Capítulo 1


-- Quem é o homem de jaqueta preta?--

"Ele foi uma pessoa que apareceu sem aviso na minha vida e a mudou por completo."

Se daqui a alguns anos aparecer alguém que vá até Frank e pergunte pra ele quem é aquele homem de jaqueta preta Frank responderá isso. Mas agora as coisas ainda são diferentes. Frank sempre foi observador, passar por uma tragédia não vai mudar isso, muito pelo contrário. O garoto de quinze anos olha atentamente para o homem de jaqueta preta tentando fazer uma análise de quem ele seria. O homem misterioso era moreno, magro, alto, cabelo preto curto (estilo social) e tinha um rosto ossudo. Frank o achava esquisito, não parecia ser um policial, era exótico demais pra isso. "O que fazia então dentro da cena do crime?" se perguntava.

-Tudo bem, garoto? - pergunta o enfermeiro da ambulância. Frank achou a pergunta tão idiota que não conseguiu nem responder, pelo menos não verbalmente. "Claro que não, idiota! Toda minha família morreu!"

Esses eventos se passam às onze da noite na frente da casa da família Mendes, que fica na cidade de São Bartolomeu, interior de algum estado do Brasil. Nesse momento Frank está sentado na porta de uma ambulância recebendo cuidados médicos e esperando algum policial fazer perguntas a ele. O homem de jaqueta preta está a apenas vinte metros de distância de Frank, conversando com o delegado. Logo a frente dos dois está à porta principal da casa dos Mendes. A casa era grande, estilo europeu. Coisa de gente rica.

-Nunca vi nada assim. Achei melhor procurar sua ajuda especializada. – Diz o delegado.

-Fez bem, Óxitom. Fez bem.

A dupla entra na casa e caminha até o primeiro cadáver, era o senhor Mendes. O defunto era meio gordo e tinha um bigode esquisito. Havia um furo na sua testa que parecia ser de bala.

-Sim. Eu sei que é bizarro fuzilar uma família inteira, mas esse tipo de coisa não se enquadra em minha área de atuação.

-Olhe mais atentamente pro corpo.

O homem de jaqueta preta então se agacha para ficar cara a cara com o defunto. Isso é claro, tomando cuidado para não tocar no cadáver e estragar alguma eventual pista.

-Ainda não vi nada demais.

-Não tem balas nesse corpo.

-O quê? Não foi o pessoal da pericia que as tirou? Pra examinar, sabe?

-Não. As vitimas foram encontradas sem balas dentro delas. Também não havia resíduo de pólvora perto das perfurações. Agora me responda: como é possível fazer marcas de balas sem usar balas?

-Finalmente um caso interessante por fim. – O homem de jaqueta preta coloca a mão esquerda no queixo e suspende a sobrancelha direita. Uma expressão que costuma fazer sempre que está reflexivo.

Pelas vitimas serem bem abastadas a força policial fez uma verdadeira "festa" na casa dos Mendes. Havia policiais, peritos, detetives... Praticamente todo tipo de profissional que lida com criminalidade se envolveu na busca de um suspeito da autoria daquele massacre. Não se engane, se algo semelhante acontecesse em uma parte mais humilde da cidade nem um terço dessa gente seria mobilizado.

Encostados na parede da sala, dois policiais que não tinham o que fazer começam a conversar.

- Quem é esse homem de jaqueta preta?

-Já o vi antes, mas não estou me lembrando qual o seu nome. Ele se autodenomina como sendo um "especialista em casos sobrenaturais".

-Nossa! Como pode o delegado pedir ajuda de um charlatão desses?

-Não sei. Às vezes acho que Óxitom acredita em tudo.

-Espíritos vingativos conseguem fazer todo tipo de ferimento. – Disse o homem de jaqueta preta a Óxitom. Ele usou um tom de voz inadequado para a situação, alto demais, fazendo com que a dupla policial ociosa acabasse escutando.

-hahaPFFF! – Um dos policiais põe a mão direita na boca para abafar sua risada. – Óxitom acredita mesmo nessas coisas?

-Ele não é um delegado. É uma piada.

