Buried


Disclaimer: As personagens pertencem a JKR e companhia. Algumas coisas pertencem a Chris Carter também!

Censura: M, para linguagem, descrição de cenas e violência. Eu avisei!


Epílogo – Todas as coisas


"A culpa foi minha" – ela assumiu, sua voz embargada. O corpo dela tremeu levemente e James apertou a mão dela mais forte, como para lembrá-la de que ele estava ali, para ela. "Eu deixei que ele me levasse. Eu o vi, antes de saber quem era, e depois, quando ele assumiu sua identidade, eu podia ter fugido ou gritado. Ou lutado. Mas eu deixei que ele me levasse. Foi um segundo apenas, mas eu fui fraca."

Os olhos acastanhados dele miraram o chão. Ele sabia, é claro.

"Não há desculpas para o que eu fiz, apenas um motivo. Eu queria feri-lo, James."

Lily buscou os olhos do parceiro. Ele a encarou por longos segundos. Era uma sensação avassaladora ouvir aquela declaração. "Você não estava pensando direito, Lily. Eu a magoei, eu traí sua confiança..."

"Não" – ela interrompeu – "Nada justifica o que eu fiz. Eu jamais poderei me perdoar. Eu teria morrido, se não fosse por você. E se eu morresse, você não se perdoaria. Eu teria causado uma dor profunda em você. Um sentimento de culpa tão grande quanto o que você carrega pela morte de Emma. Não há desculpas para meu comportamento. Só a esperança de que você possa, um dia, me perdoar".

A sinceridade das palavras dela o tocou profundamente. "Por que?", ele quis saber. Sua voz traía sua confiança – ele estava arrasado com a intensidade da situação. Nada o tinha preparado para tamanha sinceridade.

"Porque você tinha razão. Não sou boa o bastante, não tenho estrutura emocional para isso. Eu queria ferí-lo da pior da maneira possível, então eu me rendi. Eu quis lutar depois, mas a verdade é que não precisaria ter tido o depois, caso eu tivesse agida da forma correta."

"Você podia estar morta agora. Isso já não importa mais" – ele sussurrou.

"Eu devia estar morta e isso é importante. Você me encontrou, e eu não consigo dizer o quanto eu sinto por ter colocado você nessa situação. Eles me contaram como você ficou...aquele lugar escuro da sua mente. James, algum dia você poderá me perdoar, de verdade?"

James estremeceu. Ele tentou espantar discretamente uma lágrima teimosa. "Por que?"

A reação dele a entristeceu mais. "Porque eu não conseguia pensar em perder você. Em algum momento e de alguma forma, eu achei que a morte seria bem vinda. A verdade é que não ter você me pareceu mais difícil do que morrer. Eu deixei que ele me levasse para atingi-lo. Quando eu realmente entendi minha posição, eu tentei lutar. Tarde demais, eu pensei em você. Enquanto isso, você esteve apenas tentando me proteger" – ela fechou os olhos quando as imagens a assombraram "James..." – ela sussurrou, a voz entrecortada pelo choro sentido de Lily.

As palavras dela soaram como uma prece. James. James. James. Ele espantou a lembrança e apertou a mão dela ainda mais forte. O dedão dele correu pela marca da pulseira do hospital e seguiu em direção ao roxo amarelado que indicava o lugar onde o soro tinha sido colocado.

"Ele a pegaria, de uma forma ou de outra" – ele respondeu – "É o que eles fazem. Ele iria atrás de você, porque ele achava que você era a última tarefa dele. Mas eu também tenho culpa...eu deveria ter adivinhado que você reagiria com impulsividade. Eu a coloquei nessa posição, desde sempre."

"James, não.."

"Lily, por favor" – ele interrompeu, um pedido silencioso. Era coisa demais para lidar naquele momento e ele precisava só estar com ela. Perto dela, dentro dela.

Eles se olharam por um instante. James se aproximou dela, subiu as mãos para a lateral do rosto da parceira e a puxou de encontro para ele. A boca dele buscou a dela com urgência. Lily respondeu de forma intensa – o gosto dele era melhor do que ela se lembrava e parecia que fazia tanto tempo desde a última vez. O beijo era de saudade e medo e de perdão. "Eu não suportaria perder você, Lily" – ele confessou, antes de beijá-la novamente.

