Capítulo 1


Villa Verde

Em uma cidade pequena não dá pra esconder nada de ninguém.

Mateus, Clovis e Eliana tinham a idéia de fazer uma festa surpresa para Adilsom. Ele merecia, afinal passou em uma vaga concorridíssima para trabalhar na capital. Adilsom sempre foi inteligente. Desde muito cedo tinha uma facilidade sobrenatural de entender tudo o que estava a sua volta. Não era de se admirar que ele houvesse conseguido se formar como melhor da turma no curso de engenharia elétrica, isso com 22 anos.

Em alguma rua da pacata cidade de Villa Verde, Eliana e seu namorado, Clovis, andavam pra cima e pra baixo comprando tudo o que iam precisar para a festa. Eliana estava começando a ficar irritada, pois enquanto suas mãos esftavam ocupadas carregando pesadas sacolas, Clovis ficava entretido com a câmera digital que comprara, há uns dois anos, na promoção. Com certeza ele não estava ajudando.

O casal era jovem, ele tinha 25 e ela 30. Depois de quatro anos juntos o relacionamento deles começava a se desgastar e, agora, ambos procuravam pretexto para acabar com tudo. As brigas eram constantes.

- Por que você não me ajuda aqui? – Pergunta Eliana.

- Estou ocupado. Não está vendo, não?

- Aff! Você já filmou a cidade toda! Quer filmar mais o quê?

De fato, Clovis já havia registrado quase a cidade toda. Ele registrou o pequeno parque da pracinha; a escolinha primária Canto da Felicidade; filmou o bar do seu Zé (local de máxima importância pra festa, por causa dos engradados de cerveja); o hotel abandonado, o campinho de futebol; a locadora "furreca" do seu Gonsalves; a oficina do mecânico Tobias, a padaria de Joaquim, as três pousadas de Vila Verde; a casa do vidente; o cinema Royal (cujos mais recentes filmes são da década de 1980); os quatro mercadinhos; o posto de saúde (que deveria ser chamado de "posto de doença", pois médico de verdade não havia ali); os soldados que, por um motivo misterioso, desde o inicio do mês patrulhavam a cidade; o cemitério Senhora da Luz, as casas humildes dos moradores, a praia...

- Quero que meu irmão se lembre daqui todas as noites quando for pra capital.

- Não acredito que ele vá se importar muito com isso. – Diz Eliana, com uma cara de desdém.

Clovis não deu nenhuma atenção ao que sua namorada dizia. Estava mais preocupado com alguma coisa que acabara de notar na câmera.

- Vem cá. Esse cartão de memória não foi o mesmo que Mateus usou pra filmar a formatura não, né?

- Sei lá.

Clovis apertou desesperadamente vários botões da máquina, temia que o "documentário" que acabara de fazer sobre a cidade houvesse sido gravado em cima do vídeo da formatura de seu irmão. Toma um susto ao ver na tela um monte de gente bêbada dançando. Seus temores foram confirmados. Aquele cartão de memória foi o que Mateus usou para registrar a formatura de Adilsom. Muita coisa se perdeu. – Tomara que meu irmão não note – Pensou Clovis, fazendo uma careta de quem acaba de perceber que fez uma besteira.

- Oi. Matilda!

- Oi.

- Fala alguma coisa pra câmera.

- Falar o quê?

- Sei lá, qualquer coisa. Deixa uma mensagem pro formando. Sabe como é, tô gravando as mensagens de parabéns de todo mundo. Tipo aqueles depoimentos de casamento, saca?

- Porra, Mateus. – Diz Matilda dando uma risadinha envergonhada. Como ela tem uma pele bem clara, seu rosto não demorava muito de ganhar uma tonalidade avermelhada. Principalmente depois da terceira latinha de cerveja.

- Vai. Deixa de besteira.

- Ta bom, ta bom. Peraê... Pronto?

- Pode começar.

- Adilsom, seja feliz. Tenha boa sorte na sua carreira e... – Matilda faz uma pausa na fala. Sua expressão, antes risonha, era agora substituída por uma com semblante de mais seriedade. – Olha Adilsom... Não queria terminar com você daquele jeito e... Quer dizer... Eu e Fernando... Nós nunca...

