CAPITULO 25. O NASCIMENTO DE UMA TRAIÇÃO PT.2

Levantou a vista e se fixou em um amontoado de estrelas que apareciam sobre a escuridão celeste. Entre aqueles revoltos pontos brilhantes se encontrava a Lua, o centro vital do Milênio de Prata. Um ataque direto, surpresa e Serenity se veria obrigada a render-se. Escutou um leve zumbido e baixou a vista, vendo diante dela aterrissar uma pequena nave. Haruka e Michiru desceram com roupa civil. Haruka se vestia de calça e camisa brancas. Michiru levava um vestido solto de seda de um vermelho de tom pastel. Hotaru sorriu e levantou uma mão, dando-lhes boas vindas. As recém chegadas pareciam sentir-se incomodadas, mas ao ver sua anfitriã sorriram e caminharam até ela.

"Está certa do que você propõe?", perguntou Haruka com tom sombrio, estava de mãos dadas com Michiru de forma inconsciente.

A jovem princesa de Saturno assentiu de forma firme e decidida. Levantou um dedo às estrelas que brilhavam no céu de seu planeta natal.

"Ali é onde se encontra nosso verdadeiro inimigo. Não devemos nos preocupar com Beryl quando temos a real fonte dos problemas no seio do Milênio de Prata." Murmurou Hotaru com o olhar fixo naqueles pontos cintilantes no espaço infinito.


Com a morte de Titan a paz chegou ao Reino da Lua, uma paz que se sabia que seria momentânea até que Beryl encontrasse um substituto. As princesas dos planetas interiores haviam volto a Lua, onde se encontravam disfrutando da tranquilidade e a calma que aquele descanso lhes proporcionava. Makoto apenas permanecia desaparecida a maior parte do tempo, escondida em algum lugar da Lua com Nephrite, um dos Generais a serviço do príncipe Endimion da Terra.

A Rainha Serenity se sentia satisfeita com a aliança que o Milênio de Prata estava traçando com a Terra. E vendo a amizade que crescia entre Endimion, o príncipe herdeiro e sua própria filha, um matrimonio seria a melhor forma de dar consistência a essa aliança. Se assomou ao balcão e contemplou Usagi, caminhando de mãos dadas com Endimion e mostrando ao jovem as maravilhas escondidas no jardim do Palácio. Viu Rei a poucos metros do casal, observando-os com rosto sério. Era notável a lealdade que sentia a princesa de Marte à sua filha. Serenity sorriu e voltou ao Salão do Trono para ler os informes que haviam chegado de Saturno.

Ami se encontrava no laboratório, analisando os dados que haviam trazido do planeta anelar.

Estava refazendo as analises que comprovavam a morte de Titan. Não se explicava como o líder do exercito inimigo havia morrido quando tudo parecia indicar desde Saturno que havia sido capturado ileso. O cadáver estava completamente destroçado. Alguém havia retirado suas vísceras, havia desfigurado o rosto... Começou a ler os informes e, de repente, se sentiu ligeiramente mareada. Titan havia sido morto por um ataque de uma Sailor! As marcas sobre a pele, anteriores à tortura, mostravam restos do que pareciam ser cintas cinzas e negras carregadas de energia. Só conhecia uma pessoa em todo o Milênio de Prata com um poder tão devastador como o que havia acabado com Titan e com um ataque consistente em cintas provenientes do mundo das sombras: Hotaru.

Tirou os óculos e acariciou as têmporas, confusa. Hotaru havia matado a Titan? Mas se tratava de seu próprio pai... Fosse o que fosse, devia ir comunicar a noticia a Rainha Serenity, ainda que odiava ter de comunicar que uma das Sailors do Milênio havia matado a sangue frio um prisioneiro que gozava de imunidade.


Jadeite estava vagando sozinho pelos Jardins do Palácio da Lua com uma garrafa de vinho nas mãos. Fazia vários meses que não pisava na Terra e sentia sua falta. A gente de seu planeta era mais calorosa, mais apaixonada. Os habitantes do Milênio de Prata pareciam maquinas, as vezes, maquinas consumistas imersas no que parecia ser um mundo perfeito. Mas ele sabia que até a maquinaria mais perfeita podia falhar. Os do Milênio de Prata começavam a aparecer. Para dizer a verdade, não estava muito certo se o pacto com a Lua ia ser benéfico para Terra, mas pelo menos estariam mais próximos do poder.

Havia procurado Rei pelos corredores do palácio, mas não a encontrou. Jadeite suspirou exasperado. Como podia se aproximar de uma garota tão arisca? Pegou seu copo de vinho e se serviu. Se Rei não queria estar com ele já encontraria...

Escutou de repente uma voz feminina entonando uma canção e se deteve. Aquela doce melodia parecia proceder do lago dos jardins. Avançou até a fonte do som, uma musica entonada de forma maravilhosa por uma voz doce e sensual, ligeiramente rouca e apaixonada. Se assomou por entre os arbustos e viu uma figura loira nadando entre os brancos nenúfares da imaculada superfície aquática, calidamente iluminada pelo Sol. Não pôde apartar o olhar daquela jovem, sua nudez intimando com a luz do astro rei, seu corpo deixando-se levar pela agua, sua voz... Entonando uma doce melodia que, como as sereis que habitavam o planeta de Netuno, o prendeu em uma sedução mágica. Terminou o copo de vinho e avançou de forma quase involuntária pisando em ramos secos, cujo ruído que o localizou quando a jovem loira deu meia volta e o olhou.

