Capítulo 5


--O plano infalível começa a dar errado. --

Dona Cotinha era a única tia por parte de pai que Martin possuía. Ela faleceu com idade avançada, por causas naturais, já faz uns vinte anos. Como não tinha filhos e nem marido, Martin acabou se tornando o único herdeiro da velha. Ela era humilde, não tinha nada de valor, sua única posse era uma casa velha que ficava no meio do mato, entre o trajeto de São Bartolomeu e São Miguel (uma cidade vizinha). O valor da casa era baixíssimo, não muito pelo fato de ser bastante precária, mas principalmente por causa de sua localização, a terra que fica ao seu redor não é lá muito produtiva. Martin não mostrou muito interesse pela casa, mas depois que ele se tornou um investigador do sobrenatural ela se tornou bastante útil. A final volta e meia era preciso fazer algo meio ilegal. Nessas horas um lugar assim tão inóspito é uma mão na roda.

Adolfo estava na casa de dona Cotinha. Ela era pequena, tinha quatro cômodos bem apertados. A casa não possuía mobília, pois há muito tempo que ninguém vive mais ali. Nesse momento a única coisa que tinha dentro dela era Adolfo e duas malas feitas a pressa. Isso sem contar, claro, os ratos, as baratas, muita poeira, um pouco de mato que entrou pela janela e dois morcegos que preferiram a casa a alguma caverna.

-Cadê você, Martin? – Adolfo já estava esperando ali, sentado em cima de uma das malas, por mais de quarenta minutos. Já começava a ficar agoniado, a coisa que mais detestava era ter que esperar.

Cueeen! Adolfo escuta o som da porta se abrindo. Ele vai correndo atender pensando ser Martin que tinha chegado, seu coração gela ao perceber que estava enganado.

-Acharam que podiam escapar de mim, não é? – Quem havia chegado era o delegado Rodrigo acompanhado de nove policiais. – Onde está Martin?

-Não sei. Não sou a mãe dele.

POW! Rodrigo se irritou com o tom de ironia usado por Adolfo e dá um belo soco na cara do homem. Forte o suficiente para rachar o lábio do rapaz. – Me conta logo, porra!

-Você não tem o direito de... - POW! Rodrigo nem deixa Adolfo terminar de falar e dá outro soco nele, desta vez chega a quebrar o nariz.

-"Fêla da phutah."- Irritado, louco pra revidar, Adolfo se concentrou somente em Rodrigo e se esqueceu que havia mais gente dentro daquela casa. O homem quase pula na jugular do delegado. BLAM! Eu disse "quase". Antes que Adolfo conseguisse tocar em Rodrigo, um dos policiais que estavam ali dá um belo tiro nele usando de sua arma (só por curiosidade: ele usou a arma não oficial). No meio da testa, morte instantânea.

-Que merda! Ele talvez falasse. – Repreende o delegado.

-Não tem problema não, senhor. O meliante (ele se refere a Martin) provavelmente vai querer pegar suas malas pra fugir. A gente esconde o corpo desse aí na mata e fica aqui de tocaia.

-Ta. Gostei da idéia.


--Como matar um demônio--

Além de ser extremamente bom com armas de fogo, Óxitom ainda tem também outra habilidade muito importante para sua carreira de assassino de aluguel. Ele é extremamente bom em cobrir pistas. Quarenta por cento disso se deve ao fato de ter trabalhado tantos anos ao lado de peritos. O restante se deve a sua imaginação fértil e capacidade de trabalhar no improviso. Por exemplo: muitos criminosos cometem a besteira de apenas limpar o sangue. Isso não dá certo, um perito mais qualificado acaba encontrando vestígios usando aparelhos adequados. O melhor a se fazer é se livrar de tudo tocado pelo sangue da vítima. Vou ilustrar essa explicação com uma situação que Óxitom está vivenciando agora. Faz poucas horas que ele deu um tiro na cabeça de alguém dentro da sala de sua casa. A parede, o sofá, um pouco do piso e a mesinha de centro foram manchados. A parte suja da parede ele descascou. O sofá ele desarmou e transformou em entulho. Os azulejos atingidos, mesmo que só com uma gota, foram retirados. A mesinha de centro vai pro lixo também. Nenhum perito vai encontrar sangue na sala porque ele não vai estar mais lá. Pra ninguém achar estranha aquela "quebradeira", amanhã mesmo Óxitom vai contratar um pessoal para fazer uma reforma em sua sala. Pronto, problema resolvido. E ainda a tempo de assistir ao jogo do Vasco.

