Capítulo 1: Sentenced


Hoje é um dia especial na vida de Francisco. Depois de amargar trinta anos de cadeia ele será liberado. O homem foi acusado de matar uma família inteira, mulheres e crianças inclusas. Só foi solto agora porque no Brasil ninguém pode ficar em cana por mais de trinta anos. Além disso, Francisco sempre foi bem relacionado. Várias pessoas devem favores a ele, inclusive alguns policiais e advogados.

Ninguém esperava que ele durasse tanto, pois os criminosos possuem um "código de honra" (hipocrisia). Assassinos de criança e estupradores não duram muito na prisão, mas Francisco foi exceção.

Muitos na cadeia tentaram matá-lo, mas de nada adiantava nem quantos tentavam e nem como tentavam. Depois da quinta tentativa de linchamento desistiram desse tipo de abordagem. Cinco, dez, vinte... não importava quantos. Francisco lutava como se tivesse o diabo no corpo. Ninguém na prisão, nem mesmo todos de vez, era páreo para ele.

Tentaram esfaqueá-lo pelas costas umas quatro vezes, mas ele parecia ter um olho na nuca. Tentaram baleá-lo também, mas ele era muito ágil, conseguia desarmar qualquer oponente com espantosa facilidade. Certa vez até tentaram envenenar sua comida, mas além de não dar certo, ninguém soube explicar como o veneno que era pra Francisco foi parar na comida do idealizador deste plano.

O assassinato de uma família inteira, as tentativas frustradas de matá-lo, seu jeito todo fechado e o fato de ninguém saber direito qual era seu passado, fizeram com que Francisco virasse uma lenda no presídio de segurança máxima. Como os bandidos são bastante supersticiosos, muitos boatos sobre o passado de Francisco se espalharam pela prisão. O principal deles dizia que o carrancudo tinha um pacto com o tinhoso.

Pactuado ou não, agora, com sessenta e seis anos nas costas, Francisco já podia ir embora.

Durante o percurso que fez para passar pelo portão da frente do presídio, os policiais e os outros detentos o encaravam ou com espanto ou com ódio na cara. Todos eles dando graças a Deus por aquele demônio estar indo embora.

Ninguém esperava por Francisco do lado de fora da cadeia. Nenhum parente ou, muito menos, amigos. A única coisa que o velho possuía era sua mochilinha cheia de tralha e a roupa velha que usava: camiseta regata, um bermudão cafona e um par de chinelos havaianas já bem desgastado.

Muitos pensavam que o futuro dele agora era viver nas ruas como um mendigo, pois saiu da cadeia sem nenhum tostão no bolso. No entanto, Francisco já tinha um lugar em mente pra ir.

A idade avançada trazia poucos benefícios, um deles é que Francisco agora poderia pegar qualquer ônibus sem pagar nada. Do contrario ele não conseguiria chegar ao seu destino tão cedo.

Vinte minutos depois, quando chega a um bairro comercial bem popular, Francisco sai do ônibus. O local que almejava chegar estava logo ali. A apenas trinta passos de distância do ponto de ônibus.

Um restaurante pequeno que servia almoço em PF (prato feito). O lugar tinha espaço para apenas três mesas. Era apertado e comprido, ao mesmo tempo em que era estreito. O estabelecimento possuía ao todo sete mesas, no entanto quatro ficavam do lado de fora. Uma cobertura azul e de aparência suja protegia as mesas expostas de um possível tempo ruim.

Francisco entra no referido restaurante e senta-se à mesa mais próxima do balcão. O lugar ainda estava vazio, afinal eram apenas nove horas. Só havia um jovem funcionário, além do ex-presidiário, ali. O garoto não devia ter mais de dezoito. Era magro, moreno e de cabelo mal tratado. Pela cara que fez parecia não ter gostado da entrada do velho.

- Pois não?

- Dá pra chamar o dono?

- Por quê?

- Sou um velho amigo dele, menino. Chama Zeca aí, pô. – O tom de voz mandão do visitante fez com que o garoto enfeasse ainda mais sua cara. No entanto, ele obedeceu à ordem do velho. Cinco minutos depois um oriental baixinho de meia idade surge da porta dos fundos. Também de cara fechada, o dono do restaurante vai de encontro à mesa de Francisco.

- Então você já saiu da cadeia.

- Feliz em me ver?

- Não muito.

