Capítulo 6: Burning in Hell


O rapaz continuou desmaiado ao lado do corpo de Cíntia por horas. O golpe que a jovem havia dado nele devia ter sido bem potente, pois ele não dava nenhum sinal de que estava acordando. Sua respiração também estava cada vez mais fraca. Ele ficaria ali, inerte, por muito mais tempo se alguém não chegasse para interferir. Não alguém desse mundo, mas do outro. Um ser que só as pessoas especiais podem olhar sem correr o risco de perder os olhos. Um ser que só as pessoas especiais podem ouvir sua voz sem ficar surdas. O ser não era uma criatura das trevas, por isso para entrar no corpo do rapaz teve que pedir permissão. O ser iluminado explicou sua situação e, depois de uma longa conversa com o espírito do jovem, foi atendido. Uma luz envolveu o corpo do garoto por alguns instantes e quando este despertou não era mais só um adolescente. Era também Castiel. Um anjo do senhor.

O tempo no inferno passa de modo diferente. O que aqui seriam poucas horas lá equivaleria a algumas semanas. Assim sendo, quando Cíntia foi falar com o espírito de Francisco, para ela ele tinha morrido há apenas meia hora. Já pro velho era como se ele já tivesse passado duas semanas no inferno. Tempo suficiente para alguém como ele se acostumar com a idéia.

Na maior parte do tempo Francisco ficava suspenso no ar preso por correntes que perfuravam seu corpo. Perto de onde ele estava ele conseguia ver um caçador coroa americano (que vivia falando de seus dois filhos), Cíntia e Zeca. Francisco e Zeca até que estavam, na medida do possível, agüentando bem. Já Cíntia não. Enlouquecera quase que imediatamente quando chegou ali. Não tardou muito para que ela aceitasse a proposta de torturar os outros em troca de uma aliviada em seu sofrimento.

Zeca, Cíntia e Francisco só precisaram agüentar o inferno por dois meses, pois um ser iluminado trajando o corpo de um adolescente desceu até as profundezas e os tirou dali, agarrando-os pelos braços com tanta força que deixou uma marca de queimadura, no formato exato de sua mão, neles.

- Cof! Cof! Cof! – Cíntia estava de volta ao seu corpo. Ela levantou assustada do chão sujo da casa de Zeca. Seu pescoço ainda doía um pouco, mas não estava mais quebrado. Em pé, Zeca, Francisco e o rapazinho, que ela pensava ser só o ajudante do japonês, a esperavam para ter uma conversa.

- Como já disse, preciso da ajuda de vocês para expulsar os demônios da cidade. É só por isso que foram salvos da danação. – Disse o garoto, que agora era Castiel.

- Mas como faremos isso? – Perguntou a jovem. – Aquele Daath é invencível.

- Deixem que eu distraia o demônio Daath. Enquanto isso, vocês devem encontrar uma maneira de expulsar toda sua horda.

- Mas como faremos isso? – Insistia na pergunta Cíntia.

- Se virem. Foram salvos pra me ajudar, não o contrário. – Castiel deu as costas para o grupo e saiu andando para a rua. Agora, sozinhos, o trio arquitetava um plano. Francisco, o mais esperto de todos, foi o primeiro a ter uma idéia.

Daath estava em cima da casa do prefeito, a residência mais alta da cidade. De lá ele olhava o seu povo e pensava no que deveria fazer a seguir. Atacar as cidades vizinhas? Marchar contra os anjos? Atrair o máximo de humanos possível pro inferno? As opções eram muitas. O seu poder de decisão é que era pouco.

- Você tinha bastante potencial, Daath. Por que se transformou nisso?

- Castiel?! – O demônio olhou para suas costas e se espantou ao ver o anjo se aproximando. A criatura iluminada vestia outro corpo, no entanto não foi difícil para o demônio identificá-lo, pois a aura de Castiel continuava reluzente.

- Não! Você não vai me atrapalhar novamente! – Daath apontou sua mão na direção do anjo esperando machucá-lo com sua telecinesia, no entanto Castiel não era um alvo tão fácil quanto um humano. O anjo nem se balançou com o ataque do tinhoso. Ele se aproximou do inimigo e, com um soco estupidamente potente, arremessou o demônio no ar que acabou caindo na casa do outro lado da rua, quebrando tudo que estava no caminho do seu corpo. Que caia como se fosse um cometa.

Castiel não teve muito tempo pra comemorar, pois o demônio rapidamente se recuperou do ataque. Poucos instantes depois vários carros começavam a voar, erguidos por Daath que os arremessava em direção ao seu oponente utilizando-se de sua telecinesia. Os três primeiros carros não pegaram no alvo, mais o quarto sim. Fazendo com que o anjo caísse do teto da casa onde se encontrava.

