Requiem

Tu-dum, tu-dum, tu-dum.

Ele gosta de ouvir as batidas do seu coração. É como uma melodia doce, suave e interminável. Ela não muda com o tempo, continua sempre igual, sempre a mesma, sempre tão perfeita.

E ele gosta.

(Oitenta-e-quatro-batidas-por-minuto, oitenta-e-quatro-sensações-diferentes-em-um-minuto, oitenta-e-quatro-modos-de-escutar-a-mesma-sinfonia.)

Ele costuma vir quando você já está deitado, geralmente adormecido. É sempre de noite, sempre no mesmo horário, tudo muito tétrico, tudo muito planejado. Não que ele seja uma pessoa perfeccionista, talvez, pensa você, ele nem chegue a planejar isso. Mas você é tolo, Miguel, e gosta de acreditar na inocência do seu irmão.

Não pensa que ele talvez queira as coisas desse jeito. Não pensa que ele talvez queira ficar mais com você. Porque é verdade mesmo, ele não quer. Tudo que ele quer, é estar próximo e escutar o seu coração, porque essa é a única melodia capaz de fazer com que Sétimo adormeça em paz.

"Será que posso ficar contigo esta noite, meu irmão?" Ele pergunta daquele jeito tão inocente e você se vê incapaz de negar. Sétimo é tão belo, tão perfeito. Seu irmão, seu querido irmãozinho. Você daria a vida para protegê-lo, Miguel.

"Claro. Venha cá." Sempre as mesmas palavras, sempre o mesmo modo gentil de ser. Será que nunca aprenderá que Sétimo é e sempre será um demônio? É a natureza dele, Miguel, por mais que você se recuse a aceitar. Ele nasceu assim.

E então ele sorri, tão inocente. Você nunca nota a ponta de malícia nos olhos claros dele. Nunca nota a maneira como ele deita a cabeça sobre seu peito e fecha os olhos. Nunca nota também que de oitenta-e-quatro vai para cento-e-trinta-e-cinco, porque você não nota nada quando Sétimo está com você.

Mas ele nota, ele nota tudo. Ele nota como você, timidamente, entrelaça os dedos aos dele e acaricia sua nuca e você já percebeu que ele nunca diz nada? Já percebeu que ele demora-para-dormir-mas-prefere-ficar-em-silêncio? Você já percebeu isso, ó, doce e amado Gentil?

É claro que não.

(A melodia lentamente se transforma. Ela acelera, mas nunca deixa de agradar os ouvidos de Sétimo. De oitenta-e-quatro para cento-e-trinta-e-cinco, para mais do que isso. Às vezes, parece que seu coração vai explodir)

E você não nota quando ele dorme, porque está perdido em pensamentos que não deveriam estar lá, porque irmãos não pensam nessas coisas, Miguel. Issoétãoerradoentãoparedepensareabraosolhos. Mas você não quer abrir os olhos. Não quer se desfazer

(do pecado)

daquela imagem que agora toma conta dos seus sonhos..dos sonhos...dos sonhos...

X

E, de repente, do branco se fez o negro. Era como um pincel tingindo o céu, arrancando-lhe as cores. O mundo iluminado era tomado pelas trevas e aquela melodia tão doce ia cessando aos poucos.

Tu-dum, tu-dum..tu..dum....

Parando lentamente, deixando de existir. Há frio, mas não há dor. Não, não naquele momento. Mas você está deixando tudo para trás, a vida está escorrendo pelos seus dedos. E você não quer, não deseja isso.

Um a um, todos caem, mas ele é o último.

Você o vê sofrendo, vê como sua vida vai se acabando e ele te encara com aqueles olhos que não são inocentes, mas você insiste em dizer que são.

"Sétimo, Sétimo." Você murmura, tenta alcançá-lo, mas por que tudo parece tão impossível e lento? A voz dele. Você a escuta uma última vez.

"Irmão..o que está a acontecer...?"

E então, do negro nasce o cinza. E tudo se transforma em névoa vermelha e sangue.

X

De cento-e-trinta-e-cinco passa para cento-e-cinquenta-e-oito. Você desperta com uma sensação de estranha náusea e sua boca tem gosto de sangue. Há algo estranho como o fato de você não conseguir se mover durante os primeiros dez segundos, mas associa isso ao fato de ter tido um sono conturbado.

E então, pela primeira vez, foca a visão e vê os olhos claros dele te encarando. Aqueles olhos inocentes (será que você nunca enxergará a verdade, Gentil? Será que é tão tolo assim?) tão próximos, tão perigosamente próximos. E a respiração. Você nunca notou como a respiração de Sétimo era quente, não é?

Os lábios deles se entreabrem, como se quisesse proferir alguma palavra que jamais os abandonou. Foram tomadas dele, e aquilo era tão errado e tão nojento, Miguel. Mas, pela primeira vez, você deixou de ser Gentil para ser egoísta. Tocou aqueles lábios doces do veneno mais letal. O veneno do pecado.

(Cento-e-cinquenta-e-oito-se-tornando-mais. Cento-e-cinquenta-e-oito-que-vira-cento-e-noventa-duzentos-mil-um-milhão. Parece que seu coração não vai suportar)

E ele sorri. Sorri, mas você não vê porque-fecha-os-olhos-para-o-pecadoperdição-que-está-cometendo. Fecha os olhos para não ver ele tornar-se o monstro que sempre foi. Porque viver é sempre mais fácil quando de olhos fechados. É melhor ser cego do que ver uma verdade tão dolorosa.

E você não vê. E ele ri.

