Disclaimer: Demian (c) Hermann Hesse. Lilith (c) Abracadabra T.


I.

As pontas dos dedos das mãos cheias de fuligem das cordas velhas do balanço; as pontas dos dedos dos pés levemente sujas de terra por causa do impulso no chão e ela sorria quando alcançava o céu. Olhou ao redor e constatou que estava só – sua mãe brigaria se a visse fazer o que faria em seguida. Pegou mais e mais impulso até estar tão alto e... soltar.

Prendeu o grito infantil na garganta e sentiu os olhos se encherem de lágrimas por causa do vento e aproveitou cada segundo daquele pequeno instante que ficou no ar, antes de ir ao chão. Não levantou. Ficou deitadas de bruços, sentindo dor em todo o corpo, as lágrimas rolando pela bochecha e um sorriso divertido nos lábios. Imaginou que sua mãe falaria Lilith, o que são esses joelhos ralados? E o vestido sujo? Até seu rosto está sujo! Passe para dentro e vá se lavar, menina, conseguia ouvi-la, mas não se importava. Nada importava, a não ser aquele sentimento incrível de liberdade.

— Você está bem — não era uma pergunta, era uma afirmação. Lilith, com certo esforço, virou-se e ruborizou imediatamente. Ela só tinha sete anos e achava todos os garotos do mundo completamente detestáveis (sim, do mundo, mesmo vivendo e conhecendo somente a pequena cidade Delmenhorst) e idiotas, mas sua voz pareceu ficar presa na garganta diante daquele garoto. Piscou diversas vezes, ele era real? Como permaneceu emudecida, o garoto riu. — Ou não.

Lilith ergueu-se num pulo e limpou a terra das vestes, abaixando a cabeça e torcendo para que o cabelo marrom, longo e bagunçado, fizesse uma cortina entre ela e o garoto. Limpou a garganta. Por que estava agindo daquela forma idiota? Levantou os olhos para encará-lo.

E parou. O mundo pareceu ter parado ao seu redor, não daquela forma idiota e açucarada que sua irmã de quinze anos dizia acontecer com os casais apaixonados, não. O mundo realmente pareceu ter se diluído ao seu redor, ela só tinha uma vaga percepção das coisas mais básicas – ou seja, que ela ainda respirava. Mas tudo o que havia acontecido antes pareceu simplesmente dissolver enquanto ela o encarava. Abriu a boca e tentou dizer algo, mas sua voz não existia mais. Ela não existia mais, eram só aqueles olhos, olhos que pareciam conhecer o mundo do começo ao fim – mas como era possível, se o menino aparentava ter só dez anos? –, aqueles olhos velhos, novos, triste, cansados, felizes.

Lilith ainda tinha uma linha de sanidade na mente e abaixou a cabeça mais uma vez, sentindo como se houvesse usado de muito esforço para isso.

— Quem é você? — perguntou.

— Sou Max Demian — o garoto sorriu. — E você é Lilith, não é?

— Como você sabe? — ela arqueou as sobrancelhas, concentrando-se no nariz branco e fino dele, ou em seus lábios aristocráticos e rubros e não naqueles olhos assustadores. Max Demian deu de ombros.

— Eu me mudei para cá ontem.

— Eu não perguntei isso, sabia?

Ela viu o sorriso ser formado: — Eu sei — pausa. — Seu joelho está sangrando.

Lilith baixou o rosto e viu o joelho ralado. Já sabia daquilo, antes mesmo de acontecer, e adorou dar um sorriso vitorioso de que não se importava com aquilo, de que não estava machucada, enfim, simplesmente poder sorrir diante da presença daquele garoto que, a princípio a havia deixado encantada, mas à medida que ela percebia a superioridade que ele exalava, mesmo sem querer, deixava-a irritada.

— Sim, sim, eu já sabia.

— Você está de férias?

— Estou.

— Poderia me encontrar aqui amanhã?

Lilith franziu o cenho, mas algo no tom de voz dele dizia que se ela não concordasse, iria se arrepender quando fosse mais velha; ou pior – e isso fez com que suas costas se retesassem – tinha um medo infantil de ou você me encontra, ou eu encontro você.

