When I thought I was so proud, you shoot me down...

Quando eu pensava que poderia te alcançar, mais você se afastava. Deve ser algo do destino, apesar da gente não querer acreditar nisso, na verdade eu não acredito em destino, mas a sorte me pareceu ser a única coisa que seja plausível nesse momento. Você está na minha vida, mas eu não estou na sua (E acho que nunca estarei) e duvido muito que minha vida será a mesma depois de ter te conhecido.

Corredores silenciosos e limpos que meus pés gostam de pisar, escorregar, brincar e ser castigada pela minha teimosia e traquinagem. E eu sou castigada demais, não por estar naquele exato corredor na exata hora (Sempre depois da catequese, durante a missa) só para te ver passando por ele graciosamente, uma sacerdotisa da palavra Verdadeira (E a Verdade está do seu lado, sim eu sei) que toda vez que me via fora de meu quarto me mandava para o castigo costumeiro: Encarar a parede da diretoria até a Madre Superiora chegar da missa.

Ninguém sequer perguntava o porquê de você não ver a missa.

Ninguém sequer perguntava o porquê de eu estar fora da missa.

Ninguém queria saber de nós duas.

Acho que você nunca percebeu o porquê de eu estar naquele corredor, acho que nunca saberia o que eu fazia. Escorregar era o passatempo no chão liso e limpo, ficar de castigo depois era o passatempo, a punição era o seu olhar reprovador e ao mesmo tempo a minha pequena recompensa. Você sabia que eu existia e eu já sabia que você existia antes mesmo de te conhecer.

A parede era a distração, a minha melhor distração para não me perder na sua voz, no seu sorriso frio, nos seus olhos escuros, no seu corpo... E esse último era o que mais me fazia tremer e chorar pedindo por perdão pela minha tentação tola.

E quando as lágrimas se tornaram amargas e difíceis de se chorarem, eu me tornei alguém que não gostaria de ser, e fiz coisas que não me orgulho de ter feito... Desta vez não era chamar a sua atenção, mas sim desviá-la de mim. Você já sabia que eu existia, mas pouco sabia de como você existia em minha vida.

Inimizades, intrigas, orgulho ferido e sangue misturado com lama. Dizem que as linhas entre o amor e o ódio estão bem juntas uma da outra, bem... Isso se tornou a minha realidade ao passar boa parte de minhas madrugadas nas minhas fugas para o barzinho mais longe desse lugar que me ofende e prende tanto. Em rodas de sinuca, pôquer, brigas e desafios estúpidos para provar que eu posso viver sem a sua presença. Tudo em vão. Apenas um olhar rápido para essa mesa de professor que você está agora e tudo isso acaba se tornando banal e imaginário.

E cair do muro foi o meu menor sofrimento, joelhos ralados, mãos sangrias e dentes trincados. Eu te amava e te odiava ao mesmo tempo e você nem notava e nunca vai notar.

Missa de domingo, acordei atrasada, cheguei na capela sem o café da manhã, mas a bala de morango acalmou meu estômago e disfarçou o meu hálito pós-noitada regada de álcool. O banco aqui detrás é o ideal, eu sempre vou sentar nele, eu e meu blusão de frio com capuz para esconder a cicatriz que arranjei no mês passado por quebrar uma garrafa de cerveja na cara de um engraçadinho. Ele precisou de um cirurgião, mas eu ganhei essa cicatriz perto do ombro, bem acima de meu coração.

- Onde você arranjou o blusão style? - disse uma voz atrás de mim, era a 2ª garota na mira das freiras do colégio, Livia tinha o terrível hábito de ser bastante prestativa com os garotos do pátio leste e com qualquer um com ombros largos e vontade suficiente para satisfazê-la.

- Roubei do carinha da lâmpada...

- Safada... Deu pra ele também...? - a pergunta maliciosa me fez corar e me encolher no banco, nunca em minha vida eu teria esse desejo de estar com alguém além de você.

- Deixe de besteira... - a simples idéia de estar envolvida com o cara da companhia elétrica em uma situação como aquela me fez querer vomitar... Apesar de meus pensamentos se desviarem de tal modo automático que mal percebi que o impossível dia em que eu poderia ter a mesma situação com você ali mesmo em algum lugar daquela prisão disfarçada de colégio me deixasse empolgada. Isso fez eu me encolher novamente no banco, pois sempre traz aquele conforto incômodo que sinto em meu peito, em meu ventre, entre minhas pernas e eu gostaria de ter tudo o que estou pensando agora, gostaria de estar em seus braços, longe dos olhos dos outros - e os olhos deles ferem até meus mais inocentes pensamentos - e ter, finalmente, o seu corpo contra o meu, o seu coração só batendo por mim e sua voz chamando o meu nome gentilmente.

