The curse

Capítulo 17 - Noite de provações

TenTen disparou mais seis vezes, seguindo diferentes direções conforme sua visão a guiava. O vulto movia-se numa velocidade impressionante, ainda que ela também estivesse bem acima do que olhos humanos pudessem acompanhar.

Certamente que humano, aquilo não era.

No momento não podia parar e arriscar um palpite. A rápida troca de refúgio de uma das montanhas de tralha para outra nos limites do ferro velho foi sua única opção quando precisou recarregar a pistola; matinha-se em constante movimento, para escapar da agilidade incomum dos ataques de Kiba enquanto se armava para revidar.

Procurou por ele e só viu o cachorro branco, o mesmo que quase a matou de susto quando entrou no casebre. O animal parecia entreter-se com o perrengue que ela passava para fugir do tal Inuzuka. Em momento algum mostrou-se interessado em atacá-la, estava até comportado demais. Quieto, mas sem perdê-la de vista.

TenTen deixou de lado o mascote de Kiba. Seu alvo era outro, o qual se mantinha oculto como se lhe desse generosamente os minutos que ela precisava para se recuperar. TenTen ainda não sabia se isso era bom ou ruim; os golpes que Kiba acertou estavam incomodando, fazendo a pele arder, demorando para cicatrizar mais do que o normal. Sua pele e roupas exibiam rasgos, resultado das unhadas recebidas, até então única arma usada pelo inimigo. Apesar de inúmeras, ela ainda não acreditava como tão pouco conseguiu lhe pôr freios.

"Isso é ridículo! Eu com um uma mira perfeita ainda não consegui fazer um furo sequer nele, mas tô toda lanhada, quase uma recém saída de briga de mulherzinha."

Atacar diretamente não estava lhe dando vantagem alguma, Kiba era muito rápido e após uma sequência de golpes, se escondia. Por melhor que fossem seus reflexos ela não conseguia se concentrar e descobrir seu paradeiro até que ele atacava novamente. Era um ciclo, feito para testar sua resistência, e a paciência também. Kiba não queria matá-la, longe disso. Só que, nesse passo, logo ela estaria sem munição.

- Cheiro você, gatinha...

De onde estava, a tenente vasculhou cuidadosamente o amplo terreno - Apareça, Inuzuka!

- Ué, achei que precisasse tomar fôlego! - ele respondeu de volta, a voz vinha da esquerda - Parece ser do tipo que se cansa fácil, apesar do que é - desta vez, o som veio do alto, à direita de onde ela estava.

"Droga!" - Não era cansaço o que a perturbava, mas o momento inoportuno em que sua peculiar sede resolveu se manifestar. A raiva devia provocar esses efeitos. Se não tivesse Neji nos calcanhares a noite toda poderia sair e caçar quando bem entendesse. Mas o Hyuuga, apesar da tensão entre eles, não a deixou sozinha tempo o bastante para isso. Fizeram a ronda noturna juntos e então receberam a tarefa de ir ao ferro velho. O cretino só sumiu agora, depois de jogá-la aos leões. Ou cachorros, para ser mais específica.

- Já podemos voltar à brincadeira? - perguntou Kiba, de outro ponto diferente.

"Pensa, TenTen. Bota essa cabeça pra funcionar, e rápido! "

O Inuzuka continuava lhe vigiando, mas permanecia em movimento, infelizmente. De arma em punho, o dedo no gatilho, TenTen precisava de um meio para fazê-lo sair das sombras. Tinha que haver um jeito de pegá-lo, armar um cenário favorável à ela, antes que a disparidade entre ambos ficasse maior.

Recostada no monte de entulho fedorento, ela elaborou um plano.

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Em menos de dez minutos os joguinhos do celular eram a coisa mais entediante do universo. Seriam, outrora, um passatempo muito mais eficaz caso a "Dona Curiosidade" não estivesse martelando de maneira insistente a cabeça da Yamanaka. Tanto segredo, misturado ao problema que ela sabia que a amiga encontraria dentro daquele clube de última categoria, eram motivos mais do que suficientes para que Ino julgasse ser obrigação fazer algo à respeito.