O gosto salgado apareceu e podia ser das lágrimas dele ou dela, eles não se importaram. Eles mal trocaram um toque desde que ela fora levada ao hospital, dias antes. Eles precisavam daquilo – um beijo, como um sopro de vida. Ele aprofundou o beijo, a boca dele clamando por ela e a deitou no sofá – a parte instintiva dele ignorou os machucados e a fragilidade do corpo de Lily.

Ele abriu os botões da blusa e da calça jeans que ela usava e uma parte de sua própria roupa foi jogada para o lado. Ela reagiu rápido, sem tempo para carinhos ou beijos apaixonados – precisava dele tanto quanto ele precisava dela – seus corpos lutando pela proximidade física - e quando ele a penetrou, rápido e forte, ela sentiu a dor bem vinda.

Momentos depois, ela pousou a cabeça sobre o peito dele, a respiração deles lentamente se acalmando.

"Eu deveria ter te contado sobre Emmeline, logo quando ela apareceu" – James assumiu.

"O que aconteceu, então?"

"Me senti envergonhado quando percebi que você era mais do que minha parceira. Vocês são tão diferentes e eu achei que você pudesse me achar fraco quando soubesse que eu ainda estava ligado a ela."

"Então é verdade, vocês ainda são casados?"

"Fomos casados, é verdade. Ainda erámos quando você a conheceu e nos envolvemos. Eu só tratei dos papéis do divórcio recentemente."

"Você a ama?"

"Por Deus, não! Eu já não a amava há anos, muito antes de você, mas me recusava a assinar o divórcio. Emmeline e eu nos conhecemos durante meu treinamento na agência. Ela era da turma anterior e costumava monitorar minha turma durante o nosso curso. Eu me apaixonei por ela. Ela era um ano mais velha e completamente independente emocionalmente de mim. Nos envolvemos rápido e ela achou que seria boa ideia nos casarmos. Um ano depois, ela se entediou e queria mudar nossa vida. Eu me recusei a largar a Yard quando surgiu uma oportunidade na Europol. Eles iam selecionar um profiler gabaritado e ela queria que eu apresentasse meu currículo e minha tese de mestrado sobre assassinos seriais. Eu me neguei a apresentar minha tese, que era um estudo sobre o assassino da minha irmã" – ele deu uma risada melancólica – "Nós brigamos durante dois meses por isso. Algum tempo depois, ela me informou que tinha sido selecionada e que queria o divórcio. Eu fiquei bravo com ela, por me largar, e não assinei os papéis."

James buscou a mão de Lily, seus dedos massageando lentamente os nós dos dedos dela. O leve peso do corpo dela o acalmou.

"Eu nunca soube como e porque ela tinha sido selecionada, até encontrar os arquivos de Peter. Nunca me importei com isso, já que ela tinha me deixado por querer uma vida grandiosa. Ela saiu da minha vida, mas sempre voltava, de um jeito ou de outro. Sempre que eu conhecia alguém ou tinha um caso importante, ela voltava. No começo, eu achei que ela ainda me amava e que sentia saudades. Mas quando conheci você, percebi que o que sentia por Emmeline não era nada. Então, ela voltou novamente e eu resgatei os papéis do divórcio. Em ficou tão brava quando percebeu que eu estava apaixonado por você. Ela não aceitou muito bem. Emmeline nunca achou que seria superada. Sei que foi difícil quando ela chegou. Sei que você ficou magoada, mas se naquele momento eu declinasse a seu favor, ela iria tentar estragar tudo...bem, ela tentou de qualquer forma, não foi?" – ele deu uma risadinha.

Lily não sorriu.

"Ela tentou me convencer que você estava tentando subir na carreira às minhas custas e que você e Snape estavam envolvidos de alguma forma. Ela me atormentava dia e noite com isso. A verdade é que comecei a pensar sobre isso – eu via os olhares de Snape para você. Mas eu sentia que você não era assim, e quando finalmente eu a questionei sobre essa fixação com você ser apenas uma mulher interesseira, ela recuou. Apenas quando Peter morreu é que eu descobri a verdade, a verdade que ela e Peter me escondiam há anos..." – a voz dele embargou. Doía pensar em Peter como um traidor.

Lily apertou a mão dele forte, encorajando-o a continuar.