Depois de uma longa pausa de quase um minuto, onde os dois coroas pareciam que nunca iam terminar de ficar se encarando, Francisco diz algo. – Tudo bem. Vou direto ao ponto. Não me resta muito tempo. Preciso de um lugar pra ficar. Depois que eu ajeitar as coisas vou-me embora.

- "Ajeitar"...?

- Você sabe. Preciso encontrar alguém pra deixar meu legado.

- "Legado"? Que legado um assassino pode ter?

- Calado! Você sabe que isso não é verdade! Você sabe o que aconteceu melhor do que ninguém! – Diz Francisco já se exaltando e quase enfiando o dedo na cara do japa.

- Ta certo. Ta certo. Pode ficar no sofá da minha casa por uns tempos. É o máximo que posso oferecer.

- Tudo bem. Estou acostumado com a falta de conforto.

- É bom que esteja acostumado mesmo. Porque pra onde você vai, tu não vai ter muito disso não. – Diz Zeca com um sorriso em tom de deboche. Obviamente Francisco não gostou dessa tirada do japa, no entanto não revidou. Apenas pegou sua mochila e passou pela porta do fundo do restaurante, a partir dali já era "território" da casa de Zeca.

O menino, o rapazinho que ajudava Zeca no restaurante, ficou espantado vendo aquele velho mal encarado entrando na casa do seu patrão e, por causa disso, foi ter uma conversa com o japa. – Zeca! Quem era aquele?

- É só um amigo das antigas. Vai cuidar de sua vida, vai, menino. – A cara de espanto do rapazinho foi alterada para a de emburrado. Sem ter mais o que fazer, o menino vai pra de trás do balcão e fica lá esperando pela chegada de mais algum cliente. O que naquele dia era pouco provável.

Apesar de ainda ser muito cedo, Francisco já estava bem cansado. O coroa, já dentro da casa de Zeca, tomou um banho rápido e praticamente deu um pulo pra cima do sofá. Deitado, o velhote começou a dar um breve cochilo que durou apenas quinze minutos. O sofá em que dormia era velho, rasgado em algumas partes e só tinha lugar para duas pessoas. Obrigando Francisco a se encolher para que seu corpo cabe-se todo nele.

Assim que despertou de seu breve cochilo Francisco deu um daqueles "pulinhos" que nós damos quando recebemos um susto. A visão que o perturbou durou apenas dois segundos. Por esse breve momento Francisco podia jurar que tinha visto um ameaçador cão preto perto da porta da sala. Sabe quando dormirmos e ao acordar, ainda sonolentos, temos a nítida impressão de que vimos, por poucos segundos, algo que não deveria estar ali? Pois bem, isso aconteceu com Francisco nesse momento. Uma pessoa normal poderia até ficar de inicio impressionada, mas no final das contas ia achar que tudo não passou de fruto da sua imaginação e seguiria seu cotidiano ignorando esse fato. No entanto, Francisco não era uma pessoa "normal". Francisco sabia o que aquilo significava. Aquele cão preto era um sinal. Um aviso. Seus dias estavam se aproximando do fim.

À medida que os dias iam passando, o garoto que trabalhava pra Zeca ficava mais encafifado em relação à origem do estranho hospede de seu patrão. Várias vezes tentou retirar alguma informação do japonês. Mas aquele coroa era esperto. Não deixava vazar informação nenhuma. Após o termino do segundo mês o menino se acostumou com a idéia e parou de fazer perguntas.

Em certa noite, no sexto mês após a aparição do estranho hospede, o garoto foi chamado para trabalhar no restaurante até mais tarde. "É dia de festa" dizia o japa, "muitos clientes". De fato era uma data especial. Haveria uma comemoração na cidade. As ruas estariam cheias e, consequentemente, o restaurante também. No entanto, não foi isso que ocorreu. Estava tudo vazio. Estranhamente não havia ninguém andando na rua. O que frustrou o pobre rapaz. Pra piorar ele estava sozinho, seu patrão havia saído pra fazer alguma coisa que não deixou bem claro qual era a natureza. A hora avançada, a escuridão das ruas, a solidão... Tudo fazia com que o garoto ficasse meio assustado. A aparição do hospede de seu patrão correndo pelas ruas na sua direção não ajudou muito. Pra falar a verdade o menino quase teve um ataque. Mil tragédias absurdas passaram pela sua cabeça. Ele definitivamente não confiava naquele idoso.