Do lado de fora da casa, um policial vai até a ambulância se encontrar com Frank pra fazer perguntas a ele, algo já esperado. "Você viu o rosto do assassino? Seus pais tinham inimigos? Alguma coisa estranha aconteceu antes do ocorrido?" O policial fez muitas perguntas, infelizmente Frank não conseguiu responder nenhuma. Irritado, o policial sai da ambulância e some de vista.

UEEEON! UEEEON! Assim que o policial vai embora a sirene da ambulância é ligada e o veiculo ruma até o hospital mais próximo.

-Essa casa tem histórico de assassinatos, suicídios ou qualquer tragédia do tipo? – Pergunta o homem de jaqueta preta a Óxitom.

-Não. Duvido muito. Essa casa é recente, foi construída em 1997. Só abrigou essa família até agora.

-Sei, sei. Bem, em volta da casa há muito mato. Talvez algum cadáver tenha sido exumado por lá, não? Talvez até mesmo antes desta casa ser construída.

-Pode ser. Mas eu não posso organizar uma busca por cadáveres que nem sei se existem. É melhor nos concentrarmos nos defuntos Mendes.

-Sei, sei. Pode acontecer também de uma pessoa se ligar tanto a um objeto que acaba ficando presa a ele depois de sua morte. Talvez aja dentro da casa um objeto assim, que guarda um espírito ruim dentro dele.

-Mas, nesse caso, poderia ser qualquer coisa da casa.

-Seria melhor começarmos a procurar por objetos antigos. Quadros, jóias, vasos... Esse tipo de coisa só acontece com objetos valiosos. Se não de valor financeiro de valor emocional.

Frank não tinha nenhuma ferida grave, pelo menos não fisicamente. Tanto é que não precisou ficar em nenhuma cama de hospital. Foi sentado em uma das cadeiras do corredor que ele recebeu todos os cuidados médicos que precisava. No caso só alguns bandeides para cobrir arranhões bem superficiais. – Ele não tem dezoito não, né? – Pergunta uma enfermeira a um médico. – Ele ainda tem família. Soube que um tio do garoto assumiu a guarda. – Foi a resposta que obteve. Além desse, outro comentário que os médicos e enfermeiros fizeram era o quanto forte o rapaz era. Mesmo com a morte de sua família assim tão recente, ele não chorou uma vez sequer. O que eles não sabiam é que a tristeza de Frank era pequena se comparada ao ódio que sentia. Um ódio que ele achava que só iria acabar quando se vingasse.

Somente duas da manhã é que o homem de jaqueta preta termina de analisar a cena do crime e vai até a sua casa descansar. Apesar de ter mais de trinta anos, o homem de jaqueta preta não possui carro. Só consegue voltar pra casa porque Óxitom, sempre disposto a ajudar os outros, oferece carona em seu palio vermelho modelo 1995.

A casa do homem de jaqueta preta é pequena (dois quartos, uma sala, um banheiro e uma pequena área aberta nos fundos), parece mais um depósito do que outra coisa. Tudo esparramado e precisando urgente de uma limpeza. Nada de se estranhar vindo de uma casa de alguém solteiro. Apesar de ser solteiro e de não morar mais com seus pais, o homem de jaqueta preta não mora sozinho. Ele divide sua casa com um amigo de infância. Os seus vizinhos acham essa atitude de compartilhar a casa no mínimo esquisita. Até chegaram a desconfiar da masculinidade do homem de jaqueta preta. Desconfiança essa que é abalada quase todo sábado, quando o homem de jaqueta preta é facilmente encontrado em algum bar da cidade conversando com uma jovem. Sempre uma jovem por noite, sempre consegue sair do bar acompanhado dela. O que fazem depois você já deve ter deduzido.

-Encontrou alguma coisa sobrenatural hoje, amigo? – pergunta Afonso, o amigo de infância do homem de jaqueta preta.

-Não. Foi uma noite desperdiçada. O caso, de fato, é estranho. Mas não tem nada nele que sugira ter envolvimento com algo sobrenatural. Puts! Sei que Óxitom quer me ajudar, mas a anciã dele em encontrar algo atém do natural só está me fazendo perder tempo.

-O que foi que houve?

-Uma família encontrada morta com perfurações semelhantes a feitas por balas. No entanto não foi encontrado nenhum vestígio de bala ou pólvora. Mistério besta, mas que a mente simples de Óxitom não consegue desvendar. Ele atribuiu logo isso a causas sobrenaturais.

