Nota da autora: Aqui está mais um capítulo. Desculpem-me pela demora. Lara Lynx Black obrigada pelo comentário =) A todos um Ano de 2009 cheio de coisas boas.

Beijos.


Capítulo 32 – Na mente do inimigo

Já dizia um autor muggle, muito sabiamente, que nenhum caminho é longo demais quando um amigo nos acompanha. Dumbledore podia comprovar isso na sua própria história. Mas mais do que ele próprio, ele via esse provérbio espelhado no rapaz que estava sentado na sua frente.

O seu antigo escritório estava silencioso, embora várias pessoas ocupassem o seu interior. Remus, Joanne, McGonagall, James… todos eles estavam particularmente agitados, por um motivo do qual Dumbledore tinha plena consciência. Recordando-se disso, olhou uma vez mais para o relógio da parede, que denunciava as duas horas de espera que tinham passado. Sirius e Bill já deviam ter chegado e atrasos eram quase sempre por maus motivos.

Harry, pelo contrário, não parecia muito preocupado pelo facto do padrinho não dar notícias. Talvez ele soubesse algo mais do que estava a querer dizer. Ou talvez não! Dumbledore escondeu o sorriso que se formou nos seus lábios ao constatar a mão de Harry a segurar uma outra, muito mais clara e delicada. Eis ali o motivo pelo qual ele se aparentava calmo. Ginny Weasley também estava presente!

- Eles já deviam ter chegado! – protestou James, quebrando o silêncio pela milésima vez – Deve ter acontecido alguma coisa.

- Tem calma, James. Eles são adultos. Sabem tomar conta deles.

James lançou um olhar descrente a Joanne, que soltou rapidamente um "ou talvez não!". Os dois Marotos presentes estavam visivelmente preocupados, mas Remus disfarçava melhor do que James que, de minuto a minuto, espreitava pela janela como se fosse ver Sirius aparecer a voar numa vassoura a qualquer momento.

Não demorou muito tempo para que as perguntas que todos faziam em suas mentes fossem respondidas. Com um estrondo, a porta da sala abriu-se e bateu com força contra a parede, dando passagem a dois homens, com umas caras não muito satisfeitas. Dumbledore não conseguiu conter um sorriso brincalhão, bem como quase todos os presentes, quando as figuras de Bill Weasley e Sirius Black se revelaram, totalmente cobertos de poeira. Bill, incrivelmente, dava a sensação de ter mudado a cor do cabelo para castanho, tal era a quantidade de terra e areia que o cobria.

Sirius trazia nas mãos uma caixa dourada. Dando longas passadas furiosas até à mesa de McGonagall, deixou cair em cima dela a caixa, espalhando poeira por todos os lados, juntando-se ao montinho de terra que a sua própria roupa tinha largado. Nesse instante, James abafou uma gargalhada. No entanto, não foi a tempo de não ser ouvido por Sirius e, no mesmo instante, o recém-chegado fulminou o melhor amigo com o olhar, apontando-lhe, perigosamente o dedo indicador.

- Nem… uma… palavra! – proferiu Sirius, numa voz perigosa, antes de voltar a sua fúria para Joanne – Maldição do Faraó? MALDIÇÃO DO FARAÓ!! Que tinhas na cabeça quando nos enviaste para lá à procura do maldito livro?

Agora tinha sido a vez de Joanne se controlar para não rir na cara de Sirius, mas a professora manteve a sua pose séria, embora os seus lábios se começassem a contorcer numa expressão engraçada.

- Eu parti do princípio de que o Bill sabia o aconteceria assim que pegasse no livro. Eu contei-lhe vezes sem conta as leis das múmias.

- Eu tinha cinco anos! – exasperou-se Bill, quase parecendo uma criança desesperada a fazer birra. – E eram HISTÓRIAS! Supostamente deviam ser apenas para assustar crianças desobedientes! Nunca pensei que tivesse, algum dia, de fugir de um bando de múmias mal cheirosas.

Se alguém até aí tinha conseguído controlar-se, o mesmo não aconteceu agora, contribuindo, em muito para aumentar a frustração dos dois homens.

- Vamos lá ver o que está dentro da caixa, então. – interrompeu Dumbledore, quando Sirius se preparava para retrucar. – Joanne?

A professora de EMA não esperou outra instrução. Com alguma expectativa ela avançou para a caixa e tocou nela com a mão direita. Os seus olhos brilhavam como os de uma criança que sonha acordada e o seu sorriso era o de quem ansiava por descobrir os segredos daquele objecto.

- Segundo os escritos da caixa, o Livro dos Vivos foi encerrado aqui, no reinado de Tausert, uma rainha do Antigo Egipto, o que me leva a pressupor que tenha sido na mesma época em que esconderam o Livro dos Mortos de Tebas, perto de Coptos, onde vocês encontraram este.

- Então nós encontramo-lo, não é?

A pergunta de Sirius soou mais como uma súplica do que propriamente com uma dúvida. O Maroto espreitava por cima do ombro de Joanne, como que a perceber se o que ela lia ali era verdade.

- Não sei, Sirius. Só abrindo a caixa. – o olhar de Joanne dirigiu-se para Harry, que permanecera silencioso, até aí, ao lado de Ginny. – Queres ter a honra?

- Não faço propriamente questão mas…

O Gryffindor aproximou-se lentamente da caixa, sem demonstrar qualquer sinal de entusiasmo, muito ao contrário de Joanne. As suas mãos percorreram a ranhura da caixa e estudaram-na, quase como se soubesse exactamente o que devia fazer e, num movimento discreto, ouviu-se um clique, que culminou no abrir da tampa. O único som que se ouvia era o leve ranger das dobradiças, tal era a expectativa de todos. No entanto, o corpo de Harry impossibilitava que alguém conseguisse ver o que estava lá dentro.

- Então? – incentivou Joanne, perante a demora de Harry em falar, mas logo deu um pulo quando o moreno fechou a tampa da caixa com força. – O que foi?!

Harry virou as costas para a caixa e cruzou as mãos no peito, encarando aborrecido o padrinho e Bill.

