Capítulo 1

Eu tenho a sensação de reconhecer que
Eu não sei como deixa você ir
Cada momento marcado
Com aparições da sua alma.

Do What You Have To Do - Sarah McLachlan

*~*~*

O sol estava se pondo sobre a baía, fazendo a vasta extensão de água abaixo parecer um ouro líquido. Eu sorri enquanto me esticava para fora dos raios que morriam e a areia quente da praia acariciava a minha pele.

"Está se divertindo?" sua voz suave sussurrou em meu ouvido, sua respiração fazendo cócegas em meu pescoço e causando formigamentos com prazer em meus nervos.

"Mmm" Eu sorri, rolando-me em seu frio abraço, cobrindo-me com seu rígido torso. Ele riu novamente e com seus finos dedos colocou meu cabelo para trás de minha orelha.

"Eu amo você", ele murmurou antes de plantar uma série de beijos delicados ao longo da linha de minha mandíbula. Eu tremi, apesar do calor, e abertamente agarrei-me em seus largos ombros. Lentamente, eu abri meus olhos...

Bip Bip.

Bip Bip.

"Não", eu gemi, minha cabeça coberta pelo edredon. "Mais cinco minutos" Eu estava chegando na parte boa...

Bip Bip.

Bip Bip.

Eu grunhi e sai debaixo das cobertas, meu braço apanhou ferozmente o alarme. Eu ouvi um estrondo ensurdecedor e senti o chão tremer. Sentei-me, o edredon caiu para fora e eu fui exposta a uma parede de ar frio congelante. Com a vista ofuscada e desorientada, eu olhei confusa ao redor do quarto, procurando pelo motivo do estrondo. Meus olhos caíram no armário ao lado da minha cama – na minha pressa de desligar o alarme, parece que este se desviou, fazendo com que vários livros e CDs caíssem precariamente em uma pilha no chão. Meus olhos caíram sobre o alarme, que agora estava inocentemente aninhado entre Jane Eyre e Great Expectations.

Bip Bip.

Bip Bip.

"Estúpido pedaço de lixo", eu resmunguei, batendo minha mão com força no botão "Desligar" antes de relutantemente levantar-me da cama. Eu tropecei na sala e no corredor até chegar ao banheiro e encontrei no meu caminho no mínimo três coisas para tropeçar. Não antes de eu ter tomado banho, me vestido e tomado um copo de suco de laranja – minha tolerância por cafeína era vergonhosamente baixa – que eu pude sequer pensar no meu dia a minha frente.

Eu me arrastei para um dos banquinhos do balcão da cozinha do meu pequeno apartamento e olhei para o calendário pendurado na parede. 4 de Janeiro. Mais de seis anos se passaram desde que Edward me deixou na floresta em Forks; durante o qual eu tinha lutado cada dia incapaz, apesar de meus esforços mais difíceis, de esquecê-lo. Eu tinha terminado a escola e conseguido boas notas, até mesmo em cálculo – evidentemente ter um coração partido e um isolamento social pode fazer maravilhas para o trabalho de uma pessoa ética. Depois de eu ter entrado para a faculdade – não em Dartmouth – onde eu me formei em Inglês, eu treinei para me tornar uma professora. Eu consegui meu primeiro emprego ensinando Literatura Inglesa em uma escola de ensino médio em Rochester, Nova York, e tenho morado na cidade por quase dois anos.

Minha vida seguiu em frente, mesmo se eu não.

Eu gemi de novo enquanto olhava para a janela e notava uma cidade coberta por neve. O tempo de Rochester me lembrava o de Forks – menos chuvoso, mas bastante hostil. Eu me virei e me vislumbrei no espelho que estava pendurado na parede oposta. Em termos de minha aparência, muita coisa não tinha mudado. Eu ainda estava natural e embora meu corpo tenha ganhado algumas curvas extras ao longo dos anos, ainda estava magro e normal. Meu cabelo e olhos ainda eram castanhos e meus lábios cheios, mas meu rosto tinha perdido todo o rastro da minha infância na medida em que eu fazia a transição de adolescente para adulta. Eu me pergunto, o que ele pensaria de mim?

