Atualizada em 09/11/2009

Tema 86 - Silogismo

-Acredito que seja um presente interessante. –comentou Fuery rindo do companheiro que carregava em mãos algo muito semelhante a um calendário de tamanho bastante pequeno.

-Não vejo graça. –Jean comentou largando o objeto em cima da mesa com mal humor. Lançou um olhar desgostoso ao homem de cabelos negros que estava sentado em sua mesa. Era Roy, e ele sustentava um sorriso cínico na face enquanto todos os homens da sala riam do loiro.

Apenas Riza parecia não ter gostado muito da brincadeira, ainda que aquilo fosse muito comum.

-Mas você precisa de um vocabulário melhor, segundo tenente. –Roy pronunciou em tom de quem não aceitava réplica. –Preciso demonstrar competência e ter um subordinado que escreve mal só indica minha falta de capacidade em treinar meus homens.

-Só indica que estão contratando analfabetos para o serviço militar. –Comentou Breda dando um tapa no ombro do amigo em sinal de camaradagem.

Riza levantou os olhos do papel que lia para observar o grupo que parecia não querer voltar ao trabalho tão pronto. Suspirou pousando a caneta, que utilizava para fazer algumas notas na folha, em cima de sua mesa.

-Coronel, foi bastante indelicado da sua parte fazê-lo em público. Demonstra uma atitude de humilhar seu subordinado direto, o que não condiz com o líder que deveria ser. –Riza comentou chamando a atenção do moreno, que apenas largou o corpo na cadeira sabendo quais palavras ouviria a seguir. –Voltem ao trabalho.

-Mas antes! –Roy exclamou com um sorriso um tanto quanto calculista na face. Esperava que seu plano desse certo, mas para isso precisava contar com a falta de léxico de Havoc. –Porque não aproveita o presente e lê a palavra do seu dia?

Jean ergueu uma única sobrancelha enquanto puxou o objeto para perto de si. Era um pequeno bloco de folhas com uma espiral, além disso, cada página possuía uma palavra diferente. O loiro revirou os olhos ao ler o primeiro vocábulo e Roy percebeu que seu plano estava seguindo o rumo correto.

Roy permaneceu calado esperando que qualquer um dos seus subordinados fizesse a pergunta que ele tentava, com todas as suas forças, não pronunciar, afinal, precisava fingir que aquilo tudo era muito natural.

-Então, qual é a palavra? –Falman questionou fazendo o loiro contorcer a face em desgosto.

-Silogismo. –concluiu Breda ao lançar um olhar ao objeto nas mãos do companheiro. –Mas a pergunta, Falman, é se ele sabe o que significa!

Pelo silêncio do loiro, que tentou voltar ao próprio trabalho, eles inferiram que Jean não sabia o que queria dizer.

-Então deixe que eu explico. –Roy novamente se pronunciou. –Silogismo é tirar uma conclusão a partir de duas premissas, uma maior e geral, por meio de outra menor e particular. –Fez uma pausa e lançou um olhar à loira recebendo em troca uma repreensão. –Hawkeye, porque não exemplifica para deixar claro?

Riza nada comentou de início, tomou a caneta da mesa entre os dedos e a encostou no queixo como se pensasse no que fazer. Com um sorriso um tanto quanto misterioso ela voltou-se para Jean.

-Premissa maior: Pessoas que não fazem o próprio trabalho são irresponsáveis. –pausou por breves segundos. –Premissa menor: O Coronel Mustang não faz seu próprio trabalho. Logo, a conclusão tirada é que o Coronel Mustang é irresponsável.

Riza voltou o seu olhar ao relatório que lia, sabendo que conseguira atingir o superior com aquelas palavras. Roy arregalou os olhos ao ouvir as palavras que saíram da boca da mulher e jogou as mãos à própria face como se não conseguisse entender o motivo daquele ataque pessoal.

Contudo logo recuperou sua posição de superior de modo a retomar o plano iniciado. Curvou seu corpo, debruçando-se sobre a mesa e apoiando-se com as mãos em uma típica atitude agressiva.

Ignorava as gargalhadas por parte de seus companheiros que pareciam se divertir mais a cada segundo.

-Acho que você não foi muito clara, Tenente Hawkeye. –Roy pronunciou ao observá-la já absorta em seu trabalho. Riza novamente ergueu a face para observá-lo, ainda que de maneira ligeiramente mais aborrecida.

-Porque não exemplifica o senhor? –Ela perguntou voltando ao trabalho e deixando que o superior continuasse com sua sessão diária de brincadeiras de mau gosto.

-Eu já entendi o que significa. –Jean disparou querendo que aquilo terminasse em breve, mas Roy ignorou.

-Apenas para deixar mais clara a situação. Não queremos que você utilize alguma construção errada em seu relatório. –Percebeu o loiro revirar os olhos e deixar seu corpo pesar apoiado na cadeira. –Premissa maior: Mulheres, cedo ou tarde não resistem aos meus encantos.

