É, as coisas não são sempre como planejamos...

... Ou como queremos.

Edo sempre disse que na alquimia existia uma troca equivalente: para conseguir algo, você precisa abrir mão de alguma coisa do mesmo valor. Ele também acreditava que essa lei regia o mundo.

Durante aquele pequeno mês, eu passei por duras e muito boas sensações. Eu sorri, eu ri, eu chorei, eu gritei, eu sofri... Eu vivi.

Eu tive a companhia de Edward, os conselhos de Alphonse... Eu chorei por Edo. Porque o amava e me preocupava com ele. Eu pude receber todo o amor que eu sentia em troca. E então, ele teve que partir.

Seria isso uma troca equivalente?

Talvez.

Mas... No momento em que eu o amei eu já tinha sido amada de volta. Se ele partiu, é porque alguma coisa irá acontecer depois para mim, seja algo bom ou não.

Pode ser a volta dele, ou a sua morte. Ou alguém novo começaria a fazer parte da minha vida depois, e ele teve que partir por isso? Eu não sei, não faço a mínima idéia.

Só sei de minhas promessas. Só sei que não vou chorar, porque prometi sorrir. Sei que não vou morrer, porque prometi esperá-lo ali.

Na verdade, eu não sei por que passei a acreditar nessas coisas de alquimia...

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Aquela era a minha última semana.

Embora eu estivesse sendo forte, até mais forte do que eu pensava que conseguiria isso me deixava com... Angústia? Não sei. Mas obviamente era algo muito ruim.

Só sei que quando acordei, ele não estava ao meu lado como de costume, me olhando com seus olhos dourados. Não senti o mesmo medo que sentiria antes, mas mesmo assim, eu queria ter certeza de que ele não teria ido embora sem pelo menos uma despedida.

Eu devia parar de me preocupar tanto, afinal, era semana que vem e não hoje que ele partiria para a guerra. Mesmo assim, desci de camisola mesmo, atrás dele.

E encontrei-o na cozinha, bebendo água enquanto olhava o sol nascer pela janela.

- Te achei – disse sorrindo. Dessa vez, ele não iria notar que eu tive uma "recaída" e desci correndo assim que não o avistei – O que te fez acordar tão cedo?

- Eu é que devia perguntar – ele me respondeu, zombeteiro – A dorminhoca é você e não eu.

Ignorei aquilo e me sentei-me à mesa, em uma cadeira na frente dele.

- Você acorda essa hora todos os dias? – perguntei, por não ter assunto.

- Acho que sim – ele respondeu.

Eu me senti um pouco culpada.

- E todo esse tempo você apenas ficava esperando eu acordar, me olhando? Parece que mesmo que eu consiga me sentir bem, eu ainda sou um fardo para você – eu disse, mais para eu mesma do que para ele. Edo ficou surpreso.

- Não se preocupe – sorriu – É bom te ver dormir.

Corei um pouco. Depois, nem eu nem ele falamos mais nada. Fiquei apenas observando coisas em minha própria cozinha. Notei até mesmo um armário que eu nunca tinha visto antes nela, bem no canto...

Ouvi um suspiro pesado. Olhei para Edward, e o vi colocando o copo agora vazio em cima da mesa. Depois, levantou-se.

- Vou ir treinar lá fora. Vem comigo, ou tem coisas para fazer? – ele perguntou, despreocupado.

Tentei me lembrar de alguma tarefa para fazer nos automails e, para minha satisfação, eu não tinha nada incompleto. Eu tinha que admitir que nos últimos tempos eu era uma mecânica bastante eficiente. Se bem que quase tudo foi a vovó que fez...

- Tudo bem – respondi, sorrindo.

Eu fiquei olhando com bastante atenção cada movimento dele. Era incrível. Se bem que atualmente ele mostrava ser bom em muita coisa.