"Emmeline convenceu Peter a entrar no meu computador e acessar meus arquivos. Ela roubou minha tese de mestrado e a plagiou. Ela expos minha família e a morte da minha irmã para o Conselho da Europol. Eles ficaram impressionados com o trabalho dela, o meu trabalho, e ela foi contratada. Acho que Sirius desconfiou, de alguma forma. Ele passou a odiar Peter por isso. Quando entramos no computador de Peter...Sirius obteve sua confirmação".

"Eu não estou em posição de julgar Emmeline"- Lily respondeu. Ela também odiava a agente Vance, mas as duas tinham algo em comum. Magoar James parecia um elo que nunca deveria ter existido. "Ela sabia que Emma era um assunto delicado para você. Não existe desculpas para ela...nem para mim" – ela sussurrou.

James deu um sorriso triste e beijou os cabelos da parceira. "Eu não a odeio, Lily. Ela foi importante para mim durante um tempo. Eu não poderia odiá-la, tal como eu nunca poderia odiar você. Mas ela me traiu, e não foi um gesto de amor. Peter fornecia informações a meu respeito. Assim, ela sempre sabia quando aparecer para estragar minha vida e meus casos."

Lily levantou a cabeça para olhar James. O coração dela se partiu ao ver o rosto dele. Ele parecia tão quebrado! Ela se aproximou e beijou o rosto dele. Beijos não poderiam curá-lo, ela sabia, mas talvez pudessem espantar um pouco a dor que ele sentia. "Eu sinto tanto, James. Você já foi magoado tantas vezes e eu...eu não podia tê-lo ferido também. Não é justo com você!"

Ele sorriu aquele sorriso triste que parecia pertencer ao rosto dele. "Nós podemos superar isso, Lily. Eu prometo" – ele afirmou, mas a voz dele vacilou.

Lily sabia que seria um longo percurso a percorrer. Ela precisaria aprender a superar e entender a violência e o trauma sofrido, e também a intensidade do que sentia pelo parceiro. O amor entre eles não poderia ser assim destrutivo. Ela não era Emmeline.

"Se eu tivesse morrido..."

James a interrompeu. "Lily, eu não vou mentir sobre isso. Se você tivesse morrido, eu morreria junto. Aos poucos, lentamente, dia após dia. Eu morreria pela culpa e pela sua ausência. Talvez eu te culpasse também, em algum momento, mas eu carregaria isso comigo, como meu fardo, até meu último suspiro."

James não estava mentindo. Lily podia ver nos olhos dele o quão verdadeiras eram aquelas palavras. Ele tinha algo de autodestruição dentro dele. Talvez isso explicasse a forma como ele podia entrar na cabeça de assassinos e desvendar tão bem suas personalidades. Lily tinha sido avisada mais de uma vez sobre como isso era perigoso para James. Será que ele teria voltado a si, se ela tivesse sido encontrada morta?

"É uma boa coisa que eu ainda esteja aqui, então" – ela sorriu e espantou aquela ideia. Ele ficaria bem. Ela estaria ao lado dele para garantir isso.

"Eu não pediria por nada melhor do que isso. Você está viva e aqui, comigo" – ele sorriu de volta.

"Eu não pretendo ir a lugar nenhum" – ela o abraçou.

Era uma promessa, ele sabia. Ele a amava por isso. Poderia Lily ver o perdão nos olhos dele, algum dia?

"Eu espero" – ele brincou. Depois, os olhos dele ficaram sérios – "Você tem apenas mais uma semana de licença. Mal posso esperar para tê-la comigo novamente, como minha parceira".

"Sobre isso.." – Lily se afastou para olhar o parceiro nos olhos – "Eu não acho...eu não acho que seja uma boa ideia. Você tinha razão quando disse que eu não era boa o suficiente.".

"Lily...não.."

Ela se endireitou no sofá, convidando James a fazer o mesmo. Naquele momento, eles não eram um casal, e sim, parceiros na Yard. "Você estava certo, desde o começo. Eu queria fazer algo que importasse quando me inscrevi para ser sua parceira. Eu queria fazer a diferença e achava que trabalhar ao lado de um profiler como você seria o ideal...a fome e a vontade de comer" – ela deu ao parceiro um sorriso triste.

Não era fácil para ela ter que admitir sua derrota. Alguém como ela, sempre acostumada a vencer, a ficar em primeiro lugar e a ser admirada pela inteligência e coragem. Mas a realidade era muito maior do que suas pretensões e sonhos.

