CAPÍTULO III

Apesar do trabalho duro, Rin estava adorando viver em Tir Glyn. Nem se importava se no fim do dia ficava exausta e coberta de poeira.

Terminou o quarto principal na primeira semana. Orgulhosa, obsevou as paredes e os carpetes verdes, as cortinas e colchas brancas, os móveis modernos e funcionais. Tinha certeza de que agradaria a pretensiosa Kagura Cavell. Ali estava um aposento tão luxuoso e deslumbrante como a atriz lhe pedira.

Mesmo assim, decidiu procurar Tom para saber sua opinião. Ele estava revolvendo a terra seca para plantar novas mudas e adorou o pretexto para ara um pouco o trabalho árduo.

Desde que Rin iniciara a reforma, proibira-o de ir ao andar de cima, pois não queria que ninguém visse o trambalho antes de concluído.

Ao entrar no quarto principal, Tom olhou em volta com um expressão de quem aprovava.

- Muito bonito. Está de parabéns.

- Este é o quarto da estrela, é claro. Acho que Kagura Cavell vai gostar?

Tom voltou a observar o ambiente.

- É o que ela pediu, não é?

- Sim.

- Se não gostar, é problema dela. Você seguiu as instruções.

- É verdade. E você faz a mesma coisa com o jardim.

Ambos sorriram e ele a ajudou a carregar as escadas e as ferramentas para o quarto ao lado, pois começaria a trabalhar ali logo depois do almoço.

Rin começava a se acostumar com a grande casa vazia, andando pelos aposentos sem se incomodar com a solidão. Provavelmente, isso acontecia porque Tom estava por perto. Apesar de passar o dia todo no jardim, bastava abrir uma janela e chamá-lo para contar com sua presença. Mas nunca fazia isso. Se precisava falar com ele, preferia sair para encontrá-lo.

Ele era um homem forte e capaz, que inspirava segurança.

Além disso, Tom cuidava da casa, fazia comida e lavava a louça, deixado-a livre para se dedicar inteiramente à decoração. Rin só estranhava quando ele se trancava no estúdio e passava horas pendurado no telefone. Várias vezes ela se perguntava com quem Tom tanto falava. A parte os pedidos que fazia para a mercearia da cidade, não conseguia imaginar o que resolvia naquelas demoradas ligações. Algum amor? Algum problema com a polícia? Algum parente precisando de apoio? Ah, esse homem era tão misterioso...

No entanto, normalmente se entendiam muito bem e Rim até se atrevia a pensar que poderiam continuar amigos depois que terminasse a decoração de Tir Glyn. Quando pensava no futuro, não gostava de imaginar que nunca mais teria aqueles agradáveis almoços na varanda, onde conversavam à vontade como velhos companheiros.

Mas ainda levaria cerca de quatro meses para terminar o trabalho e não queria pensar muito no que seria de sua vida, quando tivesse de sair dali.

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No primeiro fim de semana que passava lá, Rin acordou cedo e foi para a cozinha preparar o café da manhã. Estava muito grata pelo tratamento que Tom lhe dispensava e queria retribuir a generosidade com uma refeição bem gostosa.

Quanto torrava algumas fatias de pão, ele entrou, parecendo surpreso por encontrá-la.

- Não vai passar o fim de semana em sua casa?

- Não vou a lugar nenhum, antes de terminar toda a decoração.

- Não? – Tom a encarou, intrigado. – Por quanto tempo pretende se isolar?

- O tempo que for necessário. – ela respondeu, estendendo-lhe uma torrada com manteiga.

- É muito dedicada ao trabalho. Trouxe tudo o que precisa para passar esses meses todos?

- Se precisar de alguma coisa a mais, vou até a cidadezinha mais próxima para comprar. Estou louca para ver Tir Glyn pronta para receber a Srta. Kagura. – Ainda faltava muito para isto, mas Rin se lembrava que Sango tinha insinuado que a data do casamento da atriz seria marcada em função da liberação daquela propriedade... – Por que acha estranho que eu fique aqui? Você também não parece ter intenção de voltar ara casa nos fins de semana, ou de tirar uma folga.

- Pois pode acreditar nisso.

- Que volta para casa?

- Não. Que tiro folga nos fins de semana.

Ela tentou parecer natural, mas não conseguiu evitar a curiosidade.

- E vai estar fora este fim de semana?

- Não.

