Love for a stranger – o titulo em português é : O Jardim encantado - por Jane Donnelly – Como viver com um homem que se escondia sob falsa identidade? Por instantes, só o canto dos pássaros perturbou o silêncio do jardim. Tom esperava com ansiedade pela resposta que decidiria seu destino. Rin afastou-se um pouco, observando cada detalhe daquele lugar encantado, onde o encontrara pela primeira vez. Tinha vivido momentos deliciosos, mas, agora, como aceitar um amor que nascera da mentira? Tudo seria maravilhoso, se não tivesse acabado de saber a verdadeira identidade de Tom Reading!


CAPÍTULO I

Rin Latham estacionou a caminhonete ao lado do prédio e subiu para seu apartamento. Ainda bem que não havia ninguém por ali, pois não tinha a menor vontade de conversar ou de dar explicações sobre o seu lastimável estado de espírito. Naquele momento, a única coisa que desejava era ficar sozinha.

No quarto, as roupas continuavam espalhadas pela cama. Olhou para aqueles vestidos de algodão e caiu numa tristeza que há muito não lhe acontecia. Comprara-os no dia anterior, pensando que gozaria as melhores férias de verão de sua vida, e de uma hora para outra todos os planos tinham ruído de vez.

Ao planejar a viagem para a Espanha, com Kohaku, Rin imaginara que em algum ponto do passeio ele a pediria em casamento. Por isso se preparara da melhor maneira possível para aquelas duas semanas que se seguiriam, pois uma situação dessas só acontece uma vez na vida.

No entanto, estava consciente de que a briga que tiveram havia sido definitiva. Não queria mais ver Kohaku na sua frente, agora que descobrira que ele só pensava no seu dinheiro. Decepcionada, entrou no banheiro para tomar um longo banho. Quem sabe assim relaxasse um pouco?

No entanto, quanto abriu o chuveiro, o desespero aumentou e as lágrimas escorreram pelo rosto. Foi um choro convulsivo, cheio de soluços. Desde que saíra do escritório tentara contê-lo, mas agora ele tinha algo de explosivo, como uma represa que arrebenta suas comportas.

Mas tarde, sentou-se numa poltrona da sala pequena, decorada com gosto e habilidade. Ficou olhando a funcionalidade daquele ambiente. Tudo ali era suave e revelava a sua competência profissional, servindo-lhe de consolo pelo fracasso no amor. Nunca mais se entregaria a um homem, pensou. Dali em diante, dedicaria todo o tempo ao trabalho. Com certeza a carreira prometia muito menos dissabores do que a vida pessoal.

No dia seguinte, deveria estar partindo com Kohaku para a Espanha ao encontro de alguns amigos que possuíam uma villa, em Denia, onde começariam a planejar um futuro maravilhoso. Não havia nada de concreto nesse sentido, mas seu namorado já lhe dissera que só a pediria em casamento num local tão romântico como a vida que pretendia levar a seu lado. Podia existir cenário mais adequado para isso do que a Espanha?

No entanto, tudo mudara. Há menos de uma hora, passara no escritório de Kohaku para almoçarem juntos, mas não acertaram os últimos detalhes da viagem, como haviam combinado que fariam.

Quando entrou na sala dele e o viu cercado de papéis, Rin nem imaginava a cilada que o destino lhe reservara. Pelo contrário! Naquele instante, voltou a se admirar da própria sorte, por conseguir um homem mil vezes melhor do que ela. Kohaku era alto, forte, moreno, muito bonito mesmo. Com certeza, poderia namorar uma garota que não fosse tão magra e tão alta como a que escolhera.

- Sente-se, querida – ele havia dito, sem parar de mexer nos papéis.

Rin sabia que no ramo de negócios em que Kohaku trabalhava sempre havia algum problema pendente, mas, mesmo assim, perguntou se tudo estava correndo bem.

- Nem tanto assim. Quanto àquele seu novo trabalho, Rin, acha que pode conseguiu um adiantamento?

Sentada numa das cadeiras, ela desviou os olhos para a grande bolsa de couro cru que usava, pensando aonde Kohaku queria chagar. Não conseguia imaginar para que precisaria de mais dinheiro, se ia sair de férias no dia seguinte.

