SMOKE ON THE WATER

Ainda era cedo, quatro horas da tarde pra ser mais exato, mesmo assim o céu já estava escurecendo. Um cinza intenso, quase preto, cobria tudo. Aquilo era um sinal. Uma tempestade estava chegando.

Damião acaba de sair do escritório onde trabalha. O coroa estava com pressa. Estava atrasado pra pegar os meninos na escola. E, como ele bem sabia, os moleques ficavam nervosos quando isso acontecia. Coisa da idade. Um casal de gêmeos, ambos de seis anos.

Damião podia jurar que seu Fiat Sedam prateado estava estacionado no bloco C do estacionamento do prédio onde trabalhava. No entanto, ao chegar lá, não o encontrou. O que acabou deixando-o ainda mais agoniado do que já estava.

Bloco A, Bloco B, Bloco C e Bloco D. Damião deu um passeio por todo o estacionamento. Não encontrou nenhum Fiat Sedam, muito menos o dele. – Cara, cadê meu carro? – Reclamou o homem para o segurança da portaria.

Quando Damião encontrou o segurança, ele estava sentado calmamente ao lado da cancela do portão de entrada do estacionamento. Seu rosto expressava tédio e ele estava quase a ponto de dar uma cochilada. Apesar da aflição de Damião, o segurança não se abalou muito com o estado alterado do homem. O segurança ouviu calmamente a reclamação do empresário e, quase que mecanicamente, apanhou uma prancheta que estava jogada em cima da mesa que estava ao seu lado.

Depois de uma conferida que levou quase um minuto, mas que pareceu uma eternidade pra Damião, o segurança dá uma palavra.

- Nenhum Sedam entrou aqui hoje, senhor.

- Como não! Eu entrei com meu carro hoje de manhã!

- Ah, bom. Mas aí já não foi meu turno. Já não é comigo.

- Ôxe!? E eu fico como nessa história?

- Espera um momento. Vou falar com o chefe da segurança.

O Segurança da portaria devolveu sua prancheta à mesa e, em seguida, pegou o walk talk que estava pendurado em seu bolso.

- Almir. – Falou o segurança pelo walk talk.

- Tenta a freqüência três! – Respondeu uma voz saída do walk talk.

O Segurança gira o botão da parte superior do seu walk talk o ajustando para a freqüência número três.

- Genésio, Diogo, Almir... Qualquer um! Responda! – Assim que o segurança colocou o walk talk na freqüência três, outra voz apareceu saída do aparelho.

- Aqui é Genésio na escuta.

- Primeiro andar, sala 107. Código quatro! – Damião não sabia o que era um código quatro. Por causa disso não entendeu o porquê da cara de espanto que o segurança fez ao ouvir aquele número.

- Senhor. – Disse o segurança, Genésio. – Fique aqui que eu volto logo.

- E meu carro!

- Depois eu cuido disso!

Genésio se levantou e, como uma flecha, saiu correndo da portaria até sumir de vista.

Damião, sem entender o que estava acontecendo, ficou paralisado de surpresa com aquela situação. – Mas que merda. – Pensou o empresário.

TRUMM!

O barulho de trovão acorda Damião de seu estado reflexivo.

TRUUUM!

O segundo foi ainda mais forte, seguido de rápidos flashes azuis. Damião olha para o céu. Ainda nem tinha passado direito das cinco horas, mesmo assim o céu estava preto que nem ébano.

Chruuuuu!

Som de pingos de água caindo sobre o asfalto vão ficando cada vez mais presentes. Uma chuva tinha começado. No inicio era apenas uma garoa, mas em poucos segundos já tinha se transformado em um verdadeiro toró. Chateado, Damião olha para o céu e comenta para si mesmo. – Hoje não é mesmo o meu dia.

O empresário ficou lá, esperando na portaria pelo regresso do segurança. Os minutos foram passando e, sem que ele percebesse, já havia se passado uma hora e meia desde que havia sido abandonado ali. Damião toma um susto assim que percebe quanto tempo havia demorado ali. Sendo assim, imediatamente ele pega seu celular e liga para sua esposa. Estava preocupado com as crianças.

- Droga! – Esbraveja Damião. O celular estava sem sinal. Com certeza aquele não era um de seus melhores dias. – O jeito é procurar esse segurança – Pensou Damião. – Sala 107, certo? – Damião tinha boa memória. Recordando-se da mensagem transferida no walk talk, ele decidiu procurar por Genésio e apressá-lo. Se ele deixa-se pra lá, era bem capaz de não ter uma resposta para o sumiço de seu carro tão cedo.