Ok, ela tinha um abacaxi de coroa dupla pra descascar. Não só estaria indo contra a vontade da amiga como também desobedecendo uma ordem. Se ainda estava ali fora era mais porque o dever a obrigava do que por não querer desapontar Sakura. Só que não esperaria uma permissão chegar de repente quando sentia que o perigo rondava aquele lugar. Se sua intuição nunca falhava, porque não lhe daria créditos mais essa vez?

"À merda com tantas dúvidas!"

Ino checou a munição e a bateria do celular, ao passo que vigiava cada um que entrava e saía do local enquanto se aprontava para sua entrada triunfal. Se podia distinguir a diferença, então eram do tipo mais idiota possível. Do tipo que morria rápido e fácil. Sabia que vampiros mais espertos não se exibiriam onde fosse fácil encontrá-los.

Talvez tivesse que flertar com algum segurança e isso requeria medidas desesperadas, com puxar para baixo o já indecoroso decote e retocar o chamativo batom cor de vinho. Seria o passo à seguir, caso não tivesse reconhecido num dos recém chegados o seu visto praquele inferninho.

"Olha, até que mudando de estilo ele não é de se jogar fora..." - mais animada, a Yamanaka apressou o passo em cima das botas para saudar o seu ainda não ciente acompanhante, mas o que testemunhou a deixou congelada no meio do caminho, esperando que não a tivessem notado.

Quando o ruivo alvejou de balas o segurança e tanto ele quanto seu irmão passaram pelo morto sem nem olhar pra trás, ela viu que as coisas ali não seriam tão otimistas conforme planejava.

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- Ai! Assim vai me deixar todo marcado!

Nara Shikamaru foi posto porta adentro do quarto de motel de uma maneira atípica, diferente do que comumente se vê em duas pessoas ansiosas por um bom sexo. Decidiu então se rebelar e mandou aquela reclamação verbal, ainda com o braço ardendo. Esse foi seu segundo maior erro naquela noite.

A chicotada seguinte atingiu, sem dó nem piedade, um bom pedaço do seu bumbum, tanto que o fez saltar e alisar vigorosamente a área castigada pela dor. E também o fez pensar novamente se valia à pena arriscar-se tanto por uma mulher.

Bom, talvez valesse, pois seu pai havia lhe ensinado que todas as mulheres do mundo são complicadas, na mesma proporção em que são apaixonantes. São problemas inevitáveis e que os homens adoram. Partindo desse princípio ele devia estar mesmo com os quatro pneus arriados pela problemática perita, ou não acharia extremamente excitante que uma mulher lhe sorrisse de forma tão cruel enquanto segurava uma arma sadomasoquista na mão, pensando em qual lugar do seu corpo usaria como próximo alvo.

- Você gosta - Temari o calou, passando a ponta emborrachada do chicote sobre os lábios do "noivo" numa clara ameaça, suficiente para emudecê-lo - Te disse que não gosto de surpresas. Não gostei do que fez e vai ser punido por isso - ao falar, observou que a cada passo seu, o Nara recuava outro. O fez até que ele tivesse a cama redonda atrás de seus joelhos e o empurrou contra o macio colchão.

"Ela é maluca!" - Shikamaru entregou os pontos quando a loira subiu nele, munida agora com um par de algemas revestidas por uma penugem vermelha. Só teria as pernas pra se defender, mas não faria isso. Sua "noiva" tinha predileção por práticas BDSM, embora ele estivesse muito mais aliviado de ela não ser do tipo radical desse povo.

Volta e meia ela aparecia com alguma idéia mirabolante; Temari tinha seus gostos excêntricos e ele se chamaria de idiota se não admitisse que gostava do resultado final. Fugia do convencional e o melhor é que não tinha que ser ele à pensar em novidades para apimentar a relação. Seria cansativo pensar nisso.

E mais, se estava pagando por tê-la surpreendido naquela estação de trem, tudo bem. Desde que terminasse com ela montada nele... Estava bem sem precisar mover nenhum músculo além "daquele que pensava sozinho".

Assim que ela se deu por satisfeita na tarefa de imobilizá-lo e abrir sua camisa, o chicote voltou à cena. A ponta alisou a pele firme do abdome, segundos depois explodiu num violento açoite, arrancando bem mais do que um gemido seu.