-Você não devia usar sua beretta. A primeira coisa que devia fazer quando finalizou o primeiro contrato era comprar uma arma diferente. "Qualé", Óxitom? Ta ficando enferrujado? – Óxitom que estava assistindo TV, calmamente sentado no sofá (o outro da sala, o que não sujou), toma um susto ao ouvir aquela voz familiar vindo de sua cozinha. Ele vai até lar checar. Quase enfarta quando vê Martin, o homem que ele matou, vivo e bem.

-AAHHH! - Óxitom fecha seus olhos e começa a falar em voz alta consigo mesmo. -Isso não é real! Não é real! – Quando ele volta a abri-los, Martin não estava mais ali. "Era só uma alucinação. Meu subconsciente está me pregando peças." Pensou Óxitom.

Depois de beber um copo de água e respirar fundo, Óxitom se acalma e decide voltar pra sala e terminar de assistir ao jogo. Surpresa! Martin o esperava sentado no sofá. – Você não vai me dar um tiro pelas costas de novo não, né?

-AAAAHHH- Em pânico Óxitom corre até o seu quarto. Como da primeira vez ele ia pegar sua arma, só que agora Martin decidiu segui-lo. BLAM! BLAM! BLAM! Três tiros no peito. Martin cai no chão. Morto novamente. Óxitom se aproxima com cautela e checa o pulso e a respiração do homem de jaqueta preta. Definitivamente, ele está morto.

Mais uma vez Óxitom repete seu ritual de desovar corpos. Ele pega o defunto, coloca no porta-malas de seu carro e segue rumo a um lugar bem deserto, perto da auto-estrada, no meio do mato. Quando chegou ao local de desova, Óxitom toma um novo susto ao abrir o porta-malas. – É a primeira vez que sou morto duas vezes pela mesma pessoa.

Óxitom fica com uma expressão de insanidade no rosto. Primeiro ele chora, depois ri. Era difícil acreditar no que estava vendo. Após um minuto, quando fica mais calmo, sua frieza e raciocínio parecem voltar ao lugar. – Seu desgraçado falso filho da puta!

-Está falando de mim ou de você?

-Por quanto tempo você me ajudou a solucionar os crimes daqui em? Sete? Oito anos?

-Nove.

-Nossa! Nove anos! Por nove anos nós dois ficamos procurando algo não natural, algo que provasse que o sobrenatural existia. Tantos anos procurando e a prova que eu queria estava nesse tempo todo do meu lado, me fazendo de besta. Eu inclusive perdi meu emprego por sua causa, sabia? Se hoje sou assassino de aluguel a culpa é tua.

-"Epa, epa, epa"! Eu nunca disse que queria provar que o sobrenatural existia. Até porque eu já sabia disso.

-Você queria o que então?

-Queria encontrar alguma coisa que fosse igual ou parecido comigo. Que fosse imortal, tivesse um dom estranho, fosse inexplicável. Sei lá. Alguma coisa que mostrasse que não sou a maior aberração do planeta.

-Você não encontrou mais nada de sobrenatural, além de você mesmo?

-Não. Nada que chegasse nem mesmo perto.

-É. Isso explica.

-E você? Queria encontrar algo sobrenatural por quê?

-Ah "véi", perto de sua história vai parecer besteira.

-Que nada. Conta aí.

-Sabe como é. Minha mulher e meus filhos morreram assassinados. Sempre procurei ter a esperança de encontrá-los novamente. Por isso queria tanto encontrar algo de outro mundo, que fosse um fantasma, um anjo ou até mesmo um demônio, que seja. Bom. Usando da lógica do Se, Então. Se existe coisas de outro mundo, então o outro mundo existe.

-Legal.

-Bem, é. Você não vai me matar não, né? Quer dizer. Não vamos guardar rancor, né?

-Ta bom, me dê uma carona pra São Bartolomeu que passo uma borracha nisso tudo.

Óxitom aceitou o acordo na ora. Até porque achava ser bom demais pra ser verdade. Com Martin sentado no banco do passageiro, Óxitom guiou seu possante até São Bartolomeu. Quando chegou a cidade, uma coisa chamou sua atenção. As pessoas que estavam a sua volta, pareciam encará-los. Todos estavam com cara de raiva.

-Pode parar aqui. – Disse Martin.

