Palavras

Naquele momento nada importava o suficiente para me desviar a atenção de minhas reflexões vazias.

Incontáveis cabeças riam e conversavam ao meu redor, mas tudo o que eu podia ouvir era um som distorcido e sem qualquer significado.

Tentei —inutilmente — desviar a atenção para um jovem casal ao meu lado. Eles conversavam — eu podia ver e ouvir—, mas nada fazia sentido. Quase podia ver as palavras — belas palavras, por sinal — saltarem de seus lábios—amor, confiança, felicidade, eternidade— e alçarem vôo para então percorrer todo o globo. Eu conhecia seus significados, sua sintaxe, morfologia, cada acento de sua escrita. Por que então nenhuma delas fazia sentido para mim? Por que não se interligavam em minha cabeça? Era como se apenas existissem, sem qualquer propósito. Eram nada mais do que letras unidas sem um significado. Eram repletas de beleza, mas completamente vazias de sentimento.

Isso me incomodava. Se fosse possível medir meu incomodo, talvez fosse maior do que o maior homem existente ou até mais pesado do que a maior das baleias.

Como podiam palavras não fazer sentido, afinal?

Se é por elas que expressamos dos mais baixos e asquerosos aos mais nobres e belos sentimentos — sem exceção de minha atual indignação e confusão—, como podem não significar nada? Como podem ser tão vazias e aleatórias?

Durante todo o caminho de volta para casa, esses pensamentos me invadiam, como se um milhão de abelhas zumbissem em minha cabeça. E assim foi durante uma semana, um mês, um ano...

Foi quando me peguei estirado em meu sofá, a barba por fazer, a aparência mais morta do que nunca. Em frente ao espelho, toquei minha própria face. Meus olhos nunca foram tão profundos e confusos como agora. Meu corpo nunca fora tão magro e doente.

Durante o ano que se passara, não queria comer, não queria sair. Apenas pensava. As palavras me adoeceram, me obcecaram.

Mas se não têm significado, como podem elas me atordoar dessa forma? Como podem palavras proferidas sem qualquer sentimento machucar tanto?