Conteve a respiração ao encontrar-se com o conhecido rosto da princesa de Vênus, Minako. Aquele anjo loiro levantou a mão e, sorrindo, o saudou. Jadeite, esboçando uma careta burlona, saiu dentre os arbustos.


Os mapas da Lua e as plantas do Palácio da Lua se amontoavam sobre a mesa do salão do trono do castelo de Saturno. Fazia um tempo que as velas que iluminavam o ambiente eram insuficientes para decifrar o jogo de letras, números e linhas que combinavam sobre os papeis. Haruka jogou o cabelo para trás, esfregando os olhos. Havia caído a noite sobre o planeta dos anéis e o frio começava a apoderar-se das grossas paredes de pedra que delimitavam a habitação. Escutou um ruído detrás de si, mas não se moveu. Concentrou a vista na pranta do Palácio da Lua, forçando as pupilas a encontrar uma entrada que estivesse pouco vigiada, um ponto fraco na vigilância do castelo Lunar.

"Alguma novidade?", soou uma voz doce, suave, aveludada.

Haruka sentiu um calafrio nas costas apesar de saber perfeitamente de quem era aquela voz.

Negou com a cabeça e se separou da mesa, dando dois passos atrás e virando para encarar a jovem figura da princesa de Saturno.

"Não... Li mais informes e interpretado mais mapas estes dois dias que em toda minha carreira militar, Hotaru", se queixou Haruka, estirando os braços para esticar os músculos. "Todavia não encontrei um oco para nos infiltrarmos. Por que não quer atacar diretamente o Palácio? Somos mais fortes que as Inner Senshi e suas filhas."

Hotaru sorriu levemente e se inclinou sobre a mesa, para estudar as plantas do Palácio do Reino da Lua.

"Acredita que a Rainha Serenity vai cruzar os braços quando nos veja atacar a suas queridas Sailors?", murmurou a princesa de Saturno passando o dedo por cima das plantas, buscando um lugar para que pudessem se infiltrar.

Haruka tinha certeza de que a Rainha as considerava traidoras e as atacaria, mas não havia pensado no poder da soberana da Lua.

"Chegaremos a ela diretamente. Se a neutralizarmos primeiro, as Sailors cairão. Por certo", adicionou Hotaru em um sussurro. "Até onde está disposta a chegar pela vitória?"

Haruka levantou a vista dos mapas e se encontrou com o olhar penetrante e obscuro de Hotaru. Não se tratava de um olhar temível, agressivo, mas sim manso e inocente... Ninguém pensaria jamais que se encontrava uma mente diabólica detrás daquele rosto infantil.

"Já sabe até onde estou disposta a chegar, Hotaru."

"Se Michiru decidisse nos trais... Seria capaz de mata-la?", perguntou de forma casual.

Haruka permaneceu paralisada, com os olhos extremamente abertos diante aquela inesperada pergunta.

Quando recuperou o ar, sorriu a seu pesar.

"Não, creio que não seria capaz de fazer isso", murmurou finalmente.

Hotaru riu levemente. Tinha uma risada entre infantil e adulta, aguda, mas sem chegar a ser escandalosa, grave, sem chegar a ser temível.

"Sabes, Haruka, um dia esse amor que sente uma pela outra acabará com vocês."

"Não me importo em morrer por amor", chegou outra voz desde a porta.

Haruka girou e viu Michiru sorrindo, entrando no salão do trono e se aproximando delas.

Hotaru a cumprimentou carinhosamente, devolvendo a atenção aos mapas e as plantas na mesa. Sorriram fugazmente uma a outra e se colocou ao lado de Hotaru, olhando os mapas, tentando encontrar um ponto fraco no sistema de segurança do Palácio da Lua. Haruka olhou de soslaio a sua companheira. Não havia pensado na possibilidade de ter que sacrificar a vida de Michiru de nenhuma maneira. Sempre haviam lutado juntas, mas ainda que a missão que deviam cumprir fosse prioridade, se uma se encontrava em perigo a outra faria o impossível para salva-la. Nunca havia pensado realmente que Michiru poderia morrer em batalha.

Passaram as horas e o Sol começou a despontar no horizonte de Saturno. Os primeiros raios de luz pegaram Haruka e Michiru no sofá, rendidas depois de horas de estudo. Hotaru esfregou os olhos, jogou o cabelo para trás e, reprimindo um bocejo, estirou os braços para espreguiçar-se. Se levantou do sofá do qual não havia saído em mais de cinco horas e deu alguns passos pelo ambiente. Se surpreendeu ao descobrir alguém junto a janela, contemplando o amanhecer.

"Como chegou até aqui?", sussurrou Hotaru dando as costas àquela presença.

"Sei como entrar no Palácio da Lua sem ser vistas", anunciou Setsuna ignorando a pergunta de sua amiga, abandonando a janela e dirigindo-se a ela.