A noticia a deixou contente, pois seria muito solitário ficar dois dias sem Tom. Por outro lado, imaginou para onde ele iria e quem encontraria, quando se ausentasse. Deia ter amigos, apesar de não falar sobre eles... De repente, deu-se conta de que sabia muito pouco sobre a vida dele e um impulso a levou a perguntar:

- Já foi casado?

- Não, nunca fui casado. – ele parecia tranquilo, como se jamais alguém tivesse partido seu coração. – Nem você.

- Como sabe? – Rin olhou-o admirada. Koraku a acusara de ser uma solteirona incapaz de sentir emoções e talvez fosse essa a sua aparência.

- Ainda não teve tempo. – Tom disse. – Gasta todas suas energias na carreira. Quantos anos tem? Vinte?

- Vinte e dois – Ela pensava que parecesse mais velha. – Mas você teve tempo suficiente.

Ele sorriu com malicia, mas não respondeu. Foi preciso que Rin insistisse para saber a idade dele.

- Quantos anos você tem?

- Dez a mais que você. Quando tiver a minha idade, está casada há muito tempo.

- Não acha que tenho jeito de solteirona?

Tom sorriu, medindo-a dos pés à cabeça.

- Jamais pensaria isso. Você tem alguma coisa contra o casamento?

- Kohaku me disse que nasci para ser solteirona.

As sobrancelhas dele franziram-se

- Quem? Ah, sim – ele lembrou – Durante a discussão antes da partida para a Espanha? Ele pretendia insultá-la?

Rin assentiu, sem dizer nada. Tom deu de ombros, tomando um gole de café.

- Esqueça. Neste mundo em que vivemos não se pode ser tão sensível.

Com certeza, ele não era o tio de pessoa que se deixaria atingir por um comentário ferino. Pelo contrário, parecia capaz de devolver na mesma moeda quem ousasse perturbá-lo, o que Rin jamais conseguia fazer.

- Não costuma se preocupar com o que as pessoas pensam de você, não é?

- Noventa por cento das vezes, não. Não vale a pena.

- Pousando a xícara na mesa, Rin o observou como se hesitasse falar.

- Sabe, Tom, às vezes, ainda posso ouvir tia Kikyou me chamando de tola e desengonçada.

- Desengonçada? – ele a fitava com interesse. – Acho que a sua tia não era uma boa observadora.

- Mas tinha razão. Durante anos fui muito mais alta e magra do que qualquer outra garota da redondeza. Eu vivia metendo os pés pela mãos, era completamente desajeitada. – Ainda era magra, mas até que gostava do próprio corpo. Havia descoberto que tinha pernas bem feitas e curvas nos lugares certos... Olhando para o chão, continuou: - A casa da tia Kikyou era perfeitamente arrumada, sem um bibelô fora do lugar. Sabe , eu mal ousava andar lá dentro, temendo quebrar alguma coisa. Na adolescência, não conseguia coordenar os joelhos e os cotovelos e vivia esbarrando nos moveis. Acostumei-me a andar com os cotovelos colados no corpo, sempre preocupada onde poria meus "pés enormes", como titia falava.

Tom começou a rir.

- Pois aprendeu muito bem onde pôr os pés. Tem um jeitinho adorável de andar.

Ele ria, mas Rin percebeu que falava serio e que compreenderia todo o problema com Kohaku, se lhe contasse a historia. Mas pensou melhor e decidiu não dizer nada. Provavelmente, Tom a acharia tola por ter entregue tanto dinheiro ao ex-namorado.

- É uma pena que não tenha uma irmã, Tom.

- Por quê?

- Você seria um irão maravilhoso. – Se tivesse um irmão como ele talvez fosse capaz de superar a insegurança que a fazia encolher-se toda, cada vez que alguém erguia a voz.

- Verdade?

Nesse momento, ouviram o barulho de um helicóptero e foram até a varanda para ver quem estava chegando. Quando o aparelho começou a aterrissagem, Rin ficou triste, pois a pessoa que chagava iria perturbar aquele paraíso cheio de paz. Podia ser Kagura, Sango ou até mesmo Sesshoumaru Fenton, mas não tinha vontade de ver nenhum deles. Não tinha nenhum direito sobre aquela propriedade, mas se sentiu invadida na sua intimidade.

O helicóptero pousou no meio do gramado e Tom foi receber o homem que chagava.

