Capítulo V- O Elo

"Não importa o quão longe o Pierre esteja de mim, eu irei me esforçar para alcançá-lo"

- Bom dia!- saudou Juliana, sorridente.

- Bom dia!- respondeu Pierre- Você está alegre hoje!

- É que ontem foi muito divertido. Foi a primeira vez que me juntei com as garotas para bagunçar!

- E o estudo foi por água a baixo...

- Pois é... - lamentou Juliana, se sentindo um pouquinho culpada.

- Mas, você conhece as garotas desde sétima série, certo?

- Certo.

Nossa! Ele se lembra disso??? Eu nem fazia idéia de que tinha comentado isso para ele...

- E mesmo assim vocês nunca saíram juntas?

- Não, nunca.

- Por que?

- Não sei... acho que tinha medo de me envolver com as pessoas. Mas, já estou superando isso graças a você, Pierre!- declarou Juliana.

- Éh?

- É! E para agradecer, eu quero lhe dar isso!- falou Juliana, entregando para o colega uma pequena caixa de plástico, embrulhada, delicadamente, em um lenço.

- O que é isso?- perguntou Pierre, olhando de Juliana para a caixa e desta para a garota.

- Seu lanche. Você comentou que fazia tempo que não comia comida caseira. Então, eu preparei um lanche para você. Assim, você não perde todo o intervalo tentando comprar comida.

- Puxa... muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito obrigado!- agradeceu Pierre, abraçando, emocionado, o seu lanche.

- Ora, eu é que agradeço sua dedicação!

- Eu nem acredito! Comida caseira! Comida caseira! Comida caseira! Comida caseira! Comida caseira! Comida caseira!- cantarolou o garoto, muito feliz.

Não dá para acreditar!!! Ele está mesmo feliz só porque fiz o seu lanche!! Nem parece aquele cara sério e fechado que eu conheci...

- Mas, nós não vamos lanchar juntos desta vez.- disse Juliana.

- Por quê?

- Porque se comermos juntos, as pessoas vão ficar comentando.

- Éh?

- É...

- E daí?

- Daí que eu não vou me sentir muito bem com isso!

Será que ele vai ficar chateado comigo? Espero que não...

- Você quer mesmo isso?

- Quero...

-...

- Que foi?

- Nada. Acho melhor nos apressarmos ou perderemos a primeira aula!- declarou Pierre, carrancudo.

Eu sei que disse que tenho medo dos comentários, mas no fundo não é nada disso. O "olhar público" já não me assusta mais. Só estou com receio de ficar sozinha HOJE com Pierre...

- Então, Bru, você vai me ajudar ou não?

- Catarina, você faz idéia do que está me pedindo?

- Sim, eu tenho.

- Boxe é um esporte bem pesado, você pode não agüentar!- alertou Bruna.

- É, mas só tem homens gatinhos fazendo!

- Homens, sim! Gatinhos... está difícil!

- Você quer ficar com eles só para você, né?- brincou Catarina.

- Catarina, eu tenho namorado, sabia?

- E daí? Uma coisa não impede a outra!

-Claaaaaaaaaaaaaaaaaro!- exclamou Bruna, nada convincente- EIIIIIIIII! JULIAAAAAAAAAAAAAAANA!

- Oi?- respondeu a garota, do outro lado da quadra, aos berros de sua amiga.

- Não quer treinar conosco, não?

- Não, obrigada! Eu dispenso!

- Tem certeza? Você vai ficar flácida e encalhada!!!- alertou Catarina.

- Acho que vou correr o risco!- falou a garota, observando Bruna explicar a diferença entre um "jeb" e um "cruzado"

Hoje é o último dia que terei o Pierre ao meu lado. Ao entardecer, pegaremos meus óculos de volta e cada um seguirá o seu próprio caminho.

- Oi, Jully!- cumprimentou Clarice, sorrindo.

- Oi, Clarice! Como foi na reunião de líderes de classe?

- Foi bem interessante. Discutimos a possibilidade de fazer uma gincana aqui no colégio!- respondeu a garota, sentando-se ao lado de sua amiga na arquibancada- Então, o que eu perdi?