- Recebi uma quantia para comprar o material necessário. Por quê?

- Não é disso que estou falando. Acha que eles a pagariam agora? Afinal, você vai começar o trabalho assim que voltarmos.

- Não, Kohaku. Não vou pedir nenhum adiantamento.

Ela começava a ter seu nome conhecido no ramo de decoração e esta era sua maior chance. Não pretendia estragá-la insistindo num adiantamento que só lhe prejudicaria a imagem. Além disso, a bela atriz que a contratara tinha feito fama com os papéis de ingênua que representava no cinema, mas também por sua parcimônia com o dinheiro. Todo mundo falava de sua mesquinhez e Rin nem quis pensar na possibilidade de lhe pedir um favor.

- Você poderia tentar, querida.

- De jeito nenhum, Kohaku. Além disso, não há tempo. Viajaremos amanhã cedo. – Não era o único motivo, mas Rin acreditou que este bastava para convencê-lo.

- Podemos trocar o horário do avião e viajar mais tarde.

- Não, Kohaku. Além do mais, que diferença faz em aguardar alguns meses?

Ele esperava que Rin colocasse todo seu dinheiro na firma, como vinha fazendo desde que se conheceram. Sempre muito seguro de si, Kohaku acreditava que a namorada seguiria seus conselhos enquanto estivessem juntos. Resolveu insistir na questão, tornando-a um pouco mais dramática do que na verdade era.

- Precisamos do dinheiro agora, meu bem. Sem ele, vamos à falência. Esta é a diferença!

Rin já ouvira esse argumento antes e sabia que a situação da construtora não era nada boa, sempre precisando de mais capital. Mas agora não estava disposta a colaborar.

- Não posso fazer isso. Já lhe disse como Kagura é. Além do mais, insistir nesse ponto seria muito ruim para minha imagem.

Kohaku fitou-a com olhos frios e Rin se lembrou de que já vira aquela mesma expressão no rosto de outro homem. Sentiu-se infeliz e desapontada.

Nunca havia brigado com o namorado e gostaria de prometer que tentaria conseguir o dinheiro, apenas para vê-lo sorrir. Há mais de um ano mantinham um relacionamento estável, mas agora precisava saber o quanto tudo isso era verdadeiro.

- Nunca terei meu dinheiro de volta, não é, Kohaku?

- Você sabe que vai receber cada centavo que me emprestou. – o tom da voz era impaciente e irritado.

- Se você não falir antes?

Ele não demonstrou ter se importado com o modo direto que lhe falara.

- Sim.

Depois disso, a briga se tornou inevitável, por mais que detestasse discutir. Desde criança, Rin fugia de situações de conflito, não suportando gritos ou alterações, mas agora teria de enfrentá-lo de uma vez por todas.

Como havia sido tola! Naquele momento entendia as intenções de Kohaku. Desde que se conheceram, Rin guardava de seus ganhos apenas o suficiente para viver, investindo o restante na firma do namorado. E o resultado era vê-lo agir daquele jeito, cobrando dela o que não conseguia por si mesmo. Kohaku só estava interessado em dinheiro...

Era dedicada ao trabalho, competente e tinha um futuro brilhante como decoradora. Pra ele, isso devia ter parecido um ótimo investimento, a ponto de convencê-lo a se casar com uma garota sem atrativos e ingênua, só pelo que poderia ganhar em troca. Era igualzinho a Narak, com quem namorara antes de conhecê-lo: um oportunista!

- Você não me ama. Apenas sou útil para seus negócios - disse ela, decepcionada.

- Que há de errando em se útil? – ele levantou, aproximando-se. – É claro que a amo, mas estamos em dificuldade e esse dinheiro resolveria o problema – abraçou-a com carinho, tentando convencê-la. – Vamos, querida. Diga à cliente que precisa do dinheiro. Invente uma desculpa...

- Não!

Kohaku perdeu a calma, acusando-a de colocar a carreira acima de tudo, de ser mercenária e mesquinha e, finalmente, de ser uma solteirona fria, incapaz de sentimentos e emoções.

