Capítulo 1 - Nascimento

...Quem sou eu? ...Você parece interessado. Então, vou lhe contar tudo. Desde... O começo...

Num dia nublado, em uma pequena caverna de rochas cinzas, marcada pelas gotas da chuva leve e calma, uma família de Dragões esperavam pacientemente pelo terceiro filhote. Eu.

A família morava em um vale, um grande e aberto campo, onde longemente podiam ser vistos cumes e montanhas, altos e majestosos no horizonte. O céu estava completamente coberto pelas mais cinzas nuvens, escuro, e ruidoso, a chuva caindo e reluzindo pela grama clara. Uma floresta fechada corria por toda a extensão do vale, seus galhos escuros e longos se movimentando ao vento que soprava acompanhado da chuva.

A caverna em que a família de Dragões estava era basicamente dizendo, simples. Uma fundação de rochas formava uma base alta, em que por dentro um arco se estendia; o que era a entrada. A rocha era um tom de cinza claro, rochoso e resistente, mas que agora escureciam com as gotas da chuva que açoitavam seu topo e escorriam até o chão.

Meu pai, Randor, e minha mãe, Jane, esperavam minha chegada dentro da caverna, bem fundo no interior dela. Movimentavam-se inquietos, enquanto um pequeno ovo roxo com manchas escuras tremia diante das patas da Dragoa vermelha. Estavam ansiosos, não deixando de olhar um segundo para o pequeno ovo a tremer em intervalos de tempo. Mal eles sabiam que meu nascimento não traria boas coisas. Por quê? Explicarei depois.

Junto dos dois Dragões maiores, havia dois pequenos. Um dos dois era o maior; mas ainda assim muito jovem; era cinza e seus chifres longos eram bege escuro. Meu irmão mais velho. O menor, que saltitava em seu lado era meu outro irmão, vermelho exatamente como minha mãe, e seus chifres compridos eram negros. Gray, o dragão cinza, é o mais velho de nós, e Alex, o eufórico Dragão vermelho, é meu outro irmão mais velho. Ambos os olhos amarelos de Alex estavam em nossa mãe, que acariciava o ovo roxo com seu focinho. Os olhos de Gray são negros, e estes estavam concentrados no meu ovo, que havia momentaneamente parado de tremer.

Meu pai olhava agora preocupado para o ovo que havia parado de se mexer. Seus profundos olhos azuis demonstravam preocupação. Minha mãe tentava confortá-lo, sorrindo. Mas também estava preocupada.

Foi quando Alex se aproximou, curioso, que o ovo tornou a se mexer. Todos surpresos, eles voltaram a atenção para o ovo, atentos. Ele agora fazia sons por dentro, e começara a rachar, sons da casca se quebrando cada vez mais alto.

Foi então que aconteceu. A casca do ovo se partiu com um baque, e, de dentro dele, dentre as cascas quebradas, eu saí. Meu pai ergueu-se e sorriu; vibrando de alegria. Meus irmãos comemoravam, e minha mãe acarinhou-me com seu rosto, afetuosamente. Eu estava parado entre as cascas de meu ovo, meu corpo minúsculo encolhido e minhas pequenas asas coladas ao corpo. Meus olhos e minhas asas estavam fechados.

Mas, nos meus olhos, meu pai percebeu que haviam marcas. Cicatrizes, em volta dos meus olhos. Marcas como pontas curvadas nas quatro extremidades dos meus olhos. Quatro pontas que brilhavam com uma luz verde fluorescente, iluminando pouco do meu rosto. Meu pai, logo de relance, reconheceu a Marca; porém não revelou á ninguém. Esperou que estivesse errado.

Meus dois irmãos estavam perto de mim, me observando alegres, contentes ao ver o mais novo irmão que tinham acabado de ganhar. Também repararam na minha Marca, mas apenas a observavam curiosos. Gray pareceu notar algo nelas, mas continuou a comemorar com Alex.

O meu pai, apesar de parecer preocupado com algo que pensava, voltou a animar-se e comemorar com minha mãe Jane. Ele, inteiramente branco e coberto de espinhos negros, se aproximou de minha mãe e sentou-se ao lado dela. Eles agora decidiriam meu nome.

