Fanfic sem fins lucrativos. Todos os direitos reservados à Hiromu Arakawa.

Essa é a continuação da fanfic Sentimento. Procurem no meu perfil para ler a primeira parte caso ainda não tenha lido.

Boa leitura :*

--

Fazia tanto tempo que eu me sentia assim que nem tentava mais dormir. Fiquei deitada na cama, ainda vestida, ouvindo o barulho da chuva forte que caía lá fora. E que chuva! Já se fazia uma semana que chovia sem parar. Era como se o mundo se lamentasse por mais uma perda naquela tão agonizante guerra em que Ed tinha se metido.

Acho que era por isso que eu ficava tão inquieta nesses dias de chuva. Porque eram neles que eu me lembrava dele, me preocupava com ele, sentia ainda mais falta dele. Principalmente porque fazia bons três meses que eu não tinha notícias dele.

Desisti de ficar deitada na cama pensando em nada. Levantei e desci para a sala, onde poderia ficar conversando com Al. Ele estava aqui em casa desde que Ed foi para lá. Quando cheguei ao primeiro andar, chamei baixinho:

- Al? Está na sala?

- Aqui na cozinha – ouvi a voz dele respondendo. Fui até ele. Estava sentado em uma das cadeiras da mesa. Sentei-me ao seu lado. – Não consegue dormir, Winry? – ele me perguntou.

- É sempre assim – respondi – Só que nos dias de chuva eu não consigo de jeito nenhum.

- Pode ficar aqui quando chove – ele me disse – Afinal, eu vou estar sempre acordado.

Ele falou de uma forma entusiasmada para me animar, mas isso me deu um aperto no coração. Al ainda estava na armadura, é claro que eu sabia disso.

- Al... – eu disse um pouco triste – Ele não iria te deixar na mão. Não se preocupe, ele voltará para recuperar seu corpo. Voltará para nós. Voltará para mim...

- Eu sei disso – ele falou – Porém... Eu não tenho certeza sobre ele voltar... Já faz muito tempo, Winry

- Não perca as esperanças! – exclamei. Senti um nó na garganta. O próprio irmão já não mais acreditava.

- ... – foi a resposta da armadura

- Eu queria poder ter alguma notícia... – lamentei, mais para quebrar o pequeno silêncio.

- Por que não corre atrás de uma? – Al me falou. Eu não entendi muito bem o que ele quis dizer – Escreva uma carta.

É mesmo! Eu não tinha pensado em mandar uma carta para ele. Talvez Al estivesse certo, já que no final ele poderia me responder. Agradeci a ele pela idéia e fui para a sala buscar papel e caneta. Depois voltei para a cozinha e sentei no mesmo lugar. Preparei-me para escrever. Foi aí que percebi que não fazia a mínima idéia do que colocar na carta.

- Al... Ajude-me. – eu pedi, olhando para ele, pedindo por ajuda. – O que eu posso escrever?

- Eu não sei – ele me respondeu – Tente ler a última carta dele... Talvez lhe dê alguma idéia

Resolvi fazer o que Al me disse. Me despedi dele, porque sabia que iria demorar. Subi para o meu quarto, coloquei o papel e a caneta na escrivaninha, fui até a minha cabeceira e abri as gavetas onde eu guardava com cuidado as cartas que ele mandou. Achei a última, de três meses atrás. Abri e comecei a ler:

Winry,

Eu estou bem, até. Não tive que fazer muita coisa ainda. Parece que estão me guardando para a verdadeira guerra. Não entendo isso, levando em conta o tempo em que eu estou aqui. Pelo menos eu agradeço por não ter tido que matar ninguém ainda. Faz com que eu me sinta melhor.

Queria saber se você está bem, se não está fazendo a frescura de não se alimentar, dormir, entre outras coisas. Sabe que se eu descobrir que você não está cumprindo a promessa eu ficarei pela cidade Central quando voltar.

Como é que o Al está? Eu não me sinto tão bem ao saber que ele teve que esperar mais todo esse tempo para recuperar o corpo dele. Quero me desculpar quando chegar. Na verdade, quero pedir desculpas a você, Winry. Por causa do tempo que eu demorei a lhe contar da guerra e por ter feito você sofrer tanto por isso.

Apenas quero que não se esqueça: eu vou voltar para todos, principalmente para você. Não se preocupe, eu já disse que uma guerra não é capaz de me derrubar. Eu também quero que você sorria sempre.

Quando tudo isso acabar, eu voltarei para cuidar daquilo que me pertence.

Eu te amo,

Edward

Era uma carta pequena, mas ele nunca tinha me pedido nada como aquilo antes. Bom, não adiantaria responder isso na minha carta, pois já tinha respondido quando ele me mandou.

Mas eu já sabia algumas coisas para escrever nessa, então comecei a escrever. E as horas foram passando sem que eu notasse. E a chuva continuava, sem diminuir. Senti meus olhos teimando em fechar. Quando já não agüentava mais de sono, me deixei adormecer.

Eu corria em meio a um monte de corpos ensangüentados. Oficiais do exército, pessoas nativas do país que eles atacavam na fronteira leste. Foi aí que eu percebi que estava no mesmo lugar que Ed. Comecei a correr procurando por ele.