- Isto é algum tipo de brincadeira do primeiro de Abril? É que se for, devo dizer-vos: estamos em Maio!

Expressões confusas bailaram nas faces de todos os presentes, principalmente de Sirius que arregalou os olhos e afastou Joanne e Harry do caminho, abrindo também ele a caixa. Mesmo com tanta poeira na cara, foi possível ver a pele de Sirius empalidecer, logo ficando vermelha.

- O que é que se passa? Não está aí dentro o Livro?

Pela segunda vez naquele dia, Sirius fulminou Joanne, antes de colocar a mão dentro da caixa dourada e voltou a tirá-la, trazendo algo nela, que deixou todos boquiabertos por uns segundos, em silêncio, que estourou numa gargalhada, contida durante tanto tempo, por James e Joanne.

- Vocês acham piada? – protestou Bill, não querendo acreditar no que os seus olhos viam. – Não foram vocês que se perderam durante horas no meio de uma pirâmide, enfrentaram múmias e correram desesperados para não serem enterrados vivos, com o tecto a desabar sobre as vossas cabeças.

- Então, rapazes! – Remus escondia, também ele, o sorriso maroto – Têm de admitir… tem uma certa graça que uma caixa, supostamente fechada durante 3 mil anos, ao ser aberta tenha, em vez de um Livro, apenas areia!

Dumbledore observou com algum divertimento a areia escorrer das mãos de Sirius. No entanto, uma profunda preocupação começou a envolvê-lo. Se o Livro de Vivos não aparecesse, começavam-se a esgotar as suas opções para derrotar definitivamente Voldemort. A sua atenção foi para Harry que, passado o aborrecimento inicial, ria-se agora também da irritação do padrinho.

- Mas o que significa isto então?

- Apenas significa que vamos ter de continuar a procurar, Sirius. Não podemos deixar que esta oportunidade nos escape por entre dos dedos.

Sirius atirou-se para uma das poltronas da sala e deixou cair os braços para os lados, em sinal de rendição, mal reagindo às palavras de James.

- O Livro tem de existir em algum lugar! Não há mais nenhum exemplar, tal como existem vários do Livro dos Mortos? – a pergunta de McGonagall foi dirigida directamente a Joanne. Esta assentiu com a cabeça, despertando imediatamente Sirius.

- Sabias que existia outro e mesmo assim mandaste-nos para aquele ninho de múmias mal cheirosas?

- Este não é apenas uma cópia do Livro, Sirius. – Explicou Joanne, como se estivesse a falar para um aluno – É o original! Pensas que eu não tentei encontrar respostas naqueles que já foram encontrados antes de vos enviar nesta tarefa?

Sirius suspirou resignado e levantou-se, pegando num pacote longo que Bill tinha nas mãos, no qual ninguém reparara, e desembrulhou-o, revelando uma longa espada brilhante.

- Alguém pode reverter o feitiço por mim e devolver-me a minha varinha? Eu não me lembro do contra-feitiço.

Já com a sua varinha no bolso e com a maior cara de desalento do mundo, Sirius não esperou que mais nada fosse dito e saiu da sala, provavelmente para tomar um banho o quanto antes e refrescar as ideias. Não era só Sirius que estava desapontado. Passado o divertimento inicial, todos se começavam a dar conta da gravidade da situação e os ombros começavam a descair em desânimo.

- Meus caros, creio então que a nossa reunião termina aqui. – assim que Dumbledore falou, Harry trocou com ele um olhar cúmplice, percebendo onde o ex-professor queria chegar. – Se não se importarem, gostaria de falar a sós com o Harry e a senhorita Weasley.

Sem dizerem mais nada, cada um dos presentes foi saindo. Joanne deu um último olhar à caixa, Remus deu uma palmadinha de consolo no ombro de Bill e os dois saíram seguindo McGonagall. Restou apenas James que, antes de sair ainda falou para Harry.

- Vêmo-nos daqui a pouco. Espero-te nos aposentos do Remus.

A porta foi encostada devagar, quase nem perturbando o silêncio entre aquelas três pessoas. Ginny era a mais silenciosa de todos, apenas observando cada movimento e cada palavra proferida até aí.

- Creio que já tenhas decidido o que fazer.

Desde a manhã daquele dia, quando Harry tinha saído a correr daquele mesmo gabinete, Dumbledore tinha uma ligeira desconfiança do que o moreno iria fazer. Mas, mesmo assim, aguardou que o próprio lhe falasse.

- Eu sei o que tenho de fazer. – concordou o Gryffindor. – Apenas não sei se irá resultar.

- E também estou certo de que a Senhorita Weasley está a par da decisão.

Ginny sorriu levemente, concordando com a cabeça.

- Da última vez que ele fez uma coisa do género, eu quase morri de ataque. Pelo menos agora eu estou preparada para eventuais desvios no plano.

Harry revirou os olhos, como se algo na conversa que os dois tinham tido tivesse saído para fora do seu plano traçado, o que era reforçado pela expressão de triunfo que agora a ruiva envergava.

- Eu vou pedir, mais uma vez, ajuda a Horus. Não tenho a certeza de que ele me vá ajudar de novo, mas preciso de tentar.

Dumbledore recostou-se na cadeira e observou com curiosidade o aluno. Só aí reparou em algo que lhe tinha escapado até aí. Sorriu interiormente quando o pensamento de que estava a ficar velho surgiu. Há uns anos atrás isso não teria escapado. Mas ali estava a prova viva de que até a sua mente tinha falhas. Harry tinha perdido o receio do poder que carregava. Além de resignado com o seu destino, ele parecia, finalmente, estar a aceitar que talvez não tivesse tanto azar na vida como sempre tinha achado.

- E eu estou aqui para controlar as propostas que tu fazes, Harry Potter!

A mais nova dos Weasleys cruzou os braços na frente do peito, num gesto de quem não tolerava que a contrariassem. Harry fingiu que não tinha ouvido o comentário da namorada mas os seus olhos não conseguiam enganar Dumbledore. Ele estava, de facto, muito mais aliviado por ter compartilhado com ela todas as suas preocupações, embora não o quisesse admitir.