Depois de algumas sugestões, todos pararam e se entreolharam. Pareciam ter se lembrado de não terem se certificado quanto ao fato de eu ser macho. Meu pai já havia dado várias sugestões de nomes masculinos, mas minha mãe riu, e se certificou. Voltaram a pensar em nomes, enquanto o tempo passava.

Depois de um longo silêncio sem nenhuma sugestão vinda de ninguém, meu pai se levantou, ergueu seu rosto e sorriu. Minha mãe havia me aninhado em seus braços. Meu pai olhou para mim e sorriu orgulhoso. Todos concordaram quando ele havia dito que havia escolhido meu nome. Jason.


Eu cresci naturalmente, vivi minha vida no vale, toda minha infância. Tudo era normal, exceto pelo fato de que eu era evitado pela maioria dos Dragões do vale. Eu ainda era muito jovem e pequeno quando saía sozinho para andar no campo, a observar o céu e as montanhas. Havia uma em especial, que todos conheciam. Não uma montanha, mas um Vulcão. O "Vulcão da eternidade". Era incrivelmente alto e majestoso, que podia ser visto de meu vale. O vulcão também se encontrava terrivelmente longe do vale, daí uma idéia de quão grande ele é. E quando eu saía, percebia que os Dragões pareciam recuar assustados, ao me ver. Saíam de perto devagar, assim que me notavam.

Pequeno, roxo, com as asas vinho, com chifres consideravelmente curtos, eu não era bem uma figura intimidante. Não entendia o porquê dos Dragões irem embora ao me verem. Não entendia o comportamento deles, por que agiam daquele modo. Como qualquer criança, ficava confuso com o que não entendia, mas mantinha-me em meu lugar. Eles apenas mantinham distancia. E, pessoalmente, eu não me importava muito.

Com o passar do tempo, meus irmãos notaram que eu passava muito tempo sozinho, o que se dava pelo fato de os outros não quererem me fazer companhia e de eu realmente preferir o silêncio. Mas de qualquer modo, combinaram entre si de me acompanharem sempre, para o caso de eu me sentir muito só. Eu senti que era um tanto desnecessário, mas sabia que eles só queriam meu bem, e que estavam fazendo aquilo por mim. Começaram a caminhar comigo regularmente, e conversávamos bastante. Sempre me diziam "Quando se está sozinho, as coisas não acontecem." Eu não compreendia completamente, mas apreciava a companhia das únicas pessoas além de meus pais que me davam atenção como uma família.

Meu irmão Alex sempre me disse que eu não deveria ligar de os outros Dragões evitarem falar comigo, e Gray o completava, dizendo que ás vezes era até melhor. Eu concordava, pois sempre preferi ficar com quem eu conhecia e confiava do que tentar contato com alguém que eu não sabia de nada sobre e que também não fazia questão de saber. Porém, eu também gostava de passar tempo sozinho.

Eu passava as horas caminhando pelo vale, pela grama clara e suave, que se mexiam quase o tempo todo por causa do vento leve que sempre soprava, ali em Fang Valley. O céu era sempre claro nas manhãs, com agradáveis garoas, ás vezes. Tempestades eram raras lá. Quando o tempo estava bom, treinava a lutar com meu pai e meus irmãos.

Minha vida era simples.


Um dia, eu estava passeando sozinho pelos campos, perto do limite da floresta, onde se seguia para fora do vale, até que três dragões da minha idade; ou seja, ainda bem pequenos; se aproximaram. Vinham pela diagonal de onde eu estava. Eu notei, e parei de caminhar. Eles três chegaram devagar até mim. Um deles, o que estava no meio; um pouco menor que eu; tinha um tom de verde escuro em seu corpo e possuía pequenos espinhos amarelados das costas até á cauda, e tinha um chifre marrom curvado para trás. A mandíbula superior dele tinha duas grandes presas, bem na ponta do focinho. Ele tinha um olhar determinado, (e patético) como se fosse o dono do mundo. Os dois outros estavam um de cada lado do verde. Um deles era laranja claro, e o outro, vermelho.