— Eu não sei, tudo depende... — ia dizer da minha mãe, mas aquilo não seria estúpido e infantil? Ela só tinha sete anos, mas aquele garoto a incomodava, talvez fossem aqueles olhos infinitos de quem sabia de coisas demais. —... Da minha vontade.

— Claro. Não vai voltar a brincar?

— Não com você no caminho para o balanço, não é mesmo? — Lilith retrucou e caminhou até o brinquedo. O tal de Max Demian afastou-se para deixá-la passar e ela não conseguiu não notar o cheiro de sabonete dele. Balançou a cabeça antes de sentar-se. — Eu vou para casa.

— Algo errado?

Você. Quem é você? — Não... Eu tenho que ir. Até amanhã, tchau! — e saiu correndo para casa, abrindo a porta e manchando o chão com suas sandálias sujas de terra e as paredes com seus dedos de fuligem.

X

Era tão costumeiro aquilo. Ir ao parquinho, ver Max Demian lá, ficar no balanço, irritar-se com ele e mesmo assim adorar sua companhia. Sua irmã dizia que seria o primeiro rapaz de sua vida e Lilith sempre ruborizava com aquilo e dizia que você é muito boba, Katarina, mas até sua mãe gostava desse garoto só tendo-o visto umas vezes quando ia buscá-la no parque! Quem era esse, Lilith? Tão bonitinho...

Mas as férias acabaram e seu contato com Max Demian diminuiu, já que ela não podia passar a tarde inteira brincando. Ia para a escola com Katarina, voltava para o almoço e estudava durante a tarde. Não sabia o que acontecia com Max Demian – e, às vezes, não tinha tempo de pensar nisso, mas quando podia (ou quando se permitia) sentia algo engraçado, talvez saudade.

Abriu a porta da casa e tirou os sapatos sujos de lama para que sua mãe não brigasse.

— E Karl morreu cedo, do coração... Lilith ainda nem era nascida, eu estava com seis meses quando recebi a notícia — respiração profunda. — Somos eu, Katarina e Lilith cuidando uma das outras, desde então.

— Oh, sinto muito... — barulho de chá sendo bebericado. Lilith não conhecia aquela voz. — O pai de Max também morreu antes de ele nascer...

Max?! Os sapatos com lama foram largados no chão, sujando um pouco o assoalho e correu, com a bolsa ainda pendurada no ombro até a sala, onde sua mãe estava sentada tomando chá com uma distinta mulher. A mulher mais linda que Lilith jamais havia visto na vida.

— Lilith! Esta é Eva, mãe de Max — sua mãe sorriu.

— O-Olá, Sra. Demian — Lilith falou baixo, sem olhá-la nos olhos. Sabia que iria sentir aquela mesma sensação que sentira com Max. Olhando para o chão, viu a mulher ficar de pé e andar até ela, pousando uma mão em sua cabeça.

— Finalmente pude conhecê-la, depois de Max tanto me falar de você... — riu baixinho. Lilith sentiu-se corar até a raiz dos cabelos. Voltou-se para mãe e ficou branca de susto. Como não tinha reparado em Max Demian parado logo atrás da cadeira de sua mãe, com um sorriso no rosto e as mãos nas costas?

— Eu... O prazer é todo meu, Sra. Demian. E oi — acenou brevemente para o garoto. Nunca dizia seu nome, nunca sabia se preferia referir-se a ele como Max, o primeiro nome, o jeito íntimo, o jeito que chamaria qualquer um ou Demian, o jeito garboso, o jeito que combinava com ele.

— Lilith, Eva e eu estávamos conversando. Ela ainda não sabia para qual escola mandar Max, então eu fiz um pouco de propaganda e próxima semana ele já estará lá. Pena que não serão colegas de classe... Onde está Katarina?

— Foi para a casa de uma amiga, para fazer um trabalho. Eu... Estou com fome, mamãe.

— Ah, claro! — Beatrice, a mãe de Lilith, ergueu-se. — Só um momento Eva. Você já almoçou, não é mesmo?

— Sim, sim, não se preocupe. Eu e Max esperamos aqui.

Beatrice colocava o almoço de Lilith, enquanto a criança estava sentada na mesa, balançando os pés com meias brancas e folgadas no ar. Algo estava deixando-a nervosa. Como se tudo aquilo houvesse sido planejado por ele. Balançou a cabeça, Max Demian era só um moleque de dez anos, assim como ela só tinha sete.