Os olhos verdes de Harry fecharam-se… a concentração transpirou por todos os seus poros… a respiração acalmou e a sua magia fluiu. Não demorou mais do que cinco segundos até que o Olho de Horus se revelasse uma vez mais. Com a sua aparição veio também um portal, que surgiu no meio do gabinete e se abriu, perante o olhar fascinado de Dumbledore e de Ginny. Quando finalmente Harry abriu os olhos, o portal deu passagem à figura deslumbrante do Deus Egípcio. Os olhos de Falcão de Horus percorreram o lugar e fixaram-se no seu herdeiro, ao mesmo tempo em que o portal desaparecia atrás de si.

- Orgulhoso… teimoso… persistente… inconveniente… incómodo… por vezes até arrogante! – enumerou o Deus dando pequenos passos na direcção de Harry. – E no entanto, eu escolhi-te! Seth faz questão de me recordar isso sempre que Rá ordena que o dia se levante.

- Quem ouvir pensa que eu só tenho defeitos!

Horus riu baixinho diante da provocação do mortal por si escolhido.

- Não… pelo contrário! Tens muitas qualidades, ou então não transportarias esse medalhão que tens ao peito. – Horus ignorou o revirar de olhos de Harry – Deixa-me adivinhar: queres um conselho… queres dar vida a alguém… queres que te diga onde está um objecto procurado! Escolhe uma opção.

Dumbledore observou divertido o moreno fechar a cara. Parecia que a fama de Horus sobre não tolerar insubordinação não era bem verdade… ou talvez não se aplicasse apenas a Harry.

- Isso quer dizer que me vais ajudar?

- Não!

- Como assim, não?!

- Não te vou dizer como derrotar Voldemort, não vou devolver a vida a Tfani, não te vou dizer onde está o Livro dos Vivos. – antes que Harry pudesse contestar, Horus continuou – Vais ter de descobrir por ti próprio, Harry.

- Muito obrigado pela ajuda!

O resmungo de Harry quase não foi ouvido, mas não passou despercebido ao Deus, que, embora não lhe fosse possível sorrir, dado a sua cabeça de falcão, os seus olhos rasgaram-se numa expressão de divertimento.

- Procura as respostas no teu coração e quando as encontrares, eu te ajudarei.

Com estas palavras, Horus começou a desvanecer, até que desapareceu, deixando os três ocupantes da sala de novo sozinhos.

- E agora o que fazemos? – arriscou Ginny, antevendo a explosão do namorado.

- Para já nada. – Dumbledore respondeu calmamente. A verdade é que ele tinha a sensação de que Horus não os ajudaria, mas preferira que Harry ouvisse isso dele próprio. – Um dia encontrarás a resposta, Harry, tenho a certeza.

- Quando, Professor? Só hoje já perdemos duas oportunidades fantásticas: primeiro o Livro desaparecido e agora isto! O senhor sabe do que Voldemort é capaz e não podemos deixá-lo à solta mais tempo!

- É preciso termos calma, Harry.

Calma era uma palavra que Harry parecia não conhecer nesse momento. Todo o auto-controle que ele tinha demonstrado naquele dia foi por água abaixo diante das palavras de Horus. Nervosamente, ele começou a andar de um lado para o outro na sala, até que, ao passar ao lado de Ginny, ela lhe segurou na mão e o olhou profundamente nos olhos.

- O professor Dumbledore tem razão. Precisamos ter calma.

E se Dumbledore tinha dúvidas, naquele momento tinha a certeza: todos na vida precisavam de um suporte, às vezes um amigo, ou até os pais. No caso de Harry, Ginny era esse suporte, que estava ali para não deixar que ele desabasse. Num segundo ele tinha explodido, no outro ele tinha-se acalmado.

- Está bem. Eu vou esperar e procurar a "tal" resposta.

- É assim que se fala, Harry.

Harry tentou esboçar um sorriso, mas a única coisa que saiu foi um mover de lábios sem vida que logo cessou.

- Acho que é melhor regressar. Está quase na hora de recolher e ainda tenho de ir falar com o meu pai.

Acenando com a cabeça a Dumbledore e pegando na mão de Ginny, ele saiu calmamente, tentando não demonstrar o desapontamento que sentia.

Dumbledore preparava-se para deixar também ele a sala, quando as chamas da lareira ficaram subitamente verdes.

- Minerva? – a voz podia ser completamente vazia e desprovida de emoções, muito ao contrário do habitual no seu dono, mas nem por isso, Dumbledore deixou de a reconhecer como pertencendo a Rufus Scrimgeour. – O Albus está aí?

O ex-director caminhou até à lareira, onde a cabeça do antigo ministro da magia flutuava.

- Estou aqui, Rufus.

- Ainda bem que te encontro, Albus. Preciso de falar contigo.

Dumbledore observou cada pormenor da face do ex-chefe de aurores. Apesar de pouco nítida devido às chamas da lareira, era possível ver umas profundas olheiras e uma pele pálida escondidas pela espessa barba ruiva. Ali estava a face de um homem que, numa questão de horas, perdera tudo o que amava.

- Irei ter contigo daqui a 5 minutos. – anunciou o director enquanto as chamas voltavam à sua cor normal.

A calma que sempre caracterizara Dumbledore foi momentaneamente abalada no instante em que a via Flú o enviava para a casa de Rufus. Dava a impressão de que, desde a noite anterior, nada tinha sido tocado. Até as manchas de sangue, resultantes das torturas à sua família, permaneciam ali no chão da sala. Apenas os corpos deles tinham sido retirados.

Rufus estava sentado naquela que era provavelmente a poltrona que ocupava habitualmente, com o rosto escondido entre as mãos e os cotovelos apoiados nos joelhos. Nada nele parecia o Ministro arrogante e prepotente que ainda dias antes tinha falado com ele. O seu corpo tremia levemente e, por uns momentos, Dumbledore pensou que ele chorava. Mas, no minuto seguinte, o seu rosto fixou-se no ex-director e os seus olhos abriram-se numa expressão de quase loucura.