O pensamento errante me surpreendeu e eu sacudi minha cabeça, irritada comigo mesma. Eu normalmente não me permitia alimentar-me com esses tipos de perguntas – elas fazem parte de memórias que eu preferiria esquecer. Eu aprendi ao longo dos anos que era mais fácil me distanciar de qualquer coisa que me ligasse ao meu passado; era a maneira menos dolorosa de viver. Foi por essa razão que eu peguei o emprego em Rochester, milhares de milhas distantes de Forks. Eu devo ter brigado com Charlie quando ele tentou me mandar de volta para Phoenix nos meses seguintes da partida de Edward, mas assim que eu deixei a escola, percebi que estar cercada por memórias dele estava me deixando lentamente louca.

Na verdade, esta foi, em parte, a razão pela qual eu passei a folga de Inverno sozinha, apesar dos apelos de Charlie e Renee para ir visitá-los. Eu estive em Forks para o dia de Ação de Graças, contudo; jantar em La Push tinha se tornado um acontecimento anual no meu calendário. Jacob e eu ainda éramos amigos.

Ah, Jake, eu pensei melancolicamente, meus olhos recaíram num porta-retrato em cima da mesa de café. Era uma foto de nós dois sentados em frente à fogueira na First Beach há cinco anos atrás. Ele estava com seu braço ao meu redor e sorria – essa era uma das únicas fotos que eu tinha que me mostrava genuinamente feliz. No fundo você pode ver as figuras de Quil, Embry, Paul, Sam e Jared jogando futebol americano.

Emily tinha tirado esta foto depois de termos terminado de comer. Eu ainda podia me lembrar como ela tinha dito que nós formávamos um bom casal e do triunfante brilho nos olhos de Jacob por causa dessas palavras. Isso nunca tinha acontecido, apesar dos desejos de Jake. Nós tentamos por alguns meses durante o verão, antes de eu deixar a faculdade – talvez porque eu estava cansada de continuamente ter que afastar meus limites ao seu redor, ou então porque eu tinha finalmente aceitado que eu o amava daquela maneira. Qualquer que tenha sido a razão, nós decidimos nos dar uma chance. Não durou. Para ser honesta, eu acho que eu ainda estava muito magoada para ter um relacionamento além da amizade com qualquer um, muito menos alguém tão importante como Jacob é para mim. Eu estava com muito medo de me aproximar muito dele, medo demais de perdê-lo como eu perdi Edward. Tudo terminou quando eu deixei a escola em Setembro e nenhum de nós dois fez qualquer tentativa de reavivar as chamas nos anos seguintes. Ele tinha até conhecido uma garota, Carole, e eles se casaram. Ela era tudo que eu poderia ter escolhido para Jake – tudo que ele precisava e que eu não poderia dar a ele. Ela era feliz, inteira e era capaz de amá-lo sem nenhuma condição, algo que eu jamais teria sido capaz de fazer.

Eu olhei para o relógio. Era hora de sair. Cuidadosamente peguei minha bolsa de trabalho, coloquei meu casaco e apanhei, de um recipiente do aparador, minhas chaves. Estava mais frio na rua do que eu poderia esperar. Aconcheguei-me em meu casaco e afastei minha cabeça para longe do vento. Eu não tinha um carro. Eu tive que deixar minha caminhonete em Forks e embora eu ainda tivesse minha moto, esta não era mesmo a forma mais sutil de dirigir até o trabalho, especialmente no verão. Como resultado, eu ia de ônibus para quase todos os lugares.

A jornada não era longa e eu estava absorvida em meus pensamentos que quase não percebi as ruas e casas passando rapidamente. Eu não pude me conter, mas pensei no sonho que eu estava tendo quando acordei. Meu sonho com Edward não era incomum, mas minhas imaginações nunca foram tão vividas como foram nesta manhã. Isso deveria ser coisa ruim, o que viria a seguir, ouvir vozes? Eu ri da minha própria piada enquanto o ônibus chegava a minha parada e eu pulava para fora, simulando um fraco sorriso para o motorista.