- Eita porra! – Clovis arregala os olhos quando percebe que a gravação das mensagens deixadas pelo pessoal na formatura de seu irmão foram quase todas apagadas. Ele sabia que a mensagem de Matilda era a terceira de vinte e seis. Todas as mensagens gravadas posteriormente a dela foram perdidas. – Eliana, diga que fizeram uma cópia dessa zorra, diga.

- Mas essa já é a cópia! Você gravou sem querer em cima do filme original também, lembra? No aniversário de Adolfo.

- Xiii. Fodeu.


Preparando a festa

O senhor Matias nunca teve muitas oportunidades na vida, pois nunca foi muito estudado, parou na quinta série. Com muito esforço Matias conseguiu se tornar dono de uma padaria e nesse emprego ficou, estagnado, dos quarenta até a sua aposentadoria. O velho Matias durante seus setenta anos de vida teve quinze filhos. Três já morreram e a maioria deles está espalhada pelo Brasil a fora. Os únicos que ainda vivem perto dele são os dois mais novos, uma menina de 13 anos, Ana, e um rapaz de 23, Clovis. Desde que sua segunda esposa faleceu Matias se sente solitário. Isso é agravado quando o velho vê pouco a pouco seus filhos se afastando. Cinco anos atrás, quase que o velho não agüenta se despedir de Adilsom, o mais novo filho a se desgarrar, que foi para a capital fazer faculdade.

Hoje é um dia atípico na casa de Matias, pois haverá festa. Adilsom veio passar uma semana na cidade e acabou revelando que conseguiu a vaga de emprego a qual estava correndo atrás. Apesar de já ter contado umas três vezes ao seu pai do que consistia o emprego, o velho não entendeu nada. Mas isso não importava muito para Matias. O importante mesmo era saber que seu filho iria gozar de muito mais sucesso na vida do que ele. Isso trazia felicidade para o velho, mas um pouco de melancolia também, pois alguma coisa dizia a ele que Adilsom ia ficar ainda mais distante da família do que já estava.

A casa de Matias era dividida entre térreo e a parte superior, que era uma varanda. No térreo estavam sendo colocados os quitutes e as mesas aonde o pessoal iria sentar pra conversar. A varanda é onde foi colocado o aparelho de som e onde os convidados ficarão dançando. Quase que como uma discoteca improvisada. O pessoal que arrumava a festa estava trabalhando as pressas, pois tudo teria que estar pronto até, no máximo, às nove da noite. Horário aproximado no qual Adilsom deveria estar voltando pra casa. Neste exato momento ele está sendo levado pelo seu pai por um "passeio turístico" pelas cidades vizinhas de Villa Verde. Isso era só um modo de tapear o rapaz para que quando ele voltasse para a casa do pai seus amigos conseguissem surpreende-lo.

Dentre as pessoas que ajudavam na arrumação estava Mateus. Um jovem moreno de 24 anos que não chegava a ser gordo, mas, apesar da pouca idade, tinha facilidade em concentrar gordura na barriga.

- Mateus, Mateus. – Uma voz feminina chamava pelo nome do rapaz que estava distraído pendurando as bolas de soprar nos cantos das paredes.

- hmmm?

-Olha só quem chegou. – a moça que havia chamado Mateus era Ana. Ela tinha apenas 13 anos, mas já tinha algum corpo. O que chamava atenção dos rapazes da vizinhança. Fazendo um gesto com a cabeça, a menina aponta na direção da porta. Mateus fica surpreso ao ver quem estava entrando por ela.

- Meu Deus! O que ela está fazendo aqui?

- Menino! Fala baixo!

Matilda acaba de passar pela porta de entrada da casa. Ela dá um sorriso para umas três pessoas que estavam por ali e, sem ter muito que fazer, se acomoda em uma das muitas cadeiras de plástico espalhadas pela sala. A jovem não estava se sentindo muito confortável, pois tinha a impressão que algumas pessoas a olhavam de um jeito meio estranho. Enquanto ficava ali sentada sem nada pra fazer, Matilda ficava se perguntando se foi mesmo uma boa idéia ter vindo. Mas também, que outra opção ela tinha? Precisava conversar com seu ex-namorado o quanto antes.

Clovis e Eliana acabam de entrar na casa. – Finalmente – Exclama Mateus que já estava ficando preocupado com a demora dos dois.