Os três, ao chegar perto de mim, pararam ao meu lado. O que estava no meio, e parecia ser o líder, ergueu o focinho e me encarou. O encarei de volta, desconfortável, pois não sabia bem do que se tratava. Nunca havia tido um bom contato com outro Dragão antes além de minha família. Eu apenas esperava que ele fizesse algo. Admito que já de relance não gostei da pessoa dele.

— Você é o Jason, não é? — Perguntou o dragão verde, depois de alguns minutos de silêncio passados.

Eu me conformei em apenas responder assentindo. Não estava á vontade, nem interessado. Os outros dois se entreolharam, inquietos, apesar de tentarem parecer confiantes por algum motivo. O verde novamente falou.

— Então, eu te desafio.

— O quê? — Perguntei. O Dragão verde ainda estava parado, com o focinho erguido.

— Meu nome é Ront. E eu te desafio. — Respondeu.

Eu não havia compreendido.

— Como assim?

— Para uma luta, é óbvio! Nunca lutou não? — Ele me olhou com desprezo. — Se for assim não vai nem ter graça.

Os três que estavam lá riram. Ront gargalhava junto de seus dois "amigos" escandalosamente. Eu não havia achado graça alguma.

Pensei em meu pai. Ele treinava comigo, mas eu sentia que ele não gostaria muito de uma luta naquelas circunstâncias. Era uma bobagem perder tempo assim. Ele não aprovaria uma disputa sem fundamentos. Claro que não hora não pensei assim. Achei interessante. Virem até mim, falarem comigo, e principalmente, pedir por uma disputa. Não era minha idéia de "enturmar", principalmente com um qualquer daqueles, mas estava curioso por dentro de coisas diferentes estarem acontecendo e me levando a situações diferentes da minha rotina. Por mais que por dentro não achasse certo, aceitei o desafio de Ront.

Instantaneamente, reparei que Ront sorriu, e se movimentou confiante. Parecia estar certo quanto á sua vitória, por mais que o destino sabia diferente.

Os dois outros Dragões — Que pelo que ouvi Ront dizer para se afastarem — chamavam-se Craig e Riley. Eles se afastaram e se arrumaram perto de uma rocha no chão, deixando um espaço amplo entre mim e Ront. Ront abaixou o corpo para frente e esticou as patas dianteiras também para frente, á fim de atacar. O vento soprava e movia a grama em nossa frente. No que fui me posicionar, — lembrando das aulas de meu pai — vi Alex. Ele me olhava, assustado. Compreendia o que estava acontecendo.

Ainda olhando para Ront e para mim, Alex começou a recuar ainda focando em nós, mas aí se virou e disparou a correr na direção da nossa caverna. Eu estava confuso e preocupado; sabia que ele iria avisar e chamar nossos pais.

Porém, isso não impediu Ront. Ele também notou Alex e sua retirada, mas avançou em mim enquanto eu estava distraído, vendo meu irmão se afastar. Eu de qualquer modo pensava se havia cometido algum erro muito grave. Uma das piores coisas para mim seria decepcionar meu pai.

Ront então me atacou com suas garras, me empurrando para o lado. Tomou vantagem do fato de eu encarar Alex a correr, preocupado; mas rapidamente, com um golpe que meu pai me ensinou, o bloqueei e o afastei, com minhas asas ainda pequenas. Ront rosnou. Não metia medo algum.

Me mantive no chão até Ront se aproximar; ele correu em minha direção enquanto seus companheiros o observavam, esperançosos. Assim que ele chegou consideravelmente perto de mim e avançou, abri minha asa direto no queixo dele. Ele recuou, grunhindo e abaixando o rosto. Seus amigos soltaram uma exclamação de surpresa. O pequeno dragão verde agitou o focinho e me encarou.

Eu me levantei. Estava um pouco longe dele, notei que podia tanto atacar quanto me preparar e me defender de outro ataque dele. Me coloquei em posição. Meu treinamento havia me ajudado, até então, apesar de nunca ter lutado sério com alguém. Se é que se pode chamar isto de "lutar sério".