- Tens de me ajudar, Albus. Eu não sei mais a quem recorrer.

- Do que estás a falar, Rufus?

Num pulo, o ruivo levantou-se e segurou Dumbledore pelos braços, levando-o até ao sofá mais próximo e empurrando-o para ele se sentar. Rufus, pelo contrário, iniciou uma caminhada nervosa pela sala.

- Ele quer enlouquecer-me. Ele quer enlouquecer-me para conseguir o que quer. Foi por isso que Ele veio cá. Não era a minha família que Ele queria… Ele queria o segredo… um segredo que eu guardei durante onze anos.

- Não estou a perceber onde queres chegar, Rufus!

Rufus segurou com força os cabelos e puxou-os, como que a tentar arrancá-los. Nos seus olhos brilhava a confusão, mas ele não parecia importar-se com o facto de Dumbledore começar a achar que ele tinha enlouquecido.

- NÃO PERCEBES, ALBUS? EU NÃO POSSO DAR-LHE O QUE ELE QUER! Aliás… – a sua voz desceu incrivelmente rápido de um grito para um quase sussurro. - … eu nem sequer sei exactamente o que Ele quer.

- Rufus… tens de te acalmar e contar-me exactamente o que é que Voldemort quer.

O corpo do ex-ministro estremeceu vigorosamente ao som do nome do feiticeiro das trevas, mas em vez de se descontrolar ainda mais, ele respirou fundo e sentou-se na sua poltrona, de olhos fechados. Uma lágrima solitária desceu pelo rosto pálido e desfez-se no meio da densa barba. Quando abriu os olhos, estes, incrivelmente, tinham perdido o ar de loucura e ele parecia saber exactamente o que fazer. Com um gesto da varinha, ele fez uma bacia de pedra flutuar até à pequena mesa na frente de Dumbledore. Era um Pensatório! E com outro gesto retirou uma memória da sua cabeça e depositou-a nas águas prateadas.

- Talvez seja melhor veres com os teus próprios olhos.

Dumbledore desviou o olhar do homem à sua frente e focou-o nas imagens distorcidas dentro do Pensatório, antes de mergulhar naquela memória. Demorou um pouco até que reconhecesse o lugar onde estava. Era o gabinete do Chefe de Aurores, ocupado em tempos por Rufus. Este estava sentado na sua secretária, com um olhar um tanto surpreso, encarando cada um dos outros presentes.

Juntamente com Rufus estavam mais quatro pessoas que Dumbledore nunca tinha visto. A única mulher e, aparentemente a mais nova de todos eles, tinha um semblante sério… demasiado sério para alguém com a sua idade. As roupas que usava pareciam mais as de uma professora universitária do que de uma mulher que acabara de concluir os estudos. Tudo isto, aliado ao seu cabelo loiro preso num coque, davam-lhe um engraçado ar intelectual.

Dois dos outros homens também não pareciam ser muito mais velhos. Um deles tinha uma aparência árabe, sendo que a sua barba mal feita e o sorriso sempre a bailar-lhe nos lábios, contrastavam em tudo com a mulher. O outro, mais sério, era, nitidamente inglês, com uns cabelos ligeiramente arruivados e olhos intensamente azuis, a contrastar com a pele alva. Mesmo estando sentado, Albus conseguia detectar que este era o mais alto de todos os presentes.

O quarto visitante era bem mais velho, por volta dos cinquenta anos, totalmente comprovados pelos seus cabelos grisalhos e algumas rugas que lhe cobriam a face bondosa. Talvez fosse do seu carisma, ou talvez do seu impecável Armani cinzento-escuro, que o transformavam num autêntico empresário, mas tudo nele inspirava confiança!

- Deixem-me ver se eu percebi bem. – Rufus clareou a voz antes de prosseguir – A senhora…

- Elisabeth. – corrigiu a mesma, assentindo com a cabeça para o chefe de aurores.

- A Elisabeth é arqueóloga e trabalha para o museu de Londres, o qual tem como director aqui o Sr. Langley. – O seu olhar recaiu sobre o homem mais velho, que concordou com a cabeça. – A Elisabeth, numa das suas escavações, encontrou algo, que pensa ser perigoso. O que eu não percebo é no que posso ajudá-los.

- Veja bem, Sr. Scrimgeour – começou a arqueóloga com uma voz doce e melodiosa – Este objecto, ele está bem guardado, neste momento. Tenho a certeza de que, mesmo um bruxo poderoso não poderia encontrá-lo. No entanto, sendo o protector uma pessoa não mágica, se ele for quebrado, talvez essas protecções não sirvam para mais nada.

- E esse objecto é demasiado perigoso nas mãos erradas. – o árabe falou pela primeira vez, revelando a sua voz de tenor. – O que nós precisamos é de protecções mágicas, para o caso das suas defesas naturais falharem.

A conversa durou mais alguns minutos, mas nada foi acrescentado ao que já tinha sido dito. Dumbledore viu as imagens distorcerem-se e voltou imediatamente à sala de Rufus, que o olhava com expectativa.

- Não percebo, Rufus. O que era o tal objecto?

- Nunca cheguei a descobrir. – confessou o ex-ministro. – Eu coloquei lá as minhas defesas, mas nunca vi o que estava a proteger.

Dumbledore alisou a sua longa barba, semicerrando os olhos enquanto pensava nas últimas revelações. O que poderia ser aquele objecto que fosse tão perigoso e que pudesse interessar tanto a Voldemort? E ainda mais: como tinha ele tido conhecimento daquela descoberta? Era um assunto sobre o qual deveria pensar calmamente. Mas algo lhe dizia que era importante.

Quando se preparava para perguntar mais informações, reparou que Rufus olhava para a mancha de sangue no chão, muito fixamente. A sua cabeça tombava ligeiramente para o lado, a sua boca estava entreaberta e a sua expressão lunática estava mais intensa do que quando Dumbledore chegara ali. O velho homem olhou tristemente para aquele que fora em tempos um homem forte. Definitivamente, Voldemort sabia como atingir as pessoas e Dumbledore só tinha medo de que o bruxo das trevas ainda estivesse a começar...