Pra chegar ao primeiro andar, Damião podia usar a escada ou o elevador. Como a escada estava mais próxima e ele tinha pavor de ficar preso no elevador, Damião preferiu ir andando mesmo.

Após subir um pequeno lance de escadas, Damião chega ao primeiro andar. Ao lado da porta em que atravessou para entrar no andar, havia a sala 102, que pertencia a uma pediatria. Recepcionista, médico, pais, mães e crianças estavam "paradões" olhando para a TV. Alguma coisa estava chamando a atenção de todos.

Damião deu uma olhada rápida na TV antes de seguir adiante. Uma noticia de última hora já estava falando sobre os estragos que a chuva provocou na cidade. Deslizamento de terra, postes derrubados por raios, vários acidentes de carro, alagamentos. É, a cidade não foi feita pra agüentar água. Parecia ser feita de sonrisal, brincavam alguns.

Voltando ao corredor, enquanto andava até o 107, Damião ficou analisando mentalmente as imagens mostradas na TV e começou a ficar ainda mais preocupado com os seus filhos. – Meu carro tinha que sumir logo hoje?! – Ficava se lamentando o empresário.

A porta do 107 estava trancada. Parecia que não havia ninguém lá dentro, mesmo assim Damião resolveu tocar a campainha.

PLIN! PLON!

Ninguém respondeu, mas Damião conseguiu ouvir uns murmúrios de dentro do apartamento. Tinha gente lá dentro, mas parecia que não queriam atender a porta. Irritado, Damião apertou mais uma vez a campainha, só que agora de maneira mais mal educada.

PLIIIIIIIIIIIIN! PLON! PLON! PLON! PLON!

Não tardou muito para alguém ir atender a porta. Quem atendeu foi um segurança. Com a porta entreaberta, colocando só sua cabeça para o lado de fora, o segurança (que não era Genésio) tentou se livrar de Damião de forma educada.

- Senhor, estamos com um probleminha e...

- AHHH! NÃO QUERO SABER! Roubaram a porcaria do meu carro e o banana do segurança me deixou plantado na portaria! "Qualé"? Tão tentando me enrolar é?

- Senhor, é que...

- Ah, vá! Saia da frente. – Após empurrar porta e segurança, Damião conseguiu forçar sua entrada no apartamento. Assim que viu o que estava acontecendo lá dentro desejou ter ficado quieto na portaria.

- MEU DEUS!!

- Que porra, Diogo! Não mandei você não deixar ninguém entrar?! – Disse um dos seguranças que estava dentro do apartamento. O lugar era uma clínica normal. A única coisa que destoava dentro dele eram os seguranças (cinco no total, com Genésio incluso) e um tapete manchado de vermelho. Ah, claro, e também um homem deitado no chão.

- Senhor. – Disse um dos seguranças, o mais alto de todos, se dirigindo a Damião. - Sou Almir, o chefe da segurança. Estou pedindo pro senhor manter a calma.

- Mas como? Tem um morto no chão! MEU DEUS!

- Sim, ele foi morto. – Disse Almir, já perdendo a calma. – O assassino pode muito bem ainda estar por aí e nenhuma droga de telefone está funcionando. Junta isso tudo com essa chuva dos infernos lá fora e temos um problema gigante aqui. Estamos "trancados" aqui com um assassino perigoso e não teremos ajuda da polícia então, por favor, senhor. Fique calmo e não nos atrapalhe. A última coisa de que precisamos é que isso se torne de conhecimento geral e o pânico se instale no prédio. Entendido?

- S-sim. Claro.

Meia hora se passou, mas Damião ainda continuava nervoso. Problemas graves como o sumiço de seu carro e a segurança de seus filhos pareciam agora estar em segundo plano. Enquanto os outros seguranças ficavam discutindo o que fazer no apartamento da vítima, Genésio levou Damião até uma cozinha no terceiro andar, pertencente à área de serviço. Sentado, recostado na parede, Damião ficava olhando pro vazio pensando no que mais poderia piorar. Enquanto isso, Genésio ficava na porta, atento a qualquer chamado dos seus colegas pelo walk talk.

THRRUUUUU! CHRRROOOM!

A chuva e as trovoadas ficaram ainda mais fortes. – Quando isso vai terminar? – Se perguntava Damião. Olhando pela janela ele era capaz de ver a chuva torrencial e a rua que, agora, mais parecia um rio. A água era tanta que os poucos carros, todos abandonados, que ficaram na rua começaram a boiar. Andando desgovernadamente no sentido da água.

THHHRRRUUUUUUUU!!

O último trovão foi o mais forte de todos. O flash que antecedeu sua presença também foi muito luminoso. Assustado, Damião deu um pulinho da cadeira onde estava.

