viagem para a Academia.

- Cheguei em boa hora então. - Isaac observou, antes de voltar os olhos claros para os de Nathan - Onde está sua mãe?

- No quarto. - o rapaz respondeu prontamente - Chegou pouco antes do senhor.

- Papai, papai, o senhor também está roxo? - Hannah perguntou, cutucando o ombro do pai, enquanto o encarava com os olhos claros, visivelmente ansiosos.

Isaac arqueou uma sobrancelha, enquanto os outros três filhos suspiravam, Nathan ligeiramente pálido.

- Roxo? - ele perguntou, colocando a filha de volta no chão, lançando um olhar incisivo para as caras ligeiramente culpadas dos meninos - Eu volto num instante.

Assim que o pai deixou a sala, Nathan respirou fundo, sentando-se pesadamente à mesa.

- Ele vai me matar.

- Você sabe... - Tyr observou, cruzando os braços - Você se parece mais com a mamãe do que as pessoas pensam. Esse mantra do "ele vai me matar" é criação dela. Aliás, eu não duvido que ela esteja dizendo essa mesma coisa nesse exato instante.

Nathan levantou o rosto para responder, mas acabou por desistir. Em vez disso, deu de ombros.

- Eu não posso estar com a mãe vinte e quatro horas por dia quando ele está fora. Não que eu fizesse questão... - e realmente não fazia. Nathan achava o trabalho da mãe fascinante, ainda que perigoso, e, secretamente, vinha planejando seguir os passos dela. E embora fosse, em temperamento, realmente muito parecido com o pai, era ela quem ele mais admirava. Obviamente, ele nunca diria isso em voz alta - Ela realmente é mais cuidadosa quando eu vou junto com ela para o escritório, mas não é porque eu estou vigiando, mas para tomar conta de mim... - ele revirou ligeiramente os olhos, da mesma maneira que Mina fazia quando estava exasperada - De toda maneira, ela não me deixa ir sempre. Diz que eu tenho de aproveitar as férias.

- O que você tem feito muito bem. - Tyr respondeu, dando um sorriso malicioso - Soube que saiu para cavalgar hoje com Lorena.

Quase de imediato, o rosto do rapaz tomou uma coloração profundamente vermelha - realmente, ele era mais parecido com a mãe do que se podia imaginar, porque, certamente não herdara a timidez do pai. Tyr, por sua vez, continuou sorrindo, satisfeito em ter deixado o irmão sem palavras, enquanto Gwyn e Hannah se encaravam.

- O que você acha, Hannah? - o menino perguntou.

- Nathan está amando. - ela respondeu com um suspiro e um sorriso.

Gwyn fez uma careta em resposta.

- Mamãe tem razão... Garotas amadurecem mais cedo...

Enquanto isso, no andar de cima...

Mina acabara de terminar seu banho e estava agora sentada sobre a cama, as mangas do robe puxadas para cima, observando o machucado. Realmente, fora uma bela queda... Sorte que conseguira se apoiar sobre o braço. Uma mancha roxa ali podia ser escondida com uma manga comprida. Um corte com pontos no meio da testa, não.

Tinha uma semana e meia antes de Isaac chegar. Só o que precisava era de uma boa pomada e aquilo iria sarar rapidinho e ninguém, além dos filhos, obviamente, precisaria saber sobre sua falta de atenção. Mas, francamente, o que ela podia fazer? Os filhotes de Trajano, o leal cachorro do departamento de tóxicos, filho do velho Sam, que ela chegara a conhecer na época que ainda era estudante, tinham fugido da caixa onde estavam sendo mantidos e feito a maior bagunça em todo o prédio - ou pelo menos, em todo o segundo andar, que era onde ela ficava.

Entretanto, isolada em sua sala, ela nada soubera... Até que, quando estava de saída, junto à escada, um dos filhotes surgira do nada. E, tentando não pisar nele, acabara por perder completamente o equilíbrio, rolando escada abaixo. Uma maneira bastante idiota de se machucar, na verdade.

Ela suspirou, começando a aplicar o remédio que comprara a caminho de casa. Estava um pouco dolorido, mas não tinha quebrado nada. Talvez um pouco de gelo...

- O que diabos é isso?

Mina levantou os olhos, surpresa. A porta se abrira de um rompante e Isaac estava parado ao batente, a mão ainda sobre a maçaneta, os olhos claros fixos perigosamente sobre seu braço. Ela praguejou baixinho, enquanto sua mente lhe dava alerta vermelho.

Ele vai me matar...

- Hum... Boa noite, Isaac. - ela cumprimentou, puxando a manga para esconder o machucado - Decidiu nos fazer uma surpresa?

- Eu agradeceria se você não tentasse inutilmente mudar de assunto. - ele respondeu, aproximando-se.

Ela não pode se impedir de suspirar. Se havia uma coisa em que Isaac não mudara em todos aqueles anos de casamento, fora no firme propósito de cuidar dela já que, como ele fazia questão muitas vezes de lembrar, ela era distraída demais para fazer isso sozinha. Na verdade, ela já não se importava tanto com isso como na juventude. Desde que ele respeitasse os limites.