— Eles não são adoráveis? — Beatrice sorriu. — Fiquei sabendo que nossas famílias já eram amigas! Eva disse que a mãe dela conheceu seu avô, não é interessante? Os Demian e os Sinclair já eram amigos...

Lilith assentiu, remexendo a comida. Nunca conhecera seu avô paterno, Emil Sinclair. Nem o pai, Karl Sinclair. Ambos morreram antes que ela tivesse a oportunidade, mas não poderia sentir falta de algo que nunca teve.

— Quando você terminar, pode sair para brincar com Max. Está de folga hoje.

— Obrigada, mãe — e isso a fez agilizar o processo de almoço. Quando acabou, subiu as escadas para escovar os dentes e tirar o uniforme, descendo rapidamente. Despediu-se brevemente das mulheres, e chamou Max Demian e foram para fora.

— Sua mãe e a minha têm muito em comum, não é? — falou ele, calmamente, enquanto andavam pela calçada. Fazia um pouco de frio, ele estava com as mãos nos bolsos e ela cruzava os braços na frente do corpo. — Ambas ficaram solteiras cedo e tiveram a sorte de uma família rica para sobreviver...

— É — a garotinha assentiu. Ia fazer a curva para chegar ao parque, mas a mão de Max Demian segurou seu ombro. — O que foi?

— Sem você para brincar comigo, eu andei muito por aqui. Acabei chegando num lugar legal, vamos?

Ela estreitou os olhos, mas assentiu. Continuaram a caminhada.

— Você sabe quem foi Lilith?

— Não.

— Era a primeira esposa de Adão.

— A primeira? Adão teve mais de uma esposa? — Lilith franziu o cenho. Ninguém nunca havia contado isso para ela. — E o que aconteceu para ele ficar com Eva?

— Isso eu vou te contar quando você for mais velha — ele riu. Lilith enfureceu-se, colocando as mãos na cintura e parando de caminhar.

— Você só tem dez anos e daqui a uma semana eu farei oito! Não haverá diferença de idade, praticamente, não é? Por que não me conta logo?!

— Na verdade, eu fiz onze anos semana passada — sorriu. — E talvez eu não queira lhe contar agora por você não ser madura o suficiente ainda para entender, certo? Mas não pesquise, por favor, eu quero lhe falar isso. Você só não entenderia agora toda a complexidade de Lilith, Abel e Caim...

— E você entende? — Lilith nem se lembrou de dar parabéns a ele. — Como você pode entender? Você também ainda é criança e fica usando essas palavras difíceis, por quê? Por que você tem que parecer tão superior assim, sempre? Nós somos quase a mesma coisa, não somos? Por que você tem que parecer mais?

Ele ficou em silêncio, olhando-a, enquanto ela se contentava em olhar para o nariz dele, nunca mais aqueles olhos. Viu-o sorrir.

— Foi mais ou menos por coisas como essas que você está me dizendo que eles se separaram, Lilith.

X

— Quando você vai beijar, hein, Lilith? — Katarina riu, penteando o cabelo da irmã.

— O que? — corou. — Por que você está falando essas baboseiras agora, hein?

— Porque você já fez oito anos e aquele Max já tem onze, não acha que já estão na idade? Eu dei meu primeiro beijo com oito anos também, lembra? — começou a fazer uma trança. Lilith queria socar a irmã. Que tipo de estupidez era aquela que ela dizia?

— Eu não sou você e eu não vou beijá-lo!

— Por que não? Você gosta dele, não gosta?

— O quê?! De onde você está tirando isso, Katarina?

— Oras, — Katarina pegou uma presilha de borboleta e colocou no cabelo castanho de Lilith, com um sorriso. — você está se arrumando para vê-lo, não é? Poderia beijá-lo. Ele seria seu namorado!

Lilith levantou-se e saiu da sala marchando, murmurando as piores blasfêmias que uma criança pôde contra Katarina, que simplesmente ria e penteava os próprios cabelos. Lilith desceu a escada com ódio e pensou em desfazer a maldita trança, tirar aquele vestido e os sapatinhos bonitos, ir com o cabelo bagunçado e um short e uma blusa qualquer, mas ao ver seu reflexo no espelho da sala...