- Vou para a Espanha amanhã. Sozinho. Acho que deve pensar melhor em tudo isso, mas, se não pode me fazer ao menos um pequeno favor, não vejo futuro para o nosso relacionamento.

Se Rin tivesse coragem, perguntaria como poderia ser mesquinha, se deixara todo o dinheiro nas mãos dele. Mas do que isso, ela quis entender por que a chamava de solteirona, se tinha apenas vinte e dois anos. No entanto, apenas deu as costas e saiu do escritório sem nem sequer se despedir.

Com certeza, Kohaku esperava que mudasse de idéia e falasse com Kagura a respeito do adiantamento, pois sabia como detestava discussões. Na verdade, tinha duas fraquezas que ele conhecia muito bem: era capaz de qualquer coisa para evitar uma briga, e morria de medo de tempestade.

Rin levantou-se da cadeira e se obrigou a reagir. Com esforço, entrou no quarto, esvaziou as malas e guardou as roupas, deixando tudo arrumado, sem nenhum vestígio da viagem fracassada.

Sentindo-se melhor, tomou uma decisão. Pegou o telefone e discou um número.

- Por favor, poderia falar com a srta. Cavell?

- Quem quer falar com ela?

- Rin Latham.

- Olá, querida. Aqui é Sango.

Sango Edmundo era a secretária de Kagura e já se conheciam, pois foram juntas visitar a casa que seria decorada. A propriedade ficava fora de Londres e durante a viagem puderam conversar bastante, de modo que, quando voltaram, já se sentiam amigas.

- Kagura está viajando. Algum problema?

- Não. Só que gostaria de começar a trabalhar logo, Sango. Pretendia tirar férias, mas mudei meus planos e, se for possível, prefiro começar a decoração antes do prazo combinado.

- Pode começar – disse Sango. – Boa parte do material que precisa já está lá, e tenho certeza de que Kagura ficará contente em saber que poderá ir para Tir Glyn antes do que imaginava.

Despediram-se carinhosamente e, quando desligou o telefone, Rin pensou que compensaria as frustrações no amor com sua vitória no trabalho. Prometeu a si mesma que faria a melhor decoração de sua vida na cada de Kagura Cavell. Esta seria sua vingança contra Kohaku!

Animada com o desafio que assumira, voltou para o quarto e foi arrumar a bagagem. Achando graça, comparou a diferença das roupas que levaria nessa viagem de agora com a que faria para a Espanha. Em vez de vestidos leves e sensuais, colocava na mala os práticos macacões que usava para trabalhar.

Antes, tinha planejado que durante os três ou quatro meses que precisaria passar em Tir Glyn, voltaria todos os fins de semana para se encontrar com Kohaku, mas agora mudara de idéia, achando que seria melhor ficar por lá até o fim da decoração.

Detestaria explicar aos amigos o que havia acontecido e preferia deixar que acreditassem que estava na Espanha. Como o pequeno escritório que alugara, no centro da cidade, ficava dentro de uma loja de tintas e papéis de paredes, com certeza os seus proprietários se encarregariam dos recados, enviando-lhe a correspondência. Para isso, bastava que desse um simples telefonema, dizendo que iria direto da Espanha para a casa de campo de Kagura Cavell. Assim, nem com eles precisaria comentar o fim de seu relacionamento com Kohaku.

A caminho de Tir Glyn, Rin dirigia devagar, aproveitando o passeio. Gostava muito de guiar e, talvez por seus pais terem morrido num acidente, era cautelosa e atenta à estrada, conhecendo muito bem o carro e suas potencialidades.

Horas mais tarde, saiu da estrada principal e pegou um estreito caminho de terra batida, ladeado por árvores e canteiros de flores. Depois de algum tempo, chegou aos portões da propriedade que procurava.

Embora um tanto abandonada, Tir Glyn era uma casa linda e ficava no meio de um cenário maravilhoso, rodeada de montanhas. Rin estacionou a caminhonete num pátio e desceu com a bagagem. Observou que os jardins tinham uma aparência descuidada, com a grama alta e os arbustos precisando de uma poda. Tomando cuidado para não escorregar no musgo que cobria os degraus, subiu a escada que levava ao terraço e bateu à porta da frente.