- Quem disse que podia se intitular meu noivo? - Temari perguntou, fazendo o chicote percorrer o caminho desde o pescoço de Shikamaru até uma área extremamente sensível e saliente. O homem tremeu. O sorriso sádico voltou à boca dela. Mesmo temeroso, ela sabia que ele lhe daria uma resposta. Era o que mais gostava, dele não ser mais um babaca submisso perante ela.

- Seu irmão pareceu satisfeito por saber que a irmã dele vai desencalhar - Shikamaru a provocou. A opinião do tal Gaara não ficou muito clara pra ele, mas também, o sujeito era do tipo de poucas palavras. Não importava. No momento a única coisa que continuava a atrair sua atenção eram as coxas apetitosas de Temari, grossas na medida, bem visíveis graças às fendas laterais da saia longa que vestia. As mãos dele começaram a formigar, agora sim lamentando estarem tão bem atadas e longe demais delas.

- Não respondeu minha pergunta - Temari baixou o rosto até que suas bocas estivessem bem próximas e diminuiu o tom de voz para um sussurro - Não me deu a resposta que eu quero.

Por que ele estava naquele lugar? Bem, para pedí-la em casamento aos parentes tinha sido uma mentira que não convenceu à nenhum dos dois, o detetive nem mesmo sabia explicar o motivo de recorrer à tal desculpa esfarrapada. Mera coincidência ou uma ocorrência por atender seria algo infantil demais. Temari exigia saber porque ele a seguiu e nem adiantava lhe negar isso, seria chamá-la de idiota sem precisar verbalizar a ofensa.

Calado estava, calado restou. Não podia responder, isso seria o bastante pra fazê-la crer que o motivo era profissional, sinônimo de sigilo absoluto. À contragosto ela aceitou, era possível notar pela linha apertada que seus lábios fizeram.

Ela largou foi o chicote só para pegá-lo pelo cabelo, à essa altura já todo bagunçado, e a raiva que sentia tornou-se evidente pelo modo como o beijou, esmagando sua boca com a volúpia e a ira que foram igualmente correspondidas. Uma preliminar para o tipo de sexo que teriam, agitado, violento. Shikamaru estava certo de que esta noite ela o mataria. Talvez fosse um belo jeito para um homem morrer, com uma mulher bonita cavalgando nele.

Shikamaru já começava à se despedir desse mundo quando Temari levantou o corpo, procurando recuperar o fôlego e reorganizar os pensamentos. Sentia-se tentada à dar à ambos o que ambos queriam. Se o fizesse, entretanto, botaria a perder todo o plano que lhe custou dias e noites para idealizar.

- Precisamos conversar - disse à ele, julgando-se recomposta para tal - Preciso que me ajude com uma coisa.

O detetive a olhou com atenção, e não com a frustração de um homem que teve seu desejo interrompido. Ele ainda estava lá, no escuro sedutor de seus olhos, ardendo e gritando pra que seguissem em frente. Junto, o cuidado que ele tinha por ela, mesmo sendo Temari a segunda mulher mais durona do batalhão, atrás apenas da Comandante Tsunade. Aquilo a balançou.

- Se não me disser o que é não posso fazer nada - respondeu ele, mas era óbvio que não lhe negaria ajuda. Um pequeno sorriso apareceu na cara entendiada de sempre, o qual a Sabaku lamentou muito ter que fazer desaparecer. Primeiro, pela pré disposição dele em lhe dar auxílio sem nem conhecer a gravidade da situação em que ela estava metida. Depois, quando levou a mão à sua bolsa para pegar o revólver e apontá-lo no meio da testa, agora franzida, do Detetive Nara.

- Sinto muito – disse ao "noivo" - Você sabe demais.

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Estranhando o longo silêncio da policial, Kiba começou a ficar alarmado. Se exagerasse na dose lhe arrancariam o couro vivo.

De nariz pro alto, cheirou o ar em busca do perfume dela. Não custou muito encontrá-lo, embora estivesse mais fraco, indicando que ela se afastou do perímetro. Tinha saído do ferro velho.

"Merda, agora tenho que ir atrás dela... Isso não foi o combinado, vou cobrar mais desses caras." - E assim ele teria um pé de meia mais rechonchudo para a semana, uns trocados à mais sempre eram bem vindos.