Sycamore Grove High School era grande, com mais de 2500 estudantes inscritos. Eu, sobretudo, ensinava aos veteranos, mas eu reconhecia alguns dos jovens estudantes das muitas extracurriculares que eu tinha dado ano passado. Eu gostava de me manter ocupada e voluntariar - para ajudar a organizar algumas atividades - parecia ser uma excelente maneira para fazer isso. O prédio em si era típico de uma escola de Ensino Médio – grande e largo com tijolos coloridos e degraus que levam até a ampla porta da frente, através da qual os estudantes geralmente passavam. No meu caminho eu tinha que ter cuidado para não ser pega, no fogo cruzado, por uma das muitas bolas de neves que normalmente eram jogadas, pelo o que parecia, pela maioria da população de estudantes do sexo masculino. Eu sacudi a minha cabeça e rolei os olhos – algumas coisas nunca mudam.

Enquanto eu chegava à porta, eu vi um estudante, que eu reconhecia de uma das minhas turmas, andando em minha direção. Eu suspirei meio divertida e meio exasperada. Era Adam Carter – um popular que aparentemente (Eu não sigo mesmo o esporte da escola) era um tipo de estrela do time de beisebol. Ele tinha cabelos loiros e olhos castanhos e me lembrou irresistivelmente de Mike Newton, e até mesmo parecia ter a intenção de me seguir em todos os lugares. Meus colegas gostam de me provocar dizendo que ele tem uma paixonite por mim, mas eu preferia chamar de excesso de simpatia – a atenção de um garoto de 17 anos era algo que eu não precisava. Não, você prefere sonhar com eles em vez disso. Eu ferozmente cravei minhas unhas em meus punhos e tentei tirar esse pensamento da minha mente. Como se eu precisasse ser lembrada da minha doente noite de alucinações – elas estavam tomando conta da minha vida.

"Oi Srta. Swan!" Adam disse, sua voz alta fazendo com que as pessoas virassem e olhassem enquanto ele andava até mim. Ele se movimentou para pegar a minha bolsa, mas eu dei um passo para trás tentando encobrir isso fingindo ter tropeçado. Para o meu infortúnio, isso pareceu não detê-lo.

"Hm, olá Adam, teve um bom Natal?" Eu perguntei, distraidamente, procurando por cima de meu ombro por uma rota de fuga.

"Oh claro, eu e o pessoal fomos esquiar, foi MARA-vilhoso," ele ressaltou seriamente, suas palavras dissolvendo em mingau no meu cérebro. Eu debilmente registrei o uso da gíria e pensei em como a língua hoje em dia era muito mais desinteressante do que a língua formal do inicio dos anos 90, em seguida eu me repreendi. Foi preocupante o efeito que aquele pequeno sonho teve em mim.

Eu interrompi Adam, decidindo que era hora de fazer minha fuga. "Isso é ótimo, mas eu tenho que ir e falar com, uh," Eu forcei meu cérebro a pensar em um professor plausível e decidi por um o qual o escritório estava mais distante possível, "Dr Takagi, então eu te vejo mais tarde." Eu dei o que esperava passar por um sorriso e fugi, quase tropeçando pelas escadas enquanto eu ia.

"Sim," Adam falou atrás de mim, "primeiro horário na 12E!" Eu não respondi, mas entrei na porta mais próxima, balançando minha cabeça em descrença enquanto eu entrava. O que tinha comigo e todo esse excesso de entusiasmo adolescente? E como eles nunca pareciam perceber que eu não era tão interessante quanto eles me faziam parecer ser?

Essas reflexões me preocuparam até que eu cheguei à sala dos professores, e para meu alivio profundo, eu não fui abordada por nenhum outro admirador da puberdade. Enquanto eu entrava na grande e bege sala dos professores, torci meu tornozelo e joguei minha bolsa no meu pé, para o divertimento de vários professores de matemática que estavam em pé pelas proximidades. Irada, eu peguei minhas coisas e fui para a cozinha. Dane-se a cafeína, eu pensei comigo mesma, Eu preciso mesmo de um café.