— Como você está bonita, Lilith! — sua mãe falou, saindo da cozinha. — Isso é para encontrar Max?

— Não! Parem de dizer isso! Nós não estamos indo para a casa da Sra. Demian? Eu não quero que ela pense que eu só uso o uniforme! É isso!

— Certo, certo, querida — Beatrice disse, mas seu sorriso passava outra informação. Pegou Lilith pela mão e despediu-se de Katarina. Lilith sentia seu coração batendo com força demais. A última vez que falara com Max Demian, dera-lhe as costas após ele ter dito que Lilith havia se separado de Adão por coisas como as que ela mesma disse, mas ele não explicara nada. Desde então, recusava-se a falar com ele e em sua festa de aniversário, evitou-o ao máximo. Mas agora... Era inevitável falar com ele.

— Olá, Beatrice, Lilith — Eva as saudou, abrindo a porta. Ato contínuo, a boca de Lilith abriu. A casa era majestosa. Max Demian, postado atrás da mãe, sorriu.

— Vamos brincar, Lilith?

Ela assentiu, acenando para as duas mulheres enquanto o garoto a guiava para os fundos da casa. Ela arqueou as sobrancelhas, deveria ser a casa mais cara dali, afinal, os fundos davam para uma espécie de campina, linda e verde.

— Você está muito bonita, hoje — ele falou. Ela mordeu o lábio e assentiu.

— Obrigada... Era aqui que você ia me levar?

— Sim, só que por outro caminho. Espero que você não esteja magoada por eu ter lhe negado aquela explicação, mas você entenderá quando eu falar — sentaram-se na grama e pegaram algumas pedras para aquele jogo estranho e sem regras que jogavam, mas que os mantinha entretidos. Até que, certo momento, Beatrice e Eva apareceram, Beatrice dizendo para Lilith se despedir, que daqui a pouco iriam para casa. As mulheres voltaram para dentro. Lilith levantou-se, mas devido ao modo que estava sentada, suas pernas estavam dormentes e ela caiu.

Bem sobre Max Demian. E via bem de perto aquela pele branca e aqueles lábios aristocráticos, finos e rubros. E lembrou-se das palavras da irmã e era tão fácil, não era? Ele estava bem ali, à sua frente. Era só beijá-lo. Só se inclinar um pouquinho que fosse para frente. Ergueu os olhos, com medo de se sentir congelada, mas pasmou: ele estava com os olhos fechados.

E então Lilith riu. Riu e levantou-se: — Desculpe por isso, Demian... — murmurou, rindo. Não iria dizer para ele que ria por causa de seus olhos fechados, como se fosse um preparativo para beijá-la, não iria dizer que ria porque, ao menos daquela vez, sentia-se no poder. Iria deixar o riso como uma incógnita entre eles.

— Demian? Vejo que finalmente escolheu um modo de me chamar, Lilith — ele levantou também, mas ela nem percebeu isso. Só conseguiu rir mais um pouco.

— Você está vermelho?


N/Hiei.: Não conheço o fandom, mas posso dizer que adorei! E, DROGA ABRA! DDD8 PARE DE ME VICIAR E QUERER LER COISAS! *lembra de DGM*

N/A: HAHAHA, EU FAREI O MUNDO LER DEMIAN!!! ... Okay, o negócio é o seguinte: como vocês podem ver no meu profile, eu tô pouco me papocando para o que as pessoas estão pensando de mim no momento, então tá chuchu beleza para mim postar uma Demian/OC. Se você respeita isso, obrigada, vamos falar da fic. "Aqueles cinco beijos que não dei", se não me engano (e, provavelmente, eu me engano), era um meme daqueles de blogs e pans. Por alguma razão, eu lembrei dele um dia desses (ontem) e resolvi fazer uma fic com isso. Foi Demian/OC porque nasceu para isso. E, mesmo com todo o teor romântico-clichê, eu ainda deixarei coisas demianísticas, sério mesmo. Logo, se você não conhece a história de Lilith (improvável, mas não impossível), não procure! Deixe que a fic explique, haha. Bem, ainda tem cinco capítulos e ela é tão bobinha e fácil de escrever que será finalizada rápido. Ou não. Enfim, obrigada Hee por betar. Amo-te.