- Akamaru, vem! - O Inuzuka chamou seu cachorro e saltou de um monte de sucata à outro, sendo seguido por este. Do alto seria mais fácil achar TenTen. Admitia que seguir a tenente não era de todo mal, além de ser mais lucrativo pra ele. Não era todo dia que choviam gostosas na sua horta e ele não era um homem de desperdícios.

"Quem sabe não a convenço a chutar o palhaço do Hyuuga?" - Estar vestindo aquele casacão poeirento ao invés de um terno sob medida não dizia nada. Ele não era de se jogar fora, muito pelo contrário! Um banho e ele botava qualquer outro no chinelo. Afinal de contas, ele tinha um sex appeal natural, um ar selvagem... Gostava desse último adjetivo, combinava com ele e elas adoravam. Seria muito bom poder mostrá-lo à uma mulher tão bonita quanto a policial.

- Que tal me ajudar? Se achá-la, te compro um filé bem passado, que nem você gosta - Kiba mal acabou de falar e Akamaru saiu em disparada, farejando em todos os cantos do terreno. Significava que o trato estava feito. Enquanto aguardava algum resultado por parte do amigo, Kiba tomou a direção do casebre, um de seus lares. No caminho pisou numa das cápsulas disparadas pela tenente, mais à frente encontrou muitas outras e começou à juntá-las.

- É muito afobada... - Não entendia o que viram nela, além do óbvio. Os oponentes de Kiba nunca eram grande coisa, segundos seus próprios conceitos. Com a tenente não tinha sido muito diferente. Como todo mundo, ela se assustou ao vê-lo. Tinha uma pontaria um pouco melhor do que costumava ver por aí, porém, o máximo que conseguiu acertar foi o seu capuz. Bom, ao menos mirava direto na cabeça - Atira pra matar. Taí, gostei!

Pondo as mãos nos bolsos, decidiu contar as moedas do dia. Mesmo com gente tão mão de vaca em Konoha ainda descolava o suficiente pra ele e pro Akamaru. Aliás, o cachorro estava demorando dessa vez.

- Hunf, deve estar revirando o lixo...

Preparou-se para buscá-lo, quando ouviu o uivo. Com um pouco de atraso chegava o aviso que esperava. Satisfeito, Kiba foi atrás do amigo e da presa daquela noite.

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- Você tem que usar a máscara, Sakura. É o protocolo da casa.

Aquele clube tinha algo de estranho e ela sabia disso. O cheiro de armadilha se destacava, seguia seu rastro conforme ela se afastava do primeiro piso. O fato de que Hidan agora lhe estendia aquela tira de pano enfeitada de penas e lantejoulas - que era o convite para o que quer que houvesse detrás daquelas portas duplas no fim do corredor - fazia com que fosse impossível para a Haruno ocultar a desconfiança, apitando em sua cabeça tal qual panela de pressão.

- Ainda não me disse o que há aí dentro - fazer-se de difícil não lhe era tão custoso assim quando ela não tinha qualquer idéia de onde estava pisando - Por que tanto mistério?

Hidan lançou um sorriso charmoso, o mesmo que sempre funcionava com as jovens mais indecisas que cruzavam seu caminho - Por que estragar a surpresa? Logo verá pessoalmente, e eu duvido que não vá gostar - a malícia, nem um pouco disfarçada, desenhou um olhar caloroso para dentro dos verdes de Sakura. A médica recuou.

"É um clube de sadomasoquismo! Meu Deus, onde eu vim parar?"

- Tem medo? - perguntou Hidan, já com seu rosto oculto por sua máscara favorita, em estilo tribal, preta e branca. Ainda esperava pela decisão da jovem, antes tão decidida, agora mais cautelosa. Não seria homem se não admitisse que a atual face insegura de Sakura era bem mais tentadora.

- Pareço amedrontada com algo? - replicou ela, mandando o pavor goela abaixo. Esperava que o convencesse. Sakura vestiu o seu convite e se colocou à frente das portas como se mal pudesse conter a ansiedade. Encerrado o contato visual, não deu à Hidan a certeza de que medo era pouco para denominar o que fazia seu estômago apertar. Se perguntava como uma mulher convencional, com relacionamentos convencionais como os dela, agiria diante dessa situação... Incomum. Era uma boa palavra pra começar.

