N/A: História original "Soaring Black Bird" por Nicegirl100 :) Essa é a história baseada no ponto de vista de Kia Rosepawn :3

Ela era a filha mais velha de duas. A diferença entre as irmãs era relativamente grande, quatro anos. Às vezes não parecia ser tanto, mas em outras pesava bastante. Filha de mãe bruxa e pai trouxa, Kia nunca achou que poderia ser uma bruxa também. Não até chegar a carta em nome de Hogwarts, a Escola de Magia e Bruxaria.

Kia era uma garota normal, de longos cabelos tão negros quanto seus olhos cor de jabuticaba. As mechas iam até um palmo abaixo dos ombros. Há muito tempo a garota tinha decidido deixá-los crescer. A irmã tinha uma feição parecida, mas o cabelo era visivelmente mais liso que o de Kia, o que lhe causava uma certa inveja. Nada, no entanto, que pudesse ser ruim.

A carta de Hogwarts era bem clara. Ela, Kia Rosepawn, estava sendo chamada para estudar na Escola de Magia. A notícia deixou a mãe contente, mas quem realmente pareceu gostar de saber do dom da morena foi o pai, o lado trouxa da família e com quem Kia mais se identificava. E alguns dias depois ela e a mãe tinham ido ao Beco Diagonal para comprar o material necessário.

Logo o primeiro dia chegou. Kia sentia-se ansiosa e não se preocupava em esconder. Quando estava na estação de trem, olhava inquietamente ao redor, procurando pela plataforma 9¾. Não existia. Kia sentiu o coração apertar. A plataforma tinha que estar em algum lugar. Olhou mais uma vez ao redor, suspirando decepcionada ao constatar que eram apenas a nove e a dez. Não a nove, a 9¾ e então, só então, a dez. Estava tão concentrada nisso que a mão da mãe em seu ombro fez seu coração acelerar por um momento.

- Acalme-se. – foi tudo que Kia ouviu. Seu coração batia rápido, ela ouvia o pulsar do sangue nas orelhas. Era a ansiedade crescendo.

Sem hesitar, a mãe de Kia começou a empurrar o carrinho com o material e a coruja – que recebera o nome de Yuki devido à pelagem branca que tinha – em direção à coluna exatamente no meio das plataformas nove e dez. A mestiça estranhou, mas logo seguiu a mãe. As duas só pararam quando estavam bem diante da pilastra, que agora parecia bem maior. Sorrindo tranqüilamente, a mãe segurou Kia pela mão e, ainda empurrando o carrinho, atravessou a coluna.

Kia fechou os olhos com força ao passar pelos tijolos. A ideia que tinha era de que bateria o nariz na parede. Fora criada em um mundo trouxa, sem ter qualquer noção de magia. Isso até a mãe lhe contar sobre o mundo bruxo. Ainda assim, Kia não tinha ideia de que pilastras podiam ser atravessadas, desde que enfeitiçadas corretamente.

Seus orbes negros se arregalaram ao focarem o Expresso de Hogwarts. Parecia um trem qualquer, mas causava uma enorme emoção na pequena. Afinal, aquele era o trem que a levaria para o lugar que sempre sonhara desde que descobrira a magia. Definitivamente, aquilo não era algo que se via todo dia. Então, desviando momentaneamente a atenção do trem para as pessoas em volta, Kia notou o movimento da plataforma. Várias famílias se despedindo, muitas crianças – e aqueles nem tão crianças assim – entrando no trem, muitos malões sendo carregados para dentro.

O toque da mãe novamente lhe chamou a atenção. O trem estava para partir e as duas ainda não tinham se despedido. Kia abraçou fortemente a mãe, se segurando para não chorar. Sentiria falta dela, claro. Que criança não sente falta dos pais ao partir? Seja por um dia, seja por uma semana ou mesmo um ano. A mãe abraçou a filha de volta, lhe acariciando a cabeça também. Kia podia ser forte se quisesse.