Há dias em que nós, mal acordamos de manhã, sentimos que não nos devíamos levantar. Existe algo dentro de nós que nos fala e nos avisa para o perigo que se aproxima. Para Harry, aquele era um desses dias. Podiam até dizer que ele estava a ficar paranóico, mas ele não gostava da sensação. Talvez fosse apenas o nervosismo que sempre precedia um jogo de Quidditch. Afinal, naquela manhã de dez de Maio jogar-se-ia a final entre Hufflepuff e Gryffindor… o sábado mais aguardado e, ao mesmo tempo, mais temido pelo capitão da equipa dos leões.

Harry sabia que as expectativas eram elevadas e que teria de provar para todos que era melhor do que Cedric Diggory, mas não era isso que o deixava mais nervoso. Aquele seria o seu último jogo como aluno em Hogwarts… tinha de ser memorável!

- Desta vez não corremos propriamente o risco de sermos atacados por Dementors, não é? – comentou Ron mais para si próprio do que para os outros, enquanto olhava do croissant para a tarte de melaço, tentando decidir qual delas comia. No final acabou por se servir dos dois. – Não temos de nos preocupar! O Harry nunca nos deixou ficar mal.

- Há sempre uma primeira vez para tudo. – contestou Remus muito sabiamente, levando, no segundo seguinte, uma cotovelada de Sirius. – Embora eu ache que Hufflepuff não tem nenhuma hipótese contra a vossa actual equipa.

- E desde quando és um entendido em Quidditch?

Remus não se deixou abalar pelo comentário de Sirius, lançando-lhe um sorriso trocista. Como que lendo os pensamentos de Remus, foi Lily quem respondeu.

- Ser melhor amigo de dois fanáticos e aturá-los durante quase sete anos deve ter algum efeito. Embora eu deva admitir que tenho também uma melhor amiga fanática, namoro com um outro e continuo a não perceber a lógica de catorze pessoas passarem horas, em cima de uma vassoura, atrás de uma bola.

- Isso é porque não percebes a beleza do jogo em si. No dia em que jogares irás compreender porque adoramos o jogo. – disse James de uma forma pensativa, sob o olhar céptico de Lily, enquanto os restantes divagavam sob as teorias filosóficas dele.

Harry prestava atenção à conversa, mas não entrara nela ainda. As suas entranhas remexiam furiosamente, cortando o seu apetite na totalidade. Ao fim de muita insistência da namorada, acabou por enfiar na boca um pedaço de bacon e mastigou-o preguiçosamente até que este formou uma bola, como se se tratasse de uma pastilha elástica.

Duas mesas à direita da de Gryffindor, logo depois da de Ravenclaw, Harry podia ver um Cedric animadíssimo, conversando jovialmente com os amigos. Ao contrário de Harry, o Hufflepuff não parecia estar minimamente nervoso e, de tempos a tempos, ria alegremente de alguma piada que lhe era contada. Os olhos dos dois seekers cruzaram-se por momentos, ao que Cedric acenou para o rival, que rapidamente retribuiu.

- E por quem estás tu a torcer, Danielle?

Harry voltou a sua atenção para a conversa novamente, a tempo de ver a sobrinha de Dumbledore corar visivelmente perante a pergunta de Hermione.

- Como dizem os muggles: "Amigos, amigos, negócios à parte". É claro que eu torço por Gryffindor.

- Hum… será mesmo? – provocou Ginny, marotamente – Não vais torcer pela equipa do teu namorado?

- Ele não é meu namorado! – a voz de Danielle saiu um pouco mais esganiçada do que ela queria, mas logo ela sorriu envergonhada, baixando a cabeça para esconder a vermelhidão do seu rosto. – Pelo menos não oficialmente!

Um coro de assobios e brincadeiras foi logo ouvido, o que animou aquela parte da mesa dos leões. Ginny fazia gestos com a mão para eles baixarem a voz e Danielle tentava, em vão, desaparecer no seu lugar, mas a festa estava armada, fazendo com que a equipa de Quidditch esquecesse, de imediato, todo o nervosismo, incluindo o próprio capitão, que entrou também na canção improvisada pelos gémeos sobre "tudo o que precisamos é amor", uma versão um tanto alterada e desafinada da famosa canção dos Beatles.

Num momento, Harry estava no Salão, a rir-se, no outro, viu tudo à sua volta escurecer. Olhou para as caras dos seus amigos, mas estes não pareciam ter-se apercebido da súbita alteração da luz. Instintivamente, levou a mão à cicatriz, onde um leve formigar trazia de volta a mesma sensação com que acordara.

- Harry? – o som da voz de Hermione ao seu lado fê-lo desviar a mão da testa para o cabelo tentando disfarçar mas, se havia alguém que captava todos os pormenores, esse alguém era Hermione. – Está tudo bem?

- Está, Hermione. Porque não estaria? – Harry esforçou-se por esboçar um sorriso para descansar a amiga, mas este deve ter saído demasiado amarelo, já que Hermione lhe lançou um olhar de desconfiança. – Está na hora de irmos, não é?

Antes que mais alguém tivesse tempo de lhe perguntar se ele estava bem, o seeker agarrou na vassoura, levantou-se e saiu em largas passadas do Salão Principal, sem se preocupar que todos os outros estivessem tão surpreendidos com a reacção do amigo que tenham ficado para trás. Já cá fora, deparou-se com o corredor vazio. Aproveitando aquele momento de silêncio, encostou-se à parede e fechou os olhos, respirando fundo, na tentativa de diminuir o ritmo cardíaco. Podia sentir gotas de suor começarem a formar-se na sua testa, que ele não se preocupou em limpar, e a sua boca parecia subitamente seca. Era urgente, naquele momento, ele acalmar-se.

- O Harry está com pressa de começar o jogo!

A voz de Fred, ou George Weasley, chegava até ele, despertando-o do transe em que se encontrava. Antes que pudesse desencostar-se da parede, as portas do Salão abriram-se dando passagem aos seus colegas de equipa.