-"Mistério besta?" Você já desvendou?

-Claro. Fiz isso antes da primeira meia hora de investigação. Só não disse nada pra não desapontar Óxitom.

-Diga logo, vá. Diga.

-Aqui na região alguns fazendeiros costumam abater bezerros usando um tipo de pistola de ar comprimido. Elas não lembram em nada uma arma convencional. Parecem mais um extintor de incêndio prateado com uma mangueirinha na ponta. Não deixam vestígio de pólvora porque não usam pólvora. Não deixam balas para trás porque não precisam delas. Muito inteligente esse assassino em série. Com uma pistola dessas, ele pode se aproximar calmamente de sua vítima. Afinal, quem desconfiaria que um cilindro metálico pudesse matar tão bem quanto uma arma? O assassino só podia ser um fazendeiro. Então procurei por um fazendeiro que tivesse um bom motivo pra matar os Mendes. Descobri o nome de Ernesto. Ele é o irmão do senhor Mendes, se por acaso todos da família de seu irmão morrer Ernesto fica com o direito da herança, que por sinal é muito boa. Entretanto, o filho do senhor Mendes conseguiu escapar com vida. Mas não terá sorte por muito tempo, um assassino esperto como esse não irá errar uma segunda vez.

-É melhor avisar Óxitom disso, não? Já pensou se o menino morre?

-Não temos nada haver com...

-MARTIN!!

-Está bem. Está bem.

Martin, o homem de jaqueta preta, pega o seu telefone e liga para Óxitom e conta tudo o que descobriu. Entretanto a resposta que recebe do outro lado da linha não é muito boa.

- Tá, obrigado. Tchau. – Martin desliga o telefone e vai contar as novas para Afonso. – Fodeu, o tio do garoto já pegou o menino no hospital.


--Os vilões da história--

Um Vectra preto, que a pouco andava a alta velocidade em uma auto-estrada, estaciona em um lugar deserto. Além da pista só havia mato para tudo que é canto. O motorista sai do carro e abre o bagageiro do veiculo, depois ele volta a aparecer na porta do carro, só que agora com um cilindro prateado nas mãos. "O que ele quer com um extintor?" Pergunta Frank. Que não fazia idéia da verdadeira natureza daquele objeto estranho.

Frank estava desconfortável. A idéia de ter que passar o resto da sua juventude vivendo com Ernesto era horrível. Apesar de ele ser tio do garoto, Frank o viu no máximo umas três vezes em toda a sua vida. Ernesto sempre teve um rosto esquisito, cuja esquisitice era acentuada pelo seu cabelo lambido de corte também muito esquisito.

-Sai do carro, garoto. – Pediu Ernesto. Frank não entendeu o porquê de ele precisar sair do carro se obviamente ainda estavam no meio do caminho, mesmo assim obedeceu a ordem.

-O que foi, tio?

-Dá uma chegadinha aqui.

Ernesto faz sinal pra Frank o seguir para dentro do mato. – Tio o que...? Pra que o senhor vai usar esse extintor?

- É coisa rápida, sobrinho. Uma brincadeira inocente. – Quando os dois já estavam muito bem embrenhados naquela mata, Ernesto pega a mangueira do cilindro prateado e a encosta na testa de Frank. Sua intenção era disparar a pistola de ar comprimindo matando o garoto, mas algo inesperado acontece. BLAM! BLAM! BLAM! Tiros vindos de Deus sabe onde alvejaram Ernesto fazendo-o cair morto naquele chão de terra lamacenta. Frank fica imóvel, seu rosto está sujo com os respingos do sangue de seu tio, ele está em choque.

-A vitima está a salvo! – Grita um policial para avisar seus colegas. Depois disso não demorou muito para que todos os outros tiras que vasculhavam o perímetro corressem na direção do garoto. –Garoto, está tudo bem? – Pergunta um dos homens. Frank nada disse. Primeiro porque não respondia perguntas idiotas, ainda mais uma tão inconveniente. Segundo porque estava assustado demais para fazer qualquer coisa que não fosse desmaiar.

Esse duplo trauma servirá como estopim para o nascimento do primeiro vilão dessa história.