Porém, enquanto eu estava sentada, comecei a lutar silenciosamente contra outra crise de pânico. O fato é que eu ainda não tinha conseguido me recuperar o suficiente. Ainda ficava nervosa e muito mal ao pensar que ele iria para um lugar e poderia muito bem não voltar. Minha vontade, naquele momento, era de sair gritando, me permitindo chorar o quanto quisesse e ir até os braços dele, o único porto seguro para mim. Mas se eu fizesse isso, daí sim que além de deixá-lo mal e perder sua confiança, eu quebraria a minha própria promessa. Resolvi tentar expulsar essas sensações, esquecer isso naquele momento. Tentei olhar para o chão à minha frente, pensar em coisas boas...

- Winry! – parecia que eu tinha despertado de um pesadelo. Edo sacudia meus ombros – O que foi?!

- O que eu... Fiz? – talvez eu pudesse realmente ter feito algo sem perceber.

- Você estava apertando os próprios braços com força – ele tentava decifrar a expressão em meu rosto claramente. Mostrou-me meus braços e eu me assustei com as marcas que ficaram – E você estava... Tremendo. Está tudo bem?

-Sim – eu sorri – Não se preocupe, pode voltar a treinar... Eu já volto, vou trocar de roupa no meu quarto.

Ele ainda parecia relutante em me deixar ir sozinha

- Tudo bem então... – ele respondeu ainda meio contrariado. Eu entrei rapidamente no meu quarto.

"Eu não posso chorar, mesmo que eu esteja sozinha aqui. Eu não posso..." eu ditava essas palavras na minha mente, enquanto quase derramava as lágrimas.

No final, troquei de roupa mesmo. Mas antes de sair fiquei ali, parada, olhando as coisas ao meu redor. "Foi... Tão pouco tempo." pensei. E foi mesmo: apenas uma semana e meia. Mesmo assim, não adiantaria nada ficar me lamentando, afinal, quem não teve coragem de dizer o que sentia antes de tudo isso fui eu.

Sentei na cama, apoiada na parede ao lado dela, olhando o dia perfeito que fazia pela minha janela. Um mês é algo que passa em uma velocidade tremenda. Se aqueles dois meses de puro tédio antes da chegada deles fossem substituídos por dois meses para que eu pudesse passar mais tempo ao lado dele... Seria perfeito. Mas tinha que admitir: Edo passar dois meses aqui sem um motivo sério depois, como uma guerra, era algo mais do que impossível.

E isso só me faria sofrer mais ainda depois.

- Eu queria ter mais tempo... – falei baixinho, para mim mesma – Só mais um pouquinho de tempo... – senti um nó em minha garganta. Virei novamente para a janela, tentando impedir aquelas lágrimas. Não me importava se tinha ou não alguém ali para ver: eu não queria quebrar a minha promessa.

- Você não devia prometer o que ainda não seria capaz de cumprir – quase pulei de susto ao ouvir a sua voz. Depois, virei para a porta, de onde sua voz tinha vindo. Ele estava lá, encostado no vão. Sua expressão era séria.

Quando ele disse isso, não consegui impedir que uma lágrima descesse pelo meu rosto.

- Desculpe... Eu ainda não sou... Forte – e eu não era mesmo. Isso eu sempre soube. Nunca seria como os irmãos Elric.

- Winry...

-Está tudo bem... Isso é necessário – eu disse, olhando para todos os lugares, menos para ele, que ainda estava escorado no vão da porta. – É inevitável que você irá para a... Guerra. – eu não derramei mais nenhuma lágrima. Apenas aquela. Estava conseguindo sobreviver àquele nó na minha garganta enquanto dizia essas palavras. Era sem dúvidas um feito meu.

- Mas você ficará bem? – ele perguntou. Demorei um pouco para responder:

- Eu sobreviverei a isso – sorri.

Ele sorriu de leve, aquele meio sorriso lindo de sempre. Antigamente, eu ficava com cara de boba quando ele sorria assim. Hoje, eu ficava ainda mais alucinada. Ele se sentou ao meu lado na cama, deixando o sorriso de lado.

- Winry, eu sei que é um pouco cedo, mas... – ele falou, corando violentamente. Não consegui deixar de rir baixinho, deixando Edo ainda mais encabulado – Eu queria te pedir uma...