Ao me posicionar, uma inquietação começou a crescer dentro de mim. O que meus pais pensariam? Seria algo tão ruim lutar? Não fora nem eu que havia começado a luta...

Então uma voz ecoou dentro da minha cabeça."Nunca tome decisões precipitadas, meu filho." — A voz de meu pai. — "Pense antes de agir."

Não fui eu que comecei... — Pensei, inocentemente. — Não fui...

Então despertei subitamente, ao notar Ront avançando e rosnando; pisquei algumas vezes e voltei minha atenção ao que estava acontecendo. Meu pai iria entender. Eu não tinha a intenção de desobedecer. Estava a agir sem pensar, meramente por ser jovem? Ele entenderia... Entenderia?

As mandíbulas de Ront estalaram quando ele mordeu o ar; minha cauda estivera ali a alguns segundos. Recuei e evitei o ataque precipitado do dragão verde; ele não era muito coordenado. Ataquei então com meu pescoço, o joguei para trás e o fiz cair.

Virei para voltar a ficar de frente para ele, mas então ele berrou:

— Não! Fiquem aí! — Disse ele, quando Craig e Riley desciam da pedra onde estavam para auxiliar Ront. Eles instantaneamente voltaram para a pedra, onde se entreolharam, inquietos.

Ront levantou e rugiu. Seu rugido era baixo e estridente, devido ao seu tamanho. Parecia mesmo estúpido para mim naquela época, lutar sendo tão pequeno. Mas eu não iria recuar. Eu não sou covarde. Ele se abaixou e rosnou. Parecia que agora ia pensar e esperar um movimento meu. Um rápido sentimento de preocupação tornou a aparecer em mim. Se eu não lutasse, meus pais não iriam se zangar. Se eu não revidasse, estaria tudo bem. Eu não estaria errado. Ah, mas estaria. Para mim.

Eu não estaria satisfeito somente defendendo e recuando. Meus pais teriam que entender. Avancei em Ront, em um pulo. Ele havia se exibido antes, e eu queria ter um motivo para fazê-lo se sentir pior. Meu orgulho estava em jogo, correndo os riscos ou não. Eu agora acho que era muito orgulhoso já jovem.

Pulei e o prensei no chão, ele abriu as mandíbulas pequenas e seus dentes curtos se fecharam em um dos meus braços. Senti as pequenas pontas pressionarem minhas escamas. Grunhi e me desvencilhei, acertando um golpe na pata dianteira dele. Nós dois nos colocamos em pé de novo. Ele atacou de novo, mas o acertei com minha cauda no rosto dele.

Ront cambaleou, de costas para mim, tonto. Agitou o rosto de novo e pulou, virando o corpo repentinamente. Nós dois então travamos uma batalha de garras enquanto rolávamos na grama, nos arranhando e atacando diretamente. Eu só ouvia a grama ser amassada e os sons das garras se batendo; sentia pontadas onde Ront me arranhara. Ficamos nessa disputa incessável até que, com Ront por cima de mim, o joguei para frente com minhas patas traseiras, ainda deitado.

Ront bateu em uma árvore com um estrépito, e escorregou até o chão, onde caiu, de lado. Galhos se movimentaram na árvore e folhas se desprenderam deste, caindo no chão.

Ao ver o colega abatido, Riley e Craig se levantaram rapidamente e passaram correndo por mim. Eu me levantei devagar, e olhei para Ront. Ele ainda estava acordado, com seus amigos em volta. Fazia um pouco de esforço para levantar, ignorando as sugestões de Riley para continuar deitado, apesar de seus braços parecerem tremer ao pressionar o chão.

Foi ali, naquele momento, observando Ront no chão, que veio para mim. Uma súbita e estanha sensação, que subia até minha garganta; uma vontade de rugir, rosnar para o céu. Inconscientemente, levantei meu rosto, e foi aquilo que fiz.

Ergui meu rosto para o céu agora branco como a neve, enchi meus pulmões de ar, e rugi. Meu rugido obviamente não era alto e forte como seria de um Dragão adulto, mas o fenômeno que ocorreu depois me assustou, me fazendo parar imediatamente.