"Calma. Se o Sasuke-kun estiver aí dentro, valerá à pena."

"Se não..."

- Já pode abrir os olhos, menina.

Afastando todas as imagens sugestivas que se amontoavam sob suas pálpebras, Sakura assim o fez quando ouviu Hidan lhe chamar. Já estavam do lado de dentro e ela mal se lembrava de ter dado passos. Por um instante, o alívio passou por seu corpo ao estudar o novo ambiente.

- Vê? É só uma área restrita.

Ela acenou para Hidan, de certo era que o lado underground havia ficado todo lá embaixo. A fachada do clube não a deixou muito otimista, o primeiro piso, tampouco. Mas ali dentro era bem diferente. O lugar era até aconchegante. Um outro bar, música ao vivo e um palco, onde dançarinas seminuas faziam seu número. À frente, uma grande área onde elas podiam circular próximo aos frequentadores e em volta, sofás e poltronas, todos aparentemente lotados.

Até então, nem sinal do Uchiha procurado.

A frustração crescente já ganhava dos seus resquícios de otimismo quando Hidan lhe entregou uma bebida, e ela não precisou perguntar. Pelo menos saciaria sua sede. Bem mais do que lá embaixo, o odor do sangue estava intensamente presente neste pavimento. Nesta parte mais ostentosa do club não haviam humanos. As batidas de coração que ouvia vinham do andar de baixo.

- À Jashin - disse seu acompanhante, levantando o copo para brindar sabe-se lá à quem - Está fresco - disse ele, quando ela cheirou o copo ligeiramente morno. Suas entranhas exigiram que o virasse em goles largos e acabasse logo com aquilo, mas ela jamais cederia aos instintos se pudesse brigar - Quer ver?

"Ver?" - sentindo-se enjoada, Sakura o seguiu até o que imaginava ser o bar. No lugar de bartenders e inúmeras garrafas com drinques de variadas cores, haviam somente copos sobre os balcões de madeira polida. No centro via-se uma taça bem grande, como aquelas onde o ponche é servido, obviamente que o rubro conteúdo que o enchia não possuía teor alcoólico. Ela viu uma gota cair, depois outra, fazendo círculos no centro.

- Ali - Hidan apontou com o copo, para onde ela olhou. No alto, ainda meio oculto pela luz baixa do ambiente, pendia um corpo, sustentado por correntes. Sangrando bastante. O mesmo sangue que enchia o copo que ela segurava.

Sakura o apertou entre as mãos, temia deixá-lo cair e estragar tudo. O que antes sua distração não a deixou ver agora era fácil de notar; Não somente este, mas haviam vários outros corpos dispersos pelo lugar, não eram poucas as fontes de sangue fresco naquela noite. Com um mínimo de concentração podia ouvir que seus corações ainda batiam, o mesmo som que antes ela acreditava vir do andar inferior. Estavam vivos, ao contrário do que seus olhos vidrados ditavam. De algum modo, porém, não reagiam à violência sofrida.

- Vamos, Sakura - Hidan apoiou a mão no ombro da jovem, dando um ligeiro apertão ali - Não faça essa cara, como se você odiasse. Não é tão diferente assim de nós...

Ela não era um deles. Iria mostrar a clara diferença entre ela e os monstros que frequentavam aquele lugar como se nada demais estivesse acontecendo. Sakura soube que não ia se controlar; atirou o copo no chão com toda a força que podia. Estilhaços se espalharam e o líquido vermelho pintou o chão sob seus pés, ao mesmo tempo em que voltou os olhos para um inesperadamente satisfeito Hidan. Ah, qualquer vestígio de deleite sumiria da cara dele quando lhe mostrasse o que trazia consigo, disso estava certa!

Levou a mão direita à arma escondida junto à coxa e rapidamente a fez apontar para Hidan. Ouviram então o som do disparo, infelizmente, não por obra sua. No andar de baixo desatou a gritaria, junto à mais tiros, muitos deles. E ali em cima, a repercussão foi imediata.

Ela só teve tempo de ver o canalha se afastando calmamente, enquanto a multidão a empurrava na direção oposta em busca de uma saída de emergência.