Apressei-me em colocar um dedo em seus lábios, calando-o. Sorri de leve.

- Depois dessa guerra você me conta. Se você não voltar para me contar, eu te mato.

Ele segurou a minha mão que estava em seus lábios, tirando-a dali e aninhando em suas próprias mãos quentes. Brincava com a ela enquanto falava:

- Ai de mim se você não me der à resposta depois, então.

Eu ri.

- Tá certo.

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Eu só não imaginava que quatro dias passavam tão rápido.

Já era a noite do último dia. Meu nervosismo e tristeza estavam nas alturas, afinal, era uma guerra.

O mais assustador é que Edward já dormia tranquilamente há duas horas, enquanto eu não conseguia nem ao menos fechar os meus olhos. Ele devia estar muito mais tranqüilo do que eu. Devia não, ele estava. "Uma guerra não é o suficiente para me derrubar", ele tinha me dito. Vindo dele, era capaz de não ser mesmo. Sorri com isso.

Mesmo que eu quisesse, o sono não chegaria. Eu sabia disso e desisti de dormir. Apenas fiquei olhando o rosto sereno de Edo dormindo. Parecia uma criança, com a luz do luar em seu rosto, os cabelos dourados, a pele macia.

Ele dormia no meu quarto praticamente depois que começamos a namorar. Afinal, dois dias depois eu descobri sobre a guerra e ele praticamente só ficou ao meu lado por causa de minha depressão. Depois que eu melhorei, Pinako permitiu que ele ficasse por lá. "Só não faça nada com ela", foi essa a condição da vovó. Embora seja fácil conversar com ela, ela ainda é superprotetora. E me constrange com essas coisas.

Nos últimos tempos, também tinha percebido como ele crescera. Ainda era menor do que eu, mas por menos de um centímetro. Mas, mesmo assim, ele nunca deixaria de ser o meu pequeno Edo. Quem me dera... Eu teria guardada em minha mente a lembrança de um garoto pequeno... E certamente, se ele voltasse, já seria um homem. Mas, de certa forma, ele já era um homem em muitas de suas atitudes.

E ali, vendo-o dormir tão silencioso, em um sono tão profundo... Era a cena mais linda, e a mais triste para mim.

Era com certeza uma cena que me faria muitas vezes derramar algumas lágrimas, como ela fez comigo naquele momento.

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Quando o sol começava a nascer, ouvi um movimento atrás de mim. Edo tinha acordado. Eu sorri levemente.

- É agora – ele disse, apenas. Meu pequeno sorriso ia se desfazendo aos poucos.

- Eu sei – respondi.

Depois que ele vestiu sua habitual capa vermelha e as roupas pretas e eu vesti a primeira coisa que encontrei, saímos, caminhando lentamente e de mãos dadas. Até que algo me veio à cabeça

- Edo, você não vai se despedir do Aru?

- Eu já fiz isso ontem – disse ele, calmo.

Saímos porta afora. Den resolveu nos seguir.

- Winry... – Edo começou a falar – Eu queria te pedir aquilo antes de ir...

- Não – eu o interrompi novamente – Só vou querer saber quando você voltar, eu já disse. Mas eu não quero ficar esperando demais para saber o que é.

Ele suspirou, desistindo.

Continuamos caminhando, até que ele parou em um lugar meio curioso. Era a mesma árvore que, há um mês, eu saí, nessa mesma hora, com Den para ver o sol nascer. Ele não sabia disso, porque eu não tinha comentado com Edo.

Mas, parar justamente ali me deixava com um nó na garganta.

- A partir daqui, eu vou sozinho – ele disse, sorrindo, com a mesma brisa leve daquele mesmo tempo atrás bagunçando seus cabelos – Se cuide, não faça nada arriscado.

- Eu vou te esperar – minha voz saía com dificuldade – Não me faça esperar tanto assim, tá? – pedi. Se pudesse, eu imploraria de joelhos por isso. Senti meus olhos começarem a encher de lágrimas – Eu só quero que você volte. Para mim, para Aru, para a vovó. Para a sua casa.

