DARK LEGACY

A vida é uma caixinha de surpresa. Um mês atrás não tinha como Marcos (ver Space Metal) prever que estaria em uma situação como aquela. Em um país estranho deitado em um leito de hospital por causa de uma mordida do que parecia ser um cão enorme. No entanto, o "cão enorme" que atacou Marcos não era um cão. Mas sim uma criança. Um menino que o que tinha de estranho tinha ainda mais de selvagem.

Parcialmente consciente, Marcos assistia com dificuldade o enfermeiro que aparentava ser indiano checar seus sinais vitais. Marcos achava que o indiano estava tentando fazer com que ele não desmaiasse, pois falava muito. Parecia tentar conversar. O que não adiantava pra muita coisa, já que Marcos não falava nenhum dialeto local e o inglês do enfermeiro era péssimo.

- Be strong, man Don´t give up! - A visão de Marcos ainda estava meio turva por isso ele demorou de perceber a presença de David na sala. David é, de certa forma, responsável por sua condição atual.


Um mês atrás:

Em uma sala de reuniões o destino de uma pessoa pode ser radicalmente alterado. Principalmente no caso de uma entrevista de emprego. Principalmente se a entrevista em questão for em uma empresa tão grande quanto a AOR. O processo seletivo durou quase um mês inteiro, sendo dividido em duas etapas. Sendo que a segunda parte levou quase o dia inteiro. Tudo isso era bastante cansativo e a rejeição era algo bastante frustrante. Mas Marcos podia se considerar com sorte, pois não teve que lidar com esse sentimento.

- Amor! Eu não acredito! - Marcos ficou ainda mais contente ao ver a felicidade de sua esposa ao saber das boas novas. - E aí? Você começa quando?

- Esse mês ainda. Eles até avisaram pra eu já ir arrumando os passaportes.

- Passaportes?

- Pô, mulher, tá "brôca"? Meu trabalho vai ser na Índia, esqueceu?

- Puxa. - A alegria da esposa diminuiu um pouco quando se lembrou desse detalhe. - Vai passar quantos dias lá?

- Um mês.

- É bom conversar com os meninos. Eles nunca ficaram tanto tempo longe de tu. Nunca vi tanto grude.

Após quatro dias, Marcos já estava pronto pra viajar. Foi difícil dar adeus a sua esposa e, principalmente, a seus dois pequenos filhos gêmeos. Ainda no aeroporto Marcos foi apresentado a equipe que iria trabalhar com ele na Índia. A AOR era uma empresa grande. Fretaram um vôo só para acomodar os quarenta e cinco membros do projeto. Podia se encontrar gente de todo tipo naquele meio. Os membros da equipe pareciam ter saído dos quatro cantos do mundo.

- Are your first airplane flight? - Marcos estava sentado próximo a janela do avião, ao seu lado, próximo ao corredor, um americano tentava puxar assunto com ele. Marcos estava visivelmente nervoso, por isso o americano fez essa pergunta.

- has so obviously? - Respondeu Marcos.

- Hehehe. My name is David. Nice to meet you. - Falou o gringo enquanto estendia a mão para que Marcos pudesse pegá-la cordialmente. - I am Marcos.

A viagem levou mais de um dia. Principalmente se você contar com as paradas, já que não há vôo direto do Brasil pra Índia. Ao chegar no destino, Marcos ficou parecendo criança de tão bobo. Pra quem nunca tinha saído de seu estado conhecer um país tão diferente em um outro continente era muita coisa. Tudo era novidade. As roupas exóticas das pessoas, o trânsito que funcionava mesmo não havendo sinaleiras, os costumes locais, as religiões. De tudo isso o que mais espantou Marcos foi quando ele viu homens sem roupa andando tranquilamente na rua.

- Ôxe! Esses homens estão nus! Que zorra é essa! - Marcos chegou até a esquecer por um momento que quase ninguém que viajou com ele falava português. - They are Naked! What is That?

- Don´t Worry. They are sadhu. - homens intitulados como Sadhu são místicos indianos que não raramente andam nus pelas ruas com o rosto e o corpo pintados de branco. A grande maioria deles tem cabelos e barba bem compridos. O grupo avistado por Marcos, por exemplo, tinha a faixa etária média de quarenta e cinco anos.