A partida do trem foi anunciada mais uma vez, obrigando a mestiça a soltar a mãe e pegar suas coisas para embarcar. Com um olhar destemido e um sorriso largo, Kia subiu no trem, ainda acenando para a mãe. Faria dos seus dias em Hogwarts os mais animados possíveis. Com essa ideia na cabeça, ela começou a vagar pelos corredores, atrás de uma cabine em que pudesse ficar.

A mestiça olhava distraidamente ao redor, até encontrar uma cabine que parecesse estar vazia, com exceção de dois alunos. Um deles era uma garota chinesa, bem magra, de olhos e cabelos negros. As mexas lisas lhe caíam por sobre os ombros, soltas. O outro era um rapaz de cabelo enrolado e escuro e olhos castanhos. Os dois pareciam conversar animadamente sobre algo, sem perceber quando a mestiça apareceu na porta.

Pela janela diante de si, Kia podia ver a paisagem passando rapidamente devido ao movimento do trem. Por alguns instantes, tudo que a garota conseguia pensar era em quanto o caminho era bonito. Ficou assim até sentir alguém esbarrar em si. A reação foi automática. Kia adentrou na cabine para liberar o espaço do corredor. Com isso, acabou chamando a atenção dos dois alunos.

- Parece que temos visitas. – a garota chinesa sorriu de canto ao falar.

- A-ah, desculpem…! – Kia se apressou em responder.

- Não se preocupe. – o garoto fez sinal para Kia se aproximar.

- Eu sou Karin Chen. – a chinesa fitava Kia com certa curiosidade.

- E eu sou Charles Dugford.

Kia já tinha se sentado quando os dois se apresentaram. Sorrindo, a mestiça também se apresentou.

- Que legal! Nossos nomes se parecem! – Karin sorria divertidamente.

Kia e Charles riram do comentário. Durante o resto da viagem, os três conversaram animadamente e sobre os mais variados assuntos. Por vezes falaram de suas famílias, as casas a que os parentes mais próximos pertenceram ou pertenciam ainda. Kia comentou sobre como era a vida dos trouxas, já que era algo estranho aos dois. Aparentemente, a mestiça era a única que tivera contato com a realidade não bruxa por um período tão longo. Charles e Karin sabiam uma coisa ou outra, mas ficavam com uma expressão confusa na maior parte do tempo, o que divertia Kia.

Quando chegaram a Hogwarts, ou melhor, à área de desembarque, a maior parte dos alunos entrou no castelo normalmente. Kia notou que apenas os alunos novos precisavam entrar de barco, ficando aliviada ao perceber que Charles e Karin, os únicos que ela conhecia, estavam realmente por perto. Apesar de ter conversado com os dois no trem e saber que eles eram tão novos em Hogwarts quanto ela, a insegurança ainda apertava-lhe o peito.

- Eu não quero ir… – Kia praticamente miou ao comentar, parada ao lado de Karin.

- O problema é o barco ou você quer voltar atrás? – a chinesa arqueou uma sobrancelha, sem entender.

- Pela expectativa que ela estava sentindo? Só pode ser o barco. – Charles parecia se conter para não rir. A situação tinha certa graça, especialmente pela forma como Kia se encolhia cada vez mais.

- Eu nunca andei de barco, ta? – a mestiça estava visivelmente na defensiva.

- Relaxa… Você não vai cair no lago. E se cair, as piranhas não vão fazer de você a janta. – Charles estava se divertindo com as provocações.

- Pi-pi-pi-pi-piranhas…?! – a voz de Kia saiu levemente esganiçada, arrancando uma risada do garoto.

- Deixa de ser mala, Charles. – Karin lançou um olhar frio ao amigo, mas logo se voltou para a mestiça, com um sorriso alegre no rosto – Não vai acontecer nada, não precisa ficar desse jeito.

Kia pareceu relaxar um pouco com o comentário da chinesa.