*~*~*

Para meu espanto, o intervalo eventualmente chegou ao fim, e eu fui forçada a deixar a segurança da sala dos professore e a afrontar a selva que eram os corredores. Eu olhei para o meu calendário e percebi que Adam estava correto – minha primeira aula era, de fato, no Bloco 12. Para chegar lá, eu levaria cinco minutos, sete se eu contasse com o congestionamento e as bolas de neve que eu teria que esquivar durante a minha rota. Servi-me de outro copo de café – se você começa algo, tem que terminar – e sai da sala apressadamente, antes que eu fosse repreendida por remover louças da escola.

A jornada foi, felizmente, sem impedimento algum – a não ser se você contou com a separação de uma briga, a prevenção de arremessos de bolas de neve no interior da escola e reorientação de uma caloura confusa quando ela tentou assistir sua aula de biologia no armário do zelador enquanto os muitos "prestativos" estudantes do segundo ano riam em silêncio dela.

Quando eu finalmente cheguei a 12E, encontrei metade da sala já presente, trocando de lugares e descansando nas mesas enquanto eles divertiam-se, contavam fofocas pós-férias e tiravam fotos deles mesmos com seus celulares. Ainda faltavam cinco minutos até que a aula começasse então eu os deixei por um tempo enquanto eu separava meus materiais para a lição. Nós iríamos começar 'Orgulho e Preconceito' hoje e, desde que nós fôssemos rápidos o suficiente, nós iríamos progredir para 'Jane Eyre' em questão de semanas. Seis anos atrás, eu não era capaz de ler meus romances favoritos de Austen e Bröntes sem cair em lágrimas. Agora, entretanto, eu sentia nada além de uma dor passageira em meu peito vazio – desconfortável, mas suportável.

Eu cavei fundo na minha bolsa para achar as folhas de papel que eu estava planejando entregar para a turma e enquanto eu remexia, meu cotovelo bateu em minha bolsa. "Merda," Eu amaldiçoei quando uma das minhas pastas caiu no chão e todo o seu conteúdo foi jogado no linóleo. Eu andei ao redor da mesa e abaixei, ainda com o café na mão, para recolher o papel.

"Eu lhe ajudo Srta. Swan!" uma ansiosa voz gritou, e eu olhei para ver Adam de novo. Eu não tinha notá-lo entrar na sala e eu senti um lampejo de irritação.

"Não Adam, eu estou bem, obri-" Eu protestei, mas sem utilidade. Ele me ignorou, saltando de sua mesa com o tipo de energia que só um adolescente possui em uma Segunda-feira de manhã. Ele realmente é como o Mike, eu pensei comigo mesma, enquanto eu o olhava coletar todos os meus papeis com tanto entusiasmo, que ele bateu no copo de café que estava em minha mão. Ou talvez ele tenha um pouco mais de mim. Estremeci quando a caneca caiu com uma quebra no chão...direto no pé de um homem que acabara de aparecer na porta.

Uma série de risos e assobios irrompeu da sala, enquanto os olhos deles passavam de minha expressão irritada para a mortificada de Adam. Eu suspirei. Que maneira de começar o semestre.

O homem na porta limpou sua garganta e eu olhei para cima para ver Patrick Delaney parado lá. Um quase exaustivamente dedicado professor, Patrick foi meu mentor nos meus primeiros meses de ensino e, apesar de ele ser quase uma década mais velho do que eu, nós tínhamos uma espécie de amizade. Esse ano, ele era responsável por todas as turmas do penúltimo ano – nada fácil, considerando que elas contêm mais de 600 estudantes.

"Oi Srta. Swan," ele limpou sua garganta, divertido, "está, uh, tudo certo?"