Após um passeio turístico, os novos membros da AOR foram apresentados à filial da empresa na Índia. Essa filial ficava bem longe do centro, em um local bem isolado. O complexo era enorme, continha pelo menos uns cinco prédios. Todos com design de última geração. Tecnologia de ponta. Contrastando com a pobreza existente do lado de fora.

A primeira coisa que Marcos e os outros quarenta e quatro membros recém chegados tiveram que fazer quando entraram no complexo foi assinar um documento que garantia sigilosidade. Caso esse contrato fosse quebrado, mesmo com o eventual afastamento do contratado da AOR, o sujeito seria obrigado a pagar uma multa estratosférica. Logo após todos assinarem o contrato, eles foram levados até uma sala de auditório. Uma sala enorme e moderna. Com acústica e visibilidade perfeitas. Anos luz a frente de qualquer outra sala na qual Marcos já tinha visitado antes. O palestrante, falando um inglês com forte sotaque alemão, explicou a todos do que se tratava a AOR e qual era a finalidade da empresa ali, na Índia.


Uma semana atrás:

O trabalho na AOR era puxado. Não raramente seus empregados tinham que trabalhar uma semana inteira sem folga. Algo que ninguém se quer cogitava em reclamar. Afinal todos tinham que justificar o alto salário que recebiam. Em um desses raros dias de folga, Marcos resolveu sair para passear na companhia de mais dois outros funcionários. Em sua estadia na Índia esses dois caras foram os que mais se enturmaram com ele. O americano David e o mexicano Hugo.

Em sua primeira parada o trio resolveu conhecer os bares da região. Eles tomaram algumas cervejas, com exceção de Marcos. Que preferiu beber refrigerante, pois detestou a cerveja local. Tinha gosto de xá na opinião dele. Após saírem do bar eles foram andando pelas ruas sem destino certo para conhecer a vida noturna de lá, o trio parecia um grupo de adolescentes (ou de bêbados). Fazendo piadas bobas com tudo e tentando xavecar as moças bonitas que passavam por perto. - Cara, é melhor parar com isso que esse povo daqui é meio sequelado com esse negócio de limpar a honra, viu. - Advertiu Hugo.

Nas andanças do grupo eles acabaram passando por um beco mal iluminado. David, que era o mais "bem nascido" de todos e por isso tinha medo de tudo, começou a imaginar mil coisas ruins que podiam acontecer com o trio ali. Desde serem assaltados até a serem sequestrados para trafico de órgãos. - C´mon, dude! Let´s get out of here!

- Wait a moment! - Marcos fez sinal para o trio parar. Alguma coisa estava chamando a atenção dele, mas ninguém sabia dizer o quê. Marcos foi até a porta de uma casa de show bem underground e falou com o homem que estava fazendo a segurança do local. Hugo e David ficaram sem entender porque Marcos estava perguntando qual som estava rolando lá dentro. - I don´t knew has Heavy Metal bands here!

- Do you like this? - Perguntou David com uma cara de estranhamento.

- What you think? Just because I'm Brazilian, I should like to samba? - Como os seus dois colegas estavam visivelmente desconfortáveis com o lugar, Marcos decidiu não entrar pra ver o show. Apesar disso não saiu de lá sem comprar um álbum do grupo que estava tocando. Uma banda de Metal Extremo chamada Demonic Ressurection.

Após, pro alivio de David, saírem do beco, o trio deu de cara com algo que mais parecia um circo de diversões. Agora foi a vez do americano ficar animado pra entrar e os outros dois não. - Now I ask you. Do you really like this? - Perguntou Marcos.

- Of Course. This is a . Dude, I don´t knew has vaudeville circus here to. - circos vaudeville eram muito comuns nos EUA entre as décadas de 1880 e 1930. Funcionava mais ou menos como uma feira de variedades. Brinquedos de parque de diversões como montanha russa, apresentações de equilibristas, comediantes, animais treinados, cantores, dançarinas... "circo dos horrores". Ainda hoje existe um ou outro circo Vaudeville nos EUA, mas estão bem longe de sua época de maior apelo popular. Encontrar um circo desse em um local como a Índia era estranho. Muito deslocado de seu contexto.