Ninguém apareceu e ela estranhou que o caseiro não estivesse ali para recebê-la, pois Sango lhe prometera que telefonaria para o empregado, que tomava conta de Tir Glyn, avisando sobre sua chegada. Depois de muito insistir, virou a maçaneta da porta e percebeu que não a tinham trancado. Mesmo sem se sentir muito à vontade, entrou.

Lá dentro, a maior parte dos cômodos estava vazia e as poucas peças de mobília se encontravam cobertas por lençóis empoeirados. Rin olhou em volta, sem se importar com o aspecto de abandono. Já podia antever como ficaria o ambiente depois de receber tapetes, cortinas e móveis novos. Tinha certeza de que o resultado seria maravilhoso. Desde a primeira vez, quando viera conhecer o local, sentira as possibilidades de fazer um ótimo trabalho. Ao contrário de Kohaku, não era o dinheiro que tanto a interessava mas o desafio, a possibilidade de criar e de realizar-se no que mais gostava de fazer.

Afinal, era muito melhor estar em Tir Glyn do que na Espanha, refletiu. Aquele contrato tinha sido um verdadeiro golpe de sorte. Havia acabado de decorar um hotel em Lake Distroit e Kagura Cavell foi uma das primeiras turistas a se hospedar lá, adorando a ambientação que criara. A atriz resolveu contratá-la imediatamente para decorar a velha mansão que acabara de comprar.

Os quartos e as salas eram bem divididos, claros e arejados. Ao percorrer os aposentos, Rin começou a se empolgar com o resultado da reforma. Felizmente, não teria problemas com dinheiro, pois Kagura Cavell queria o melhor e para isso contava com os generosos cheques do seu amante Sesshoumaru Fenton, o famoso magnata americano da indústria do aço.

Ninguém lhe disse nada, mas pela conversa com Sango tinha deduzido que a atriz e seu apaixonado milionário pensavam em se casar logo, indo morar naquela propriedade depois da lua-de-mel.

Sabendo disso, tinha procurado fazer um projeto de decoração que fosse especial para um casal apaixonado e romântico, como imaginava que seriam Kagura Cavell e Sesshoumaru Fenton.

Rin riu, pensando que era uma grande ironia do destino pegar um trabalho como aquele, logo depois de seu fracasso no amor. Mas, mesmo assim, ia se entregar de corpo e alma, ele não a desejava, queria apenas usá-la e, se viajassem juntos, estaria permitindo que uma situação falsa apenas se prolongasse mais um pouco.

Ao dirigir-se para a cozinha, seus passos ressoavam no chão de pedra. O aposento era amplo e acolhedor, e Kagura insistira para que fosse totalmente reformado e equipado com o que havia de mais moderno. Rin iria fazer o possível pra satisfazê-la, no entanto pensava em manter a aparência sóbria e aconchegante daquele ambiente.

Havia uma chaleira sobre o fogão e um aparelho de porcelana sobre a pia. Ela teve vontade de tomar uma xícara de chá. Mas uma vez, gritou para chamar o caseiro.

- Há alguém em casa?

Novamente ninguém respondeu. Rin encheu a chaleira de água, colocando-a para ferver. Era até melhor que o empregado da propriedade não voltasse logo. Podia muito bem se virar sozinha, cuidando da casa e cozinhando. O armazém da cidadezinha mais próxima tinha serviço de entrega. Da outra vez que viera a Tir Glyn, vira Sango Edmundo fazendo os pedidos por telefone, que não demoravam a chegar.

Na ocasião, não encontrara o caseiro, e agora tentava imaginar como ele seria. Por mais simpático que fosse, não desejava companhia.

O chá ficara delicioso e Rin pegou uma maçã na cesta de frutas sobre o armário. Só agora se lembrava que, por causa da briga com Kohaku, nem tinha almoçado.