Francisco ignorou completamente a presença do menino, foi direto, correndo como a zorra, para a porta do fundo do restaurante que dava acesso à casa de Zeca. Estranhando muito aquilo, o rapaz seguiu, a contragosto, Francisco. Um velho que ele achava, sem nem desconfiar da verdade, que tinha a maior cara de marginal.

O rapaz fica estranhando a atitude daquele idoso. "Deve ser maluco" pensava. Francisco correu até a cozinha e pegou todos os pacotes de sal que encontrou. Espalhou sal pela porta e pelas janelas da casa fazendo uma sujeira danada.

- O que está fazendo? – Pergunta o garoto.

- Agora não! Quieto! – O garoto havia notado que Francisco estava com um semblante assustado, como se o demônio em pessoa estivesse na sua cola.

AAAAAUUUUUU!! Um som de uivo, provavelmente de um cachorro de rua, se fez presente. Aquele barulho simples fez o pobre velho tremer feito vara verde. Olhando praquela cena patética, o garoto então chegou à conclusão que o coroa tava era é maluco. Desconfiado, o rapaz só se preocupava se o velhote em sua doideira seria perigoso. "Duvido" chegou à conclusão o imaturo rapaz, levando em consideração a já avançada idade de Francisco.

Francisco ficava parado próximo à janela fitando a rua vazia. O rapaz então, aproveitando-se de sua distração, pegou uma vassoura no quarto de Zeca e começou a varrer a porta da casa que estava suja de sal.

- O que está fazendo?! – Berrou o velho logo que notou a atividade do rapaz.

- Limpando sua porcaria.

- Você está maluco?! Isso é a única coisa que impede ele de entrar!! – Francisco, transtornado, apanha a vassoura da mão do guri com excessiva brutalidade. O velho iria por mais sal na porta se não tivesse visto algo de aterrador lhe observando do lado de fora do restaurante. – Meu Deus! – Vendo que não dava mais tempo, Francisco corre e se tranca no quarto de Zeca. Sem entender nada, o rapaz fica olhando para fora, tentando descobrir o que havia espantado o velho daquela maneira. Não encontrou nada.

Toc! Toc! O guri bate na porta do quarto e tenta falar com o velho. – Senhor? O que foi? – O idoso não responde. Irritado, o rapaz deixa o velho pra lá e se dirige até o restaurante, não era pago pra ser babá de homem já feito.

AAAAUUUUU! Novamente um som de uivo se fez presente e, ao contrário da primeira vez, o garoto ficou com medo. Pois o uivo de agora era bem próximo, parecia vir de dentro da casa. O que era impossível, pois não havia nenhum cachorro ali dentro. Crack! Crack! Crack! Mais um som estranho. Desta vez era o de madeira sendo arranhada. Ao olhar para a porta do quarto de Zeca, o garoto fica boquiaberto. Crack! Crack! Crack! Lascas e mais lascas de madeira iam cedendo numa velocidade impressionante. Como se cupins super poderosos estivessem ali.

Tentando desvendar aquele mistério, o garoto tem a imprudência de tentar tocar nos arranhões feitos na porta. Ele dá um pulo pra trás quando sua mão toca em algo invisível. O rapaz tem a impressão que havia tocado em alguma coisa peluda, sendo que não havia nada ali. GRRRRR! Desta vez foi um rosnado. Um rosnado surgido próximo à porta, como se um cachorro invisível estivesse ali. Amedrontado, o garoto não teve forças nem pra se mover. Ficou ali, imóvel, assistindo o terrível espetáculo que estava pra acontecer. Crack! Crack! Crack! De tanto arranhar a porta, o cão invisível conseguiu abrir um enorme buraco nela. Grande o suficiente para ele poder entrar no quarto. – AAAAHHHHH! – Francisco berrou de medo, pois o cão preto, invisível para o rapaz, era bem visível para ele. Mais parecia um lobo, o pêlo era mais negro que a noite e os olhos brilhavam em um tom vermelho infernal. SCRECH!! – AAAHHH! – Gritos, agora de dor, acompanhados com o som de carne sendo cortada. O sangue jorrado de Francisco pinta as paredes e o piso do quarto de Zeca. Quando o velho finalmente morre o lugar fica em total silêncio.

O garoto, que normalmente era moreno, agora estava pálido, seus olhos não piscavam e ele suava frio. Estava revivendo um pesadelo. Um pesadelo ocorrido há muitos anos. Um pesadelo que ele achava só fazer parte de sua imaginação, mas que agora, ele descobriu ser muito real.