THHHRRRUUUUUUUU!!

Outro da mesma intensidade sucedeu o primeiro. Só que desta vez foi infinitamente pior. Afinal, as luzes acabaram se apagando por conseqüência dele.

- MAS QUE...! – Dizia Genésio. Se controlando pra não soltar um palavrão. – Um raio deve ter atingido um poste de energia.

- Almir! – Chamava Genésio pelo walk talk. O segurança queria saber como seus colegas estavam lhe dando com aquela situação adversa. – Tem alguém aí?

- Diogo na escuta.

- Onde vocês estão.

- Rapaz, venha logo pro 504. Aconteceu algo urgente.

- Já estou indo "praí".

Damião estremeceu com a última frase de Genésio. Pois isso significava duas coisas. Ou que ele iria ficar naquela cozinha sozinho ou que teria que acompanhar o segurança nos corredores do prédio. Que naquela situação deveriam estar sombrios e assustadores.

- Senhor? – Falava Genésio com Damião. – Senhor, está escutando?

- S-sim.

- Vou dar uma passada rápida no 504, mas volto já. Fique aqui. Tudo bem?

- T-tudo.

Genésio saiu da cozinha deixando Damião lá, sozinho, sentado e encostado na parede sem conseguir ver praticamente nada. Adrenalina a mil. Qualquer barulhinho real ou imaginário já era suficiente para deixar todos os seus sentidos no estado de alerta.

Passaram-se apenas dez minutos, mas naquela situação parecia que uma eternidade havia se passado.

- Hmm!! – Susto. Algo deixa Damião em alerta.

THRRRRUUUUU!!!

Os trovões e o som da chuva torrencial estavam fortes, mas não era isso que chamava a atenção do empresário. - Aaaahh!! – Damião dá um grito. Ele tem a impressão que tinha visto uma sombra se movendo de modo sinistro. O que, devido aquela escuridão, era quase impossível dizer com certeza.

Mil coisas passavam na cabeça do empresário e atiçavam sua imaginação. A maioria delas não fazia o menor sentido, a não ser o seu último e mais aterrador pensamento. "Será que tem alguém aqui? Será que é o assassino?"

-Aaaaaahhhhh!!! – Damião vê a sombra pela segunda vez. Ela se movia de modo estranho, parecia mais uma estranha fumaça. No entanto, naquela situação, Damião não estava muito propenso a se prender a detalhes. De modo abrupto, o empresário se levanta de sua cadeira e sai correndo da cozinha. Se esbarrando em praticamente tudo o que estava no seu caminho.

Derrubou cadeira, panela, se esbarrou na mesa, nas paredes... Foi um sufoco encontrar a porta.

Saindo da cozinha, Damião deu de cara com o corredor do terceiro andar. A escuridão era quase total. Impossível correr ali. Mesmo assim, Damião correu. Se guiando colocando a mão na parede, a intenção do empresário era ir até o andar térreo e sair do prédio. Com ou sem chuva, nada o prenderia ali.

Depois de muita esbarrada na parede, Damião consegue encontrar as escadas. Por tentar descer correndo, ele acaba tropeçando em um dos degraus. A queda foi feia. Ele saiu rolando. Prack, Prack. Os sons de coisas se partindo estavam rivalizando com os sons da chuva. Damião não podia dizer com certeza, mas achava que tinha quebrado um osso ou dois. Já que não carregava nada consigo que fosse de quebrar. A não ser, talvez, seu celular.

Depois que acabou de rolar pelas escadas, Damião ficou deitado, "largadão", entre quatro degraus. O homem tentou levantar, mas não conseguiu. Seus temores haviam se confirmados. Ele realmente tinha quebrado algum osso. Pra piorar, a sombra sinistra estava a sua frente. Bem de perto. Daquela posição, Damião podia dizer com certeza. Aquilo era uma fumaça negra. Uma fumaça negra estava perseguindo ele. – Isso é loucura! O nervoso deve estar me causando alucinações! – Damião tentava analisar a situação de um modo mais racional. O que não ajudava muito. Já que o medo e a dor não diminuíram em nada.

- Pobre garoto. Tanta dor. – Damião que já achava que estava ficando louco, agora tinha certeza. Estava imaginando que a fumaça conversava com ele. – Está aflito. Teme por sua vida, pela vida dos filhos. Diga "sim" para minha pergunta e todos seus problemas irão acabar. – Aquilo era muito tentador. Damião tinha convicção que o que ouvia não passava de fruto da sua imaginação, mesmo assim já sabia que resposta ia dar. – Se aceitar minha ajuda lhe tirarei com vida daqui e lhe deixarei próximo a seus filhos. Você aceita minha ajuda?