Nuvens escuras começaram a cobrir o céu que também escurecia, sombras gigantescas das nuvens foram se estendendo na grama, e eu recuava com os olhos vidrados naquela estranha mudança repentina de clima. A campina pareceu escurecer também quando todas as nuvens se fecharam sobre o vale.

Relâmpagos começaram a brilhar entre as nuvens, fachas claras de luz por entre a massa escura se destacavam longe e perto de onde eu estava. Pelo menos um terço do vale fora coberto pelas estranhas nuvens. Um vento forte agora soprava a grama, e muitos Dragões começaram a aparecer perto de onde aquilo ocorria.

Assustado, recuei sem tirar os olhos do céu. Somente quando abaixei o rosto vi os olhos de Ront também vidrados no céu, e cheios de temor. Seus companheiros faziam de tudo para o levantarem agora, e provavelmente fugir dali. Andei para trás, pensando: "O que está acontecendo?"

Riley, menor que Ront, pequeno e verde-água, o colocou de pé com dificuldade. Ele cambaleou e mancou; a pata dianteira do lado que tinha acertado a árvore estava provavelmente deslocada. Os três se agruparam e tentaram andar, quando um enorme relâmpago de repente acertou o chão, metros e metros de onde estávamos.

Olhei espantado para o lugar onde o relâmpago havia caído; a coisa estava começando a ficar perigosa. Recuei com um pulo quando o estrondo do trovão se espalhou, e me virei rapidamente para começar a correr; então, de repente, dei de cara com meu pai.

Ele estava lá, parado, olhando para o céu. Normalmente branco, suas escamas estavam acinzentadas devido às sombras, e seus olhos azuis profundos miravam as nuvens. Sua expressão era preocupante. Um assomo de terror se espalhou por meu corpo ao vê-lo ali daquele jeito. O mais preocupante era a expressão de culpa e desolação nos olhos do meu pai Randor.

Foi só quando desprendi os olhos do meu pai que vi a Dragoa vermelha que era minha mãe, chegando logo atrás dele. Ela me chamou e eu não hesitei; corri até ela passando por meu pai, e me escondi embaixo dela, atrás de suas patas dianteiras. Até debaixo dela a força do vento pressionava minhas asas, fazendo-as quase abrir.

Meu pai correu os olhos pelo campo enquanto eu me encolhia atrás das patas da minha mãe. Ela me cobriu com seu rosto, mas ainda olhava meu pai. Olhei para trás e vi um Alex apavorado olhando para nós três. Eu tentei não pensar em chamá-lo, mas antes que eu o fizesse, meu pai o chamou. Ambos olhamos para ele.

Alex correu depressa até nosso pai, e parou ao seu lado. Ele estava agora sério, a encarar as nuvens escuras no céu. Murmurou algo a Alex, — "Chame Gray. Agora." — e logo depois ele saiu correndo novamente, de volta por onde veio. Me lançou um olhar preocupado antes de sair de vista. Isso não me acalmou muito.

Abruptamente, meu pai se virou, voltando-se para mim e minha mãe. Ele agora estava impassível. Não parecia com ele. Estava ao mesmo tempo sério e cansado. Ele e minha mãe se entreolharam e ela assentiu, mesmo ele não tendo dito nada. Eu estava agachado, preocupado. Muitos outros Dragões se olhavam preocupados, e se agrupavam, inquietos.

No que Gray apareceu ao longe com Alex, muitos Dragões já estavam juntos discutindo o fenômeno na campina. Parecia que o tempo acalmava, apesar de tudo ainda estar muito escuro. Gray correu até meu pai mas Alex se aproximou de mim. Eu era quase do tamanho dele; ele se abaixou perto de mim.

Meu pai conversou com Gray pro uns minutos, e depois eles se voltaram para nós.

A voz do Dragão branco estava ainda mais séria do que a expressão em seu rosto quando ele falou.

— Vamos tirá-lo daqui. — Eu pensei que ele até evitava olhar para mim. — Todos, para a caverna. Agora.