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Tsunade nunca pensou que fosse chegar o dia em que fazer uma simples dose de saquê rolar garganta abaixo se tornaria impossível. A bebida lhe dava asco, cheirava mal feito água salobra. Era a sensação que aquela desagradável companhia lhe despertava, tornando tudo mais azedo para o seu paladar.

- Não está à seu gosto, Tsunade? - seus dedos eram finos e longos. A pele pálida, porém lisa demais para a idade que levava nas costas. A aparência seguia a mesma por, pelo menos, trinta anos. Nenhuma ruga, nenhum sinal do tempo que passava para todos aparecia no rosto magro, sobretudo nos olhos amarelados, porém ainda vivazes. Era estranho olhá-lo, Tsunade via doença e saúde juntas, numa harmonia que jamais encontraria outra vez.

Irradiava elegância e soberba acima de tudo, tal qual o bar escolhido para aquele encontro. Uma intimação, seria um modo melhor de classificar, já que o nome de sua filha sendo propositalmente mencionado junto à mensagem que ele deixara em sua secretária eletrônica não lhe soaria jamais como um convite. Há horas tentava contactar Sakura; o não retorno por parte dela lhe dava a certeza do perigo que a jovem corria.

Olhou o outrora velho amigo, querendo alvejá-lo de balas até deixá-lo mais furado do que uma peneira. Até que seu ódio sumisse.

Não iria sumir. Não quando o rosto de Dan ainda aparecia vivo diante de seus olhos, estivessem eles abertos ou não.

- Diga o que quer - ordenou. Não tinha porque postergar o assunto, nem maneirar o tom de voz com ele.

- Indo direto ao ponto? Não deseja esperar para que ela faça contato? Ou será que acredita tão cegamente nas minhas palavras? - Orochimaru sabia que jogava com o coração da mulher. Sorveu um longo e demorado gole da bebida brindando o silêncio, ao prazer que ele lhe dava e ao desespero que trazia à Tsunade.

A Comandante apertou os punhos fechados. Daria muita coisa pelo momento em que afundaria a cara de Orochimaru à socos, livrando o mundo daquela praga ambulante. Daria tudo, menos a segurança de sua filha adotiva. Àquela hora já não tinha motivos para duvidar das palavras de Orochimaru. Sakura tinha motivação e coragem de sobra para ir, sozinha, resgatar Uchiha Sasuke.

Ela só não tivera a sabedoria para esperar o momento certo.

Ela só não sabia que Uchiha Sasuke não era mais como o conhecera. Desconhecia até onde ia sua associação com Orochimaru. Ignorava a força de sua ambição, do que ele estava disposto à sacrificar em favor dela.

Esse conjunto de pequenos deslizes colocou a jovem vampira onde o bruxo desejava, no centro de sua armadilha preferida: A chantagem.

Sakura. Konoha. A decisão mais difícil estava diante da Comandante Senjuu Tsunade, uma das mulheres mais poderosas do país, mas uma mulher que sofreria como qualquer outra frente àquele dilema. Tinha ciência de quê, optando por um, preteria outro. Salvando um, perderia outro. Não era capaz de fazer uma escolha desse tipo, jamais seria.

Restava, somente, seguir suas próprias ordens. Ganhar tempo.

- De quantos dias precisa? - esperava que fossem tantos quantos ela necessitava.

- Dias? Três semanas... Ou quatro. Não sei ao certo, mas não ficarei somente esperando os dias passarem, cara Tsunade.

- O solstício... - a noite mais longa do ano, a noite sem fim. O desgraçado jogaria com a vida e a morte mais uma vez - É um demônio... Sabe disso, Orochimaru?

O homem sorriu - Já me chamaram de tantas coisas piores... Vou entender que o seu estado emocional a deixou menos agressiva com as palavras.

O bruxo levantou-se, dando por encerrada aquela breve reunião. Seu aviso estava dado; o acordo, feito. Deixou um par de notas sobre a mesa, o pagamento pela bebida. Jogou em seus ombros o sobretudo arroxeado, era noite de ventos fortes. Noite inquieta, de fúria, como nos olhos de sua bela companhia.

- Não se preocupe, Tsunade. Sasuke-kun irá cuidar bem da menina. Não deixarei que nada lhe falte.

