Ressonância. Fusão. Seleção. Concepção. Evolução. Liberação.

Level 6: Loading Shelter

Aya abaixou-se em frente aquela meninazinha loura, assustada e com cara de choro.

- Não sou sua mãe querida, mas posso tomar conta de você.

- Você parece comigo. Pensei que fosse minha mãe. - A menina abaixou a cabeça e virou-se de lado.

Aya pacientemente virou-a para si e tentou soar suave e carinhosa.

- Posso tirá-la daqui e levá-la para um lugar melhor, onde não há monstros e outras crianças brincarão com você. Você quer vir comigo?

- Sim, eu quero. Você pode me levar para minha mãe? - A pequena perguntou.

Aya a olhou condoída. Como ela poderia dizer àquela criança que ela era fruto de engenharia genética, e que não tinha pai e nem mãe, mas apenas um óvulo e espermatozóide anônimo, misturado com seu próprio DNA monstruoso e mutante? Não se diz a uma criança: "Você é um pequeno monstro fruto de outro monstro que sou eu". Aya levantou-se e procurou uma cadeira para sentar. O quarto da menina parecia uma casinha de bonecas, misturado com quarto de hospital, branco e esterilizado, com um toque futurista, típico da Shelter. Que espécie de vida aquela menina levou até aquele momento?

- Moça, como é o seu nome?

- Aya. E o seu qual é?

- Eve.

Aya sentiu um arrepio. Mitochondria eve era um termo científico que tentava explicar e justificar todo aquele pandemônio genético de criação de monstros. Pelo menos eles não nomearam a menina com números, ou com código de barras. No fundo Aya sentia-se culpada por tudo aquilo. Pelo sofrimento da garota, pela existência de monstros, e pela morte de tantos inocentes. Aya abaixou a cabeça consumida em remorso. Kyle pareceu adivinhar-lhe os pensamentos e aproximou-se. Colocou a mão em seu ombro e beijou-a no alto da cabeça. Aya levantou os olhos e o fitou. Kyle acariciou-lhe os cabelos e beijou-a na testa. Aí decidiu fazer um gracejo.

- Não na frente de crianças, Aya. Quando estivermos de volta a Dryfield, poderemos ir para aquele seu quarto no motel...

- Cale a boca! O que você está pensando? Você acha... - Aya parou de reclamar ao ver Kyle rindo da cara dela.

- Calma Aya, eu só queria te alegrar um pouco... Ou talvez te irritar um pouco. Acho que consegui.

- Você me tira do sério, Kyle. Não deveria brincar com fogo. - Aya suspirou fundo. - O que podemos fazer por ela?

- Você já respondeu essa pergunta. Vamos tirá-la desse laboratório e levá-la para a civilização.

- Coitadinha, imagino o que deve ter passado aqui, sendo criada como animal de laboratório.

- Sim, mas isso acaba agora. Ligue para seu amigo Pearce, informando que vamos levá-la conosco.

- Certo.

Aya fez como Kyle lhe dissera. Após avisar Pearce, ela vasculhou o quarto da criança em busca de objetos pessoais da menina. Kyle estava examinando as armas e Eve estava brincando com uma boneca. Então o quarto tremeu, as luzes se apagaram, e um ruído de vidros quebrados soou. Aya imediatamente agarrou Eve e a abraçou para protegê-la com seu corpo. Kyle sacou sua Magnum e tentou acostumar sua visão à escuridão, enquanto guiava-se pelo som, mas um tipo de alarme de incêndio soou intermitente, anulando qualquer vantagem que eles poderiam ter com a audição.

Soldados vestidos de macacão, com máscaras anti-gás e armas pesadas nas mãos invadiram o quarto. Aya os achou parecidos com Número 9, o terrorista NMC. Kyle mirou neles e os executou.

- Aya, fuja com Eve. Mais desses soldados aparecerão. Eu ficarei aqui para lhe dar cobertura. - Kyle aproximou-se dela e deu-lhe um beijo rápido e molhado na boca. Ela não reclamou, na verdade estava louca por Kyle, mas o amor-próprio a impedia de demonstrá-lo.

Ela segurou a mão de Eve e fugiu pela janela quebrada. Elas seguiram por uma sala escura e enfumaçada. Ao longe, ela escutou ruídos de tiros. Era tremendamente injusto, que agora que ela estava se entendendo com Kyle, ele tivesse que por a própria vida em risco.

Aya encontrou um elevador desconhecido que não havia no GPS. Pela distância e direção, ela presumiu que o elevador a levaria direto para a Neo Arca. Assim foi. Ao ver o exterior da sua prisão, a menina correu e ficou curiosa com tudo ao redor. Aya saiu do elevador diretamente na ilha do gerador da neo Arca. Isso foi bem a tempo, pois a terra tremeu de novo, e o elevador desmoronou. Era impossível voltar por ali.

