Cap1: Mutante? Parte 1.


HÁ MUITOS ANOS ATRÁS:

Na década de 1920 o país ainda não tinha passado pela industrialização e, por tanto, era mais rural do que urbano. Grandes fazendeiros eram detentores do maior poder aquisitivo. Conhecidos como coronéis, eles tinham um grande poder de influência na política e na vida das pessoas humildes que viviam na roça.

Um desses coronéis se chamava Reginaldo. Mais de cinquenta anos, careca, gordo. Casado com uma moça de vinte. Um tipo bem comum naquela época. Reginaldo tinha dois filhos, um de seis anos, Eustáquio, e outro ainda a caminho, sua jovem esposa estava gravida. Sua família vivia em uma casa enorme. De longe a mais rica da região.

Era noite. A fraca iluminação era proporcionada pelos lampiões. Antes da luz elétrica chegar o povo tinha costume de dormir bem cedo, no entanto apesar de já serem duas da manhã, ninguém havia pregado os olhos naquela casa. Eustáquio estava na sala brincando com uma das criadas da casa, que tentava distrair o menino. Reginaldo, que também estava na sala, andava de um lado para o outro bastante ansioso. Sua esposa estava no quarto sendo tratada pela parteira da região. O coronel estava prestes a ganhar um novo herdeiro. Ele está muito empolgado com a idéia.

- Jesus! - Dizia o coronel. - Cinco horas de trabalho de parto. Será que o menino não vai vingar?

- Não diga uma coisa dessas! Dá má sorte! - Repreendeu a criada.

A porta do quarto se abriu. A parteira, enquanto enxugava as mãos em uma toalha, se dirigiu para a sala. Era uma senhora de aparência simpática. Baixinha, gordinha. Tinha uns oitenta anos, mas aparentava ser mais jovem. Possuía poucas rugas pra idade.

- Então? Como está meu filho? - A parteira não respondeu diretamente, deixando o coronel ainda mais apreensivo.

- É melhor o senhor ir ver por si mesmo.

Reginaldo seguiu a parteira até o interior do quarto. Lá dentro ele viu sua esposa deitada na cama, aparentemente dormindo. Ficou feliz por ela estar passando bem, mas o que chamava mesmo sua atenção era o berço próximo a janela que agora já estava ocupado. O coronel foi se aproximando do berço cheio de expectativas. Estava radiante. Sua felicidade, porém, se evanesceu assim que viu o que estava dentro do berço.

Enquanto isso, na sala, aproveitando que a criada havia se distraído, o pequeno Eustáquio escapuliu para o quarto na intenção de matar sua curiosidade. Aquele entra e saí de gente na casa não era muito comum. O menino queria saber o que estava acontecendo. Reginaldo estava tão chocado que nem percebeu, ou deu importância, para a entrada de Eustáquio no quarto. O moleque não foi impedido de checar o berço e, consequentemente, de levar um susto tão grande que o acompanharia para toda a vida.

Sem nem se recuperar direito do choque, Reginaldo pegou o bebê em seus braços e sumiu com ele dentro da noite. Ao voltar pra casa o coronel disse apenas que o recém nascido não havia vingado. Ninguém fez perguntas e o assunto passou a ser evitado. O pequeno Eustáquio cresceu sendo convencido de que tudo aquilo na verdade não passava de um sonho ruim. O menino, que acabou se tornando um belo rapaz, acabou acreditando que a lembrança de ver um bebê aberrante na verdade não passava de um pesadelo. Um sonho ruim incrivelmente vivido, mas ainda sim só um sonho.


HOJE:

O bairro é péssimo. Periferia de uma cidade grande. Tudo o que você imaginar de crime acontece por lá. Quem trabalha naquela parte da cidade, ainda mais como policial, deveria estar acostumado com tudo. Afonso trabalha há doze anos naquele lugar. No entanto, do jeito que tremia, mais parecia um novato. O policial estava em uma sala da delegacia local tentando explicar da melhor maneira possível ao seu superior o que tinha lhe ocorrido aquela manhã. A história era muito inverosímel. Todos os que ouviam ele falar de duas uma. Ou achavam que ele havia perdido a razão ou, pior, que havia dado um fim em um colega de farda.

- Isso é alguma tentativa maluca de alegar insanidade mental? - Afonso não respondeu. - Vou ter que fazer algumas ligações, depois voltamos a conversar. Enquanto isso vai rezando. Na melhor das hipóteses você só joga fora sua carreira. - O comandante de Afonso se retirou da sala deixando-o sozinho com suas duvidas e memórias conturbadas. Raios verdes, monstros. Nada do que ele vira fazia sentido. - Será que estou ficando louco? - Era o que mais o policial se indagava.