Você toca a face branca e afasta uma mecha loira que insiste em cair sobre os olhos dele. Pensa que talvez Sétimo possa lhe odiar agora—e com razão. Está pronto para se desculpar, (pronto para pedir perdão se for necessário, porque tudo o que você não quer é ficar longe do seu querido e amado irmão), mas se surpreende com a malícia que nunca enxergou—que nunca quis enxergar—ao sentir a pressão dos lábios dele novamente.

(Mais rápido, mais rápido; ele não vai parar. E essa melodia é tão boa quanto a outra, tu sabes, meu irmão?)

E o que acontece a seguir, é apenas conseqüência. Você se sente—e está—dominado por aquele olhar. Agora você vê, Miguel? Pode enxergar a malícia que o cerca—que sempre o cercou? Sabe que sim, mas não quer admitir. Prefere pensar que suas mãos correm pelo corpo dele por vontade própria. Prefere pensar que aquela volúpia está presente apenas no seu desejo e que ele nada tem haver com isto. Prefere pensar que a culpa é sua, que o pecado é seu. Porque Sétimo é inocente. E sempre será.

(Pulse, pulse, pulse. Continue com a melodia. Seiscentos-mil-batimentos-por-segundo. Não pare jamais)

X

Mas agora não há mais vida. Não há mais melodia, não há mais som. Mais nada. É apenas o vazio-frio que não pulsa em seu peito. É apenas a sensação de não-vida que te consome a cada dia. A escuridão do seu sonho. E ele não suporta isso, porque ele deseja tanto aquela melodia. Ele quer ouvi-la mais uma vez e coloca, insistentemente, a cabeça em seu peito.

(Mas não há mais nada. Nem mesmo um único batimento, nem respiração. É nada, é morte)

"Tu já não tens mais aquela melodia, Miguel." Sétimo diz e, pela primeira vez, você enxerga aquela maldade perscrutada em seus olhos claros. Cada dia mais ele se parece com um demônio, porque ele busca por aquela sensação, por aquela música.

E você quer dizer algo, quer dizer qualquer coisa que o impeça de ir naquela noite novamente. Mas ele apenas sorri, os caninos mais afiados do que de costume. E te beija. E só então você nota que aquela volúpia não era só sua, mas talvez mais dele do que sua. Talvez só dele. E então ele parte com aquele sorriso cruel. O sorriso de quem já matou e não se arrepende. O sorriso de quem se diverte com isso. Será que agora você pode ver, ó, Gentil, quão cruel é a tua cria?

Mas quando você bebe sangue, quando o bebe, ele te procura.

(Trinta-e-seis-batimentos-aumentando-gradativamente-e-se-tornando-oitenta-e-quatro. Oitenta-e-quatro-que-se-transformam-em-cento-e-trinta-e-cinco-cento-e-cinqüenta-e-oito-e-continua-aumentando)

E, nesses momentos, ele te deseja mais do que tudo. São rápidos, são efêmeros demais. Então é só luxúria e desejo de escutar aquele som que o movem. Ele não tem pudor, Miguel, mas você não se importa. Não se importa de ser usado por seu irmão se ele estiver bem. Não se importa com os caninos afiados deslizando sobre seu pescoço, mordendo seus lábios e nem mesmo com as unhas que marcam sua pele tão branca. Ele quer que saibam, Gentil, e você não consegue se importar.

(Pulse, pulse mais um pouco. Deixe-me viver para estar com Sétimo. Deixe-me ficar com o meu irmãozinho...apenas um pouco...apenas...para sempre)

É o que você deseja, não é? Mas nada é para sempre, meu tolo vampiro. Nem mesmo a sua eternidade, nem mesmo a luz ou a escuridão. Algum dia, tudo se apaga. Mas Sétimo não, pensa você. Seu irmão será eternamente belo, eternamente jovem. Eternamente seu dono. Porque você, Miguel, vive apenas para ele e por ele.

Tu dum, tu dum...tu..dum..t..u..dum..

(Parando lentamente, deixando novamente de pulsar. Cento-cinquenta-e-oito-centro-e-trinta-e-cinco-oitenta-e-quatro-trinta-e-seis)

Ele não te olha.

Apenas se ergue e veste as roupas, caminhando na direção da porta. Você encara as costas dele; Sétimo não mudou nada. Nem mesmo um ano, nem mesmo um segundo se passou desde que foram amaldiçoados.

"Tu consegues dormir sem mim?" Você pergunta, porque você é inocente, Miguel. E nesse momento, só nesse momento, Sétimo sorri para você com aquela doçura de antes.

"Não." Ele responde, tão sincero. "Mas já não me importa mais dormir, irmão. Só quero me divertir." E, mais uma vez, a crueldade toma conta de sua expressão.

Ele te abandona.

Você leva uma das mãos ao peito e aperta-o com força.

T...u..d..u..m.

Mas você está morto.

(Zero)

A sua melodia não existe mais.


N/A:

Eu poderia começar isso de muitas maneiras, mas acho que a mais correta é dizendo que eu amo você. Amo, amo mais do que tudo o seu jeito um pouco afobado, um pouco explosivo, um pouco somente seu de ser. Amo as nossas conversas, o jeito como nos tratamos e até mesmo as nossas brigas sem sentido que sempre acabam se resolvendo.

Eu amo você.

E eu pensei em tantos casais que poderiam expressar isso. Eu pensei em LxOC, mas achei que não. Que seria melhor tentar algo novo, algo diferente e um pouco mais ousado. Algo com nossos queridinhos.

E eu sei que essa fic não é metade do que você merece ou do que eu ganhei, mas não importa. Ela foi feita com todo o meu amor, dedicação e empenho. Como eu te disse, literalmente, de coração.

Eu podia dizer mais coisas, mas acho que você sabe o quanto eu te amo. Então eu só tenho mais uma palavra:

Abracadabra.

Eu desejo toda a magia do mundo para você. Porque o meu coração você já tem.