Um pouco insegura, Rin imaginou se o visitante não era Sesshoumaru Fenton. Se fosse ele, com certeza viera inspecionar o andamento das obras e ela teve medo de que ele não gostasse de seu trabalho. Era importante conhecer as pessoas que requisitava seus serviços, mas alguma coisa no seu coração fez com que dessa vez quisesse evitar o cliente.

Num impulso, deixou o terraço e entrou na casa, indo para o quarto que havia começado a decorar no dia anterior. Tom poderia perfeitamente mostrar a Sesshoumaru Fenton o que ele quisesse ver.

O visitante ficou bastante tempo na casa, trancando-se no estúdio com Tom. Na verdade ela não sabia ao certo, mas assim o presumia porque uma vez o telefone tocou e foi atendido imediatamente.

Depois disso, voltou a se concentrar no trabalho e até se esqueceu da possível presença do patrão em Tir Glyun. Só quando ouviu de novo o motor do helicóptero deixou de prestar atenção á parede que estava raspando. Correu para a porta da frente, esperando que Tom lhe contasse se a decoração havia sido aprovada.

Mas teve de conter a ansiedade, pois a expressão do amigo era séria e preocupada.

- Está tudo bem, Tom?

- Sim.

- Ele ficou bastante tempo.

- Tinha muitas instruções para mim.

Tom caminhou para a cozinha e ela o seguiu. Os passos dele eram apressados, demonstrando um grande nervosismo.

Tentando amenizar a tensão, procurou brincar:

- Espero que não tenham mandado você cavar a piscina.

- Ainda não, Escute, Rin, preciso lhe dizer uma coisa... – Tom a segurou pelo braço.

Aquele contato deixou-a profundamente perturbada. Um arrepio estranho percorreu-lhe a pele e mais do que depressa ela continuou a falar:

- O homem nem subiu para ver como a decoração do quarto ficou!

- Ele não tem nada que ver com a decoração. Quem esteve aqui foi Jaken Gillian, secretário de Fenton.

- Ah... E por que você está reocupado?

- Era o que ia lhe dizer, Rin. Foi um telefonema que atendi.

De repente, ela ficou apreensiva.

- Ouvi a capainha do telefone. Quem era?

- Era seu namorado, Mason.

A princípio Rin não conseguia dizer nada. Koraku era capaz de causar muitos problemas, principalmente se estivesse zangado. Quando percebesse que a ex-namorada não voltaria para ele, certamente ficaria furioso, poderia se tornar até agressivo. Esse simples pensamento a fez tremer, pois não suportava gritos.

- Mas ele ainda está na Espanha...

- Tem certeza? Acabou de ligar e eu atendi.

- Você disse que eu estava aqui?

- Não. Claro que não. Você avisou que não queria falar com ele. A não ser que tenha mudado de ideia...

- Não! Enquanto puder evitar, não conversarei com ele – tentando sorrir, ela procurou controlar o tremor nas mãos e a sensação de pânico. – Então Koraku acabou de ligar... E eu pensei que tivesse ao menos mais uma semana de sossego!

Enquanto pegava uma garrafa de água na geladeira, Tom ponderou:

- Se ele estiver na Espanha, pode ficar tranquila por mais uns tempos. Mas tem certeza de que deseja fugir dele?

- Sim.

- Por quê? – To colocou a água no copo e a encarou.

- A maneira que terminamos não foi das mais civilizadas...

- Terminaram o quê? Um namoro? Um casamento?

- Um namoro, apenas.

Rin respondeu numa voz que era pouco mais que um sussurro.

- Kohaku não me ama, mas acho que vai ficar furioso quando compreender que para mim foi definitivo.

- Pensa que ode agredi-la?

- Não, não acredito que ele chegue a esse ponto.

- Então, qual é o problema?

Com muito esforço, sabendo que seu comportamento podia parecer tolo, ela explicou:

- Vai fazer uma cena e gritar. Não posso suportar que gritem comigo.

Tom sorriu.

- Acho que ninguém suporta. Mas, se ele gritar com você, por que não devolve na mesma moeda? Às vezes funciona.

Rin sentou-se em uma das cadeiras da cozinha e cruzou os braços sobre o peito, como se tentasse se defender de alguma coisa.

- Sei que parece bobagem, mas fico apavorada com brigas. É o mesmo pavor que certas pessoas sentem de aranhas ou de trovoes. Alias, é outra coisa que me atemoriza: trovoes. Quanto às brigas, eu seria capaz de correr quilômetros, só para fugir de uma. Se koraku telefonar de novo, atenderei, mas não quero nem pensar em encontrá-lo pessoalmente. É por isso que não quero voltar para casa durante alguns meses – ela se calou, certa de que Tom iria dar gargalhadas. Mas e vez disso ele se aproximou, fitando-a pensativo...

