Capítulo 1: "Que espécie de homem é o homem que não faz o mundo melhor?"

*100 anos após o exército cristão europeu tomar Jerusalém, a Europa sofre com repressão e pobreza. Senhores e servos fogem para a Terra Santa, à procura de riqueza ou salvação. Um cavaleiro volta para casa à procura de seu filho, na França de 1184. *

"O céu azul escuro, quase cinzento, confundia-se com os cerros azuis na linha do horizonte. Nuvens carregadas e escuras tornavam a paisagem mais triste e melancólica. Entretanto aquela era a minha paisagem. O meu lar. O céu da minha terra, o teto da minha vila, o abraço da natureza no rincão onde fui criado. Mais adiante, o castelo do nobre ao qual eu e minha família servimos. Nada me fala mais ao espírito do que a silhueta imponente de suas altas torres. Sinto-me de repente jovem novamente. Cheio de esperanças, energia, sonhos, confiança, e uma fé inabalável em mim mesmo e nas minhas habilidades de cavaleiro. Meus pais há muito morreram, restando apenas alguns parentes de segundo grau, que ainda vivem por essas bandas, muito bem segundo me disseram. O Nobre ao qual servi grande parte de minha vida, sagrou-me cavaleiro cruzado. Enviando-me para a guerra santa, no berço e local de martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Meu nome é Godfrey, sou barão de Ibelin. Após muitos anos de lutas, perdas, conquistas e fracassos, estou de volta à terra em que nasci, com uma missão pessoal. Conhecer e trazer para o meu lado, o filho que nunca reconheci. Disseram-me que é honrado e justo. Isso me basta para amá-lo como meu legítimo herdeiro e perpetuador de minha linhagem. Nunca me casei com sua mãe. Ela foi uma paixão de primavera, intensa, romântica, irresistível. Já estava casada quando a conheci. Não pudemos evitar o que se sucedeu. Ela era tão bonita e cheia de vida. Nós nos amamos à primeira vista. Eu então era o cavaleiro viril, recém sagrado, ávido para provar meu valor ao mundo. Foi entre montes de feno e palha, com o ar carregado de flores e polens, como agora, que ela me amou e se deixou ser amada. Não havia pecado no que fazíamos, nem era eu um conquistador barato, nem era ela uma mulher lasciva. O que sentíamos um pelo outro era puro e imaculado, como o amor entre anjos, se acaso anjos se amassem.

Soube mais tarde que ela estava grávida. Pelas contas percebi que o filho era meu. Não quis lhe causar problemas, ou indispô-la com seu marido e sua família, por isso me afastei. Ela sempre ocupou um lugar especial no meu coração, mas não foi a única. Conheci muitas outras mulheres, mas nenhuma que me amasse tanto ou que se entregasse sem reservas ou exigências, como ela. A mãe de meu único filho. Espero em Deus que ele me perdoe por nunca tê-lo procurado antes, e por não ter proporcionado uma vida mais confortável à sua mãe. Fiz isso pelo bem de todos, mais por ela, para não ser acusada de adultério, e por ele para não ser chamado de bastardo. Darei a ele tudo que precisar e quiser, contudo, por ora apenas lhe oferecerei me acompanhar de volta à Jerusalém, onde fica Ibelin, um pedaço de terra árido e desprovido de beleza, mas inteiramente meu, e será dele por herança.

Nesta minha busca estou acompanhado por meus fiéis escudeiros e amigos leais: Firuz e Odo, guerreiros, Phillip o batedor e David, um cavaleiro hospitalar. Durante nosso trajeto encontramos um pequeno funeral. Uma jovem muito bonita estava sendo enterrada. Sinto que nestes dias a morte é a única certeza que temos. A vida dos aldeãos não mudou muito desde a última vez em que por aqui estive. Logo mais estarei diante de meu filho e ele decidirá seu futuro. Espero que pelo sossego de minha consciência, ele escolha me acompanhar, mas eu realmente não sei como reagirá. Alguns homens de bem pegariam em espadas, para lavar a honra de sua mãe em sangue, mas penso que se ele herdou minha índole será mais compreensivo. Mais adiante chegamos à casa de um ferreiro. Os cavalos precisam de reparos em suas ferraduras, e nós precisamos de comida e descanso."