Aproveitando-se do breve momento em que o anjo estava tombado. Daath voou em uma velocidade impressionante para cima dele. O demônio arrastou sua vítima pelo chão estraçalhando completamente o asfalto por onde passavam.

Castiel não ficou em posição de vítima por muito tempo, conseguiu equilibrar um pouco mais a luta após dar outro soco muito bem dado no demônio. No entanto Daath dessa vez estava mais preparado. Conseguindo se equilibrar no ar antes que seu corpo se colidisse novamente contra alguma coisa.

O anjo seguiu seu inimigo aos céus e agora a luta continuava nos ares. As centenas de demônios que ali estavam não podiam fazer nada a não ser assistir. Eram de um nível muito inferior ao do anjo para tentarem fazer alguma coisa.

Em outra parte da cidade, o trio de caçadores conseguiu prender uma criança possuída. Eles a amarraram com cordas a uma cadeira de madeira. Francisco, o que mais sabia de feitiços no grupo, fez um exorcismo que durou meia hora, depois disso a criança, que estava desmaiada, já se encontrava livre da possessão. No entanto ela não tinha muitos motivos para ficar feliz.

- Muito bem. – Disse Francisco. – Podemos fazer o ritual.

- Mas Francisco! É apenas uma criança! – Disse Zeca.

- Melhor ainda. Temos a garantia de que é virgem. Agora vamos logo. Temos pouco tempo. Cíntia, vá pegar a faca. – A jovem pegou a faca do chão sem nem piscar. Ela estava ciente do que ia acontecer, mesmo assim não estava nem aí.

- Vocês estão loucos?

- Isso precisa ser feito, Zeca. É a única maneira.

- Não! – Zeca deu um golpe com a palma da mão no pescoço de Francisco matando-o novamente. O pacto do velho durava apenas até o momento de sua morte, sendo assim quando ele voltou pra Terra não podia mais gozar de seus benefícios. Francisco não tinha mais a força de um super lutador, mas sim a de um sexagenário. – Me dê essa faca, menina! – Gritava Zeca.

- Não! De jeito nenhum! Não vou voltar pro inferno! – Disse a garota com a faca na mão, de uma maneira bem ameaçadora.

Zeca se preocupava muito mais com o bem estar da criança do que com a alma de Cíntia. O Japonês então pega a criança e a coloca no ombro. Correndo o mais rápido que suas pernas nipônicas permitiam, Zeca saiu de sua casa, do seu restaurante e ganhou as ruas. Ele não podia fraquejar, pois logo atrás dele estava Cíntia, correndo feito uma louca com uma faca na mão.

A menina não percebeu, mas Zeca estava correndo em direção a uma encruzilhada. O japonês planejava resolver aquilo novamente da maneira fácil. Fazendo um pacto. – Dargaard! – Grita o japonês, chamando pelo nome da criatura.

- AAAHHHHH! – Em sinal de "boa fé", Dargaard logo que aparece elimina a maior ameaça à vida de seu antigo "amigo". Cíntia é carbonizada pela entidade de tal maneira que quando as chamas se apagaram só sobrou pó de seu corpo. Agora, nem se um anjo quisesse ressuscitá-la ele conseguiria.

- Diga, meu velho amigo. O que deseja? – Dargaard vestia uma roupa totalmente preta. Ele usava barba e bigode Sua pele era pálida, contrastando com seus cabelos compridos e negros.

- Sei que você pode exorcizar essa cidade inteira em menos de um minuto se assim você desejar.

- É. Posso fazer isso mesmo. Mas vou ganhar o quê com isso?

- Minha alma não basta?

- Aff! Nem pensar. Pedido grande demais pra uma só alma dar conta. Isso vai custar no mínimo 100 almas.

- Então deixa pra lá. Estou aqui disposto a me sacrificar, não a sacrificar os outros. – O japonês já estava se virando de costas para Dargaard, na intenção de voltar pra sua casa, quando o demônio resolveu ser mais flexível na negociação.

- Ta bom, ta bom. Você não é de colocar os outros no esparro. Tudo bem. Posso reformular minha proposta. Vejamos. Eu exorcizo a cidade inteira em troca de sua servidão por, digamos... Tempo indeterminado. Servidão essa realizada neste plano é claro, você nunca mais irá voltar ao inferno. Então? Topa?

- Topo.

Castiel perdeu aquela batalha.

Daath conseguiu subjugar o anjo e se pôs em cima do seu corpo caído. Estava prestes a arrancar, com as mãos, o coração do anjo, pondo fim assim a existência da criatura iluminada nesse plano.

As unhas de Daath já começavam a perfurar o peito do anjo fazendo com que ele berrasse de dor. A vitória seria do demônio, mas algo estranho aconteceu.