- Rin...

- Não entende, não é, Tom?

- Não.

Era muito simples. Por covardia não tinha sido capaz de enfrentar Kohaku. Provavelmente, Tom a desprezaria por isso.

- Não tem medo de nada?

- De trovões e de gritos, não. – agora ele sorria, sentando-se em outra cadeira. – O que acha de jantarmos fora hoje à noite? Podemos usar sua caminhonete, ou posso levá-la na garupa da minha bicicleta.

Rin concordou, com um gesto de cabeça, mas, em seguida, teve outra ideia.

- Sabe o que gostaria de fazer? Comer na sala de jantar, usando aquela mesa tão linda com as cadeiras combinando. O que acha?

- Por que não?

Ela sorriu sonhadora.

- Acho que a visita do Sr. Jaken me fez desejar fingir que isto é minha casa, e que posso comer na sala de jantar sempre que quiser.

- E pode mesmo – ele segurou-lhe a mão, acariciando-a com ternura. – Comer na sala de jantar, descansar na sala de estar, dormir no quanto principal... Pode fazer tudo isso.

Rin riu, sacudindo a cabeça.

- Acho melhor não levar a brincadeira de faz-de-conta longe demais. Vou voltar ao trabalho.

- Nós dois vamos.

Ambos levantaram e Tom apertou-lhe a mão mais uma vez, como se pretendesse transmitir-lhe confiança. Era infantil ter tanto medo, Rin refletiu. Afinal, que mulher na época atual sentia medo de uma simples briga com o namorado?

Ela voltou ara o andar de cima e trabalhou sem ara até as seis horas. Então, decidiu arrumar a sala para o jantar daquela noite. Depois de admirar a madeira clara e as formas perfeitas da mobília, pegou um pano ara tirar o pó de cada cadeira.

Num dos cantos havia uma lareira de mármore branco, e mais ao lado, um enorme espelho de cristal. O papel de parede estava velho e descolava em certos lugares, mas o aposento ainda era imponente. Depois de trocar aquela cobertura e pitar o teto, um tapete persa e a mobília em estilo Regência dariam o toque final para tornar a sala elegante e luxuosa novamente, Rin pensou.

Quase podia ver como ficaria tudo: as enormes janelas se abrindo para a frente da casa, quadros pendurados nas paredes e jarros de flores sobre os móveis.

Decidindo limpar a lareira, pegou u ano e começou a esfregar o mármore. A voz de Tom soou às suas costas.

- Não entendo por que desejam modificar esta sala. Parece muito bonita, assim mesmo.

Fingindo indignação, Rin virou-se, protestando:

- Está se intrometendo na minha área! Alguma vez me ouviu dar palpite sobre como deve cuidar do jardim?

- Já, sim. Você disse, por exemplo, que a mistura de flores e trepadeiras selvagens ficava melhor do que canteiros simétricos.

- Bem, é diferente. Não vai separar tudo em canteirinhos, não é?

- Pode apostar nisso. Que tal jantarmos daqui a uma hora? Ainda não estou pronto preciso terminar um canteiro da horta.

Ela imaginou se o Sr. Jaken tinha sugerido a Tom que trabalhasse mais horas e desejou ver o secretario de Sesshoumaru Fenton revolvendo a terra dura para plantar as mudas.

Não levaria muito tempo para aprontar a refeição, já que só havia ovos e presunto, por isso mergulhou na banheira pensando em descansar um pouco. O telefonema de Kohaku a deixara tensa demais.

Fechou os olhos, entregando-se ao prazer que a água morna produzia. Tom havia sugerido que jantassem fora... Deviam existir vários lugares agradáveis para aproveitar essa noite quente e cheia de estrelas, no entanto, por mais tola que isso parecesse, queria experimentar a sensação de Sr dona de Tir Glyn.

Ensaboando-se várias vezes, tirou os vestígios de tinta das unhas e lavou os cabelos. Quanto saiu do banheiro, sentia-se outra pessoa. Estava totalmente relaxada e nem se lembrava mais do telefonema de Kohaku.