- Ah! Aqui está o nosso capitão! – George passou o braço sobre o ombro de Harry, fazendo peso sobre ele, de modo a que o moreno dobrasse as pernas – Estavas a pensar jogar sem nós?

- É claro que não, George! Por isso é que eu fiquei aqui à espera. – a sua voz saiu incrivelmente calma, embora o seu coração continuasse a palpitar no peito. – Vocês são demasiado lentos.

- Tendo em conta a velocidade com que saíste! – protestou Ron, com cara emburrada, apoiado por Ginny que assentiu com a cabeça em concordância com o irmão. – Tudo bem que quanto mais cedo começarmos, melhor, mas eu ainda estava a terminar o meu café da manhã.

- Sempre a pensar com o estômago, Roniquinho!

Ron fulminou Fred com o olhar, mas este já lhe tinha virado as costas e, seguido pelo seu gémeo e por Neville, já tinha atingido a porta principal. O mais novo dos rapazes Weasleys apenas revirou os olhos e seguiu os outros.

- Então, capitão? Preparado?

Harry permitiu-se sorrir à namorada, trazendo-a para junto de si, num gesto de carinho. Ou talvez fosse a única maneira que ele encontraria para se acalmar antes do jogo… Ginny, o seu porto seguro. O que era certo é que parte da tensão o abandonou naquele momento, ficando apenas um ligeiro nervosismo e o formigueiro na cicatriz.

- Vamos lá acabar com os texugos!

Enchendo o peito, na tentativa de encontrar alguma confiança, passou o braço livre em torno da cintura dela e iniciou a sua caminhada na direcção do estádio de Quidditch.

- Vais dizer-me o que aconteceu no Salão? – perguntou Ginny já a alguns metros do castelo.

- Não aconteceu nada no Salão! Eles serão sacrificados…- Harry estagnou no caminho e afastou-se dois passos para trás. Tinha sido ele a dizer aquilo? Ou teria sido na sua cabeça.

- Harry? – Ginny dirigiu-lhe uma olhar de preocupação. – O que aconteceu? Ficaste pálido de repente.

- Sangue será derramado hoje!

Não tinha sido ele! Ou tinha? Não era a sua voz, mas certamente saíra da sua boca. Continuou a fixar Ginny, cada vez mais assustado, mas ela não parecia ter ouvido o que ele tinha dito. No momento em que ela deu um passo na sua direcção, Harry recuou outro. Não fazia ideia porque estava a agir assim. Imediatamente, o formigueiro começou a tornar-se mais intenso e a dor surgiu… inicialmente suportável, até uma explosão de branco surgir na sua frente.

Não estava mais em Hogwarts. Um lugar escuro… a única luz eram tochas de fogo, pelo que devia estar debaixo da terra.

- Está a chegar o dia! – a boca de Harry abriu-se sem que ele pudesse impedir – Hoje o mundo abrirá os olhos para o que acontecerá com aqueles que ousarem contrariar-me.

Só aí Harry percebeu que não estava sozinho. Havia uma roda de pessoas encapuzadas, que mal se distinguiam devido à escuridão. No centro dessa roda, dois homens estavam de joelhos, com as mãos atadas atrás das costas. O mais velho não parecia ter mais do que vinte e cinco anos e o cabelo preto escondia o terror dos seus olhos castanhos. O mais novo tremia compulsivamente, o seu queixo pendia junto ao peito e os seus olhos encontravam-se cerrados com violência, provavelmente sem coragem para encarar o que o destino lhe reservava.

- Mestre! – uma voz demasiado conhecida soou ao seu lado. Pettigrew aproximava-se de cabeça baixa, com um objecto longo e pontiagudo na mão.

- Ah! A espada do meu antepassado. – Harry sentiu-se a si mesmo, a soltar uma gargalhada quase histérica e, embora ele soubesse que apenas estava a ver com os olhos de Voldemort e a falar com a sua voz, não pôde deixar de sentir nojo de si mesmo –Mais uma vez a espada de Salazar Slytherin irá derramar o sangue nojento das criaturas que ousaram proclamar-se como bruxos.

O mais velho dos dois homens foi agarrado pelos cabelos por um Devorador da Morte e trazido diante do Lord das Trevas. Harry podia ver a morte brincar nos olhos expressivos do rapaz e um grito abafado a sair dos lábios quando a espada trespassou o peito dele, empunhada pela sua própria mão.

Harry tentou gritar… tentou impedir Voldemort de fazer aquilo, mas sabia que nada poderia parar o seu pior inimigo. O sangue do rapaz começou a espirrar violentamente do peito e as suas pernas começaram a fraquejar. Mas antes que ele suspirasse pela última vez, a mão esquelética de Voldemort enterrou-se no buraco que a espada fizera. Desta vez o grito da vítima tinha sido ensurdecedor.

Na sua mão, Harry podia sentir o coração dele pulsar e, mal ela se fechou sobre o órgão, este foi arrancado com força, trazendo uma nova onda de sangue, que foi bombeado durante mais alguns segundos, até que o coração parou nas suas mãos. A satisfação encheu o seu peito. Não! A satisfação não era dele, mas de Voldemort.

Os olhos do rapaz estava agora sem vida, opacos, e toda a sua face estava contorcida numa expressão de dor e horror. Aquela imagem ficaria para sempre na memória de Harry. Os seus olhos desviaram-se para o outro prisioneiro, antecipando o que iria acontecer também a ele.

- Que o banho de sangue comece - O outro rapaz foi agarrado, enquanto se contorcia e gritava desesperadamente, na tentativa vã de se libertar. A espada foi erguida pela segunda vez e, num gesto rápido, sangue foi novamente derramado – NÃAAAAAAAAO!

Harry segurou o peito com força, quase que tentando impedir que o coração lhe fosse arrancado também. A sua respiração era acelerada, mas, ainda assim, parecia que não chegava oxigénio suficiente ao seu cérebro. Podia sentir também as lágrimas que começavam a escorrer na sua face, juntamente com o suor. Nem mesmo a dor lancinante na sua teste era comparada com a aflição que o envolvia.