- Sim. – Foi a única coisa que Damião conseguiu dizer antes de perder a consciência.


No apartamento 504

Os cinco seguranças estavam todos reunidos. Na frente deles um homem sujo de sangue estava amarrado a uma cadeira. O rapaz havia sido preso pelos próprios seguranças. Ele era o principal suspeito.

- Juro! Eu não me lembro de nada. – Respondia o jovem cativo. – Só me lembro de uma fumaça preta e...e... Não sei o que houve.

- Sei, sei. Amnésia muito conveniente essa aí. – Diz Altair. – Como você explica essa camisa toda suja de sangue, rapaz.

- Não sei. Não sei.

- Você matou uma pessoa, não foi?

- Não... Sniff! Sniff!... Não sei como fui parar aqui... Sniff!... Sou só um estagiário... Porra, "véi"... Porra... Sniff!!

- Esse menino se fodeu. – Comentou Diogo, falando baixinho com Genésio. Os dois estavam no canto da sala. Afastados o suficiente para não terem sua conversa escutada pelos outros seguranças e, principalmente, pelo jovem cativo. – Assim que esse pandemônio todo passar vamos ligar pra polícia. Se ele tiver mais que dezoito ta lenhado.

- Um problema a menos. – Comentou Genésio. – Xiiii! Já ia me esquecendo! Deixei aquele "playboyzinho" chato sozinho.


Quando Damião acordou, ele estava de volta à cozinha do terceiro andar. Sentado em uma cadeira e encostado na parede. Seu corpo não estava mais ferido. O empresário estava na mesma forma que havia estado antes de ter saído.

- Puxa, que sonho estranho! – Pensava o empresário. Acreditando que sua fuga, seu acidente e a fumaça preta não passavam de um pesadelo. Apenas uma coisa havia mudado. O medo e a preocupação, sentimentos tão fortes, haviam sumido. Damião agora estava bem sereno. Apesar da escuridão, da chuva, das trovoadas, do assassino a solta e da falta de noticia dos filhos.

Genésio apareceu de forma abrupta na cozinha. Apesar disso, levando em conta a situação, Damião não havia se assustado. Permaneceu sereno.

- Boas novas. Prendemos o assassino. Estamos todos seguros agora.

- Que bom. – Respondeu Damião. Com um sorriso de canto de boca. Seco e sem sentimento.


Epílogo

A chuva e os trovões pararam tão repentinamente quanto começaram. No dia seguinte, as pessoas da cidade lutavam para recuperar o pouco que havia restado. Carros perdidos, móveis estragados, entes queridos mortos. Seria uma batalha árdua, mas, ao que tudo indicava, o sol estava brilhando mais intenso agora.

A vida de Damião parecia que estava voltando ao normal. O jovem detido pelos seguranças foi levado à cadeia e irá amargar um bom tempo nela. O carro do empresário, o Fiat Sedam, foi encontrado alguns dias depois. Ele havia sido roubado por um homem que jurava inocência e que contava histórias inacreditáveis sobre amnésia e fumaças negras. Pra melhorar, a família de Damião parecia ainda mais unida.

– Graças a Deus – Dizia a mulher de Damião. Os gêmeos não haviam saído da escola durante a chuva. A casa não sofreu muitos estragos. O carro havia sido recuperado.

A família de Damião parecia ser a que teve menos perdas se comparada às perdas das outras famílias da cidade. Tudo parecia bem, até que, um mês depois da chuva, uma notícia saiu no jornal e escandalizou o povo da região.

- Empresário bem sucedido mata toda a família e depois comete suicídio. –

Saiu em todos os jornais. Os parentes e os amigos mais próximos da família não conseguiam entender o porquê daquilo ter acontecido. – Eles pareciam tão felizes. – Era o que todos sempre diziam quando conversavam sobre o assunto. – Damião! logo Damião! Ele parecia ser um cara tão sério. A família estava bem de vida, sua mulher era dedicada e os filhos eram tão fofos. Não entendo porque ele fez isso.

Ninguém conseguiu explicar o porquê de Damião ter se transformado em um homicida-suicida. Muitas hipóteses foram levantadas. A mais aceita dizia que o empresário achava que foi traído pela mulher. Houve até quem defendesse a tese de que o caso se tratava de possessão demoníaca. Hipótese essa não muito aceita pela maioria das pessoas, no entanto ela tinha adeptos fervorosos. Principalmente pelo fato de algumas pessoas jurarem que viram uma sinistra fumaça negra saindo da casa da família logo após o ocorrido.