- Catarina pediu para Bruna ensiná-la a lutar boxe...

- Ah, ela me contou ontem por telefone! Quer apostar que Catarina desiste antes do intervalo terminar?- desafiou Clarice, colocando o copo plástico e um embrulho que carregava ao seu lado.

- Acho que não...- falou Juliana, observando Catarina sentar-se ofegante no chão da quadra após cinco minutos de aula- Não vai beber seu refrigerante?

- Não é meu e sim da Catarina.

- Mas, eu achei que vocês duas não tinham se falado hoje, por causa da reunião!

- E não nos falamos!

- Então, por quê você está com o refrigerante dela?

- Porque eu comprei para ela!- alegou, simplesmente, Clarice, mas ao ver a cara de intrigada de sua amiga, acrescentou- Não é a primeira vez que Catarina quis aprender algum esporte. Bruna já tentou ensiná-la caratê, vôlei, futebol, basquete... Catarina sempre desiste, cinco minutos depois, estressada e louca para recuperar as calorias perdidas. Mas, ela fica tão cansada que tem preguiça de comprar algo na cantina, então eu é que compro.

- Vocês duas se conhecem muito bem...

- Bom, nossa amizade perdura há muitos anos. Apesar de Catarina ser, completamente, diferente de mim, eu gosto muito dela. Principalmente, das caretas que ela costuma fazer quando a critico!- respondeu Clarice, sorrindo.

- Deve ser tão maravilhoso ter alguém sempre por perto. Eu sinto inveja de você...- comentou Juliana, melancólica.

- Escuta, Jully, eu já contei como eu e Catarina nos conhecemos?

- Sim, vocês duas se conhecem desde jardim de infância.

- Não exatamente!- corrigiu Catarina.

- Como assim?

- É verdade que nós estudamos juntas desde pequenas, mas só começamos a sermos amigas mesmo na terceira série.

- Sério? E por quê?

- Porque nós éramos muito diferentes. Sinceramente, ainda somos, mas aprendemos a respeitar nossas diferenças com os anos. Nossa amizade é forte e duradora por causa do elo que há entre nós.

- "Elo"?

- Sim... sabe, eu sempre fui muito curiosa e gostava de pesquisar a respeito de tudo. Por causa disso, minhas notas sempre são altas e todo mundo me procura para tirar dúvidas ou fazer trabalhos em equipe. Certa vez, eu me atrasei para aula de Estudos Sociais. Neste dia, estava com muita febre e não ouvi o despertador tocar. E, para completar, chovia muito.

- E, você foi para aula mesmo assim?- surpreendeu-se Juliana.

- É, eu fui...

- Você é louca...- observou Juliana.

- Eu sei... Continuando, quando cheguei na sala fui direto falar com o professor. Ele me explicou que estava fazendo um trabalho em equipe e, como nunca me atrasava, poderia escolher alguma dupla ou trio para fazer parte. Eu estava tão cansada que me juntei a primeira equipe que vi. Mas, quando fui pegar a folha de instruções, percebi que havia uma garota que estava sozinha. Era a Catarina.

- Coitada...- lamentou Juliana.

- A Catarina é do tipo de pessoa alegre e espontânea que faz questão de estar ao seu lado, principalmente nos momentos mais triste. Sempre que alguém estava deprimindo, a Catarina o consolava, independente de gostar dele ou não. O problema é que, nos trabalhos em equipe, ninguém quer saber o quão prestativo é a pessoa. Só querem se juntar com seus amigos mais próximos ou algum CDF. Pessoas como Catarina, irresponsáveis e com péssima nota, são excluídas.... No entanto, apesar de ser a única na sala sem equipe, de ser totalmente desprezada pelos seus colegas, Catarina estava sorridente, disposta a fazer o trabalho sozinha. Só que se você reparasse bem, veria que seus olhos estavam cheios de lágrimas como se pedissem autorização para cair. Resolvi, então, fazer o trabalho com ela. Não porque gostava de Catarina ou achava que aquilo era o certo e sim porque aquela imagem me chocou. Quando a vi... vou ser sincera com você, eu senti muita pena dela. Apenas, pena...