- Pensando na fessora Mackenzie de novo é...? - nossas vozes estavam em um tom que só nós duas entenderíamos o que falávamos.

- Cala essa boca Liv... - simbilei entredentes.

- Cuidado que Deus castiga... - disse ela apontando para o altar-mor cheio de floreios e entalhes maravilhosos em temas sagrados, a imensa cruz no centro do altar fazia todos reverenciarem aquele lugar santo.

- Quanto a isso, você vai pro Inferno primeiro...

- Oh sim... Mas eu não sou tão depravada como você...

- Dormir com dois garotos do pátio leste ao mesmo tempo não é depravação...?

- Não tanto quanto ter sonhos pecadores com a professora de Inglês E nossa supervisora...

- Por que você não vai à me... - minha voz acabou chamando atenção dos superiores lá na frente, você me olhou. E seu olhar me fez gritar por dentro de angústia, só significava uma coisa. Repúdio.

- Tinha que ser essa menina levada... - resmungou uma freira mais velha...

A cadeira da diretoria era desconfortável, mais ainda quando era você na minha frente me olhando pelo canto dos olhos debaixo de seus óculos de armação retangular, enquanto dava mais outra olhada em minha ficha de detenções e suspensões...

- As notas dela melhoraram... - Você disse para a Madre Superiora que cuspia ameaças e castigos divinos sobre mim por estar atrapalhando a missa novamente.

- Quando vai entender que estamos aqui com um compromisso sério de te criar FORA do antro de perdição que nasceu?! - isso feriu o meu coração por pouco, uma lágrima teimosa que estava engasgada ali dentro por anos à fio ameaçou sair por pouco, mas você estava me olhando agora. Você é perfeita e eu não sou, sendo assim chorar não irá melhorar nada. O silêncio foi a minha resposta e um suspiro denotando a minha chateação foi a única coisa que consegui manter o meu orgulho intacto.

- Ela sempre foi uma boa aluna... - e meu coração pula de alegria e um sorriso bobo ilumina o meu rosto. E eu tento lutar contra essa nova manifestação de alegria, mas é inútil. A Madre Superiora alfineta do outro lado.

- Apesar de se comportar como uma... uma... devassa... Um menininho levado é o que as freiras falam de você...! - apontando para mim. Isso não apaga a chama dentro de meu coração, eu sei que foi o primeiro elogio que você me fez durante anos aqui. O meu sorriso ainda não morreu e me sinto idiota por isso.

- Mas nada que uma conversa franca e esclarecedora não resolva, não é? - e então o meu mundo derrete aos seus pés porque você sorriu da maneira mais verdadeira possível para mim e seus olhos piscaram com um ar de cumplicidade que eu jamais imaginaria que existisse algum tipo de malícia ali.

Eu mal sabia como andar direito! Meu coração pulsava tão forte em meu peito que meus ouvidos mal ouviam os sons do lado de fora. Você estava agora sentada ao meu lado, mãos cruzadas nas pernas e me olhando com aquele sorriso. A Madre já havia saído para praguejar contra outros e eu sozinha com você na sua sala. O crucifixo em seu pescoço me deu naúseas por um momento, assim como a imagem de um Cristo crucificado ali na parede atrás de sua cadeira. Era como se eu tivesse a inteira atenção DELE agora, mas de outra forma eu tinha a SUA atenção agora...

- Vamos conversar um pouco, certo? Nada de repreensões ou... - gesticulando como se fosse a Madre Superiora, o meu sorriso aumentou. - Bom, eu não quero te dar palmadas ou te botar de castigo naquela parede ali como sempre fiz desde quando você era pequenininha... - o pensamento pervertido sobre as palmadas me fez remexer na cadeira de nervoso. - Mas você já é mocinha. 16 anos é uma idade difícil de se lidar e como estamos juntas aqui nesse colégio por muito tempo... - indo para minha ficha de detenções. - 10 anos, não? - respirando calmamente e se virando para mim. - Eu gostaria de saber o que você quer do futuro... - e minha língua se enrolou para soltar a verdade que eu guardava em meu coração por esse tempo todo, mas algo mais superior me fez morder minhas palavras e tentar mentir, pois era a única estratégia de conversação que eu havia praticado com mais frequência.

- Quero ir para a faculdade... - menti descaradamente, esse era o sonho de qualquer menininha ali, incluindo casamento duradouro e filhos.

- Oh, isso é bom saber...! - disse ela empolgada e o crucifixo em seu pescoço balançou um pouco em um movimento sensual, eu não queria, mas estava morrendo por dentro de tantas idéias tentadoras fluírem em um só segundo. Tomei um pouco de ar e a fitei com a minha famosa cara de inocente. - E pretende fazer o quê? Tem alguma idéia?