Alguns minutos depois, na delegacia de São Bartolomeu, Óxitom recebe a notícia da missão bem sucedida. Com um sorriso largo no rosto ele arruma sua mesa e se despede dos colegas de trabalho. Ele agora só queria uma coisa: cama.

-Éééé. Óxitom, não te contaram ainda? – Pergunta um dos policiais que estavam sem ter o que fazer na delegacia.

-Contaram o que, Elias?

-Bem. Éééé. Eu sei que isso é chato, mas... Bem. É que o prefeito.

-Diz logo, homem!

-O prefeito quer colocar outra pessoa no seu cargo. Pronto. Você foi demitido.

-C-como? Mas... Por quê?

-É que as histórias de suas suspeitas "incomuns" (leia-se sobrenaturais) chegaram aos ouvidos do prefeito e... Bom. Ele não gostou nada disso. O fato de você deixar um completo desconhecido ter passe livre nas cenas de crimes não ajudou muito pra aliviar sua barra também não.

Óxitom ficou em estado de choque. "Que sacanas! Esperaram eu resolver o caso pra me contar!" Enquanto andava com dificuldade até a porta de saída, Óxitom era capaz de ouvir as risadas contidas de deboche de seus antigos colegas.

Três horas da manhã. Óxitom é abandonado pela mulher no mesmo instante em que conta as "novidades" de seu emprego, ou melhor, ex-emprego, a ela. A noite não tinha mais nenhum alento. Seu mundo ruiu. Depois de tomar um engradado de cerveja quase todo, Óxitom dá um surto de raiva e arrebenta um monte de objeto inocente que aparece pela frente. Os principais alvos de sua fúria são livros e objetos de fé. Uma bíblia, um terço, dois livros espíritas, uma pequena estatua do Buda, um crucifixo... Enfim, ele rasgou, queimou, quebrou todos esses símbolos de espiritualidade. – O sobrenatural não existe! Essa conversa mole de julgamento na pós-vida só serve pra enganar babaca! Se você tem uma desavença com alguém que a resolva aqui! Agora! Já que o Inferno não existe vou criar um pra todos os meus inimigos! HAHAHAHAHA!

A frustração e perda de fé servirão como estopim para o nascimento do segundo vilão dessa história.


--O quarto 1408--

O sol já nasceu e se pôs novamente. É com o sol escondido que o homem de jaqueta preta sai para trabalhar. Um trabalho incomum. Talvez único no mundo todo. Bem, Pelo menos na cidade ele é único.

Martin vai, de ônibus, até um hotel chamado Minha Paixão. Um hotel de quinta categoria que fica no centro da cidade de São Bartolomeu. Apesar de ser um hotel escrito com "h" ele é utilizado mais como se fosse escrito com "m". Tanto é que na fachada do prédio a primeira e a última letra de seu nome ficam em vermelho, se destacando das demais que são azuis. É bastante incomum alguém alugar um quarto pra usar sozinho, mas o homem de jaqueta preta era bastante incomum, ele fará isso sem problema. O primeiro passo que dá é falar com o recepcionista e pedir pelo quarto 1408.

O recepcionista era magro, enrugado e quase sem dente. Era um velho de sessenta anos que mais parecia ter noventa. O idoso trabalhava ficando sentado em uma cadeira velha de escritório (aquelas pretas giratórias) atrás de um balcão com um computador que parecia ser até mais velho que ele.

-Quero alugar o 1408.

-Tem certeza? O senhor não soube que...?

-Eu sei. Eu sei. Eu vi as histórias das mortes e tudo mais. Pra falar a verdade esse é o único motivo que me fez querer passar uma noite em um hotel tão fodido quanto esse aqui. Pfff! Será que existe alguma garota que aceite ser trazida a um lugar desses?

O rosto enrugado do recepcionista sexagenário fechou na ora. – Tenha uma boa noite, senhor! – O velho entrega a chave do quarto 1408 para Martin. Sua cara de raiva denunciava que ele torcia para que o homem tivesse a pior noite possível. E, levando em conta as histórias mal assombradas que contam sobre esse quarto, não seria algo nada difícil.