- Ed... Ed! ED! EDWARD! – eu gritava por seu nome. Meu maior medo era encontrá-lo entre os corpos espalhados pelo chão.

Ouvi explosões ao longe, vindas de uma parte mais ao norte. Fui em direção a elas. Se ele estivesse vivo, estaria por lá.

Enquanto eu corria desesperada devo ter tropeçado em algum corpo e acabei caindo no chão. Senti arder a pele dos joelhos, mãos e queixo, que acabaram raladas e já sangravam. Ignorei a dor. Eu queria encontrá-lo vivo, ter certeza que o levaria para casa naquele momento, então voltei a correr na direção dos tiros e explosões.

Eu estava chegando cada vez mais perto. Agora já via uma fileira de homens do exército trocando tiros e jogando bombas na área inimiga. Para meu completo alívio, e muita preocupação, eu encontrei o meu pequeno loiro de cabelos trançados e capa vermelha por lá. Ele estava um pouco mais atrás e de vez em quando se baixava para transmutar algo do chão. Fui correndo até ele. Eu queria que Edward voltasse para casa.

- Ed! – gritei novamente pelo seu nome. Depois, foi tudo muito rápido.

Um homem das linhas inimigas me viu e mirou em mim. Quando me dei por conta, senti uma dor lancinante em meu peito e sentia o sangue jorrar. Eu tinha levado um tiro... Comecei a arfar, pois repentinamente respirar se tornou uma tarefa muito difícil.

Ed conseguiu notar que ele tinha mirado para além do exército. Ele se virou e me viu correndo.

- Winry! Saia! – ele gritava aterrorizado. Foi nessa hora que ele levou um tiro na cabeça. Apenas o vi caindo no chão. Ignorei meu próprio sangue, minha dor, minha tontura... Minha morte.

- Ed! ED! – lágrimas jorravam dos meus olhos. Deixei-me cair, chorando entre os cadáveres. O movimento dos soluços fazia meu sangue jorrar mais ainda. Minha visão ficou enevoada e distorcida pela dor...

Então, eu acordei.

Despertei pulando na cama. Provavelmente Al tinha vindo me ver e me encontrou dormindo na escrivaninha, então devia ter me posto ali. Minhas pernas tremiam. As lágrimas rolavam pelo meu rosto de verdade. Olhei para o meu peito e, como eu esperava, não tinha nada de balas ou sangue, ou qualquer vestígio de ferimentos. Mesma coisa em meu queixo, joelhos e cotovelos. E eu esperava que aquele tiro na cabeça fosse apenas um fruto da minha imaginação.

- Ele ainda está vivo – fechei meus olhos e abracei as pernas, sentada na cama – Ele ainda está vivo e isso foi apenas um pesadelo ruim...

Isso não me acalmou muito. Eu soluçava, pela primeira vez depois de muito tempo. Tinha me orgulhado de conseguir agüentar o tempo em que ele esteve fora sem lágrimas e agindo normalmente, como ele sempre esperou de mim. Mas eu tinha que colocar aquele acúmulo de preocupação e nervosismo para fora, antes que eu explodisse.

- Ed... – murmurei para o vazio, colocando a cabeça entre os joelhos – Você não levou um tiro na cabeça, não é?

- W-Winry?! Está tudo bem? – ouvi a voz de Al. Levantei a cabeça e o encontrei na porta do quarto.

- Ah, é você, Al... – eu disse com a voz fraca. Tentei sorrir – Foi só um pesadelo, está tudo bem agora, não se preocupe.

Apenas um pesadelo... Eu desejava ardentemente que nada do que aconteceu com Ed em meu pesadelo tivesse realmente acontecido com ele. Seria impossível ele ter morrido da mesma forma, afinal, eu não estava lá realmente, eu não tinha levado tiro algum. Mas... Edward Elric, eu apenas lhe peço: não esteja morto.

- Está tudo bem mesmo Winry? – Al perguntou preocupado ao ver os vestígios de choro em meu rosto. Respondi que sim.

- Vou tomar um banho – falei me levantando. Al começou a me dar licença, para que eu pudesse fazer tudo tranquilamente. Eu queria que ele ficasse um pouco – Vou arrumar meu quarto antes, pode ficar aqui por enquanto.

- Ah, ok. – ele respondeu.

Então eu fui arrumar a cama. Enquanto eu dobrava os cobertores, Al comentou:

- Eu te encontrei dormindo na escrivaninha – bem como eu tinha pensado, foi ele que me colocou na cama.

- Ah, foi você... – falei um pouco mais concentrada em minha tarefa – No final, eu não fiz muita coisa na carta.

- Fez sim – quando ele disse aquilo, eu me virei para encará-lo. Al riu – Eu li... Ficou boa, não se preocupe.