"Mas eu não sou essa pessoa, James. Eu sou fraca e impressionável." – ela declarou. Depois, levantou-se rapidamente e foi em direção a mesa de jantar. James a seguiu. Ela pegou um envelope de cor parda e entregou a ele.

O agente da Yard abriu o envelope sem cerimônia e correu os olhos pelo papel. Quando terminou de ler, ele parecia decepcionado.

"Sinto muito. Por favor, preciso que me entenda."

"Você não pode se demitir, Lily. Você é boa, você é capacitada...eu estava errado!"

Lily negou. Ela teve muito tempo para pensar em tudo. A decisão dela era racional, e ela sabia que era a única forma de poder seguir em frente.

"Não, meu amor, eu não sou. Eu não sou qualificada para estar ao seu lado. Mas acima de tudo, não sou boa o suficiente para dedicar minha vida a essa área. Crimes seriais. Eu sempre, sempre, vou me identificar com toda e qualquer vítima e não vou poder pensar de forma imparcial. Eu vou sofrer de stress pós-traumático regularmente e vou precisar que você esteja comigo. Eu vou tirar sua atenção e vou retardá-lo. Você sabe disso."

James quis retrucar, mas se calou. Ele sabia. Lily nunca mais poderia analisar um assassinato com os mesmos olhos. Mas ainda assim, ele não queria abrir mão dela. "Eu preciso de você" – ele se aproximou dela, puxando o corpo da parceira para perto. Ele a abraçou forte e apertou os olhos. A ideia de não tê-la mais como parceira o assustava. "Eu preciso de você para me trazer de volta".

"Eu estarei aqui" – ela disse, tocando o coração dele e depois batendo levemente com o dedo indicador na cabeça "E aqui. Eu prometo que vou te trazer de volta, porque eu estarei sempre ao seu lado, enquanto você me quiser. Eu te amo, James. Eu te amo acima de tudo e quero estar do seu lado. Mas não como sua parceira".

O rosto de James corou com a declaração explícita dela. Eles podiam agora falar livremente sobre seus sentimentos. Não havia mais segredos entre eles.

"Dumbledore sabe?"

Lily deu uma risadinha conspiratória. "Nós conversamos sobre isso há dois dias. Ele já aceitou meu pedido de demissão."

A palavra traição dançou na mente e na língua de James de forma cômica. Até Dumbledore, huh? "E o que acontece agora?" – ele questionou, evitando pensar em quem seria seu novo parceiro. Uma parte dele estava devastada, mas de certa forma, não era o que ele queria já há algum tempo? Que Lily ficasse segura?

"Eu vou receber uma condecoração pela prestação de serviços relevantes pela Europol e Dumbledore vai me indicar como assistente de instrução na Academia. Não me orgulho muito em dizer isso, mas a verdade é que a vaga já é minha."

"Você tem certeza?" – James estudou o rosto de Lily. Ela confirmou. Não havia retorno. Eles já não eram mais parceiros na Yard.

"Você está bem?" – ela perguntou, preocupada. James não respondeu. Apenas sorriu para ela e a beijou. "Eu ficarei bem" – ele afirmou quando eles se separaram.

"E quanto a nós?" – a pergunta tímida dela o fez sorrir. É claro que havia um longo caminho a percorrer. Eles precisariam confiar um no outro e seguir em frente. Sem Emmeline, Peter ou um assassino maluco entre eles. Sem a Yard e seu compromisso de parceria.

De repente, o cenário já não parecia tão ruim. Ela perdia sua parceira na Yard, mas ganhava uma parceira para a vida. "Eu te amo, Lily. Você é a minha vida. Nós ficaremos bem."

Lily sorriu em resposta. Eles ficariam bem.


N/A.: Chegamos ao fim de Buried. Foi um longo caminho, cheio de ideias frustradas e licenças poéticas. Eu quis um final clean, leve e sem enrolação. Não consigo imaginar meus personagens, neste momento, num final diferente. Acho que a história tem o fim que é coerente com tudo. Meu James é quebrado e complexado e minha Lily descobriu um pouco sobre ela mesma. Eu gosto de pensar que eles teriam muita coisa para resolver pela frente...

Obrigada a todos que leram, favoritaram, seguiram e comentara essa história. É sempre muito bom saber que nosso hobby tem algum valor. Espero rever a todos em breve :)