"Nunca estive melhor," Eu disse entre dentes, dolorosamente ciente do rubor que estava começando a formigar minhas bochechas. Eu não estava preocupada com a reação de Patrick sobre o café – eu sabia que ele não se importaria nem um pouco – mas eu não apreciava o fato de que eu acabara de fazer papel de idiota na frente de uma turma de adolescentes antipáticos.

Patrick sorriu para mim descaradamente, seus olhos escuros brilhando por detrás de seus óculos, "Bem, eu só vim aqui para lhe dizer que você está esperando por um novo aluno na sua aula esta manhã. Ele está com a secretária neste momento coletando seu calendário, mas ele deve estar aqui mais tarde."

"Obrigada, Sr. Delaney," eu respondi, revertendo o uso de seu sobrenome para o bem de nossa plateia.

"Sem problema," ele olhou para Adam e apontou para o copo quebrado, dizendo severamente, "Eu pegaria alguma coisa para limpar essa bagunça se eu fosse você filho, antes de alguém escorregar nisso." Ele esperou o bastante até que Adam conscientemente saiu da sala, antes de piscar animadamente para mim "Vejo você depois, Bella.".

Com um suspiro eu virei para encarar a turma, ignorando os últimos retardatários minutos enquanto eles corriam para os seus lugares. Era hora de ter algum trabalho feito.

*~*~*

Estávamos em dez minutos de aula e todo o estresse da manhã tinha desaparecido. Ensinar era algo em que eu era boa, e eu realmente curtia isso, especialmente quando tenho que discutir sobre romances. Quando eu deixei a escola, eu brincava com a ideia de me tornar uma bibliotecária antes de Charlie convencer-me a seguir a educação como uma carreira. A principio, eu pensei que ele estava louco; eu mal poderia olhar para um grupo de pessoas sem corar. Gradualmente, entretanto, eu percebi que talvez essa não fosse uma ideia tão ridícula, afinal. Eu sempre amei discutir sobre livros – agora eu estava sendo paga por isso. Havia algo também excessivamente satisfatório em compartilhar meu amor pela literatura e ver estudantes curtirem os livros que eles estudavam. Logo descobri que minha total falta de confidência não era um problema; era como se discutir sobre os personagens que eu amava tanto, eu estivesse me protegendo de qualquer insegurança. Fora da sala de aula isso tinha um significado completamente, mas por dentro eu era meu elemento.

Eu tinha instruído a turma a se juntar em pares quando, sobre o surto de burburinhos que se seguiu, eu ouvi a porta se abrir de novo. Esperando ser Adam com o material de limpeza, eu não olhei, mas me ocupei em distribuir folhetos para os grupos de estudantes e em terminar com as briguinhas sobre o agrupamento. Não foi até que eu retornei para a frente da turma que eu percebi que Adam ainda não tinha entrado na sala.

"Adam," eu suspirei, "Por favor, não fique parado na porta, venha e –" as palavras morreram em minha garganta enquanto eu olhava para a figura na porta. Não era Adam. Eu me senti enrijecer enquanto eu olhava, chocada, para o seu rosto.

Não. Não podia ser, não depois de todo esse tempo, Não, Bella. Você ainda está sonhando. Eu balancei minha cabeça, espantada, enquanto eu desviava o olhar e depois voltava para ele, incapaz de acreditar no que eu estava vendo. Acorda Bella, acorda! Mas eu estava acordada. Eu estava acordada e olhando diretamente para o rosto que eu estava tentando esquecer por anos, o rosto da primeira e última pessoa que eu tinha amado de verdade.

Edward.

O mundo caiu, deixando nada além dele. Eu não conseguia acreditar que ele estava aqui, depois de seis anos de nada, aqui estava ele parado a três pés distantes de mim. Ele aparentava o mesmo como ele sempre foi: alto, pálido e claro, devastadoramente lindo. À medida que meus olhos famintos passavam por seu rosto, eu instantaneamente soube que meus sonhos tinham sido ridiculamente pobres em qualidade. Era uma agonia deliciosa, eu deliciava-me com cada detalhe, mas cada olhar apenas rasgava o meu coração.