A mulher mal o ouviu, prendeu o fôlego até que o homem desaparecesse de suas vistas. Só permitiu que o ar voltasse aos seus pulmões quando o encontrou puro outra vez, longe da podridão que Orochimaru exalava. Agarrou o colar em seu pescoço e a confiança se renovou, instantaneamente. Devagar ficou de pé, pegou a garrafa de saquê e saiu do bar também. Do lado de fora, sua fiel secretária, Shizune, acompanhou seus passos, sem perguntar nada.

Pouco depois de ganharem as calçadas de uma rua pouco movimentada, foram seguidas. Cerca de trinta metros as separavam de uma outra pessoa. Tsunade levantou o rosto, fitou o céu encoberto.

- Quinze dias - falou, nem tão alto, nem baixo demais. Apenas no volume em que saberia ser ouvida - Não darei esse gostinho à ele.

A Comandante e sua assistente continuaram caminhando sem pressa. No rosto da jovem Shizune brotou um sorriso confiante com a decisão de sua mestra. Antes que tomassem uma direção distinta da do ouvidor, conforme o que previamente combinaram, Tsunade deu um último recado àquele seu atento subordinado - Não é uma ordem, mas não diga nada ao seu pupilo, por favor. Não preciso de mais heróis românticos pra me aborrecer.

Ela notou que seu Capitão vacilou, mas não a desobedeceria. Ambos sabiam que seu jovem aprendiz jamais aceitaria ficar quieto, não quando sua musa inspiradora corria risco de vida.

- Como quiser, senhora - acatando aquela ordem, Gai seguiu seu caminho.

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Kiba restou mais satisfeito ao ver que a policial não tinha ido muito longe. No entorno do ferro velho havia uma área arborizada e deserta, onde certamente Akamaru a tinha encurralado. Era gritante o medo que TenTen tinha do bicho desde que o mandou recepcioná-la. Seu amigo fez um ótimo trabalho.

Ele não era de se gabar, mas tinha feito um bom serviço também. Ferida como a tenente estava não teria mesmo uma fuga bem sucedida. Não pretendia machucá-la seriamente se ela não se mostrasse tão resistente; a mulher custou a entregar os pontos, foi complicado pôr algum freio nela. Pelo menos não tiveram uma luta corporal, não era bem esse o tipo de contato físico que queria ter com uma fêmea...

Assim que ele chegou naquela área notou que algo não estava encaixando. Ou o vento resolveu sacaneá-lo ou seu nariz não ia bem, pois o cheiro da policial vinha de várias direções. Além disso, não via seu cachorro em lugar nenhum.

- Akamaru? - cauteloso, Kiba adentrou mais, as copas das árvores escondiam ainda mais o luar, eventualmente coberto pelas nuvens, seu única guia na escuridão cada vez maior - TenTen?

- Estou aqui! - a voz feminina tinha um tom sofrido demais pro gosto do Inuzuka - Akamaru está aqui também!

Kiba chamou de novo o amigo, que não latiu em resposta. Praguejou alto quando sentiu que o cheiro da tenente não vinha de um só lugar, o que só dificultava as coisas para ele.

Apostando sua sorte, escolheu uma direção para seguir. Ao ver as botas da tenente penderem de um árvore, sorriu de um jeito satisfeito. Então preparou o bote.

Kiba correu e saltou para a árvore mais próxima de onde TenTen estava, pulou de modo que cairia bem ao lado dela. Isso aconteceria se no meio de seu quase vôo algo não tivesse enlaçado seus tornozelos, o impedindo de completar aquele plano. Ao invés de aterrissar perfeitamente ao lado da policial e pegá-la de surpresa, foi jogado para trás e agora estava pendurado em um galho, preso pelas pernas, que nem carne fresca no açougue.

- Tudo bem, me rendo! - já sentindo o sangue descer pra cabeça, Kiba deu adeus à grana que ganharia e jogou a toalha - Pode me tirar daqui, se não for muito incômodo?

Ao contrário do que esperava, só os grilos se manifestaram.

- Oi? Tem alguém aí? Akamaru?... Mãe?

- Desculpe a demora - TenTen finalmente apareceu, vinha fechando os últimos botões de sua blusa, o corpete vinha nas mãos e ela puxou suas botas do alto da árvore, as mesmas que o enganaram sobre sua localização. Kiba só não se chutou por estar momentaneamente impossibilitado de fazer isso.