Assim que Óxitom estacionou o carro, Martin pega a chave da ignição e a joga longe pela janela. – A propósito. Enquanto eu estava preso, pela segunda vez, no seu porta-malas eu liguei pros vizinhos, amigos e familiares de suas vitimas. – Dito essas palavras, Martin se retira do carro, deixando que Óxitom encarasse sozinho o mundo de gente que se reuniu para linchá-lo. Porém, antes que o massacre começasse Óxitom ainda consegue falar uma coisa pra Martin. – Vou me vingar de você, sacana! Mesmo que eu tenha que voltar do inferno! – Martin segue seu caminho sem se importar com o que Óxitom dizia. Poucos segundos depois o povo alcança Óxitom.

POW! SOC! CRASH! AAAARGH! SOC! TIBUM! POW! PUFT! POW!TIBUM! ARRRGH! CRASH! POW! SOC! POW! PUFT! BLAM! CROCK! TRACK! POW! TIBUM! AAAAARGH! POW! PUFT! SOC! CRASH!BLAM! Depois de muito soco, pontapé, tapa, "pisão", osso quebrado e laceração, Óxitom morre. Seu corpo fica ali jogado na rua. Em seguida o rabecão chega e leva o cadáver embora. No dia seguinte ele será enterrado, mas como não irá aparecer ninguém da família pra reclamar o corpo, ele será enterrado como indigente.

Os mortos foram vingados pelos vivos. Mesmo assim a raiva de alguns dos vivos ainda não passou. Mesmo que o causador dela morra, a ira continua lá. Então os vingativos têm que lidar com outro problema. Se o causador da raiva já ta morto, em quem descontar?


--Acertando as contas com a polícia --

Martin teve que ir até a casa de Dona Cotinha a pé, pois não tinha carro e não havia ônibus direto. Depois de três horas de corrida ele chega à bendita casa. Você deve estar pensando que ele é um atleta. Não mesmo. É que sua jaqueta maravilhosa, além de curar qualquer ferida, também suaviza muito a dor ou incomodo, tornando a fadiga ou falta de fôlego problemas não existentes.

Ao chegar a casa, Martin esperava encontrar seu amigo, Adolfo, com as malas feitas e prontas pra viajar. Ao invés disso ele encontra o delegado Rodrigo e uma penca de policiais armados.

-Coloque as mãos para cima. – Disse Rodrigo.

-Nem pensar.

-Quer dizer que você vai resistir à prisão, né? Tudo bem, eu já mandei seu namoradinho pra debaixo da terra, não me custa nada mandar você também. (Ps:a jaqueta de Martin tem o dom de curar e afastar a morte daquele que está a usando, ela não serve pra ressuscitar os mortos)

-Vá tomar no... - BLAM! BLAM! BLAM! – Isso era tudo o que Rodrigo queria. Um pretexto pra encher aquele encrenqueiro de "azeitona".

-Senhor. – Diz o policial que matou Adolfo – É melhor colocar uma arma na mão do presunto. Sabe como é, né?

-Bem pensado. – Rodrigo põe sua arma (a não oficial, que se mostrava útil também pra esse tipo de coisa) na mão do finado Martin e dá um disparo contra a parede para que a mão do defunto tivesse vestígios de pólvora.

-Muito bem, vamos embora. – O delegado vira de costas para o corpo de Martin pra falar com seus subordinados. Por algum motivo que ele não soube entender na ora, todos estavam com uma cara de assustado. Como se tivessem visto um fantasma. – O que foi? – Perguntou o delegado. Sem conseguir falar, o policial que matou Adolfo faz sinal com a cabeça para que Rodrigo olhasse pra trás. Ele fica paralisado de medo e surpresa. O homem que ele acabou de acertar na testa estava novamente de pé. A bala que estava alojada em sua cabeça acaba saindo sozinha. O buraco deixado por ela some. Se não fosse o sangue a sujar seu rosto, qualquer um diria que Martin estava perfeitamente saudável.

BLAM! Usando a arma que "recebeu de presente", Martin dá um tiro na barriga de Rodrigo que cai no chão. Consciente, mas com muita dor. TRA!TRA!TRA!TRA!TRA!TRA!TRA!TRA!TRA!TRA! Os policias instintivamente metralham Martin. Novamente ele morre. Só que desta vez seu corpo estava parecendo que passou por um moedor de carne. Foi uma surpresa ainda maior, sem falar que foi muito mais bizarro, ver um corpo todo deformado que ainda conseguia se levantar. Nenhum dos policiais estava preparado pra enfrentar algo assim, todos fugiram e deixaram o delegado pra trás.