Ele pareceu comovido. Depois, segurou a minha nuca, puxando-me para um beijo mais do que apaixonado. E apaixonante. Ouvi o barulho que a mala dele fez quando ele a jogou no chão para poder me segurar com os dois braços.

Quando ele parou o beijo, eu o abracei com força, soluçando, enquanto eu não conseguia mais segurar as lágrimas.

- Por quê... – eu murmurei. Ele ouviu, mas não disse nada. Apenas acariciava meus cabelos, com a cabeça apoiada no topo da minha.

Ficamos assim durante bastante tempo, não faço a menor idéia de quanto foi.

Depois, ele se afastou um pouco e ficou ali, me olhando com aqueles olhos dourados como os raios de sol do amanhecer. Apenas olhava, e eu o olhava também, sem falarmos nada. Não falar nada era melhor, porque em silêncio dizemos mais coisas.

- Eu tenho que ir – ele disse, beijando minha testa. Então, eu o soltei, embora quisesse, no fundo, amarrá-lo e nunca mais soltar.

Ele deu um último sorriso, radiante como o sol. Foi a coisa mais linda que eu já vi em toda a minha vida. Foi tão... Cativante. Só de ver seu rosto, eu ri um pouco, mas ao mesmo tempo uma lágrima rolou pelo meu rosto.

- Lembre-se de voltar para me contar o que é! – eu falei, enquanto ele se afastava. Ouvi seu riso, e ele apenas levantou a mão em um aceno, ainda de costas para mim.

Isso me deprimiu. Eu queria poder ter o seu sorriso, e não as suas costas como a última lembrança. Mas mesmo assim, eu queria desfrutar de cada segundo que eu pudesse ver a sua trança dourada e a capa vermelha que balançava pelo vento. Cada segundo que eu ainda pudesse ver algo que eu sabia que iria demorar.

Mas, justamente quando ele iria sumir de vez da minha vista, ele se virou novamente e, ao me encontrar lá, sorriu novamente. Eu senti as lágrimas rolarem pelo meu rosto, para serem empurradas mais para o lado pelo vento que batia nele. Fechei os olhos, com aquela imagem de Edo em minha mente, aquele sorriso que, mesmo de muito longe eu conseguia enxergar perfeitamente.

Contei dez segundos. Depois, eu abri meus olhos.

E ele já tinha partido.

- Aquilo não foi um adeus! – eu gritei a plenos pulmões. Provavelmente ele não ouviria, mas eu tinha esperanças.

E eu acho que ele ouviu, porque o vento soprou mais forte naquela hora, e eu tenho certeza que ouvi sua risada descontraída que foi trazida por ele.

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... Mas com certeza eu acredito nisso porque ela me traz grandes lembranças dele. Principalmente aquela determinação admirável que ele sempre teve desde pequeno.

Eu me orgulho de ter crescido ao lado de alguém como Edo e de poder amá-lo tanto assim. Quando eu disse que o esperaria não importava o tempo que ele demorasse eu falei mais do que sério.

Eu passei por um sonho, que muitas vezes pareceu um pesadelo...

Os beijos, as juras de amor, a admiração, a amizade, os abraços, os risos, as lágrimas, os sorrisos, as provações, os problemas, as brigas... Tudo isso foi o que eu vivi com Edward durante dezesseis anos. Dezesseis anos de um amor reprimido, mas admitido, aceito e aproveitado.

... Esse sonho, que oscilava entre bom, ruim e completamente horrível, no final, não foi nem pesadelo, nem sonho. Foi vida.

E eu ainda te espero, Edward. Afinal, não faz muito tempo que você partiu.

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Acabou tão rapidinho... E foi curta essa fic. Mas eu tenho que agradecer a todos que leram, gostaram ou não. Muito obrigada meeesmo *-*

Se algum dia eu reunir quantidade o suficiente de criatividade, eu faço uma continuação... Leriam? :D