Eu percebi tristemente que a risada do Al e de seu irmão eram muito iguais. Ao mesmo tempo, eu ficava feliz e triste, pois Al estava ali, quase como um irmão para mim, passava o tempo comigo, me ajudava em maiores dificuldades, entre outras coisas. Mas também, na forma de agir, de rir, de falar... Era um Edward mais doce, mais jovem, mas ainda assim, um Edward. Mas não era o Edward pelo qual me apaixonei. Era um que servia mais como um irmão. Só que me lembrar do verdadeiro trazia uma saudade tremenda e o triplo de preocupação. Pelo menos eu tinha aprendido a lidar com isso, fazendo com que eu não me sentisse acabada como eu me sentia no início.

Terminei de arrumar a cama e olhei para o resto do quarto. Estava bagunçado o suficiente para arrumar. Comecei logo o trabalho.

- Quer ajuda? – a armadura se ofereceu.

- Ah, não precisa, não é muita coisa – recusei, dando um sorriso.

Logo eu acabei então fui pegar uma muda de roupa no armário. Al saiu do quarto e foi brincar com Den no jardim de casa, e da vovó eu não sabia, pois ainda não a tinha visto. Peguei minha toalha, deixei as roupas na cama e fui tomar banho.

Deixava a água correr pelo meu rosto, em uma tentativa de fazer aquela água levar os pesadelos e lembranças desagradáveis para o ralo. Pensava em nada, apenas sentindo os pingos do chuveiro.

De repente, comecei a ter algumas sensações... Era como se ele estivesse ali, colocando as mãos em meu rosto e me fazendo olhar para ele. Depois, com a mão do automail ele passava a mão pelos meus cabelos. Tirava a mão esquerda de meu rosto e a colocava na cintura, me puxando para ele. Dei um passo à frente, facilitando. Mas quando eu fiz isso eu saí de baixo da água do chuveiro, despertando de meu sonho mais repentinamente do que como entrei.

Quando a sensação daquelas mãos passou, um vazio tremendo tomou conta de mim. Volte... Eu quero... Que volte... Eu implorava em meus próprios pensamentos para ter aquela sensação de estar com ele novamente. Mas ela não veio. Voltei minha atenção para o meu banho, ainda com aquele vazio tomando conta de meu corpo, e principalmente da minha mente.

- Espero que isso signifique que eu terei você de volta – murmurei, embora eu soubesse que essas coisas significavam morte. Não, na verdade nem isso, não era algo que significasse alguma coisa. Era apenas... uma saudade, confusão...

Amor. E isso ninguém poderia discordar.

- Eu sei que não vai me deixar esperando – murmurei novamente, agora com um sorriso leve no rosto. Senti uma gota descendo dos meus olhos pelo meu rosto, mas se era uma lágrima ou água do chuveiro, eu não sabia. Mas me deu boas sensações.

Depois do banho, voltei para o meu quarto e me vesti. Não tinha nem ao menos visto que roupa eu tinha pego, mas na hora de colocar eu vi: era uma calça bastante larga, azul bem escura, e uma regata justa da cor preta. Nem sabia que essa roupa existia, apenas peguei, vesti e depois me olhei no espelho: assustei-me com o bocado de mudanças nos últimos dois anos. Eu estava mais alta, meu corpo apresentava traços bem mais definidos do que quando eu tinha 15 anos, meu rosto ficou mais "adulto", com as maçãs do rosto mais destacadas. Mas meus cabelos continuavam os mesmos. Se nesse tempo eu tinha mudado... Imaginei Ed: provavelmente ele estivesse mais alto... Ah, céus... O automail! Ele poderia estar passando por dificuldades devido ao tamanho dele! Logo parei de me olhar no espelho e fui para a carta. Acrescentei notas sobre isso mais embaixo, peguei e comecei a ler o que tinha escrito enquanto caminhava distraidamente pelo meu quarto:

Edward?

Você está bem?! O que aconteceu?! Você não mandou mais nenhuma carta!

Eu estou muito preocupada com você... Sabe, não é? Eu espero que você esteja bem. Eu, Al e a vovó.

Queremos que você não se culpe por nada, que você não pense mais que Al está magoado por você demorar dois anos aí. E principalmente queremos que você volte. Acredito que eu, mais do que todo mundo quer isso. Quero você aqui para poder te abraçar, eu quero que você "cuide do que é seu" (eu nunca me esqueci daquele dia, Ed), quero ver seu sorriso, ouvir sua risada, dormir ao seu lado, te beijar, tomar café da manhã com você todos os dias, te ver treinar e sair com você para passear com Den... Quero você aqui ao meu lado para sempre, então... Não morra.

Lembrando que você partiu com algo para me falar. Eu ainda espero que você se lembre do que era!

Eu te amo.

Winry

Ah, eu pensei em algo: você deve ter crescido nesse tempo! Como está a situação do automail?! Ele... Deve estar atrapalhando, não?! Eu estou MUITO preocupada com isso.

Depois que eu terminei a leitura, percebi que novamente eu parei em frente ao espelho. Olhei bem fundo em meus olhos azuis, depois para a carta. Uma onda de esperança tomou conta de mim. Eu tinha certeza que ele voltaria.

--

Deixem reviews, críticas (e elogios também XDDDD) entre outras coisas? ^^'
Os capítulos ficarão maiores com o tempo, :D

beijão :*