Disclaimer: Valeu, Hermann Hesse.


VI.

Eva não me olhava mais nos olhos. Eva estava brava comigo por eu ter revelado tudo a Lilith – mas Eva sabia que isso um dia aconteceria. Não só por Lilith ser a Lilith de outrora, mas sendo Lilith Sinclair. Um dia ela descobriria. Um dia eu teria de contar. Mas não adianta: dois anos passaram e Eva ainda tem o rancor guardado no peito. Uma coisa que eu aprendi em todos esses anos de existência foi a não guardar rancor, mas aparentemente é diferente quando se trata de minha mãe.

Mas nada disso realmente importa, não é mesmo? O que importa é que eu pude voltar a sentir com toda a intensidade dos meus primeiros anos. Sim, eu amei Emil Sinclair – contudo, ele era meu amigo e aprendiz. Lilith era diferente. Eu dedicava um tipo diferente de amor a ela, um amor inevitável, um amor que eu sabia que aconteceria desde o momento em que a vi constando sete anos, com as mãos sujas de fuligem e os pés sujos de terra. Minha Lilith, eu queria conseguir dizer. Mas não era isso – eu que pertencia a ela.

Lilith era a minha maldição – Samael me procurara em sonhos, acusando-me de tentar novamente roubar sua mulher. Idiota! Se não conseguia entender a essência de Lilith, como poderia clamá-la como sua? Lilith não é de ninguém. Nem de Samael, nem minha. Lilith só pertence a si e é fiel antes a si do que aos outros. Todavia, ela já me amara uma vez. E me amava novamente – apesar de não conseguirmos nunca o nosso suavium, ou "beijo dos amantes". Mas isso continua sem importar, não é mesmo?

O amor, como ela já dissera, é complexo demais para ser julgado em beijos, sexo ou outras coisas que os mortais inventaram. O amor é como um laço invisível e eu sentia que o laço que me unia a Lilith ficava mais estreito a cada momento.

Lilith! Você pode não ser minha, mas eu sou completamente seu.

X

Os cabelos tão longos que cobriam seus ombros e seus braços. O lábio inferior machucado de tamanha força que ela mordia. As mãos com luvas cruzadas na frente do corpo, como se fossem uma muralha. Olhava para os lados, surpreendendo alguns homens que a fitavam. Lilith deu um pequeno riso para si mesma. Lilith, minha filha, você já tem dezenove anos. Onde está seu namorado?

Não era seu namorado, mas Lilith não podia deixar de esperar Demian na estação de trem. Finalmente, finalmente, finalmente ele estava voltando. Claro que ela havia ficado com raiva quando ele avisara que iria cursar a faculdade em Berlim – afinal de contas, o que mais ele poderia querer aprender? Aos dezoito anos, Lilith tentara seu primeiro Abitur¹, mas por poucos pontos não passara. Agora, aos dezenove, prestara novamente – e aguardava com ânsia o resultado.

Então deixou de devanear, quando o trem entrou em seu campo de visão. Era aquele trem, sabia disso. Conseguia ouvir Demian dizendo que estava chegando. Seu coração parecia esmagar o peito. Quando os passageiros começaram a descer do trem, então, ela sentia que podia enfartar. Com um pouco de raiva, constatou que Demian estava adiando sua saída de propósito.

— Demian! — exclamou e não se conteve, correndo até ele, atirando os braços ao redor de seu pescoço. Ele deu uma risada baixa e a abraçou de voltar.

— Bom ver que sentiu minha falta.

— Claro que senti — Lilith separou-se dele, revirando os olhos. Demian continuava sorrindo. Ele pegou a mala e eles começaram a andar. — Aonde você quer ir primeiro? Em casa, não é? Para deixar essas coisas...

— Na verdade, eu chamei um táxi para deixar a mala na minha casa sem eu precisar ir. Gostaria de passar o dia com você.

— Ótimo — Lilith assentiu. Eles andaram até o táxi, onde Demian deixou suas coisas, então começaram a andar. Falavam de inúmeras trivialidades; Lilith perguntava sobre Berlim, sobre a Universidade, as pessoas e Demian sobre como ela estava, Katarina, Beatrice. Não olhavam para onde iam, nem se importavam com o cansaço de andar. Nunca cansa quando você tem uma companhia agradável. — Chegamos — ela murmurou, quando avistaram o parquinho.