O seu peito foi rodeado por dois braços e só aí se apercebeu de que já não se encontrava na mente de Voldemort, mas de volta ao seu corpo. Tremeu involuntariamente, num soluço que não conseguiu controlar.

- Calma, Harry, já terminou! – a voz de Ginny chegou aos seus ouvidos com uma bênção, lembrando-lhe que não fora ele que cometera aqueles actos horríveis.

Demorou mais alguns minutos até que ele se acalmasse e outros tantos até que Ginny finalmente o largasse. Felizmente ninguém estava por perto. Tudo o que Harry menos queria, naquele momento, era ouvir comentário de que enlouquecera novamente, ou ver a pena estampada nos olhos dos seus amigos.

- Talvez não seja boa ideia ir em frente com este jogo.

- Não! – Harry abanou negativamente a cabeça, limpando o rosto com as mãos – Não vou deixar que Voldemort me intimide. Não vou deixar!

- Harry espera!

Mas Harry já não ouviu o que Ginny tinha para dizer. Agarrou na vassoura que estava ao seu lado no chão e correu a toda a velocidade para o vestiário do estádio. Precisava de gastar aquela euforia, ou não se concentraria no jogo. Maldito fosse Voldemort. Ele iria pagar por tudo o que tinha feito!

- Viste algum fantasma, Harry? – perguntou Ron mal viu o melhor amigo chegar – Não me digas que foi a Murta Queixosa.

- Ron! – ameaçou Ginny logo atrás de Harry – Não fales do que não sabes.

Imediatamente, Ron calou-se e fitou seriamente o casal recém-chegado.

- Aconteceu alguma coisa?

- Pelo amor de Merlin! Parem de me perguntar de aconteceu alguma coisa ou se eu estou bem! – explodiu o capitão, para surpresa dos outros seis. – Vamos acabar com isto de uma vez!

Nenhuma palavra foi proferida até à saída da equipa na direcção do campo. Harry tinha a cabeça a estourar de dor e não desejava, de modo algum, descarregar nos amigos. O barulho ensurdecedor do estádio só intensificou a dor. Levemente fechou os olhos, mas logo os abriu quando as imagens da mente de Voldemort voltavam mais vivas do que nunca. O próprio cheio metálico do sangue estava impregnado nas suas narinas, como se ele nunca tivesse deixado aquele cenário.

Talvez fosse por causa no nervosismo, mas o apito de Madame Hooch parecia estar a demorar mais do que o costume. Não era apenas impressão sua, todos os outros jogadores pareciam pensar o mesmo.

- Potter?

Harry olhou para trás, onde uma esbaforida McGonagall corria na sua direcção. A sua face estava pálida e as suas rugas comprimiam-se em preocupação. As suas mãos estavam fortemente apertadas em punhos, cerrando um papel amachucado, o qual Harry notou rapidamente.

- Professora? Aconteceu alguma coisa?

Uma sensação de Dejá vú tomou conta de Harry e uma memória distante apareceu em sua mente. Da última vez, o jogo tinha sido cancelado porque Hermione tinha sido encontrada petrificada.

- Temo que tenhamos de cancelar o jogo, Potter. – McGonagall ergueu uma mão para calar George, que abrira a boca para protestar. – Não estou a perguntar a opinião, Weasley, estou aqui para vos mandar de volta para a torre. Os vossos colegas irão ser também avisados.

Com um gesto da varinha, a directora abriu as portas que davam acesso ao relvado do estádio. Harry não esperou pelo anúncio e encaminhou-se de volta ao balneário, apenas ouvindo ao longe as palavras de McGonagall, distorcidas pelo barulho dos alunos, a mandar todos os alunos para as respectivas salas comuns.

Seguido por todos os outros, encaminhou-se em silêncio, perguntando-se mentalmente o que teria acontecido para deixar McGonagall tão perturbada ao ponto de cancelar a final de Quidditch. Foi a pensar nisto que se despediu dos colegas no topo das escadas e se desviou para a directoria, sem dar explicações a ninguém. Encontrou McGonagall já quando esta estava a chegar às gárgulas.

- Professora? – chamou Harry, fazendo com que a directora parasse e olhasse para o aluno com um ar severo. – Sim, professora, eu sei que já devia estar na torre… mas eu preciso de saber se aconteceu alguma coisa.

McGonagall suspirou e coçou os olhos por debaixo dos óculos, antes de dirigir a Harry um sorriso triste.

- Sempre esse complexo de herói. Aconteceu sim, Potter. Aconteceram muitas coisas hoje, mas nada com que te devas preocupar no momento.

- Mas…

- Potter! – a voz autoritária e impaciente estava de volta. – Faz um favor a ti mesmo e volta para a torre. É melhor assim.

Harry não se atreveu a contestar mais a ordem de McGonagall. Ela não era Dumbledore e não toleraria a desobediência dele. Virando-lhe as costas ele fez o caminho de regresso à torre de Gryffindor, em passos lentos, tentando decifrar aquele enigma, sem olhar verdadeiramente por onde ia. Se estivesse mais atento, teria visto os quadros sussurrarem comentários entre si, provavelmente a contar a nova novidade que tinham ouvido. Mas algo de estranho se passava, até com eles. Tudo parecia sombrio!

O seu momento de distracção não demorou mais do que alguns segundos, quando ele embateu em algo… ou melhor, em alguém. Joanne Boss parecia estar nervosa com algo e quase nem vira Harry. Algo se passava com o corpo docente daquela escola e ele precisava descobrir porquê.

- Potter! – Ela parecia algo chocada por encontrar o aluno ali e falou com alguma rispidez, lembrando, de certa forma McGonagall – O que estás a fazer aqui? Não devias estar na torre?

- Sim, professora, mas eu fui falar com…

- Então de que é que estás à espera?

- Mas só queria…

O olhar que ela lhe lançou fê-lo calar imediatamente. Joanne era sempre tão cordial com ele, para além de que, normalmente, o tratava como Harry e não como Potter. Agora tinha a certeza: algo de muito grave tinha acontecido e McGonagall não era a única que tinha sido abalada pelo acontecimento.