Roy percebeu que Riza havia levantado os olhos ligeiramente para observar o que ele iria pronunciar. Aliás, o moreno percebeu que os outros ocupantes da sala perceberam exatamente o que iria acontecer ali, sabiam exatamente qual era o objetivo do Coronel ao começar aquela brincadeira.

Por um lado pareciam incrivelmente fascinados com o rumo que aquilo iria tomar, sabiam que Riza não ficaria calada diante da provocação do homem. Todavia temiam pela reação da loira, que poderia não ser das melhores.

-Premissa menor: -Roy pausou como se pensasse na construção da premissa. –Riza Hawkeye é uma mulher. Logo, a conclusão é Riza Hawkeye, cedo ou tarde, não resistirá aos meus encantos.

Riza lançou um olhar ao moreno como se o reprovasse por aquilo. Não sabia aonde ele queria chegar com aquelas brincadeiras infantis. Roy havia sido bastante discreto desde que começaram a sair, aliás, havia dois meses que aquilo ocorrera e ambos concordaram em permanecer em silêncio para que não atrapalhasse a vida profissional deles.

Contudo, naquele dia pela manhã, o moreno tentara convencê-la de que ao menos aos subordinados mais chegados aquilo deveria ser deixado claro. Ela negou e a resposta do moreno acabara por vir por meio daquele jogo de silogismos.

-Não sei se consegui entender direito. –Jean comentou fingindo não compreender o que fora dito. Só estava tentando fazer com que os dois chegassem ao limite de suas provocações.

-Obviamente! O coronel não sabe construir um bom silogismo. –Riza comentou como se aquela fosse uma das maiores verdades do mundo. –Preste bastante atenção, Havoc. Premissa maior: Irresponsáveis devem ser punidos severamente. –pausou dando tempo para que o loiro gravasse a frase. –Premissa menor: O Coronel Mustang é um irresponsável. Logo, O Coronel Mustang deve ser punido severamente.

Dito isso, a mulher ergueu uma das sobrancelhas em uma expressão desafiadora ao moreno, fazendo com que ele engolisse em seco diante da ameaça e voltasse sua atenção aos papéis por breves segundos. Rapidamente ele voltou a sorrir vitoriosamente esperando que Havoc pedisse mais um exemplo.

-Acho que estou pegando o jeito. –pronunciou o loiro fazendo com que os espectadores soltassem risadas abafadas.

-Porque não tenta construir uma estrutura dessas para ver se compreendeu mesmo? –Riza perguntou já farta daquela brincadeira, não queria dar a chance ao moreno de retrucar.

-Prefiro checar com mais um exemplo. –a loira suspirou fechando os olhos e passando a mão nos cabelos.

-Tenho uma. –Roy pronunciou em tom exasperado. –Premissa maior: Ameaças superficiais não me assustam. Premissa menor: A Tenente me fez uma ameaça vazia. Logo, a Tenente não me assusta.

O moreno observou as faces espantadas dos outros, mas nada disse, apenas observou a loira sorrir de maneira assustadora.

-Pois acho que não foi muito bem construído, Coronel. –a loira completou e ignorando qualquer tipo de discrição acerca do assunto em questão, o relacionamento entre os dois. –Premissa maior: Homens não vivem sem sexo. Premissa menor: Roy Mustang é homem. Logo, Roy Mustang não vive sem sexo.

-Acho que ele já entendeu, Tenente. –Roy pronunciou sabendo que aquela ameaça se concretizaria e, por longo tempo, ele ficaria em abstinência. O moreno deixou de lado a brincadeira e voltou ao relatório que lia antes de tudo aquilo começar.

A loira sorriu sabendo que novamente a paz havia sido restaurada naquele recinto, afinal, todos já haviam voltado a trabalhar.


Roy abriu a porta do carro, contudo não saiu do automóvel para entrar em sua casa. Virou sua face para a loira que se sentava ao banco do motorista.

-Então, daqui a duas na sua casa? –ele perguntou chamando a atenção da loira.

-Sim. –Riza pronunciou com um sorriso breve nos lábios.

-Pensei que fosse me punir com greve. –ele pronunciou tentando provocá-la, mas ela pouco se alterou. Apenas se inclinou levemente para colar os próprios lábios aos dele e sorriu ao se afastar.

-Pensei em uma forma mais criativa de punição. –pronunciou Riza fazendo surgir nos lábios dele um sorriso caracteristicamente sedutor.

-Acho que vou gostar disso. –e saiu do carro caminhando calmamente até sua porta. Abriu-a e entrou. Antes de fechá-la lançou um olhar à rua, Riza já havia partido. Com um sorriso largou a farda em cima do sofá, até que algumas punições não eram tão ruins.


Notas da Autora: Espero que tenham gostado, esse tema estava guardado há algum tempo no meu pc e eu nem lembrava dele. Acabei encontrando por acaso.

Achei que ficou um pouco diferente do que eu normalmente escrevo, mas ainda assim postei.

Para quem lê as outras fics minhas, em breve as atualizarei.

Deixem reviews, por favor.