- E vocês tiraram a nota máxima, certo?

- Hãããã... não. Essas coisas só acontecem em filmes. Eu estava cansada, com dor de cabeça, molhada e estressada, não conseguia pensar direito. E a Catarina não ajudava muito com suas piadinhas e comentários obscenos sobre o professor...

- A Catarina não tem jeito!- disse Juliana, rindo.

- Mas, a partir deste dia, passei a fazer todos os trabalhos em equipe com Catarina. Antigamente, eu era muito séria, quase nunca saía de casa. Preferia estudar, pesquisar e ler a ter que conversar com alguém por alguns minutos. Achava que tudo que precisava saber estava escrito nos livros. E foi Catarina que me fez dar conta do quanto eu estava errada. Ela nunca levava nada sério, procurava curtir a vida o máximo possível. E me fez perceber que existiam coisas que os livros não ensinam. É preciso senti-las. A amizade, por exemplo. Ter alguém para contar aquela "fofoca quentíssima", como diz Catarina, é uma sensação indescritível.

- Com certeza!- concordou Juliana, pensando na semana que tivera com Pierre.

- Eu não lembro quando comecei a andar o tempo todo com a Catarina, independente de ter algum trabalho ou não para fazer. Sempre que posso, analiso o nosso passado, tentando descobri o momento exato em que isso aconteceu. Talvez, não tenha sido apenas um e sim vários! Nós nos tornamos melhores amigas, isto já é o bastante.

- Eu gostaria que isso acontecesse comigo e Pierre...- falou Juliana, deprimida.

- E pode acontecer. A prova disso é esse presente!- disse Catarina, colocando na mão de Juliana o embrulho que trouxera.

- Que gracinha!- exclamou Juliana, após abrir o presente e deparar-se com um pequeno urso de pelúcia - Mas o que isto tem haver?

- Jully, se lembra que eu e o Pierre voltamos juntos para casa porque morávamos perto?

- Sim, lembro.

- Pois bem...- continuou Clarice- Durante o caminho, Pierre me deu um dinheiro e pediu que eu comprasse algo de garota para o seu quarto. Parece que ele não podia fazer isso porque não entendia muito bem dessas coisas e não queria lhe dá algo que você não gostasse.

-...- Juliana não disse nada, apenas olhou, fixamente, para o bichinho de pelúcia em sua mão e sentiu seu rosto corar.

- Pode ser que ele tenha se aproximado de você por pena, no inicio. Mas, acho que ele acabou gostando de sua companhia. Exatamente o que aconteceu comigo e Catarina. Este é o elo a qual me referia.

- E se...- começou Juliana, encarando o rosto de sua amiga e segurando-se para não chorar-... e se você estiver errada?

- Existe essa possibilidade, mas e se... e se eu estive certa?- perguntou Clarice, olhando sua amiga docilmente.

- Estiver certa? Como assim?- interrompeu Bruna.

- Nada não!- falou Juliana, rapidamente.

- Jully, minha amiga...- começou Catarina, ofegante, enquanto atirava-se de qualquer jeito na arquibancada, totalmente, esgotada- Por mais irritante que seja admitir isso, Clarice está SEMPRE certa.

- Obrigada!- agradeceu Clarice, entregando a Catarina o copo de refrigerante.

- Ah, valeu! Eu tava morrendo de sede!

- Não sei como! Você não fez nada!- protestou Bruna.

- Bruna, nem todo mundo têm um fôlego como o seu. Pessoas normais cansam rápido.

- É, mas quinze minutos é muito rápido!!

- Bruna, deixe Catarina descansar um pouco!!!

- É isso aí! Clarice tem razão! Preciso respirar um pouco antes de ouvir o seu discurso de como eu sou uma garota sedentária, blá, blá, blá...

- Realmente, eu gostaria de ter um elo como o de vocês duas!- comentou Juliana, rindo.

- Elo? Que elo?

- É um segredo meu e de Juliana, Catarina. Vá tomar o seu refrigerante!