Minha mãe concordou rapidamente e se virou, me empurrando com o lado do rosto. Eu comecei a andar, e me virei para frente. Me sentia envergonhado. Em passos rápidos, todos nós chegamos á nossa caverna, identificando o arco que era a entrada ao longe. Chegamos depressa até a entrada, e meus irmãos entraram depressa. Eu virei e vi meu pai de frente, porém com o rosto para trás, ainda olhando o céu. Ele se virou e recomeçou a caminhar até a campina.

— Venha, querido. — Disse minha mãe, enquanto novamente ela me empurrava com o rosto mais para dentro da caverna.


Minutos que pareceram horas se passaram enquanto eu esperava deitado na caverna, aguardando á algum sinal de meu pai. Eu estava inquieto a aguardar no fundo da caverna, sem ouvir som nenhum além de meus irmãos a andar perto de mim. Eu estava quase a levantar para tentar achar meu pai quando Gray e Alex se aproximaram. Gray parecia tranqüilo; até alegre.

— Vamos lá, Jason! Já voltou tudo ao normal. — Disse Alex, pulando e se virando para a saída da caverna.

Eu estranhei a calma de meus dois irmãos, mas não pude evitar em sentir alívio. Me levantei depressa e os acompanhei até a entrada da caverna. Andamos devagar, e logo vi a luz vindo do lado de fora. De longe, o dia parecia já ter clareado muito. Chegamos até a entrada e eu vi, espantado, que o céu estava exatamente como ele estava antes de tudo acontecer; estava tudo claro e não havia uma única nuvem no céu.

Meu pai se encontrava ao longe, reunido com outros Dragões, e conversavam entrei si, tranquilamente. Eu me virei para Alex, que estava a minha direita, e ele só olhava sorridente para o sol. Virei para a esquerda e Gray estava do mesmo jeito, porém sorria para mim. Eu não estava entendendo muito bem, mas me sentia aliviado.

Eu estava pensando em perguntar o que deveríamos fazer, pois nós três só estávamos parados lá, e eu não tinha certeza se estava esperando alguma coisa. Antes de eu poder perguntar, porém, Alex me cutucou e eu me virei para vê-lo; ele então fez um movimento com o focinho, apontando para o nosso pai. Eu olhei para ele, e ouvi Gray dizer, ao meu lado:

— Vá lá, papai quer falar com você. — Disse ele, calmo e sorridente como sempre. — E não se preocupe, já passou.

Eu olhei para ele, curioso. O que ele quis dizer com "já passou"?

Eu concordei e me virei para frente, começando a caminhar até meu pai. Eu estava com o rosto abaixado e arrastava a cauda no chão; ouvi Alex rir calmamente atrás de mim. Hesitei um pouco a continuar, mas Gray estava me acompanhando e me empurrou com o rosto. Eu cambaleei para frente e recomecei a andar, abaixado.

Eu ainda temia ter cometido algum erro, enquanto me aproximava de meu pai, que estava de costas para mim, conversando com um Dragão adulto verde, e outro amarelado. Pensava que ele estaria furioso comigo, pois não o havia visto desde antes de entrar na caverna.

Caminhei devagar, encolhido, até onde os Dragões estavam agrupados. Meu pai se virou para olhar para trás, assim que os desconhecidos pararam lentamente de falar, para se entreolhar e apontar para mim. Cheguei devagar e parei a alguns metros de meu pai. Sentei e aguardei o que aconteceria.

Alguns dos Dragões então começaram a se levantar e se retirar, alguns calmamente, e outros, saíam cerrando os olhos, parecendo incomodados. Retribuí os olhares, discretamente, mas voltei depressa a olhar para meu pai. Ele, porém, sorria para mim.

Meu pai, o Dragão branco, se levantou e se aproximou de mim. Todos os outros agora já haviam se retirado, sobrando só eu, meu pai e Gray. Ele olhou para Gray e fez um sinal para ele sair; ele sorriu e foi andando. Mas antes de ir, piscou para mim, alegre. Eu voltei a olhar para o meu pai preocupado; ele então me afagou com uma pata. Eu estava completamente confuso; será que aquilo anteriormente não aconteceu realmente?