_O ferreiro é o homem que você procura. Seu nome é Balian. Mas saiba que ele está de luto. O enterro que nós cruzamos na encruzilhada, era da esposa dele. A criança deles morreu. Ela estava passada de tristeza e matou a si mesma.

_Você ainda aconselha o que me disse na estrada? Que eu me revele como seu pai e o convide a me acompanhar?

_Sim, meu senhor.

Balian estava muito ocupado, ferrando os cavalos dos cruzados. Seu jovem aprendiz, sempre de nariz escorrendo, fazia o que podia para dar conta do serviço. Parecia que com a morte recente da esposa de seu mestre, ele adquirira uma fome de trabalho inesgotável. Era quase imoral trabalhar tanto assim, após a perda de seu filho e de sua esposa, tão fresca na memória. As pessoas normais choram dias e dias, até que o defunto esteja em paz no paraíso. As pessoas na aldeia falavam que a senhora defunta não poderia atravessar os portões do céu, pois cometera suicídio. Deus sabe como é a mente e o coração das mães. Eles são fortes e cheios de amor, até que perdem seus filhos. Aí se tornam recipientes da mais avassaladora e comovente das dores que existem no mundo. É um sofrimento tão grande que aquela jovem mãe não agüentou, preferindo dar adeus à felicidade na terra para sofrer as dores do inferno. São loucas mulheres abnegadas e destroçadas.

Havia uma pequena tabuleta no teto com os dizeres: "Que espécie de homem é o homem que não faz o mundo melhor?" Ela dizia bem que espécie de homem era Balian. Um trabalhador, íntegro e consciencioso de seus deveres. Um homem bom e compadecido. Acima de tudo apaixonado por sua esposa e seu filhinho. Ele não dava importância à riqueza, prestígio, regalias e posses. Ele era um ferreiro e tinha orgulho disso. Não era irascível, nem falastrão. Preferia observar e aprender. Era um homem de atos, não de palavras. Seu irmão Michael, o pároco local, era o maior interessado em posses e riquezas, mas como pertencia à igreja, então tudo lhe era perdoado. Na sua dor, após a perda de seu filho e sua mulher, Balian ficara agradecido quando seu irmão se dispôs a providenciar o enterro. Ele não suportaria enterrar sua adorada esposa. Sofrera um abalo muito grande ao encontrá-la morta. Ele não conseguira prendê-la à vida e ao seu amor. Por isso agarrava-se ao trabalho, para ocupar mãos e mente. E dessa forma encontrar paz.

_Eu conheci sua mãe. - Godfrey de Ibelin aproximou-se de Balian disposto a revelar-lhe tudo. - Para ser cortês, eu deveria dizer que isso foi contra suas objeções, mas eu não a forcei. Eu a amei no meu jeito. Balian, eu sou seu pai. Eu tenho que pedir perdão a você.

Balian ficou comovido com o que escutou. Ele não odiava o homem a sua frente, que lhe revelou que era um filho bastardo, mas não havia nada que quisesse falar com aquele homem, um perfeito estranho na sua vida.

_Eu sou Godfrey, o barão de Ibelin. Eu tenho 100 homens em Jerusalém. Se você vier comigo, você terá uma nova vida e meus agradecimentos. É isso. - O barão de Ibelin nunca imaginou que isso pudesse ser tão difícil: aproximar-se do próprio filho.

_Seja lá quem seja, meu senhor, meu lugar é aqui. - Balian falou o mais calmo que conseguiu. Sabia que estava dizendo não ao próprio pai.

_O que fazia deste o seu lugar, está agora morto. - Godfrey de Ibelin entendia muito de morte e de perda de entes queridos. - Você nunca mais me verá novamente. Se quiser algo de mim, peça agora.

_Eu não quero nada.

_Sinto muito pelos seus problemas. Deus te proteja. - Godfrey viera atrás de um descendente, a prova viva de seu amor verdadeiro, entretanto nada conseguira. Não levaria nada consigo, somente a lembrança do fracasso em conseguir o amor de seu filho. - Jerusalém é fácil de encontrar. Siga até onde falam italiano, depois continue até onde falam outra língua. Nós vamos por Messina. Adeus.

Então o pai de Balian retirou-se de sua presença e de sua vida.

Fim do Capítulo