- Hunf... também não queria saber mesmo!- respondeu Catarina, fingindo não estar curiosa- A propósito, eu vou ficar lhe devendo o refrigerante.

- Ah, você não vai ME dever nada!

- Sério? Vai ser de graça?- surpreendeu-se Catarina, intrigada.

- Aí tem...- disse baixinho Bruna no ouvido de Juliana.

- Não, eu coloquei na sua conta da cantina.

- FALA SÉRIO!!!!!- exclamou Catarina.

- Falo sim.

- Por quê você fez isso comigo??

- Porque você nunca me paga!!

- Pago sim! Em suaves prestações...

- Não seja ridícula...

- A única ridícula aqui é você. Eu achei que você era minha melhor amiga!

- Amigas, amigas, negócios a parte.

- Sua... sua...

- Tem certeza que você quer um "elo" desses, Jully?- brincou Bruna. Juliana apenas riu e levantou-se da arquibancada.

- Aonde você vai?

- Devolver um livro, Bruna.

- Vai me deixar sozinha com essas malucas.

- Ah, tenho certeza que você tem preparo físico adequado para aturá-las!!!- falou Juliana, surpresa consigo mesma. Ela acabara de fazer uma piada.

- Valeu, amizade!- agradeceu Bruna, em um tom nada convincente.

Conheço Clarice desde sétima série e nunca imaginei que ela fosse assim... tão observadora e madura. Sem os meus óculos, me aproximei muito das pessoas. Não tenho ficado tão atrapalhada e confusa também... eu até fiz uma piada, quem diria!!!

- Ah, comer no pátio é bom demais! Tem um bando de gatinhas por perto!!!- observou Eduardo.

- Ei, Pierre, que coisa "cheguei" é essa do seu lado? Você está comendo o lanche que sua namorada fez?- brincou Vinícius.

Juliana parou de andar ao ouvir o nome "Pierre" e se esgueirou para trás de uma pilastra, a alguns metros de distância. Ela não conseguia vê-los, mas podia ouvi-los muito bem.

Pierre??? Mas, o que ele faz junto ao idiota do Vinícius?

- Namorada? Ela é minha colega, isso sim!- alegou Pierre, continuando a comer, sem nem levantar os olhos para Vinícius.

- Tá ceeeeeeeeeeerto! A gente acredita em você, Pierre!- disse Eduardo, em um tom nada convincente.

- Fala a verdade para nós, Pierre! Você só está usando Juliana para "agarrar" Clarice, né?

Me... me usando??? Me usando?? ME USANDO???

- Como?- perguntou Pierre.

- Duvido muito que um cara como você, Pierre, que pode ter qualquer garota, iria se "contentar" com um "traste" como Juliana. Na certa, você está se aproximando dela para "agarrar" Clarice, né? Depois de garantir o ouro e só se livrar do dragão!- Vinícius demorou um segundo para entender o que estava acontecendo depois que terminou de falar. Em um instante, ele estava dizendo o quanto Juliana era feia e no outro, estava no chão, o sangue escorrendo da sua boca onde Pierre o havia socado.

- Qual é, Pierre?- espantou-se Eduardo.

- Por quê você fez isso, cara? Não somos amigos?- perguntou Vinícius, limpando o sangue de sua boca.

- Vocês não são meus amigos!- respondeu, simplesmente, o garoto. Depois, se afastou dos garotos, indo em direção a pilastra onde Juliana se escondera.

- Você mentiu para mim...- falou Juliana, assim que ele se aproximou-... você disse que não era um delinqüente!

-Eu....- tentou Pierre

- Um cavalheiro não utiliza a violência para limpar a honra de uma dama...- continuou a garota de cabeça baixa- Principalmente, quando a pessoa que a ofende não passa de um imbecil.

-...- Pierre apenas encarou a garota, sem dizer nada.

- Tudo bem... eu não me importo mais!- declarou Juliana, levantando o rosto e encarando Pierre nos olhos.

- Essa semana expandiu meus horizontes!- declarou Juliana, quando pegou seus óculos de volta.

- É mesmo! Com certeza, me fez fica mais responsável.

-...

- Bom, então...