A porta da sala se abre fazendo com que Afonso se esquecesse por um momento daquela manhã e se concentrasse no presente. Um homem de pele negra, careca, alto e muito bem vestido entra na sala. - Só pode ser problema. - Pensou o policial.

O careca sentou-se na cadeira antes ocupada pelo superior de Afonso e pôs um envelope em cima da mesa. Não falou nada. Apenas empurrou o envelope na direção de Afonso.

- O que é isso?

- Abra. - A voz do homem era meio monótona, mas tinha muita autoridade. Afonso obedeceu na hora. Dentro do envelope havia uma ficha com os dados pessoais de um homem. Provavelmente um criminoso. - É esse homem que você viu hoje de manhã?

- Sim. É ele mesmo. Olha. Você deve ter ouvido minha história circulando por esses corredores. Veja bem. Eu não sei direito o que aconteceu. Está tudo muito confuso... Acho até que me drogaram. - O careca sorriu com o último comentário do policial, fazendo-o se arrepender de te-lo feito.

Sem se explicar, o careca pegou de volta seu envelope e se retirou da sala deixando Afonso novamente sozinho. Suas incertezas agora se agravaram ainda mais. No entanto, o que parecia estar piorando acaba dando uma inesperada reviravolta. O superior de Afonso volta pra sala de cara fechada. - Você está dispensado. Volte ao trabalho.

- O quê? Mas e o...

- Joaquim morreu em uma troca de tiros com marginais. Ponto. Esqueça sua história maluca e volte a trabalhar amanhã. Estamos entendidos?

No dia seguinte, para o espanto do policial, seu cotidiano prosseguiu normalmente. Parecia que os acontecimentos daquela manhã haviam sido esquecidos. Afonso não sabia a identidade daquele homem, mas tinha certeza que aquele careca que havia conversado brevemente com ele era o responsável por limpar sua barra com seus colegas de trabalho. Afonso começou a procurar pela identidade do seu benfeitor na delegacia. Estranhamente parecia que ninguém estava ciente de sua existência. Todos diziam não ter visto ninguém naquele dia que batesse com a descrição dada por Afonso.

Afonso só tinha uma pista a seguir para identificar a identidade do seu benfeitor. O nome do sujeito presente na ficha mostrada a ele. Nogueira da Silva. Era esse o nome do individuo. Um homem que ele lembrava ter participação naquela confusa manhã na qual um colega havia perdido a vida.

O nome do meliante não aparecia no sistema informatizado da delegacia. Sendo assim Afonso decidiu procurar nos arquivos antigos. Guardados ainda na moda antiga, em papel. Sua busca foi custosa. O deposito onde ficava esses arquivos era mal iluminado e muito empoeirado. Muitos dos documentos ali guardados já estavam em péssimas condições. Alguns eram até ilegíveis.

Após duas horas de busca Afonso encontra a ficha que procurava. Era a mesma mostrada a ele no dia anterior. Endereço, contatos, família. Tudo o que o policial precisava para começar uma investigação particular estava presente ali.

Ao visitar o endereço presente na ficha, Afonso dá de cara com uma casa (tava mais pra um barraco) em uma favela. A região era muito barra pesada. Pior até do que o bairro da delegacia onde trabalhava. Trajando uma roupa civil (se descobrissem que ele era polícia as coisas podiam se complicar) Afonso bateu na porta. Uma velha senhora atende. Ela provavelmente deveria ser a mãe desse tal Nogueira.

A conversa foi curta e pouco proveitosa. A velha parecia não bater bem da cabeça. Mal dava pra entender o que dizia. Só uma palavra era deixada bastante clara, pois era repetida diversas vezes. Mutante.

Há outros tipos de pesquisa mais confiáveis, no entanto Afonso estava sem idéias. De dentro da sua casa, usando seu computador pessoal, o policial fez uma pesquisa no Google pelo termo "mutante". Achou muitos dados dispersos. Nenhum com ligação aparente com o que procurava. Os resultados obtidos iam desde filmes de ficção cientifica até a explicações enormes de genética. Explicações essas que Afonso não tinha a minima paciência de ler.

Afonso só encontrou algo de proveitoso quando decidiu deixar sua pesquisa mais especifica. Ao digitar no buscador as palavras mutante e o nome de sua cidade, o policial obtém em resposta um nome conhecido. Desvond Dynamics.