Para enganar seu olfato, ela tinha pendurado suas roupas em vários pontos. Extremamente confiante em seu nariz, preocupado apenas com qual direção tomar, Kiba não imaginou que ela poderia não estar apenas fugindo dele, mas sim lhe preparando uma emboscada nos mesmos moldes daquela que ele tinha usado contra ela. É o que dá confiar demais no próprio taco.

- Não acredito que perdi o espetáculo! - já que tinha sido pego de maneira tão ridícula, podia ao menos tentar salvar o resto da noite - Pode tirá-las agora que eu posso ver?

Antes que ela lhe desse a resposta no tom que merecia, Akamaru reapareceu. Vinha mastigando alguma coisa, à qual Kiba descobriu ser um dos vários biscoitos que a tenente lhe ofereceu.

- Traído pelo estômago... - resmungou, mas não conseguia culpar o amigo.

- Ele só é mais disciplinado do que você - TenTen elogiou o animal e lhe deu mais um biscoito. Sua desculpa esfarrapada, a mesma que levava na bolsa pra quando os outros diziam que ela não comia nada, agora alimentava o enorme cachorro - Ele assusta pelo tamanho, mas é muito dócil - afagou a cabeça de Akamaru, que pôs a língua para fora - Só falei pra ele uivar e ele o fez.

- Akamaru só obedece à mim – Kiba reclamou - Você fez alguma coisa com ele, vampira.

TenTen deixou Akamaru com o resto do seu lanche e se aproximou, lentamente. Seu rosto estava na altura do dele, e Kiba viu bem de perto a transformação de seus olhos, do castanho vivo para o vermelho sangue. A mudança na sua frequência cardíaca o delatou, ele segurou o fôlego por ver tão de perto um vampiro acordar. TenTen mirou seu pescoço, a veia jugular mostrava a pressa do sangue fresco se deslocando devido ao seu nervosismo. Ponto pra ela.

- Se me disser o que quer comigo, sairá ileso.

- Humpf, se eu disser, minha bolas já eram – e ele ainda teve a capacidade de rir! Nem precisava ser tão direto para que ela entendesse: Não só seguia cantando a policial, como mostrava que não colaboraria com ela. Tampouco ligava para suas ameaças. Mesmo em desvantagem, o sujeito mantinha seu orgulho mais resistente do que aço.

- Como quiser, Kiba - TenTen o segurou pelos cabelos, aproximou a boca do pescoço dele, os caninos já preparados para rasgar-lhe a pele. Kiba apertou os olhos.

- Já é o bastante, Tenente.

TenTen largou um muito pálido Inuzuka e se virou para aquele que, na hora certa, tinha lhe poupado do esforço de morder seu até então algoz. Não desejava mesmo ir tão longe, só fazê-lo falar.

Um par de homens a olhava, sendo que um deles ela já conhecia. Kakashi e sua usual máscara... Ocultava seu rosto, mas à TenTen o que interessava era a ligação que o Capitão tinha com aquela emboscada.

E mais: Sua intuição lhe dizia que esta noite o conhecimento que Neji lhe negava viria à tona.

-X-

Continua...

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Capítulo não betado.

Solstício (Resumida básica de quem não entende bulhufas de Astronomia): Ocorre 2 vezes por ano. Quando é Verão, temos o dia mais longo do ano; quando é Inverno, a noite é a maior. Ocorre devido a movimentação do Sol. Foi uma data especial para algumas civilizações antigas. Para mais informações, consulte a Wikipédia mais próxima de você. ^^

Na fanfic, estou usando o tal solstício apenas como uma data-chave pra magia do Orochimaru funfar (lembre-se de que ele é um bruxo "du mal") Não vou me aprofundar no assunto pra não escrever nenhuma abobrinha, além das já apresentadas.

Kiba é um mendigo com um diferencial, hahahehaha... E logo vão ver o que o Hidan faz pra sobreviver (E não é tomar sangue...)

A Ino não é tão cabecinha de vento quanto parece...

Próximo cap terá mais ação, com direito a briga de mulher! \o/

Feliz Páscoa!

Bjos da Suna