- Desculpe os problemas que causei.

- Não teve problemas nenhum...

- Obrigada por me ajudar!!!- agradeceu Juliana.

- Não tem porquê me agradecer.

- Então, agora de volta ao normal...

- Certo! Até amanhã!- despediu-se Pierre.

Juliana não se moveu. Ficou parada, observando Pierre sumir de sua vista, em meio à multidão de pessoas que passavam alheias ao que estava acontecendo.

Mesmo que tenha sido por uma semana, vou guardar esses dias comigo para sempre...

Meses se passaram desde que peguei meus óculos de volta. Meu Deus... quanto eu deixei de viver por causa do medo que tinha das opiniões dos outros. Parece que eu ganhei uma vida nova.

- Bom dia, garotas!- cumprimentou uma garota sorridente, de cabelos lisos e brilhantes olhos castanhos.

- Bom dia, Jully!- respondeu Clarice.

- E aí? Tudo beleza?

- Sim, Catarina. Ou, pelo menos, acho que sim...- disse a garota, enquanto colocava seus materiais em uma carteira próxima as de suas amigas.

- Jully, olha só o que Clarice comprou!!- comentou Bruna, mostrando umas presilhas e passadeiras muito bonitas.

- Aiiiiiiii que fofo!- exclamou Juliana, pegando uma xuxa das Meninas Super Poderosas.

- Já que gostou, escolha uma para você!- ofereceu Clarice.

- Por quê só Juliana ganha presentes aqui?- indignou-se Catarina.

- É para vocês três! Escolham o que quiser!

- Obrigada, Clarice.

- Não precisa agradecer, Bruna. Eu as comprei em uma loja nova que abriu perto da minha casa. São bonitinhas e baratas.

- Só podia ser barata, senão você cobrava!- criticou Catarina.

- É lógico!- concordou Clarice e virando-se para Juliana, acrescentou- Posso arrumar o seu cabelo

- Meu cabelo?- repetiu Juliana, sem graça

- É! Deixa vai!

- Hmmmmmmm... ok!

É tudo tão... estranho. Quando paro para pensar em como eu vivia, como me censurava, como era tão tola...

- Pronto!- falou Clarice, após prender o cabelo de Juliana para que eles não caíssem sobre seu rosto.

- Ficou dez!- elogiou Bruna.

- Tá uma gata!- brincou Catarina, piscando.

- Não precisa exagerar!- censurou Juliana, se olhando no espelho de bolso de Clarice.

- Não estamos exagerando!- falou, Bruna.

- Esse penteado combina com seu rosto, principalmente agora que você está usando lentes de contato!- declarou Clarice.

- É isso aí! Se você quiser, podemos provar que você está arrasando corações!

- Provar? Como?- indagou Juliana.

Catarina, no entanto, nem se dignou a responder. Apenas virou-se para o fundo da sala e gritou.

- EIIIIIIIIIIIIIIIIIII! PIEEEEEEEEEEEEEEEEEEERRE! CHEGA AQUI!!!!

- Sua louca!!!- disse Juliana, corando violentamente.

A vida que eu tinha antes de conhecer Pierre parece pertencer a um passado muito distante. Como se fosse um sonho ruim em que tive a sorte de ser despertada a tempo.

- Que foi?- inquiriu Pierre.

- O que você acha?

- Acha o quê, Catarina?

- Da Juliana, seu tapado! Como ela está?

- Normal...- alegou Pierre, após olhar Juliana por alguns minutos.

- Como assim "normal"?

-Normal, ué...- falou o garoto- Ou vai me dizer que você não está se sentindo bem, Juliana?

- Estou ótima, Pirre!- disse Juliana, rindo, junto de Bruna e Clarice, do semblante de Catarina.

- Seu insensível! To arrasada!- exclamou Catarina, horrorizada.

- Por quê?

- Por nada, Pierre. É besteira da Catarina, como sempre.

- Calada, Clarice!

É um mistério que agora me sinto como se nunca tivesse sido chamada de feia...

- Então, gente, nossa reunião na casa da Catarina ainda está de pé?- perguntou Juliana.