Estava vazio – era um dia especialmente frio em Delmenhorst e a maioria das crianças deveria estar confinada em suas casas, enroladas em cobertores e tomando chocolates quentes. Olharam para o balanço e Lilith se aproximou, tocando as cordas enferrujadas. Um pouco de fuligem manchou sua mão e ela sorriu.

— Acho que estou muito grande para esse balanço agora, não é?

— Infelizmente — Demian respondeu, sentando-se no banco. Lilith sentou-se ao seu lado, limpando a mão na roupa. Ela inclinou a cabeça para trás, com os olhos cerrados, sorrindo.

— É bom ter você de volta, Demian. Mas quando você vai partir?

— Daqui a uma semana.

— Ah — Lilith murmurou, tristemente, olhando para o balanço. Conseguia se ver lá, aos sete anos, caindo no chão. Conseguia ver a chegada de Demian. Lembrou-se de que, a princípio, não olhava nos olhos dele. Que estranho!

— Quando sai o resultado do Abitur?

— Daqui a uma semana — respondeu com um sorriso.

— Acho que você irá passar.

— Também acho — Lilith piscou, divertida. Novamente, ficaram em silêncio. Lilith inclinou a cabeça, deitando-a no ombro de Demian, com os olhos fechados. — Se eu não passar, vou fugir de casa.

Ele riu: — Por quê?

— Porque tudo fica sem graça aqui sem você.

— Você está me soando muito dependente. Atípico de você.

— Certo, talvez eu esteja exagerando para que você se sinta querido — ela riu. — Mas... Não sei. Eu simplesmente me sinto incompleta quando você não está aqui. Acho que é a Lilith dentro de mim sentindo falta de Caim.

— Como é bom ouvir isso.

— Imagino — Lilith abriu os olhos e tirou a cabeça do ombro de Demian. Suspirou. Demian passou o braço ao redor dos ombros dela. — Senti muito sua falta, Demian.

— Eu também, Lilith. Eu também.

X

Por que os momentos que desejamos que fossem eternos passam tão rápido? Aquela semana poderia ser a mais longa da minha vida, era assim que eu queria que fosse. Para que tivesse Lilith ao meu lado durante sete dias que pareceriam sete anos. Mas não era assim: a natureza sempre faz o contrário do que você deseja. Por mais que eu quisesse ficar lá pelo resto dos meus dias eternos, tudo passava rápido demais. Menos ela. Parecia que Lilith havia se impregnado em mim.

Para onde quer que eu olhasse, eu via seu rosto. Sentia seu cheiro em meu corpo, ouvia sua voz com o vento. Era Lilith, simplesmente, em sua feminilidade mortal que estava em mim. Eu a desejava. Como Caim, como Demian, como o que quer que fosse. Eu poderia me sentir tão culpado como qualquer homem que a desejasse – sim, eu sabia que a amava além dos olhos negros e lânguidos, além dos cabelos longos e cheios com um brilho dourado, além da pele pálida, além de tudo, mas era impossível não desejá-la carnalmente só de sentir o doce aroma que se desprendia de seu corpo.

Lilith, completamente mulher, mulher de cima a baixo, mulher à esquerda e à direita.² A minha mulher ideal. Lilith, a minha dona.

X

— Se eu pedisse para você ficar, ficaria? — ela murmurou. Demian não disse nada, só continuou com os olhos esverdeados fixos nas estrelas. Àquela hora, eles não precisavam se importar com nada. Não havia criança alguma no parque às nove da noite.

— Seria muito difícil dizer não, mas teria de ser feito — respondeu ele, por fim. Estava com frio. Não só por estarem deitados em cobertores finos no chão, com a brisa passando por seus cabelos, mas também porque teria de partir no dia seguinte, pela manhã. Lilith suspirou. Deslizou sua mão até alcançar a mão de Demian, apertando-a com força.

— Você está gelado.

— Você também.

— Quer me dizer algo antes de ir?

— Preciso dizer alguma coisa? — Demian sorriu. Parou de fitar as estrelas para olhar para Lilith. Aproximou seu corpo do dela, colocando o nariz no pescoço da garota. — Creio que não... — murmurou. Lilith arrepiou-se por inteiro e também virou o rosto, os lábios tocando a testa de Demian.

— Arrepende-se de algo?

Demian não respondeu. Beijou o pescoço de Lilith com delicadeza. Lilith sentia seu corpo tremer, não só de frio, mas de ansiedade. Demian subiu até encará-la. Os olhos esverdeados e os olhos negros. Aproximou-se, encostando as testas. Lilith engoliu em seco. Já estava prevendo o que atrapalharia. Já conseguia ouvir uma criança correndo até eles, ou até mesmo um cachorro. Já sabia que alguém iria desistir. Aquilo nunca aconteceria. Ela nunca havia conseguido beijar Demian. Por que dessa vez seria diferente?