Martin não havia levado malas para desarrumar. Bem, na verdade a maioria dos clientes do "hotel" também não costuma trazer bagagem. O homem de jaqueta preta senta na cama e espera calmamente que alguma coisa inexplicável acontecesse. Qualquer coisa servia, desde uma sombra estranha, um sussurro misterioso ou até mesmo um objeto caindo sozinho. No termino do quadragésimo nono minuto, Martin fica entediado de não fazer nada e então resolve ligar a tevê.

"Que canal é esse?" se pergunta Martin enquanto assistia a um estranho programa na televisão. No programa, que parecia ser uma novela, um casal discutia em um quarto. Ao olhar mais atentamente para o quarto mostrado Martin percebe que ele era bem parecido com o quarto que ele estava usando. Depois de uma olhada mais atenta Martin percebe que o quarto da tevê não era parecido, mas sim igual ao que ele estava usando.

O coração de Martin começa a bater mais rápido. Aquilo era de fato estranho. "Será que depois de tantos anos de procura eu finalmente encontrei algo sobrenatural?" se perguntou Martin, sentindo um misto de excitação e medo.

ROAAAARRR!! Um rugido sai de dentro da tevê. Um rugido assustador que fez o casal na novela e Martin pularem de susto. O homem de jaqueta preta inclusive deu um gritinho que de tão agudo faria passar vergonha se tivesse outra pessoa com ele no quarto.

O canal parece sair do ar e uma cara monstruosa apareceu na tela da televisão. Apesar de a cara ser bem assustadora e de ter parecido de supetão, Martin não se abalou nem um pouco. Ele já havia visto aquele rosto antes, em um filme de terror B dos anos 1980.

A televisão do quarto 1408 ficava em cima de uma estante. Ao abrir a primeira gaveta Martin percebeu que havia um aparelho de DVD escondido embaixo de um fundo falso. O programa que passava na TV não era nada mais além do que um filme caseiro gravado em DVD no intuito de assustar os clientes mais impressionáveis. Não havia nada de sobrenatural naquele quarto. Tudo era só uma brincadeira de mau gosto. Uma brincadeira boba que Martin não se perdoava por ter caído nela. Ahh, mas alguém vai pagar por isso.

Martin sai do quarto, desce um lance de escadas e anda até a recepção. O velho recepcionista estava rindo, mas logo que viu Martin aparecer assumiu logo uma feição séria. – Não agüentou ficar no quarto não foi? Pois é, ele é mal assombrado. Eu te avisei.

-É mal assombrado. Sei, sei. – Martin estava remoendo uma raiva que a gente comumente sente quando percebe que está sendo feito de besta. – Você poderia me emprestar esse teclado? – O velho fez menção de impedir o roubo do teclado do seu computador de trabalho, mas era lento demais se comparado a Martin.

-Devolve! Devolve! – Coitado do velho, ele pensou que a intenção do homem de jaqueta preta era só a de roubar aquela parte do computador. Na verdade ele intenciona fazer algo bem pior. POW! Martin nunca teve preconceito com ninguém, ele trata de igual maneira qualquer um. Inclusive, e principalmente, em seus momentos vingativos. Ele nunca teve restrição ética que o impedisse de realizar uma boa vingança, contra quem for que seja. Inclusive com idosos. Martin usou o teclado como um porrete. Ele acerta em cheio a cara do velho. O teclado é dividido ao meio, suas teclas voam por todas as direções. Enquanto isso, os poucos dentes que ainda restavam na boca do velho acabam voando junto às teclas.

Acredite ou não, esse é o herói da nossa história.

Martin volta de ônibus para sua casa. Ao chegar lá encontra o seu amigo, Afonso, esperando por ele na sala e assistindo a uma partida de futebol na tevê. – Então? Encontrou algo de interessante?

-Não. Só mais charlatanismo.

-Esse é o quê? O quarto ou o quinto caso pseudo-sobrenatural deste mês?

-É o sexto! Estão ficando cada vez mais freqüentes! – Martin ainda estava irritado com o caso do quarto 1408. Revoltado, ele tira com brutalidade sua jaqueta preta e a joga de qualquer jeito em cima de uma das cadeiras da cozinha. Nesse momento ele virou o homem da camisa branca. – Não é possível que não haja mais nada de extraordinário no mundo! Eu não tenho nada de especial. Não é possível que só eu que...

-Ai, Martin. De novo esse papo não! Deixa essa história pra lá. Pelo menos até amanhã.