Rodrigo estava com muito azar. Ver um horrendo zumbi bem de perto e não poder fugir não é uma das coisas mais agradáveis da vida tenha certeza disso.

Duas da manhã. Frank dormia. Ele ainda estava "preso" a cama de um quarto de hospital. Pelo jeito ele irá ficar ali por um bom tempo, isso é, se Martin não fosse até lá. – AAAAHHH! – Quando Frank vê o homem responsável pela sua estadia no hospital ele entra em pânico e começa a gritar. Martin já estava totalmente curado. Mas continuava imundo com terra e sangue. Sua roupa estava toda perfurada a bala, com exceção da jaqueta, é claro.

-Calma. Calma. Não vim lhe fazer mal. – Diz Martin.

-Pô, cara. Nunca mais serei vingativo! Você quer mais o que então?

-Quero que você faça um favor pra mim.

-Por que faria isso?

-Se você aceitar me ajudar eu deixo você vestir minha jaqueta.

-Hehehe. Já vi que você gosta muito dela. Mas metal nunca foi minha praia.

-Aff! – Martin tira sua jaqueta, que estava incrivelmente suja de terra e sangue, e a coloca por cima do corpo de Frank. – Hei! Tira isso! – A primeira reação que Frank teve foi achar aquilo nojento. Mas alguns segundos depois ele percebe que suas dores não estavam mais incomodando. Os dentes que tinham caído pareciam que haviam voltado a crescer. Agora Frank conseguia abrir todo seu olho esquerdo, que antes estava roxo e doía muito. – O que...?

Após ver que Frank já estava bem, Martin retira sua jaqueta de cima dele e volta a vesti-la. -Você está curado. Agora saia daí, vá. É sua vez de cumprir o trato. – Frank não fazia a mínima idéia do que teria que fazer. Isso até ser levado até sua casa por Martin, mas precisamente para dentro de sua oficina. Martin tinha um novo "paciente" para Frank cuidar. Deitado nu e amarrado em cima da mesa de cirurgia estava o delegado da cidade, Rodrigo.

-Você quer que eu...

-Faça com esse homem o que você fazia com os criminosos. Faça sua parte no trato.

-"Peraê". Mas você não era contra vingança, justiça feita com as próprias mãos e...?

-FAÇA SUA PARTE NO TRATO!!

-Ta bom. Ta bom.

Martin não quis ficar na oficina vendo o homem ser torturado. Preferiu ficar no corredor. Ele sabia que não agüentaria ver aquela cena, mas ouvir os gritos de dor daquele homem já era outra história. -AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH!!


--Fim de um ciclo--

Sete semanas haviam se passado desde a morte de Adolfo. Martin sentia tremendamente a falta dele, afinal ele era seu único amigo. Mais nem tudo é desgraça. Aquela noite fatídica trouxe pelo menos uma coisa de bom. A polícia local descartou todas as acusações feitas contra Martin. Primeiro por que a principal vitima (Frank) havia sumido misteriosamente do hospital onde estava internada, não podendo assim dar queixa. Segundo, e mais importante, é que Martin passou a virar uma lenda. A história de que ele sobreviveu a uma chuva de balas se espalhou como rastilho de pólvora pela cidade. A maioria, é claro, não acreditou nela. Mesmo assim os bartolomenhos passaram a ficar com um pé atrás com Martin. Bem mais que o habitual, que já não era pouco.

A já solitária vida do homem de jaqueta preta ficou ainda mais solitária. Não havia mais ninguém pra conversar e desabafar. Até as tão proveitosas noites de sábado perderam seu charme (muito disso também se deve ao fato de que as moças da cidade passaram a ver Martin não mais como um rebelde atraente, mas sim como um esquisitão, uma aberração).

Desiludido, Martin decide arrumar sua mala e sair de São Bartolomeu, começar uma vida nova em outra cidade. De preferência bem longe de histórias envolvendo fantasmas, lobisomens, aparições ou qualquer outra coisa do gênero. Martin achava que já era tempo de pendurar as chuteiras. Depois de quinze anos de procuras frustradas, o investigador sobrenatural chegou à conclusão que não há mais nada no mundo de sobrenatural pra ser encontrado. Uma idéia meio esquisita levando em consideração as propriedades fantásticas da jaqueta que usa.