- Inglês e Literatura... - foi a resposta mais rápida de toda minha vida!

- Nossa, bem... - isso a deixou desconcertada e isso me deixou mais confortável. - Parece que teremos outra professora aqui, hehe... Posso saber o porquê da decisão? - "Porque eu quero te beijar AGORA!!!" foi o que meu cérebro disse, mas a razão voltou segundos depois...

- Bem, eu sempre gostei de livros e... ahn... a senhorita sempre deu ótimas aulas, sendo assim eu... ahn... - as minhas palavras pareciam interessá-la repentinamente. - Eu gosto do seu trabalho e... e... gosto de saber que talvez em algum dia eu possa est... ahn... ser como a senhorita... - ela sorriu novamente e isso derrubou metade da minha defesa.

- Fico feliz em ouvir isso... - disse ela me encarando espetacularmente. - É dificil receber créditos nessa profissão sabe? - rindo um pouco, meu sorriso continuava. - E você tem um potencial enorme se quer saber... - meu sorriso continuou, meu coração já estava na garganta. - Suas notas são excelentes e confesso que nunca vi uma aluna se dedicar tanto com a interpretação dos textos, mas... - e isso meu sorriso foi esfriando. - Mas a sua disciplina... Ela deixa a desejar... - e agora com o cenho franzido ela disse gravemente. - Eu não entendo o porquê de tantas transgressões, não entendo quem você quer chamar atenção por ter essa ficha invejável aqui... - sorrindo friamente como fazia ao responder alguma pergunta de algum aluno engraçadinho.

- Você... - a palavra escapou! - Ahn, a senhorita acha que estou exagerando? Porque eu posso parar sabe? - e foi a pior mentira que eu havia contado na minha vida inteira para tentar consertar algo. Ela me olhou diretamente, captando o meu rubor, os meus lábios entreabertos e pela primeira vez na vida eu percebi que ela me lançou um olhar admirado e de certa forma... informal...

- Parar? Ah isso sim deve acabar mesmo... Estou com tantas reclamações do barzinho que você costuma frequentar de madrugada... - eu quase caí no chão! Eu juro que se não tivesse a cadeira me segurando eu estaria desmaiada! - Pensa que eu não sei de suas escapadas noturnas...? - se aproximando calmamente de mim e colocando a mão direita na minha, meu corpo pareceu receber um choque elétrico! Era a primeira vez que eu a sentia me tocando (Os sonhos não valem realmente!). - Pensa que eu não sei o que você apronta lá fora? O quanto já bebeu e se comportou como um cão de briga? - cada palavra era marcada com um olhar penetrante e frio. - Pensa que eu não sei...? - minha cabeça tombou pesadamente, minha vergonha anulava qualquer outra sensação, mesmo com ela segurando minha mão. - Isso deve parar, querida... - ela disse amavelmente e o ritmo alucinante de meu sangue voltou. - Você precisa saber o que quer da vida e se quer ser uma professora como eu terá que deixar essas bobagens de lado.

- Mas eu não consigo...! - foi a minha resposta debaixo de meu orgulho despedaçado.

- Consegue sim! Ora veja! Não vou te prender aqui ou te acorrentar na sua cama... Vou deixar essa decisão nas suas mãos... Essas noites de traquinagem não vão levar a lugar algum...

- A senhorita não entende... - era o meu orgulho querendo falar por mim... E ele era pouco aconselhável já que trazia as lágrimas e as mágoas. - Eu preciso... Preciso sair daqui um pouquinho para...

- Para...? - escolha difícil da minha vida: Dizer a verrdade, esconder a verdade com uma mentira pior.

- Eu sou uma garota! Eu preciso namorar às vezes! - e isso foi patético... Ela sorriu e depois riu um pouco, suas bochechas ficaram rosadas pela surpresa.

- Namorar... É isso então...? Tem algum garotão lá fora te esperando...?

- N-não...!!! - disse desesperada, não queria que ela pensasse que eu era como a Livia. - Não, não! Não há ninguém lá fora...!

- Calma, não precisa se exaltar... Estamos numa conversa boa aqui... Como te disse, não vou te repreender...

- Eu sei, eu só... Quero dizer... - Ela se levantou da cadeira e eu fiz o mesmo.

- Vamos fazer o seguinte então... Quando você estiver à vontade para conversar, qualquer coisa, pode vir falar comigo, certo? Quero que fique isso bem claro, querida... Eu quero te ajudar, mas você tem que dar o primeiro passo...

- O-okay... - indo para a porta da diretoria.

- Tenha um bom dia, Joanne... - e minha falta de senso me fez virar e beijá-la rapidamente. Um breve toque naqueles lábios desejados, algo que era extremamente proibido em meus pensamentos e eu cometi o pior delito!