Carta 3#

(Ainda em) 14 de Maio.

Querido Estranho,

Sorrisos, cigarros e café. Dói-me assumir que ainda me lembro das tardes perdidas no fundo daquele apartamento imundo, enquanto arranjávamo-nos meio aos lençóis jamais arrumados, trocávamos palavras e confidenciávamos memórias. Meu nome (real), sendo articulado pelo vão dos teus lábios cobertos de carmim, e as promessas sussurradas aos ventos, sob as estrelas, nas noites que passávamos juntas.

Ainda lembro-me dos teus traços femininos, da tua feição infantil quando confidenciava-lhe o afeto que tinha por ela. Das tuas curvas fazendo-se presente no reflexo do espelho, formadas por luz e sombra diante dos meus olhos, e fazendo-me desejá-la mais do que qualquer outra pessoa. Lembro-me de quando falava-me pelos olhos, e gritava-me tuas angustias sem ao menos dizer uma palavra. E recordo-me perfeitamente bem da tua tristeza reprimida quando deixava-a no meio da noite e vestia-me n'aquelas roupas vermelhas – quase tão vermelhas quanto teus lábios.

Querido Estranho, talvez este tenha sido o mais proveitoso de todos os outros relacionamentos – curtos e frustrados – que tive o desprazer de envolver-me. E talvez seja esta, doce e eterna criança (mesmo aos teus vinte-e-poucos anos), um dos únicos seres humanos adoráveis que a Terra tenha conhecido em quase seis bilhões de anos.

Deixei com que fosse, antes que pergunte-me, e não havia um exato motivo para isso. A razão gritava-me que este era o caminho certo a seguir, contrariando os desejos do coração, que dizia que deveria deixá-la ficar. No final das contas, razão e coração trabalham em equipe, mesmo que inconscientemente, não importando o quão contraditório isto soe aos ouvidos dos clichês.

Querido Estranho, se continuares vivo até o final destas cartas, peço para que não procure-me, pois o resultado desta ação não seria agradável aos olhos humanos que com certeza tens. No entanto, se depois desta, fores bem-aventurado e partires, deixo com que assombre-me os sonhos, que, por sua vez, são vazios e obscuros o suficiente para precisarem de alguém.

Confesso-lhe com certo pesar: Ainda sinto, durante minhas noites não-dormidas, que uma fração consideravelmente pequena e encantadora de Roxanne continua a esconder-se sob esta pele destruída. Anseia por sair, e odeia-me por trancá-la sob sete chaves dentro de um coração congelado. Confesso-lhe que ainda calo-me e curvo-me a teus desejos por certas madrugadas, quando Roxanne percorre meu corpo, e leva-me a cometer com ela os pecados pela igreja proibidos.

Deus. Se existires, tira de mim este fardo que carrego. Sensual e luxurioso, fazendo-se quente por entre as minhas pernas, envolvido em ofegos e toques íntimo–pessoais.

Onde estariam os homens, as mulheres, as faces estranhas, as notas de cem francos e os diamantes (os melhores amigos das mulheres) que costumavam vagar pelas ruas parienses sob sorrisos e cigarros? Talvez esta Paris tenha tornado-se uma grande armadilha arquitetada para os infiéis que deixam tuas esposas em casa, como tu provavelmente fazes.

Talvez esta Paris nunca tenha valido nada, nem mesmo a mixaria cobrada pelos cartões-postais que as esposas americanas da alta-sociedade costumavam enviar deslumbradas aos teus maridos infelizes, que decerto traíam-nas com qualquer prostituta de um bordel caro entre a quarta e quinta avenidas.

Deus. Se existires leve contigo esta Roxanne, que insiste em dar vida a memórias não-requisitadas e já há muito deixadas para trás. Leve contigo esta que cede, cegamente, aos desejos provocados pela imagem da tua doce sedutora de lábios vermelhos.

Permito-me caminhar pelas ruas, desfrutando da sensação de reconhecer em cada avenida, praça, paredes e postes, em cada ladrinho de cada rua, em cada sorriso forçado em uma forma educada de dizer-se bom dia, e em cada mísero e repugnante lugar um fragmento deteriorado da minha alma.

Querido estranho, talvez eles não se lembrem de mim, mas Roxanne ainda lembra-se de cada uma daquelas faces, corpos e mãos e os toques carinhosos por elas provocados.

Encaramo-nos, frente a frente, e falham-me os joelhos mais uma vez.

Incerta, subscrevo-me,

Roxanne.