Prólogo

Olhei mais uma vez o pedaço de papel em minhas mãos, onde estava anotado um endereço em uma caligrafia apressada. Comparei o número anotado com o número do prédio à minha frente. 402. É, acho que é o lugar certo.

Entrei e logo corri para um dos elevadores que, por sorte, acabara de abrir. Mais uma vez, consultei o pedaço de papel, confirmando o andar ao qual deveria ir. Apertei o botão de numero 12 na parede do elevador mal ventilado e guardei o papel no bolso. Voltei o olhar para uma pequena telinha escura logo acima da porta, indicando os andares em que parávamos.

Cinco. Seis. Sete. Oito— Cada andar era uma eternidade que se passava— Nove. Dez. — Meus pés batiam nervosamente no chão— Onze.— Suspirei e levei as mãos às têmporas, impaciente.— O elevador parou com um sino baixo. Olhei para a telinha que mostrava o numero 12 em vermelho. Me apressei em sair tão logo as portas se abriram.

O piso era coberto por um ladrilho verde escuro e os corredores cheios de portas bege em ambos os lados, distinguidas umas das outras apenas por números de latão pregados na madeira. Mais uma vez consultei o papel em meu bolso, confirmando o número. Meus pés pesados e cansados se arrastaram por um corredor enquanto meus olhos analisavam cada porta à procura da de numero 1206.

Encontrei-a ao fim do corredor. Uma placa de vidro logo abaixo do número indicava a serventia da sala. Dra. Martha Hughes, Psicóloga. Suspirei. Não podia acreditar que chegara a esse ponto. Pensaria estar fora de mim se não soubesse o quão difícil é conviver com todas as lembranças e saber que a culpa é totalmente minha.

Toquei a campainha ao lado da porta e logo fui atendido por uma jovem —não parecia ter mais de 25 anos— de longos cabelos loiros presos em um rabo-de-cavalo alto. Era inegavelmente bonita. Ela abriu espaço para que eu entrasse e indicou-me uma cadeira, mas mal tive tempo de me sentar. O telefone à mesa da moça tocou uma vez e logo foi atendido. Após poucas palavras de concordância ela desligou e voltou seu olhar para mim.

—Pode entrar. A Dra. está a sua espera. — disse, indicando-me uma portinha clara ao lado da mesa na qual trabalhava.

Agradeci com um aceno de cabeça e adentrei o consultório. Era pequeno, mas agradável. Algumas plantas decorativas estavam dispostas em um canto da sala, junto à grande janela, de onde provinha a única iluminação do local— o que não fazia diferença, já que ainda era dia. Mais ao centro, um conjunto de sofá e poltrona brancos se encarregavam de preencher o espaço vazio no ambiente.

Dra. Martha Hughes era uma senhora de cabelos grisalhos e caprichosamente presos em um coque baixo. O rosto— já marcado pela idade— era severo, mas doce ao mesmo tempo. Sorriu ao me ver entrar e indicou o sofá enquanto se acomodava na poltrona, uma prancheta e uma caneta em mãos.

—Cristofer, certa? —disse, estendendo a mão, à qual apertei amigavelmente, concordando com a cabeça — Então, o que te fez vir me procurar?

Suspirei e me ajeitei no sofá. Nunca imaginei que uma pergunta tão simples poderia ser tão desconfortável.

—Então...—comecei, tentando me recordar de tudo o que ensaiara dizer, sabendo que essa pergunta seria feita— Eu fiz algumas besteiras. Na verdade, não quero entender o que tenho ou nada do tipo. Sei exatamente o que tenho. O que não sei é como consertar isso. Só o que quero da senhora são conselhos.

Ela pôs a prancheta de lado e se pôs a me observar— parecia surpresa. Entrelaçou os dedos e deixou que caíssem sobre seu colo.

— Então conte-me sua história.

Pigarreei baixo e comecei a contar tudo.