"Ed-dward," Eu gaguejei, minhas mãos segurando a beira da minha mesa para previnir-me de cair. Eu vagamente registrei que as conversas na sala tinham aquietado, e eu pude sentir os olhares curiosos dos estudantes da primeira fileira na minha postura rígida e expressões chocadas com grande interesse. Eu sabia que eu deveria falar alguma coisa, qualquer coisa, mas eu não conseguia. Minha mente estava inundada com todas as memórias que eu tinha até então reprimido, que agora correram como água rompendo uma barragem.

Edward rindo enquanto ele balançava as neves de seu cabelo; Edward na clareira; jogando vídeo games com Emmett; ouvindo música; com seu carro em alta velocidade na estrada; Edward beijando meu pescoço; suas mãos passando pelos meus lados enquanto ele murmurava contra meus lábios...

Eu arfei enquanto essa última chegava a mim, tamanha foi a força de sensações que ela me causou. Eu olhei para Edward, meu coração esmagando.

"Bella," ele respirou, sua voz aveludada tão calma que só eu pude ouvir. Ele me olhou surpreso, mas muito, muito mais composto do que eu. Ao menos, ele não estava tremendo descontroladamente.

Nós nos olhamos por uma eternidade até que, finalmente, eu fui salva.

"Srta. Swan?" Era Patrick de novo. Ele ainda aparentava estar indecentemente bem humorado, dada a turbulência emocional que eu estava atualmente passando. Seus olhos examinaram a sala antes de eles caírem sobre Edward e, acenando, Patrick marcou um nome em sua lista.

"Ah, aí está você Sr. Cullen. Há algum problema com o seu calendário?"

E então eu percebi… Isso chegou em mim em mim um horrível alcance de compreensão. Edward era o novo aluno. Edward, meu centenário ex-namorado vampire que tinha, até momentos atrás, estado ausente de minha vida por mais de seis anos, agora era um dos meus alunos. Se eu não estivesse tão chocada, eu teria rido.

"Não senhor," Edward respondeu, sua voz aparentemente inalterada. Debaixo da onde de histeria crescendo dentro de mim, eu senti uma pontada de mágoa e indignação. Será que me ver depois de seis anos, realmente não tem nenhum e qualquer efeito sobre ele? Julgando pela sua expressão, eu acho que não. Claro que ele não se importa Bella , eu disse ironicamente a mim mesma. Você não se lembra do que ele falou na floresta? Eu me lembrava sim, vividamente. A memória de minha rejeição ainda tinha o poder de me trazer a joelhos com a dor que isso causava.

"Excelente. Eu sugiro que você se sente," Patrick sorriu, indicando uma carteira vazia a duas fileiras perto da parede, antes de virar-se para me olhar. Por uma fração de segundo eu pensei ter detectado um lampejo de emoção cruzar as feições de Edward, mas antes que eu pudesse estar certa, ele virou-se de costas para mim e andou graciosamente até a sua carteira. Involuntariamente, eu olhei para Patrick.

"Bem, vou deixar você então," ele sorriu, baixando sua voz "Você não deverá ter nenhum problema com este Bella, de acordo com os seus registros, ele era um estudante com honras em San Francisco." Eu apenas assenti mudamente, incapaz de sequer responder, algo que Patrick, com todo o seu papo animador, pareceu não notar. "Tenha um ótimo dia Bella", ele falou enquanto saia da sala.

Um ótimo dia. Claro.

Eu me virei para encarar a agora quieta sala, tentando o meu melhor para disfarçar o fato de que eu estava tremendo e certificando que meus olhos não me levassem para o assento próximo da parede, duas fileiras da frente.

"Okay pessoal, vamos voltar para o capítulo três," eu consegui sufocar. A cena onde os amantes se encontram pela primeira vez; quão doentio e apropriado, eu pensei comigo mesma.

Então, eu soube que a única maneira de escapar desse pesadelo era continuar lecionando, até que eu fosse salva pelo sino anunciando o recreio. Eu cerrei os punhos, endureci minha decisão e me preparei para as manhãs mais difíceis da minha vida.