- Cof! Cof! – Todos os demônios da cidade, incluindo aí Daath, começaram a ter suas essências sendo expelidas dos corpos que estavam possuindo. No inicio era apenas as bocas dos possuídos que começavam a fumegar. Mas logo em seguida todos escancararam suas bocas enquanto uma espessa fumaça negra saia de dentro deles, voando para bem longe. Todos os habitantes da cidade agora estavam livres.

Apesar do resultado positivo da missão, Castiel não gostou do que viu, pois sua visão onipresente já tinha lhe revelado como isso se sucedeu.

Zeca e Dargaard ainda estavam na encruzilhada, discutindo como seriam os anos de servidão do japonês. Eis que no meio da conversa Castiel aparece voando. O anjo estava com um semblante irritado. Só não fazia isso porque era pecado, mas o seu desejo era de matar um.

- Não acredito! Você cometeu o mesmo erro de novo?! – Disse Castiel. Se referindo a Zeca.

- Salvei a cidade, não salvei?

- Mas a que custo? Sinto muito, Zeca. Da próxima vez que nos encontrarmos não estaremos mais na condição de aliados. – Assim que proferiu sua ameaça, Castiel pousou no asfalto e um raio de luz saiu do corpo em que estava. Revelando que o anjo não mais possuía o adolescente.

- Vai-te embora, carniça! Liga pra ele não. Ele sempre foi ingrato assim mesmo. – Disse Dargaard. – Muito bem, já fiz minha parte. Agora é você que tem que cumprir a sua. – Dargaard se aproxima de Zeca e dá uma mordida em sua jugular, tal qual um vampiro faz. O tinhoso estava passando uma maldição para o nipônico. Uma marca negra que o japonês irá carregar na alma por toda eternidade. Zeca não sabia, mas naquele momento uma nova raça de vampiros estava sendo criada.

Os vampiros foram criados há milênios. Os primeiros eram formidáveis, verdadeiras criaturas da escuridão. No entanto, ao passar dos séculos, o sangue maligno deles estava enfraquecendo. Os últimos representantes da quase extinta raça vampira tinham perdido e muito as características que os seus antepassados possuíam e estavam se tornando cada vez mais humanos. Os novos vampiros não possuíam mais instintos aguçados. Eles eram muito mais lentos e fracos que os antigos. Tanto é que os humanos agora podiam muito bem rivalizar com eles nas brigas. Um verdadeiro absurdo. Eles perderam tanto do seu sangue amaldiçoado que nem eram mais afetados pela luz do sol. Bom, pelo menos um lado positivo afinal. Não é de se estranhar que sobrou menos de 50 deles espalhados pelo mundo.

Dargaard estava dando uma revigorada na espécie. Zeca agora havia se tornado uma "versão 1.0" da raça vampiro, por assim dizer. Mais rápido, mais forte e com os sentidos muito mais aguçados. No primeiro momento, o comerciante nipônico não notou nenhuma diferença, ele só sentiu as mudanças no dia seguinte, após acordar de um longo e tranqüilo sono. Suas feições já desgastadas pelo tempo haviam amenizado bastante. Agora ele parecia ter não mais que trinta anos. Seu corpo estava malhado também, parecia um atleta.

Zeca estava em sua casa. Misteriosamente, ao acordar, ele a encontrou mais limpa e arrumada do que nunca esteve antes. A porta quebrada, o sangue espalhado pelo quarto... Tudo havia sumido. Aquilo era mais uma amostra de "boa fé" do demônio. Ainda era de tarde, o sol estava alto no céu. Zeca tentou sair da casa, mas desistiu ao sentir o ardor que o sol provocava em sua pele. Esse era um dos pontos negativos do pacto. Um lembrete de que sua nova vida não era uma dádiva, mas sim uma maldição.

Daqui a poucas horas o sol deixará o céu e Zeca irá enfrentar os outros dois pontos negativos de seu pacto. A sede de sangue e o desejo de compartilhar sua maldição. É desse modo que Zeca irá servir Dargaard. Contaminando as pessoas com o seu mal. Transformando-as em almas perdidas.

Castiel, devido sua visão onipresente, soube na hora o que havia acontecido com o japonês. De imediato ele foi discutir a situação com o seu superior, o anjo Bajel. Ambos estavam no paraíso. Os dois, como não estavam "vestindo" nenhum corpo humano, possuíam uma aparência indescritível.

- Sugiro usar a mesma tática do inimigo. – Diz Bajel.

- Como assim?

- Já que o inimigo recorreu ao vampirismo, devíamos fazer o mesmo.

- Ainda não entendi.

- Caliel, sugiro que façamos uma nova raça de vampiros também.