Olhei para seus olhos azuis, preocupado e culpado, enquanto ele continuava a me acarinhar com a pata dianteira esquerda. Ele continuava sorrindo, tranqüilo e pacífico como sempre era. Eu sentia culpa do que acontecera e ele não mais ligava?

Estávamos só nos dois então, em uma parte da campina, quietos. Ele parou de me afagar e pôs a pata no chão; e erguendo o focinho levemente mais ainda com os olhos em mim, assim ficou.

Depois de uns minutos, percebi que deveria começar.

— Pai, eu... Me desculpe, eu não sei o que... — Eu comecei a dizer, encarando minhas patas, mas meu pai me interrompeu.

— Meu filho, não precisa ficar tão preocupado, — disse ele, sem tirar o sorriso do rosto. — O que aconteceu, aconteceu. Mas, não posso dizer que não foi perigoso.

— Mas então por que você está sorrindo? — indaguei.

— Porque — Me impressiona ver você tão culpado por algo que não fez de propósito. — Eu levantei o rosto, surpreso. — O que eu quero dizer é: Acidentes acontecem. Você é muito jovem ainda, tem muito chão para andar ainda, e não pode deixar que coisas assim te abalem demais.

— Mas você não viu o que aconteceu? O céu escureceu, e tudo ficou... Perigoso.

— Eu sei, isso é algo comum, digo... Não saber controlar os poderes. Muitos Dragões jovens não dominam seus dons de uma hora para outra. — Defendeu-se meu pai, rapidamente.

— Nunca vi outro Dragão fazer uma tempestade igual á aquela — Disparei, inconsequentemente.

Meu pai hesitou e se demorou na resposta.

— Ora, bom... Os Dragões não tem todos os poderes iguais, entende. — Disse ele. Parecia que estava mais se reconfortando do que a mim, dessa vez.

Fiquei quieto, sustentando um olhar forte para meu pai. Ele procurou as palavras e disse:

— Você vai crescer. Irá entender.

Percebi que o tom encerrava as perguntas, e voltei a olhar para o chão. Não tinha tirado minhas dúvidas, ainda. Tampouco recebi um sermão.

— Eu entendi. — Disse, por fim.

— Ótimo. Mas tente não fazer isso de novo, filho! — Respondeu ele, seguido de uma risada alegre.

Tentei sorrir também, mas um mero e pequeno sorriso brotou no meu rosto apenas por alguns segundos. Por que eles hesitavam em me dizer coisas que eu não sabia? Ainda não era comum para mim, tudo aquilo. Percebia que meu pai tentava me reconfortar, mas por dentro, ainda achava que tinha cometido um erro.

— Agora vá brincar. Vá com seus irmãos, e finja que nada aconteceu. — Meu pai disse, um pouco sério. — Não deixe que isso tome conta de você.

Eu me levantei e olhei nos olhos do meu pai. Sempre confiei e acreditei nos conselhos de meu pai; nunca estiveram errados. Apesar de minhas respostas não terem sido respondidas sinceramente, como suspeito, agradeço o que ele fazia por mim e me julgava com sorte de tê-lo ali para conversar, sempre que necessário. Prometi a mim mesmo que nunca mais faria algo parecido.


Dias, semanas, e meses haviam passado tranquilamente em Fang Valley; a campina continuava igual, toda a grama clara a reluzir e os Dragões a passear normalmente, vivendo suas vidas. Continuei a caminhar, às vezes sozinho pelo campo, consciente de que deveria pensar em minhas ações e que deveria agir como sempre agi e viver como sempre vivi. Uma única coisa vivia em minha mente, mas eu ainda receava não ter chegado a hora das respostas.

Por vezes, caminhava com meus dois irmãos; a companhia deles é mais do que bem-vinda. Por outro lado, Ront e seus "capangas" não chegaram a ser vistos perto de mim novamente, e isso, para mim, era um conforto. Parece que haviam aprendido a lição.

Fim do 1° Capítulo