Em seguida, levou a bagagem para o quarto que ocupara da última vez, próxima à escada dos fundos. Ele era pequeno e tinha apenas uma cama e um armário embutido, sem tapete nem cortina.

Na cama, havia somente o colchão e precisaria encontrar o caseiro para conseguir travesseiro e lençol. Apesar de estar apenas começando a anoitecer, pretendia deitar cedo, cansada com a longa viagem.

Depois de trocar de roupa, deu uma olhada pela janela para ver se encontrava algum empregado de Tir Glyn, mas não viu ninguém. Quando já pensava em descer de novo, para procurá-lo, um homem se aproximou da casa, andando de cabeça baixa.

- Olá! – ela chamou.

Ele parou, surpreso, olhando-a fixamente. Usava roupas de trabalho bem gastas e botas de borracha, seu cabelo era longo e prateado e ele parecia bem forte.

- Você é o caseiro?

- Sim. E você quem é?

- Vim para começar... – ia explicar, quanto ele a interrompeu.

- Tire o pescoço dessa janela. As dobradiças estão gastas e pode despencar na sua cabeça!

Rin afastou-se, fechando a janela e descendo as escadas.

O homem a esperava no saguão e a olhou com um ar entre interessado e surpreso.

- Pelo jeito, já está bem à vontade – comentou.

Rin colocara um de seus macacões de trabalho. Nos próximos meses se vestiria sempre assim, pois precisaria fazer muito esforço físico para dar conta daquela decoração.

- A srta. Edmundo não avisou que eu viria?

- Não.

Ele era mais alto do que ela, tinha os olhos dourados, sua pele era clara e estava com a barba por fazer.

Sem se mover, observou-a descer as escadas, mas Rin achou que havia algo de ameaçador naquele estranho e não quis se aproximar muito.

- Estou aqui pra fazer a decoração. Vou começar mais cedo do que havia planejado.

- Por quê?

Isso não era da conta dele, mas, como não pretendia criar problemas, resolveu explicar.

- Eu ia tirar férias, mas não deu certo. Telefonei para a srta. Edmundo, que concordou que começasse o trabalho mais cedo. Ela me falou que o caseiro estaria aqui e não haveria problemas – o empregado continuava a olhá-la com suspeita, como se duvidasse da explicação. – Sinto muito, se ninguém o avisou.

- Devem ter telefonado quando eu estava fora da casa, trabalho no jardim.

- Sim, deve ser isso – ela concordou depressa.- Sou Rin Latham. Qual é seu nome?

- Reading... Tom Reading.

- É o caseiro?

Aquele era um trabalho solitário para um homem jovem. Como podia viver assim tão isolado? Com certeza, aquele emprego só servia para lhe dar um teto e algum dinheiro, enquanto esperava algo melhor.

Como se lesse meus pensamentos, ele explicou.

- Estou aqui para cuidar dos jardins e ao mesmo tempo tomo conta da casa.

A informação a deixou satisfeita, pois realmente os jardins estavam abandonados. Precisavam de cuidados, para combinar com a nova decoração.

- E eu vim para fazer a decoração da casa. Não se preocupe que não vou atrapalhar seu serviço.

Ele sorriu.

- Como estarei trabalhando do lado de fora e você do lado de dentro, nenhum atrapalhará o outro. Em que quarto vai ficar?

- Bem, coloquei minha bagagem no mesmo que ocupei quando estive aqui da última vez, mas não tem roupa de cama.

- Há lençóis e cobertores num baú no fundo do corredor.

- Obrigada.

- Vai querer um escritório, suponho. Pode escolher qualquer cômodo, só que não há muita mobília.

A voz dele não parecia acolhedora, nem demonstrava muita satisfação em vê-la ali. Contudo tinha um trabalho a fazer e teriam de aprender a conviver, Rin refletiu. Afinal, eram empregados do mesmo patrão.

- Eu sei. Já estive aqui antes.

O estranho se aproximou e Rin percebeu que era apenas um pouco mais alto do que ela, mas parecia forte, duro e cheio de músculos, apesar de esbelto.