- Vocês foram fabricar a cerveja, foi? – Pergunta Mateus com cara irritada, enquanto se aproxima do casal.

- A culpa é dele que resolveu filmar a cidade inteira. – Dedura Eliana. – O pior é que o besta filmou em cima da gravação da formatura de Adilsom.

- Hehe. Foi mal.

- "Foi mal"? Diga isso pro seu irmão quando ele chegar.

- Eita. Tô fodido.

- Ô, Mateus. – Diz Eliana, enquanto chama o amigo pro canto. Tentando deixar a conversa o mais discreta possível. – O que Matilda faz aqui?

- Sei lá. Tem gente que não tem semancol mesmo, né véi?

Enquanto isso, na varanda, dois rapazes conversam enquanto ajeitam o aparelho de som. Um deles estava agachado. Tentava colocar os fios no lugar certo para fazer o negócio funcionar. O outro ficava só prestando atenção na luzinha que ficava na frente do aparelho. Sua função era avisar ao outro se ela estava ligada ou não. Até o momento ela estava desligada, revelando assim que o jovem agachado não estava tendo sucesso em sua arrumação.

- Ligou?

- Ainda não.

- Mas que merda!

- Cara, você sabe o que está fazendo?

- Claro. O som do meu tio é parecido com este.

Depois de muito mexer no aparelho ele dá sinal de vida. Porém o resultado obtido não é o desejado. Não sai música das caixas de som, mas sim um irritante som de chiado a toda altura. O pessoal que estava ao redor instintivamente tapa os ouvidos. O jovem que estava de pé então apressadamente aperta o botão de desligar. O alivio agora era geral.

- Que zuada foi essa? – Perguntou o jovem que estava agachado, mas agora se encontrava de pé.

- Não sei. Estava sintonizado em uma rádio. Barulho estranho, não?

- Desisto. Quando Rivailtom chegar eu peço pra ele dar uma olhada nessa zorra aqui.


Surpresa!

Nove da noite. Todo mundo na casa estava ansioso. Matias havia ligado pra Ana cinco minutos atrás. Ele avisou que já estava, com Adilsom, em Villa Verde. O povo então decide apagar todas as luzes da casa. Quando Adilsom abrisse a porta seria surpreendido pelo "mundo" de gente que o esperava. Todos estavam prontos pra dar o "bote" com um grande grito de "surpresa". Eis que a porta da frente é aberta por Adilsom. -SURPRESA!- Assim que Adilsom liga o interruptor da sala todos os que ali estavam escondidos gritam em coro, fazendo com que o jovem quase tenha um ataque do coração.

- Puta merda! – Diz o surpreendido rapaz.

Um monte de gente se amontoa na frente do rapaz. Faziam uma desorganizada fila para dar abraços, beijos e apertos de mão. Queriam dar parabéns a Adilsom pelo sucesso obtido na capital. Enquanto isso acontecia Matias, que entrou logo após seu filho, vai falar com Mateus. Que estava ocupado comendo uma empadinha.

- Então? Tudo certo?

- Mais ou menos.

- Como assim?

-Ta tendo um problema no aparelho de som. Rivailtom ta vendo se consegue consertar a tempo, mas...

- Que porra!- Ao perceber que falou um pouco alto demais, Matias abaixa o tom da voz. - Será que o pessoal daqui não consegue fazer nada direito?!

Na varanda, Rivailtom, um quarentão calvo, tenta colocar o aparelho de som pra funcionar. Do seu lado estava Ana. A moçinha já começava a irritar o coroa perguntando incessantemente se o serviço já estava pronto.

- Já ta bom?

- Não! Mas que... Menina, quando o aparelho estiver bom ele vai tocar uma música.

- Ta... Será que não é o CD, não?

-Impossível. Já testei quatro. O problema é o aparelho. Não consigo entender porque ele teima em fazer esse chiado insuportável.

Enquanto Rivailtom tentava colocar o som pra funcionar, um velho amigo vai passando pela rua da frente da casa. Como Rivailtom estava na varanda, o velho amigo pôde enxergá-lo e, por fim, decidiu falar com ele.

- Riva!

- Diga, véio!

- Que chiado dos infernos é esse?

- Pois é. Acho que esse aparelho já era, viu.

- Pô, cara. Não diga isso não. Minha TV ta fazendo o mesmo barulho esquisito.