- É lógico!!!- confirmou Catarina- Precisamos comemorar o fato de Bruna ter dado um pé na bunda do seu namorado.

- Catarina, não foi bem isso que aconteceu!- censurou Bruna.

- O fim de uma relação amorosa é algo muito triste para se comemorar...

- Se levarmos em conta o quão idiota era o namorado dela, Jully, acho que é uma ótima razão para se comemorar!!!- falou Clarice, sorrindo.

- Mas, se ele era tão imbecil assim, Bruna era mais por ter namorado um cara assim...

- Obrigada pela parte que me toca, Pierre.

- Ah, qual é, Bruna!!! Não esquenta com isso!

- Você está bem animada, hein Catarina?

- Claro, Clarice! Afinal, nós voltamos a ser o "Quarteto das Encalhadas"!!

- "Quarteto das Encalhadas"?- repetiu Juliana, incrédula.

- Não seja ridícula...- disse Clarice.

- Eu quero outro namorado!!!- exigiu Bruna.

- Meninas, cadê o espírito de união de vocês???

Todas aquelas preocupações infantis que eu tinha parecem mentiras agora...

- Então, vocês vão aparecer lá em casa na hora combinada com um prato de comida, ok?

- Pode deixar!- confirmou Juliana.

- Vai ser uma tarde bem divertida!- declarou Clarice, sorridente.

- Eu ainda acho que não devemos comemorar o fim do meu namoro...

- Que prato de comida?- perguntou Pierre.

- Quem te convidou, cara-pálida?

- Você disse "vocês vão aparecer", então eu estou incluído no "vocês".

- Claro que não. Você não faz parte do "Quarteto das Encalhadas"!

Pierre me deu uma chance de recomeçar, de ter uma vida diferente. E eu juro que não vou desperdiçá-la...

- E quem disse que eu faço parte dessa equipe?- inquiriu Clarice.

- Se o Pierre quer ir, deixe o ir, oras!- opinou Bruna.

- Mas, é a reunião secreta do "Quarteto das Encalhadas"!

- Poderia ser o "Quarteto das Encalhadas e Pierre"!- sugeriu Juliana.

- Que nome ridículo!- criticou Catarina.

- Não mudou muita coisa do original...- falou Bruna.

- Clarice, me ajude! Você é a líder da nossa equipe!

- Problema seu, Catarina!

- E você se considera minha melhor amiga?

- Então, que tal a gente adotar Pierre como nosso mascote?

- "Mascote"?- repetiu Pierre, intrigado.

- Jully, você não está ajudando muito com essa sugestões...- disse Bruna.

A princípio, foi meio difícil para as garotas aceitarem alguém tão sisudo e fechado como Pierre. Na verdade, acho que a Catarina ainda não se acostumou com o jeito dele...

- Podemos ter um mascote carrancudo!- protestou Juliana.

- Não podemos não!!

- Catarina, qual é!!!- exclamou Bruna.

- Faça uma "certa" garota feliz e deixe o Pierre participar da reunião!- pediu Clarice, piscando para Juliana.

- Tá bom! Tá bom!- rendeu-se Catarina, suspirando- Mas, ele tem que levar dois pratos de comida!

- Eu não sei cozinhar.

- E eu com isso, cara? Se vira!!!

- Mas...

- Eu cozinho para você!- ofereceu-se Julina.

- Não quero incomodar!

- Não vai incomodar! Eu terei que fazer meu prato mesmo, mais um não faz diferença.

- Dois!- corrigiu Catarina.

- Que seja!

- Certo, mas EU vou comprar os ingredientes.

- Pierre, não precisa...

- Só aceito nessas condições.

- Ok, então!- suspirou Juliana, sabendo que não adiantaria insistir.

Eu e o Pierre nos tornamos bons amigos e sempre voltamos juntos para casa. Só que hoje paramos em um mercadinho, perto da minha casa, para comprarmos os ingredientes. Depois, almoçamos juntos na minha casa e à tarde comecei a preparar a comida.

- Que massa!- exclamou Pierre, observando Juliana cozinhando.

- O quê? O meu avental de ursinho?- brincou Juliana, rindo.