Com sua mala (que era daquelas de rodinha e puxador) em mãos, Martin se dirige até o ponto de ônibus onde espera pacientemente por uma condução que o leve até bem longe dali.

"Why am I born ?"

"will I fail to rise again ?"

"another crucifixion for"

"another holy war (another holy war)"

"another holy war (another holy war)"

"can't stop what's going on ?"

Durante essas semanas Martin trocou o toque de seu celular. Agora sempre que alguém liga pra ele seu celular toca a música Another Holy War, também da banda Blind Guardian.

-Alô? – Diz Martin ao atender seu celular.

-Senhor Martin, preciso de sua ajuda. Acontecimentos estranhos estão...

-Sinto muito, mas não sou mais um investigador sobrenatural.

-Que pena. Gostaria de te oferecer um emprego.

-Como?

-Se estiver interessado vá até o shopping Sumaré, na praça de alimentação. Nem se preocupe em me identificar, eu sei como o senhor é. E a propósito: bonita jaqueta. – CLICK! O homem misterioso do outro lado da linha desliga seu telefone deixando que Martin encarasse um dilema. Será que valia a pena se afundar novamente nesse mundo de mistérios? Martin achava que não. Afinal ele perdeu muitas chances na vida e um amigo por causa dessa obstinação. O ônibus que Martin esperava acabou de parar no ponto. A hora da verdade era agora. Entrar no ônibus, ir pra outra cidade, começar uma vida nova e nunca mais se preocupar com o sobrenatural ou ir pro shopping Sumaré pra desvendar mais um mistério? "Dane-se" pensou Martin. Por mais que ele quisesse deixar essa vida pra trás, Martin sabia que não iria conseguir ficar em paz deixando um mistério sem solução. O ônibus vai embora levando com ele a oportunidade de uma vida melhor. Martin então também vai embora do ponto de ônibus. Ele segue até sua casa para guardar a mala, depois vai até o Sumaré.

O shopping Sumaré não ficava em São Bartolomeu, mas sim em uma cidade vizinha, São Vicente. Como ele era um shopping de cidade do interior, o Sumaré era bem menor que os famosos shoppings da capital (só tinha dois andares), mas pelo menos tinha cinema. Tudo bem que o cinema só possuía duas salas pequenas com o som péssimo e ar condicionado pior ainda. Bom, de qualquer jeito era melhor do que nada.

Geralmente nos sábados os shoppings ficam lotados. O Sumaré não era diferente, ou melhor, não devia ser. Martin achou estranho encontrar, em plena tarde de sábado, o Sumaré vazio. Não tinha ninguém. Sem clientes, sem funcionários, nem nada. Era ainda mais esquisito o fato do shopping estar aberto. Parece até que foi aberto só para Martin se encontrar com o seu contratante.

-Fico feliz que tenha aceitado minha oferta. –Martin olha para trás e vê um homem jovem, devia ter no máximo trinta. Um rapaz alto e magro, seu tom de pele e fisionomia lembravam um árabe. Ele está usando uma roupa elegante, terno e gravata, lembrava um agente FBI de filme americano. Pela voz, Martin conseguiu identificá-lo como sendo o homem que ligou para ele mais cedo, o que tinha uma proposta de emprego a oferecer.

-Certo. Quem é você? Que tipo de trabalho quer me oferecer? E como sabe sobre minha jaqueta?

- Durante todos esses anos você estava procurando pelo sobrenatural, nunca se perguntou se não era o sobrenatural que procurava por você?

-O quê...?

-Eu lhe ofereço respostas e uma chance de ver o mundo com outros olhos.

-Você não está respondendo minhas perguntas!

-Roaar! – O "árabe" rosna enquanto seus caninos crescem e ficam bem afiados. – Meu nome é Alfredo, sou um vampiro. Faço parte do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal. Estamos abrindo uma filial no Brasil e precisamos de pessoas como você para solucionar mistérios que as pessoas normais não podem. Sabemos de sua jornada, de suas perdas, de sua jaqueta. Nós sabemos de tudo. Nós somos o B.P.D.P! Se quiser obter respostas junte-se a nós. Aceita?

-Porra! Logo agora que estava querendo uma vida normal!

-Se não aceitar minha proposta nunca mais retornarei a fazê-la.

Martin fica pensando sobre qual decisão tomar. Uma ilusão de controle. Afinal ele não consegue deixar um mistério sem solução. A resposta já estava decidida muito antes de Alfredo fazer a pergunta.

-Sim. Quero entrar pro B.P.D.P.