O circo estava quase vazio, tirando David, Hugo e Marcos, se houvesse dez visitantes ali era muito. Fazendo com que o desanimo de Hugo e Marcos aumentasse. Mas David não perdeu o interesse. Principalmente quando viu o circo dos horrores. O "circo dos horrores" era uma casa do interior que parecia saída de algum filme americano. Era pequena e mal iluminada. Seu interior não tinha os cômodos de uma casa normal, mas sim um monte de bizarrices. Como, por exemplo, um suposto feto em conserva, caveiras falsas, animais empalhados, tarós e outras tranqueiras místicas que seriam muito impressionantes se você fosse alguém do século XIX sem muito acesso a informação.

- Outstanding. - Disse Marcos de forma irônica.

Enquanto Hugo e David estavam em outra parte da casa vendo outras coisas, Marcos sentiu curiosidade ao ver o que parecia ser uma caixa do tamanho de uma televisão coberta por um pano sujo e desbotado. - AAAAHHHH! - Hugo e David se assustaram com o grito de seu amigo. Foram correndo ver o que tinha acontecido. Estavam preocupados. Depois ficaram aterrorizados quando descobriram qual foi o motivo do pânico de Marcos.

O pano escondia o que parecia ser uma gaiola. Mas dentro dessa gaiola não havia nenhum pássaro ou qualquer outro bichinho de estimação. O animal preso era um ser humano. Alias, parecia ser um ser humano. Parecia ser uma criança, mas sua pele era acinzentada e ele possuía orelhas compridas e um rosto feroz. Rosnava muito também. Não usava uma peça de roupa sequer. Se aquilo não fosse um bicho estava sendo tratado como tal.

- What is that? - Perguntou David.

- Is... My Gosh! I think that is a kid! - Disse Marcos.

O trio começou a debater sobre qual atitude deveriam ter em relação ao guri. Quando chegaram a um veredito, Hugo discou para a polícia de seu celular enquanto Marcos ficou tentando abrir a gaiola. Como não tinha a chave, o psicólogo achou por bem improvisar com as ferramentas que tinha ao seu alcance. De tanto mexer na fechadura com o que parecia ser um osso, Marcos finalmente conseguiu abri-la. - AAAAAHHHH! - O segundo grito de Marcos não foi de susto, mas sim de dor. O menino esquisito ao sair da gaiola deu uma bela de uma mordida no ante-braço de Marcos. Após o ataque, o menino saiu em disparado sem que ninguém conseguisse ver seu destino.

- Marcos, you are bleeding. - Constatou David muito assustado. Marcos tentou segurar sua ferida com a camisa. Ele sangrava muito. Por causa disso mal conseguiu dar cinco passos. Sua visão começou a ficar turva e em menos de um minuto o mundo a sua volta pareceu ter desaparecido. Por ter perdido seus sentidos, Marcos teve que ser levado dali por seus amigos.

Marcos foi levado em uma ambulância para o hospital mais equipado da área. A polícia, que havia sido chamada momentos antes, conversou com Hugo e David. Ficaram bem impressionados quando ouviram o policial dizer que não havia circo na cidade já fazia muitos meses. Quanto mais um circo nos padrões americanos.

Os médicos e enfermeiros que cuidaram de Marcos, a primeira vista, ficaram impressionados quando souberam que aquela mordida foi causada por uma criança. Mas depois que realizarem um exame toxicológico em Marcos duvidaram disso de forma veemente. - The bit was poisonous. - Disse um dos médicos.

- How is it possible? - Perguntou David.

- I don´t know. A kid do this? Are you sure?

- Of course!

Marcos ficou desacordado quase que a semana inteira. Raramente abria os olhos e ficava a par de alguma coisa que estava acontecendo. Ele perdia e recuperava sua consciência muitas vezes. Algo que os médicos achavam muito preocupante.


Hoje:

Depois de uma semana na dúvida se sobreviveria ou não, Marcos se recuperou surpreendentemente bem. O tal veneno que os médicos encontraram no seu sangue parecia ter se esvaído. O psicólogo estava novo em folha e, de quebra, ainda ganhou uma boa indenização da empresa por acidente de trabalho. Após o período de um mês e meio ele já havia sido liberado e teve permissão de voltar para sua casa, no Brasil.

Como os outros colegas da AOR tinham voltado antes dele, Marcos teve que viajar não em um avião fretado, mas sim em um vôo comercial convencional. Antes de pegar o avião, Marcos ligava várias vezes pra sua esposa que ficou muito preocupada quando soube de seu acidente.