- Não, você saber cozinhar...

- Não é nada demais.

- É claro que é! Eu mesmo não tenho o menor talento para isso.

- Eu também não tenho.

- E por quê a comida sai tão deliciosa?

- Porque, desde pequena, eu ajudava minha mãe a preparar as comidas da casa de chá. De tanto fazer, acabei pegando o jeito.

- É, mas você parece se divertir quando cozinha!- observou o garoto, sorrindo.

- É mesmo? Deve ser porque é a única coisa que sei fazer bem.

- Que nada! Tem um monte de coisas que você faz melhor do que as outras garotas.

- Sério? Como o quê?- perguntou a garota.

- Hmmmmmmmmmmmmmm....- fez o garoto, levando a mão ao queixo.

- Viu?? Não tem mais nada que eu sei fazer.

- Isso não é verdade!!- insistiu Pierre.

- Certo! Certo! Você tem razão, satisfeito?

- Muito.

Eu me divirto quando estou a sós com Pierre, muito mais do que com as outras garotas. Estar com ele me faz sentir confiante. Será que esse é o elo que Clarice se referiu?

- Escuta, Pierre, posso lhe perguntar algo?

- Só se você me garantir que vai me dá a panela do chocolate para eu raspar!- respondeu o garoto.

- Tudo bem...- continuou Juliana- Pierre, onde você se meteu ontem?

- Como assim?

- Você não foi à escola e quando eu liguei para sua casa, disseram que você não estava. Deixei vários recados e você não retornou.

- Ah, eu estava ocupado.

- "Ocupado"?- repetiu Juliana.

- Sim, passei o dia com meus pais.

- Seus pais? Aqueles que você quase nunca vê porque são ocupados demais?- inquiriu Juliana, franzindo o cenho.

- Os próprios...

- Então, ontem eles resolveram acordar e virar pais participativos?

- Não, ontem foi meu aniversário.- falou o garoto, sem emoção.

- Seu... seu aniversário??- espantou-se Juliana.

Às vezes, tenho a sensação de que, por mais que eu estenda os braços, Pierre está em um lugar onde jamais alcançarei...

- É! Meu aniversário.

- Por quê não me contou isso?- indagou Juliana, baixinho.

- Porque meus pais me obrigam a passar o dia todos com eles. É muito chato.

- Eu não comprei nada para você...

- Sem problemas.

- Aniversário é um dia importante...- disse a garota, em encará-lo.

- Sério? Eu não acho...

- Não?

- Não. Pensa bem, por quê criam esse mito todo no dia em que a pessoa nasceu? Como se esse fosse o dia mais importante das nossas vidas? Isso não é certo.

- Por quê?

- Porque TODO dia é um dia importante. A vida é curta, muito curta. Devemos apreciar todo dia como se fosse única e especial, ao invés de prender-se a apenas um que acontece a cada ano.

- ....- Juliana apenas encarou Pierre alguns minutos.

- Não concorda?

- Mais ou menos!- falou a garota, entregando a panela de chocolate para Pierre.

- Obrigado!

Mas, não importa o quão longe o Pierre esteja de mim, irei me esforçar para alcançá-lo. Porque, apesar dele ser tão difícil em algumas coisas, eu o amo muito...

- Está uma delícia!- elogiou Pierre, após afanar um dos casadinhos que Juliana preparou.

- Você acha? Se quiser, eu faço isso de novo algum dia.- respondeu a garota, planejando o futuro.

- Seus quibes estão tão deliciosos quanto os casadinhos.

- Certo, eu faço isso também.

- Eu gosto também dos seus brigadeiros...

- Certo, eu faço isso também.

- E do seu bolo também...

- Certo, eu faço isso também.

- Você está proibida de cozinha para mais alguém além de mim.

- Certo, eu faço iss... O QUÊ?

Mesmo que ele ande em um ritmo puxado demais para mim, irei seguí-lo. Pois, no meu coração eu guardo a esperança de poder acertar meus passos com os deles, e, de mão dadas, andar rumo ao futuro inesperado que nos aguarda...

FIM...