- Estou usando a cozinha como sala de estar, pois há uma pequena despensa ao lado, onde estou dormindo provisoriamente. Quando terminar o serviço, não sei onde me colocarão. Avise-me, quando começar a decoração da cozinha e daquele quarto, para que eu possa me mudar.

Ela notou que o homem a avaliava, como se quisesse entender como uma garota tão jovem podia passar tantos meses num lugar distante, longe da família e dos amigos, e sem os divertimentos da cidade grande.

Virando-se, Tom caminhou para a cozinha e ela o seguiu.

- Fiz um pouco de chá e comi uma maçã. Espero que não se importe, pois nem pensei em trazer comida.

- Há o suficiente para nós dois.

"Será que ele era um bom jardineiro?" – ela pensou. Precisava de alguma coisa bem apropriada para realçar a nova decoração.

- O que vai fazer no jardim? Como pretende modificá-lo?

- Acho que é melhor arrumar seu quarto – disse ele, como se não tivesse ouvido a pergunta. -Vou tomar um banho e está convidada para jantar, se quiser dividir comigo o que tenho preparado. – Com um leve sorriso, continuou: - Então, poderei contar-lhe o que pretendo fazer no jardim e, em troca, você me diz como vai ficar a casa, depois da reforma.

- Está interessado na casa?

- É provável que continue morando aqui. Nas dependências, é claro. Por acaso vai decorá-las também?

- Sim, já tenho um projeto para remodelar tudo.

- Ainda bem.

Sorrindo, Rim tentou brincar.

- Diga qual será seu quarto e talvez...

- Oh, o que eles quiserem me dar, não sei ao certo.

De repente, ela riu à toa, sem saber ao certo o motivo. Aquele homem era um estranho, mas, como se já se conhecessem há anos, sentia-se totalmente à vontade ao lado dele. Devia tomar cuidado com isso, pois um excesso de familiaridade poderia criar alguma situação embaraçosa.

Tirando o casaco marrom e pendurando-o atrás da porta, ele ficou apenas com a camisa de algodão, remendado numa das mangas. Rin imaginou se não havia uma esposa, alguém que tivesse feito aquele conserto. Mas não, não era provável. Se fosse casado, a mulher também estaria ali.

- Espero você para jantar, então. – ela avisou, antes de subir as escadas.

Rin pegou as roupas de cama e arrumou o quarto, imaginando como seria tranqüilo dormir ali, longe do barulho da cidade, sem as buzinas dos carros, campainhas ou telefones.

Sabia que Kohaku esperava que o procurasse, pedindo desculpas e prometendo que tentaria conseguir o dinheiro, mas desta vez ele ia ter uma bela surpresa.

Depois do banho, Rin foi para a frente do espelho, maquiando-se com o mesmo cuidado de todos os dias, como se estivesse na cidade.

Tinha olhos castanhos e pele clara, e os cabelos eram de um tom de chocolate. Analisando-se, com objetividade, percebia que não era nenhuma maravilha, mas com a maquilagem ficava mais atraente, as cores realçando o rosto jovem e cheio de vida.

No entanto, era uma artista capaz de criar quartos maravilhosos, salas aconchegantes, fazendo de qualquer ambiente um local admirado por todos. Tinha orgulho do próprio talento e isso compensava a insegurança que a aparência às vezes lhe dava. A decepção amorosa afetara muito a imagem que tinha de si mesma, mas estava disposta a sair dessa crise. Não ia ficar se lamentando por aquele maldito oportunista, que a enganara com falsas declarações de amor. Ainda bem que teria a companhia de Tom Reading para conversar sobre o jardim e a casa, evitando lembrar o que havia acontecido.

Ao descer, encontrou-o na cozinha colocando o jantar na mesa. Usava uma camisa velha aberta no pescoço, mas tinha feito a barba e os cabelos estavam úmidos pelo banho.

Rin sentou, pensando que ele não era somente bonito, era maravilhoso!. Olhando, pôde ver que tinha um rosto interessante e expressivo: o nariz reto, a boca fina, os olhos brilhantes, os traços firmes.

Com um sorriso malicioso, ele perguntou:

- Está me reconhecendo?