Aya e Eve correram para fora da ilha do gerador. Tomaram um caminho por uma passarela subaquática, com redoma transparente, que permitia ver criaturas nadando ao redor e sobre suas cabeças. Alguns monstros aquáticos as rodearam, mas não havia como atingi-las através da redoma transparente. Já estavam para sair da passarela quando uma velha figura conhecida de Aya bloqueou-lhes a passagem. O NMC terrorista Número 9. Ele veio arrastando uma perna, com a espada eletrificada em sua mão. Eve ao vê-lo, correu na outra direção. Aya queria enfrentar aquela criatura, mas ela tinha que alcançar Eve.

Outros soldados, vestidos como Número 9, apanharam Eve que se debatia e gritava. Aya ficou furiosa. Ela assistiu impotente eles se afastarem com a menina até entregá-la ao terrorista. Aya não podia atirar neles, nem usar Energia Parasitária, sem correr o risco de ferir a menina. Se ao menos aqueles monstros se separassem, ela poderia acabar com alguns deles.

- Para que quer a menina Número 9? Se quiser uma aberração poderosa, pode usar a mim, e não uma criança indefesa. - Aya gritou com toda a frieza de que era capaz, pois não havia mais nada que pudesse fazer.

- Na verdade não precisamos da menina, apenas de seu material genético. Quando o obtivermos não precisaremos mais dela. - Respondeu-lhe número 9 também friamente.

Essa resposta teve o poder de inflamar os nervos de Aya que arremeteu contra os soldados. Ela decidiu usar os punhos contra eles. Isso era difícil, pois estes estranhos soldados tinham em média dois metros de altura, e pareciam insensíveis a dor. Aya tentou golpes de artes marciais e krav-magá, com pouco sucesso, mas eles também não conseguiam feri-la. Quando conseguiu derrubar um deles no chão, descarregou sua shotgun sobre ele.

Enquanto lutava, número 9 aproveitou para fugir com Eve. Aya ao perceber que a menina estava fora de alcance, resolveu apelar. Ela abaixou a cabeça e dobrou os braços, deixando os antebraços paralelos na altura da cintura, fechou os punhos e os olhos. Ondas de energia espraiaram-se de seu corpo, como a radiação solar, formando um pequeno domo brilhante azulado sobre ela, aumentando o seu raio de alcance rapidamente. Os soldados sentiram um torpor e uma fraqueza absolutos, como se a vida se esvaísse deles. Caíram mortos no chão.

Aya correu como pôde até chegar à entrada da Neo Arca. Lá havia mais soldados descomunais, que Aya descobriria mais tarde serem denominados Golem. Alguns deles eram mais resistentes e dados a força bruta, mas Aya descobriu dentro de si uma força e uma fúria desconhecida. Ela derrotou-os a todos, com balas, energia parasitária e golpes de krav-magá. Ela finalmente chegou até a sala do Controle Central, muito machucada. Esperava encontrar Pearce, mas ele não estava lá. Para sua surpresa encontrou Kyle.

- Kyle! Que bom que você está vivo e bem. O que aconteceu? Como conseguiu escapar daqueles monstros? Por um momento imaginei o pior... - A voz morreu na garganta de Aya. Arrastando-se por trás de Kyle surgiu Número 9.

- Estávamos esperando por você Aya Brea. Creio que temos um amigo em comum. - Falou número 9.

Aya estava confusa e passada, então subitamente uma fúria misturada com decepção explodiu no seu peito. Ela sacou imediatamente sua arma, e mirou no rosto de Kyle, alternando para o rosto de número 9 e vice-versa.

- Ora vamos, você não pensa realmente em nos matar, sem saber que fim levou a menina, não é? - Número 9 se ria daquela situação.

- É melhor me entregar a arma, Aya, para o bem de Eve. - Aconselhou-a Kyle.

Aya não pôde fazer nada além de entregar a própria arma, mas fez isso encarando Kyle com altivez e desgosto. Para sua surpresa ele piscou para ela. Era um sujeito tão safado que não perdia uma chance de flertar, ou isso, ou Aya não o conhecia verdadeiramente. Ela foi conduzida então para a arena do casulo gigantesco. Eve estava lá.

- Aya, me tire daqui. - A menina gritou.

- Tenha calma Eve, tudo dará certo. Eu vou te tirar daqui. - Aya tentava acalmá-la, mas ela mesma não via uma solução para aquela armadilha.

Enquanto isso, distante dali, certo chefe de estado foi informado da situação da Shelter e da Neo Arca, e dos riscos que aquelas criaturas geneticamente modificadas representavam para a raça humana. Ele, como o homem no cargo mais poderoso da terra, considerou melhor seguir a orientação do seu ministro das forças armadas, e destruir o local com um só tiro, disparado de um dispositivo bélico em órbita ao redor da Terra. Aya estava condenada a morte e não sabia.

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