Após embarcar, Marcos se sentou próximo a uma das janelas e ficou relaxando ouvindo o CD, no fone de ouvido claro, que havia comprado na Índia. Embalado pelo som do Metal Extremo, Marcos acabou se esquecendo de todos os seus problemas.

A viagem era em escala. Logo Marcos tinha que desembarcar em um país totalmente diferente, pegar outro avião e só aí ir para o Brasil. Alguns minutos antes da primeira parada Marcos começou a sentir uma forte dor no local onde havia recebido a mordida. Mas, de início ignorou a dor, só dando mais atenção a ela quando já estava dentro do outro avião. Algumas horas depois, quando o vôo já estava em território nacional, faltando apenas alguns minutos para desembarcar a dor voltou com tudo. Na tentativa de se recuperar um pouco, o psicólogo foi até o banheiro pra pelo menos lavar o rosto. Tomou um susto quando, olhando pelo espelho, percebeu que seus dentes começaram a ficar estranhamente pontudos. Ao olhar pro seu braço ele percebeu também que seus pelos estavam crescendo de forma não natural. - O que está acontecendo comigo? - Se perguntava.

Não tendo mais nada pra fazer, Marcos voltou pro seu acento e ficou recostado rezando para que o que for que esteja acontecendo com ele parasse. Uma aeromoça que passava por ele notou que ele não estava se sentindo bem. - Algum problema, senhor? Quer que eu traga um copo de água?

- Água? Água não serve! – Disse Marcos que de tanta dor não conseguiu se controlar e praticamente gritou usando um tom bem agressivo. – Preciso de algum remédio calmante, de preferência a base de benzodiazepínicos. Brozepax, Lorax, Psicosedim, Olcadiul... Se quer mesmo me ajudar pegue o que encontrar e traga pra mim.

- Senhor, acho que não posso...

- AARGH! – Marcos deu um berro de dor, chamando a atenção de todos os outros passageiros que estavam a sua volta. Muitos estavam assustados, alguns poucos achavam aquele "barraco" interessante. Algo pra quebrar a monotonia da viagem. – AARGHH! Está começando! - Falou o psicólogo se referindo a forte pontada no braço que volta e meia aparecia.

- Senhor! O quê...?

- Sai da frente!

Marcos de forma histérica levantou-se abruptamente da cadeira, empurrou com brutalidade a aeromoça para fora de seu caminho e saiu correndo em disparada ao banheiro. Se trancando lá dentro.

Enquanto os demais passageiros ficavam cochichando sobre a atitude do neurótico, a aeromoça chama suas colegas e o comissário de bordo para tentar tirar Marcos do banheiro. Muitos argumentos são usados para convence-lo a sair de lá, mas nenhum parece ter surtido efeito.

- Senhor. – Dizia o comissário. – Qualquer que seja o problema que o senhor esteja passando, nós...

-AAAAARRRRGHHH! – O uivo de dor de Marcos interrompeu a fala do comissário. Todo mundo ficou sério. Assustados. Preocupados. - Será que esse homem pode se tornar perigoso? - Era o que mais se perguntavam.

Marcos estava se contorcendo de dor dentro daquele banheiro. Não estava nem um pouco preocupado com o que estava acontecendo do lado de fora de lá. Só queria fazer com que a dor parasse. Mas, pro seu azar, sua dor acabou se tornando o menor de seus problemas.

Seu corpo estava mudando. Ele cresceu um pouco, seu corpo ficou coberto de pelos, seus dentes ficaram pontiagudos e ameaçadores. Isso sem contar com as unhas que agora viraram verdadeiras garras. O rosto de Marcos agora estava só vagamente semelhante com alguma coisa humana. Ganhando um aspecto meio canino.

BLAMMM!

Marcos sai de dentro do banheiro abrindo a porta com tanta violência que quase chegou a ponto de arrancá-la. Ele não era mais ele, estava convertido em um monstro peludo de quase dois metros de altura. Seus olhos vermelhos e dentes pontiagudos eram por demais assustadores.

- AAAAHHHHH! – Todos os passageiros que viram o Marcos/monstro berraram de medo. A criatura, em resposta, dá um uivo. Um uivo estridente e agudo.


(continua em Hungry Like the Wolf)