- Podia só dizer-me o que está a acontecer? Afinal eu também faço parte da Ordem da Fénix.

Joanne, que já se preparava para seguir o seu caminho, estagnou subitamente e estudou o aluno, com um misto de mistério e aflição.

- O que quer que tenha acontecido, não é nada com te que devas preocupar. Agora sê um bom menino e vai para a torre de Gryffindor.

Aquela era exactamente a mesma resposta que McGonagall lhe tinha dado. Porque todos estavam tão preocupados com o facto de que aquilo poderia abalar Harry? Primeiro a directora, agora Joanne. Algo lhe dizia que estava relacionado com ele próprio, o que tornava mais urgente que ele descobrisse.

Subitamente, algo o fez parar. O seu coração voltou a palpitar pela terceira vez naquele dia. Respirou fundo e contou mentalmente até dez, ignorando o formigueiro que começava a manifestar-se novamente.

- Ele ainda não sabe, mas vai saber em breve.

Mais uma vez, a voz surgiu na sua cabeça, como se tivesse sido ele próprio a dizer aquilo. Harry olhou em sua volta, no entanto, desta vez não estava no mesmo lugar de anteriormente. O cenário agora era bem mais macabro e horripilante… o mesmo cemitério onde viu Voldemort reerguer-se no seu quarto ano.

- E depois o que acontece, Mestre? – Aquela voz também era conhecida. Os seus olhos fixaram a figura de Bellatrix Lestrange, fazendo uma leve vénia ao seu senhor.

- Depois, minha cara Bellatrix, é só aguardar! E tu estarás lá para lhe dar o meu presente.

Voldemort encontrava-se de costas para o cemitério, voltado para a mansão Riddle mais acima. Harry sabia que ele não estava sozinho, provavelmente a sua assembleia de Devoradores da Morte estava reunida, planeando o próximo ataque. Se Harry achava que já tinha visto horrores suficiente naquele dia, ele estava muito enganado. No momento em que Voldemort se voltou, foi possível vislumbrar uma elevação do que pareciam ser sacos de pano esfarrapados. Mas, assim que Harry observou melhor, percebeu, finalmente, de que não se tratavam de sacos, mas sim de roupas… roupas a envolver corpos que estavam amontoados.

Tentou, em vão, fechar os olhos, mas a satisfação de Voldemort não o deixava tirar os olhos daquele cenário.

- E que o meu exército de morte se reerga! – O braço de Voldemort, segurando uma varinha elevou-se e apontou para os corpos. - Animas Corpus.

Imediatamente, as pessoas começaram a mexer-se, inicialmente com pequenos movimentos, e por fim a levantar-se, como se nunca tivessem estado mortas. No entanto, os seus olhos estavam opacos e os seus braços caídos ao lado do tronco, como se de zombies se tratassem. Era muito pior do que isso: diante dele, erguia-se um exército de Inferis.

Quando Harry acordou, ele ignorou qualquer dor que sentisse, qualquer sinal de que as suas pernas iriam fraquejar, qualquer alarme mental que o avisava para parar um pouco e respirar fundo. Ele precisava avisar alguém! Voldemort estava a preparar-se para um ataque e desta vez iria ser algo de grande.

Não reparava verdadeiramente por onde seguia. Apenas precisava de falar com alguém. Quando deu por si, já estava a entrar pelo buraco da Dama Gorda e a subir até ao seu dormitório, ignorando cada um dos amigos que o chamavam, deixando que as suas pernas o levassem até ao espelho de dois lados, que lhe permitiria contactar com Sirius.

Porém, algo mais aconteceu quando ele se preparava para chamar o padrinho. Uma nova visão, mas, para seu grande desespero, o cenário agora era aquele que ele menos desejava ver na mente de Voldemort… a sua casa! E só agora ele percebia… ele não tinha entrado por acidente na mente do seu inimigo… Voldemort deixara que ele entrasse. Pior! Voldemort forçara-o a entrar.

- Sim, meu caro Harry - Era como se Voldemort estivesse a falar ao seu lado - A tua linda mãe vai ter uma visita inesperada, hoje. Estás a ver aquela janela? - O dedo indicador de Voldemort apontou para a única janela do prédio que tinha luz - Tenho a certeza de que é lá que ela está, neste momento, sozinha, a acariciar a sua bela barriguinha, sentindo-se segura, pelas defesas que Dumbledore ali colocou. Não, não, não! Ela nem imagina que as magias do velho senil são inúteis contra mim. - Voldemort sorriu baixinho, um sorriso maldoso que atingiu Harry em cheio no peito - Mas tu sabes, não é, Harry? E também sabes o que Bellatrix vai fazer com ela! Se fosse eu a ti, eu preparava-me, porque amanhã talvez descubras que o que aconteceu no último ano, não passou de um lindo sonho.

Só aí… só nesse mesmo instante, Harry percebeu a real ameaça que Voldemort fizera naquele longínquo dia no final de Agosto, quando fora derrotado. Um dia ele voltaria e vingar-se-ia de Harry… da forma mais dolorosa possível!


Nota de beta: Ahn… lightmagid suspira de saudade já fazia tanto tempo que não deixava uma notinha bem queridinha e bondosa de beta. Rs rs rs será que devo ser má? Mas como? Eu me pergunto: Como? Como é possível tecer um comentário maldoso quando nos vimos frente a frente com um capítulo maravilhoso?! A arte de Guida é muita… o génio memorável… mas confesso não descobrir arte em mim ou engenho que me faça parar de ficar surpreendida com a evolução da escrita desta MUI NOBRE autora! Este capítulo é para mim, a ponte da fic. Uma ponte que liga aquilo que já lemos e aquilo que o meu coração e os meus olhos esfomeados anseiam por ler! Uma transição entre o soft e o arrebatador! Por isso, a minha nota de beta é esta: apelo ao engenho de Guida Potter Gryffindor Magid para que este nos leve numa viagem simultaneamente aterradora e emocionante! Como sempre foi e sempre será!