Próximo a saída da cidade há um prédio de cinco andares que estava longe de ser humilde, tinha uma arquitetura bem moderna, mas mesmo assim não chamava muito atenção. Grande parte disso estava no fato dele se encontrar em uma área cheia de condomínios de luxo. A faixada do prédio sustentava o seu nome em alto relevo, com cores bem vivas. Desvond Dynamics.

Dentro do Desvond Dynamics, em uma das salas do último andar. Dois homens conversam. Um é o dono do prédio. Um senhor de idade com mais de oitenta anos. Magro, alto. Muito bem conservado. O outro é um careca de pele escura que já apareceu nessa história antes. O idoso estava sentado atrás da mesa analisando uma ficha com os dados pessoais de Afonso. O outro estava próximo da janela, se distraindo com os movimentos dos carros que passavam na rua da frente do prédio.

- Então? O que esse policial fez de tão impressionante? - Perguntou o idoso.

- Eliminou um grau 3.

- Sorte.

- Ah!!! Qual é!? Ninguém elimina um grau 3 só com "sorte". Ele tem talento pra coisa.

- Ainda não estou convencido. A ficha dele é comum demais pro meu gosto. Bem, mas você ainda não me contou como ele conseguiu essa façanha.

- Eustáquio, você não vai acreditar no que eu ouvi. E... Peraê!! Cara, isso não pode ser coincidência!!

- O que foi, rapaz?

- Adivinha quem está atravessando a rua, indo na direção do nosso prédio agora?

- Quem? Diga logo!

- O policial que você acabou de desdenhar.


HÁ MUITOS ANOS ATRÁS:

O tempo passou e pareceu curar todas as feridas da família de Reginaldo. Sua mulher havia superado a perda e teve outros filhos. Eustáquio, o primogênito, passou a se dedicar a uma vida acadêmica. Foi estudar medicina no exterior. Voltou pra casa com diploma de doutor. Não demoraria muito para se casar, era o que seus pais esperavam.

Enquanto estava na cidade, Eustáquio passou a ajudar a comunidade fazendo consultas de graça. Era algo passageiro, não pretendia se demorar muito ali. As oportunidades na capital eram bem maiores, era perda de tempo fazer carreira em um local tão atrasado como aquele.

Durante suas consultas Eustáquio acabou ouvindo algumas histórias do povo. Todas elas bem comuns em comunidades rurais. Lendas sobre fantasmas, lobisomens, monstros. A maioria achava graça daqueles contos, mas ainda havia muitos, os menos instruídos, que acreditavam em todas elas.

Dentre aqueles mitos havia um que chamou a atenção do jovem, pois envolvia o nome de sua família. A lenda era chamada de "Bebê Demônio", "Bebê Monstro" ou, pra piorar, de "A história do filho do coronel".

- Posso garantir que é verdade. - Falou o dono do mercadinho. - Foi a falecida parteira Genoveva que me contou. Que Deus a tenha. Isso já faz uns quinze anos se não me engano. O coronel estava todo prosa porque ia ser pai denovo. Até que o bendito menino nasce. Mas que desgraça viu. Nasceu um bicho. A vergonha do homem foi tanta que ele levou o bebê monstro pra mata e largou a criatura por lá mesmo. Alguns dizem que o coronel matou o seu filho naquele mesmo dia, já outros dizem que ele não teve coragem de por fim a vida daquela criatura. Apesar de monstruoso ele ainda era seu filho, não é? Bom. Quem acredita nessa última versão diz que o monstro vive perto da fronteira da propriedade do coronel. Falam que quem procura atentamente a noite por aquelas bandas consegue ver um vulto estranho por lá. Deus me defenda!! Por isso evito sair de noite.

Assim que Eustáquio saiu do mercadinho o dono foi advertido da garfe que acabara de cometer pelo menino que trabalhava com ele. - Senhor, esse é o doutor Eustáquio. O filho mais velho do coronel.

O jovem doutor se lembrou do bebê monstro no berço e se encheu de duvidas. - Será que isso é verdade? - Se perguntava. Eustáquio até pensou em conversar com seu pai, mas achou que isso poderia perturbar seu coração já bem cansado. Sendo assim decidiu juntar toda sua coragem e seguir o que a lenda dizia. Ele foi sozinho até a fronteira das terras de seu pai, armado com uma escopeta, procurar pela criatura que deveria ser seu irmão. Não demorou muito para encontrá-lo.

Corpo nu. Dois metros e meio de altura. Ombros largos e costas curvadas. Rosto ossudo. Cabeça careca e orelhas pontiagudas. Imensos olhos redondos totalmente negros. Muito parecido com a figura que atormentava seus sonhos. Esse era o irmão que Eustáquio procurava.