Porque era Demian que iria beijá-la, e não o contrário. Os olhos dela se fecharam, tendo como um último vislumbre o rosto dele ficando ainda mais perto. Mais perto, mais perto.

E então, aconteceu.

Os lábios aristocráticos de Demian pressionaram-se de leve contra os de Lilith. Ela sentiu-se como da primeira vez que o havia encarado. Completa, tão absolutamente completa que era indizível. Entreabriu os lábios ao mesmo tempo em que Demian. Era tudo tão calmo. Parecia estar acontecendo em câmera lenta propositalmente, para que ela pudesse aproveitar cada sensação. Deveria ser proibido sentir tamanha felicidade, tamanha perfeição. Eram os espíritos se unindo. Eram Caim e Lilith, felizes de estarem juntos mais uma vez. Eram Demian e Lilith, celebrando seu amor.

Ele se afastou, apenas o suficiente para falar.

— De não ter feito isso antes, eu acho — ele sorriu. Lilith sorriu também, colocando a mão na nuca dele.

— Então não pare.

X

Sim, perfeição, como eu imaginei que seria. Tocar aquele corpo. Tirar peça e peça daquelas roupas que a protegiam do frio, sentir aquelas mãos geladas no meu tórax e, principalmente, sentir aqueles lábios nos meus. Os lábios que eu havia sentido falta, os lábios que eu havia almejado. Aquele corpo que tremia abaixo do meu, cada toque dela parecia fogo na minha pele.

Cada vez que eu tocava seu corpo com minha boca era como provar um pedaço do paraíso que Ele me proibira. Ou ainda, desafiar Samael, tomando sua mulher (nunca sua) mais uma vez. As mãos dela (sujas de fuligem, carvão, suor) arranhando minhas costas. E estar dentro dela.

Era a perfeição. O cabelo fazendo cócegas no meu rosto, a boca se abrindo em gemidos baixos e contidos, os olhos com as pálpebras tremendo.

Ela era minha, sim, era minha. E mais do que ela era minha, eu era dela.

X

Demian subiu no trem com uma expressão apática. Ergueu as mãos, como se nelas segurasse Lilith. Lilith, que estava sendo deixada para trás mais uma vez. Ele não iria agüentar mais aquilo. Ele queria descer daquele trem. Mas não poderia – era a sua Universidade (mas ele já não sabia de tudo o que poderia ser sabido?). Era a certeza de não vê-la mais por muito tempo. Lilith. Sua Lilith. Lilith, sua dona. Ainda conseguia sentir os lábios dela, o corpo dela. Senti-la, sendo sua e somente sua. Fechou os olhos, frustrado.

— DEMIAN!

Levantou-se de seu assento, assustado. Na porta do trem, lá estava ela. Ele não poderia estar imaginando – sua imaginação não faria uma cópia perfeita daquelas, os cabelos, o rosto, o sorriso. Ela correu até ele.

— Faculdade de Filosofia, primeiro lugar. Palmas para mim.

— Você... — ele balbuciou. Lilith riu, sentando-se ao lado dele e o puxando pela mão, para que sentasse também.

— Acha que eu deixaria você partir depois de termos quebrado umas cinquenta leis ontem? — Lilith riu e ele não conseguiu ficar sem sorrir também. Ela se aproximou dele, sem beijá-lo. Aquilo dava azar. Demian que se inclinou, roçando os lábios com leveza. — Eu nunca vou te deixar partir, meu Demian.

— Igualmente, minha dona.

— Não sou sua dona — ela o olhou e o pegou pela mão. — Simplesmente... sou sua.


¹ É como o vestibular na Alemanha
² Sabe sua impressão de que já leu isso? É porque você já leu Dom Casmurro.


N/A: ... Acabei. Sabem aquela sensação de "eu poderia ter feito mais coisas"? Quando comecei o capítulo, estava assim. Mas agora que eu acabei... Não, não tinha mais o que fazer. Está ótimo assim. Pelo menos, para mim. No final da minha cabeça - antes de me envolver com a fic, antes de ela virar um dos meus xodós - o Demian ia embora. Mas eu não consegui, hah. Sei lá. Espero que vocês tenham gostado. E muito obrigada pelas reviews - sério, me ajudaram bastante. Até a próxima.