Nunca se esquecera da primeira e única briga séria que tinham tido, pouco antes dela descobrir que estava grávida de Gwyn. Fora no caso Mordrold, quando ela se oferecera para servir como isca a fim de capturar um jovem psicopata que, por acaso, era seu paciente na clínica psicológica de voluntários da própria Scotland Yard. O tempo todo ela fora monitorada por outros agentes e ela mesma estava pronta para reagir, se fosse necessário.

Ainda assim, quando Isaac soubera, ficara furioso. Ele seguira direto para o escritório do Comissário-Chefe e se trancara com ele durante horas. Ela tentara entreouvir a conversa pela porta, mas não conseguira pescar uma única palavra. Fora quando tivera certeza que ele estava realmente furioso. Quanto mais irritado, mais baixa era a voz de Isaac.

E, no dia seguinte, o Comissário oferecera a ela um cargo na parte burocrática. Fora a vez dela ficar possessa. Com que direito ele achava que podia se meter no trabalho dela? E, especialmente, com que direito ele usava do próprio título para tentar persuadir... Argh!

A resposta fora que ela recusara-se terminantemente a sair do departamento de homicídios e a deixar de ver seus pacientes e, quando voltara para casa naquele dia, praticamente fumegando de raiva, a primeira providência que tomara fora mudar suas coisas para o quarto de hóspedes.

Até descobrir que estava grávida e ele finalmente reconhecer que fora longe demais.

- Mina?

Ela piscou os olhos, sendo arrancada de seus pensamentos pela voz dele. Mal percebera que ele tomara sua mão sobre a dele, puxando a manga para revelar mais uma vez a equimose, enquanto os olhos fixavam-se nela, incisivos.

- Eu caí. - ela respondeu finalmente - Tropecei num dos filhotes do Trajano, perdi o equilíbrio e caí da escada. Usei o braço para aparar a queda e não bater a cabeça. Não estava fazendo nada de perigoso, só saindo do departamento para voltar para casa.

Ele a observou em silêncio por alguns instantes, antes de se sentar ao lado dela, voltando a atenção para o pote de remédio, antes de começar a passar o analgésico sobre a macha.

Mina piscou os olhos, surpresa. Nenhuma reclamação?

- Você só machucou aqui? - ele perguntou, quando finalmente terminou de colocar o remédio.

- Acho que tem um hematoma no joelho também. E outro nas costas.

Ele assentiu, puxando a perna dela para seu colo. A saia do robe escorregou, revelando mais uma mancha roxa e, pacientemente, ele começou a aplicar o remédio ali também. Mina mordeu ligeiramente os lábios.

- Por que você voltou mais cedo? - ela perguntou e, ao perceber que a pergunta soava um tanto rude, meneou a cabeça - Desculpe, eu...

- Senti saudades. - ele respondeu simplesmente, depositando de volta a perna dela sobre o chão - Eu cuido do machucado das costas depois. Pelo que vi lá embaixo, os meninos ainda não jantaram.

Mina respondeu com um meio sorriso, levantando-se. Antes que pudesse dizer alguma coisa, porém, ele a puxou pelo braço, forçando-a a se sentar de novo, só que, dessa vez, em seu colo, selando os lábios dela em seguida.

Quando finalmente a soltou, ela estava completamente vermelha.

- Você estava realmente com saudades.

Foi a vez dele sorrir, anuindo.

- Muita. Até mesmo do fog londrino. Depois da primeira semana, o calor de Pompéia já não parece tão aprazível.

Ela riu, inclinando a cabeça para o ombro dele.

- Isaac?

- Oi? – ele respondeu baixinho, junto ao ouvido dela.

- Você não está bravo?

- Estou. – o homem suspirou – Mas acho que não posso culpá-la por não ter olhos na nuca. E também não posso amarrá-la dentro de casa.

- Fico feliz em ouvir isso. Chegou a essa conclusão sozinho? – ela perguntou, irônica, levantando o rosto.

- Eventualmente, eu posso mudar de opinião. – ele respondeu, os olhos brilhando – Não seria uma má idéia amarrá-la à cama.

Mina ficou rubra. Isaac, por sua vez, apenas sorriu.

- Pela sua cor, eu acho que você entendeu minha idéia errado. Mas a sua idéia é interessante também.

Ela se levantou rapidamente, sabendo que não haveria resposta para aquilo.

- Os meninos estão esperando para jantar. Vamos descer?

- É admirável como você ainda consegue corar depois de quase vinte anos de casamento.

- É admirável como você ainda consegue se divertir com isso. – ela respondeu, emburrada.

Isaac assentiu, levantando-se também.

- Talvez seja porque eu amo você.

Ela corou mais uma vez, deixando escapar um sorriso, enquanto ele envolvia sua mão.

- E eu amo você também. – ela respondeu, pondo-se na ponta dos pés, roubando um selinho rápido do marido – Eu amo você também...