No quarto, lamentou não ter trazido um dos vestidos de algodão que comprara para as férias na Espanha. Decidiu usar a roupa que reservava para as vezes que precisasse ir até a cidadezinha mais próxima. Não era nada especial, mas, comoa maquilagem e o penteado que fez, sentiu-se bem feminina.

Olhando-se no espelho, pensou na surpresa de Tom ao vê-la sem os macacões velhos

que usava para trabalhar.

Surpreendeu-se um pouco com essa preocupação de agradar Tom, mas depois deu de ombros , dizendo a si mesma que não havia nada demais. Era reconfortante saber que ele a esperava. Bem ou mal, aquela era uma noite especial.

Ao descer as escadas, viu que a mesa já estava posta para dois e que havia uma garrafa de vinho num balde de gelo.

Tom se debruçava na janela e olhava para a noite, de costa para ela. Rin ia perguntar como tinha conseguido o vinho, quando reparou nas roupas que ele usava. Estava simplesmente maravilhoso, vestindo calça preta e uma fina camisa branca. Parecia outro homem, perigosamente atraente.

- Tom! Eu... não o teria reconhecido.

Ele abriu um enorme sorriso.

- Também não tenho certeza se a reconheceria.

Rin não conseguia falar, surpresa ao ver como ele parecia muito mais sensual. A calça bem cortada ajustava-se aos quadris estreitos e a camisa ressaltava os músculos do peito forte. Tom Reading era um homem que atrairia a maior parte das mulheres e, apesar de ter dito que gostaria de tê-lo como irmão, ela não se achava uma exceção.

Com um mesura, Tom puxou uma cadeira para que ela sentasse. Rin olhou para a garrafa de vinho e perguntou:

- De onde veio isso?

- Nossos patrões deixaram algumas garrafas. Como nunca fui de respeitar as convenções...

Ela riu, mais uma vez se surpreendendo ao ver como era fácil a convivência com Tom. A semana tinha sido a melhor de sua vida e gostaria que o relacionamento se aprofundasse nos quatro meses que teriam pela frente, vivendo sob o mesmo teto.

A noite tinha um ar de celebração. Rin, um pouco excitada por causa do vinho, sentia-se cada vez mais encantada. Ao lado de Tom, tudo se tornava especial. Sorrindo, ela concluiu que o amigo era um pouco mágico, capaz de transformar um jantar tão simples numa ocasião solene.

Depois de comer, foram tomar café na varanda, e conversaram por um longo tempo, os olhos perdidos na noite enluarada.

Mas todo aquele clima de encantamento não conseguia fazer com que se esquecesse de que estava trabalhando muito e precisava descansar. A certa altura, começou a bocejar, admirada com a resistência de Tom. Ele não demonstrava nenhum sinal de cansaço ou de aborrecimento. Rin não disfarçou o contentamento, pois isso provava que sua companhia era agradável.

Lutou para controlar o sono e assim poder desfrutar mais um pouco da noite. Voltou ao assunto que haviam discutido à tarde.

- Às vezes me pergunto porque tenho reações tão estranhas...

- Como assim, Rin?

- Aquilo que lhe contei... Que morro de medo das brigas.

- Talvez você não saiba brigar. Precisa aprender a enfrentar quem a agride.

- É esse o problema, mesmo. Não consigo.

- Sua tia Kikyou costumava gritar com você?

- Não, nem posso imaginá-la gritando! Quando estava zangada, falava entre os dentes. Era bem pior...

- Ainda bem que não a conheci.

Será que isso significava que gostaria de conhecer a família dela, se tivesse uma? Se fosse assim, não estaria considerando o relacionamento como algo passageiro... Não, que loucura! Já estava começando a alimentar fantasias.

- Não fique acordada se preocupando com isso, Rin. Se Kohaku Mason aparecer, jogo-o na rua.

Não era provável que aquele idiota viesse até ali, ela pensou. Mas assim mesmo sentiu-se grata.

- Acho que não precisará chegar a esse ponto. Em todo caso, obrigada pela solidariedade.

Algum temo mais tarde, ela disse boa-noite e Tom se levantou de repente. Por um instante, Rin pensou que fosse beijá-la, mas na verdade ele começou a descer os degraus da varanda, indo para o jardim. Talvez quisesse dar uma volta antes de dormi, ela concluiu.

É claro que gostaria de receber um beijo de boa-noite, mas as circunstâncias eram tão estranhas... Nem sabia o que poderia acontecer, se surgisse entre eles alguma coisa diferente do que amizade.

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