Surpresa, ela notou que o olhava fixamente há um bom tempo. Ficou sem graça e tentou quebrar o constrangimento com um sorriso.

- E deveria? Acho que nunca o vi antes.

- É claro que não. Eu me lembraria. Fique à vontade e sirva-se.

Havia dois pratos, xícaras e talheres, além de uma boa variedade de queijo, picles, fatias de pão fresco, manteiga e uma torta de carne.

- Tudo isso só para nós dois? Não há mais ninguém?

- Esperava mais alguém? A patroa ainda não chegou.

O modo como pronunciou a palavra "patroa" soou irônico e Rin lembrou-se que a aparência estonteante de Kagura costumava impressionar qualquer homem. No entanto, para Tom Reading, a atriz estaria tão longe e difícil de alcançar como as estralas. Mas quem poderia saber qual a preferência dela? Afinal, o jardineiro era muito atraente e bem podia interessá-la.

Perturbada com esses pensamentos maldosos, Rin se serviu de pão e manteiga. Ao notar-lhe o embaraço, Tom disse com voz conciliadora.

- Não precisa se preocupar por estarmos sozinhos.

- Não estou preocupada – ela tinha a intuição de que aquele homem jamais agiria impulsivamente. – Apenas imaginava se sua esposa estaria aqui ou...

- Eu ficaria muito surpreso se estivesse. Não tenho nenhuma esposa.

- Ah, sim. – Aborrecida, Rin repreendeu-se por ter falado sem pensar. Agora parecia uma dessas garotas que mal punham os olhos em um homem e já queria saber se era casado ou não. – Pouco me importa se há um homem ou cinqüenta por aqui. – continuou. – Só quero fazer direito o meu trabalho pelo qual estou sendo paga.

Tom riu, malicioso.

- Bem, acho que cinqüenta homens seriam um problema. Quem iria cozinhar para um batalhão desses, hein?

Ambos riram e ele continuou:

- Quanto a mim, também tenho muito trabalho a fazer e não vai me sobrar muita energia. Não terá problemas comigo.

Com certeza, energia era o que não faltava àquele homem. A vitalidade e o magnetismo que emanavam dele davam a impressão de que jamais poderia se cansar.

- Não vai cortar todas as árvores, não é? – ela perguntou, preocupada.

- Meu Deus! É claro que não! Não costumo cortar árvores, a menos que tenha um bom motivo. Estou fazendo apenas uma poda e limpando a área de ervas daninhas. O jardim é muito bonito, só precisa de manutenção.

- Qual o problema que ele tem?

- A grama e as ervas daninha estavam sufocando as flores e as árvores mais parecem uma floresta. – ele explicou, sorrindo. – Acho uma boa idéia trabalharmos juntos. Seremos uma ótima parceria, não acha?

Era estranho ouvi-lo dizer isso. Até aquela manhã, fazia uma boa parceria com Kohaku, tanto no trabalho como no relacionamento afetivo. Só esperava que Tom não quisesse usá-la.

De qualquer modo, no fim desse trabalho em conjunto, a casa ficaria linda, servindo-lhe como um impulso à sua carreira, pois poderia mostrá-la aos novos clientes. E o jardim bem cuidado só ajudaria a embelezar o cenário

- Tem razão. Acho que vai ser uma boa parceria.


Oie! espero que tenha gostado da fic, esse é só o primeiro capitulo, ainda tem muita coisa pra acontecer. --- Curiosidade sobre esse livro: ele foi lançado em 1978 – uma raridade... ta tudo bem, ele só e velho, tanto que o preço ta em cruzeiro, 11,90 –morre-

Outra coisa que tem que ser explicada: - Já ta bastantes obvio quem é o Sesshy, neh? pois bem... eu não sabia que nome falso dar a ele então deixei no original, um nome totalmente aleatório, espero não ter problemas com isso.... se alguém tiver uma sugestão para eu trocar no nome dele é só mandar !^^

Também prefiro deixar o Titulo no original inglês, e mais bonito, pelo menos para mim. – Jardim encantado, que seria o titulo em português me soou um pouco infantil...

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