- É mesmo?

- É. Até de tardinha estava normal, aí de repente começou a chiadeira.

- Estranho.

- Bom, já que tocaram no assunto. – Falou Ana. – A televisão lá do meu quarto ta com esse barulho chato também.

- Por que você não me avisou disso antes?

-Você não perguntou.

As horas foram passando, agora era quase meia noite. Como misteriosamente nenhum aparelho de som estava funcionando, o pessoal resolveu improvisar chamando uma banda de fundo de garagem que morava ali por perto. Todos estranharam o fato dos aparelhos eletrônicos da banda não estarem funcionando direito. O jeito foi tocar música no violão mesmo.

- O pessoal toca muito bem, né? – Comenta Clovis a uma desconhecida moça bonita que planejava conhecer melhor.

- É.

- O cara de cabelo espetado é meu primo.

- Hmmm.

- Fui eu que ensinei a ele a tocar bateria.

- Legal.

- Ô Clovis! – uma voz feminina muito conhecida surpreende Clovis. – Sujou, dona encrenca chegou. – Pensa Clovis. Enquanto Eliana vai se aproximando, a moça bonita vai saindo de perto de mansinho.

- O que você queria com aquela piriguete?

- Nada. Só tava conversando ué. Não posso mais não?

Pffff! – Xiiiiiiii! – As pessoas da festa expressam seu descontentamento, pois de repente todas as luzes da casa apagaram. Faltou luz. Desesperado, Matias vai correndo em direção da rua. Queria se certificar de que as outras casas da vizinhança também estavam sem energia.

- Mas que merda! Logo hoje! – O velho encosta seu corpo cansado na parede do lado de fora da casa. Seus olhos estavam vermelhos e começavam a ficar úmidos. Triste, ele chega à conclusão que tudo o que havia planejado pra aquela noite, que era pra ser inesquecível, deu errado. Infelizmente, Matias não sabia que o pior ainda estava por vir.

Sem saber da situação emocional do seu pai, Clovis vai até o telefone da casa. Pretendia ligar para a companhia elétrica pra perguntar o que estava acontecendo. Infelizmente o telefone estava mudo.

- Ôxe?!

Como o breu era total, o pessoal se virava tentando enxergar com as luzes de seus celulares. Era isso ou ter que ficar quase como um cego.

- Ô, Samanta.

- Que é?

- Cê pode me emprestar seu celular?

- Hmmmm.

- É pra ligar pra companhia elétrica.

- Ta bom, vai.

A contra gosto Samanta entrega seu celular para Clovis. Assim que recebe o aparelho ele faz logo a ligação, mas é surpreendido ao perceber que o celular estava sem sinal. Ele agradece a moça e devolve o celular dela. Depois Clovis anda em direção a um outro amigo seu e faz o mesmo pedido. O celular do amigo também estava sem sinal.

- Tem alguém aí com celular funcionando? – Pergunta Clovis em voz alta, para que todos ao seu redor pudessem ouvir.

- O meu ta funcionando não.

- Nem o meu.

- Nada.

- Vixie!

- Ôxe?!

- Neca.

Nenhum dos celulares da casa estava funcionando. Clovis achou estranho tudo aquilo. No inicio eram só alguns aparelhos eletrônicos que não estavam funcionando direito. Agora estavam sem luz, sem telefone e sem sinal pra celular.

- Isso é coisa do exercito! – Grita um velho que estava sentado em uma cadeira da cozinha. - Nada de bom acontece quando esses fardados filhos de uma égua estão por perto.

- Cala boca, Tião! – Tião tem setenta anos. Era bem magrinho, mas gostava de tirar onda de valente. Passou a ter um pé atrás com o exército brasileiro depois de passar um tempo preso nos tempos da ditadura.

- É coincidência demais pra ser apenas um caso de problema na companhia elétrica ou telefônica. Cortaram deliberadamente nossa luz, nosso telefone e nossos sinais de celular. Cortaram todos os nossos meios de comunicação. Por alguma razão estão tentando nos isolar. – Diz Adilsom. Chamando a atenção de todos. – É. Pode muito bem ser coisa do exército.

Como disse anteriormente. Adilsom é dono de um dom especial. Uma facilidade sobrenatural de entender tudo o que estava a sua volta.