Doctor's dog

Capítulo 1: Regra

Trabalho: Atividade física ou intelectual que visa algum objetivo, labor ou ocupação; o produto dessa atividade, obra; esforço, empenho. Segundo Voltaire, "O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade". E, certamente, qualquer universitário que sonha com o emprego dos sonhos se dedica, passa horas e horas estudando e dando tudo de si, porque chega à conclusão de que o trabalho dignifica o homem. Oh, sim, dignifica. E, claro, o momento mais gratificante na vida de um veterano da faculdade é quando ele recebe o seu amado diploma. Esse é o momento em que ele olha pra trás e pensa que todos os anos que ele teve que agüentar valeram a pena, porque ele é um vencedor que vai conseguir arrumar um emprego – porque, claro, antes ele era apenas um perdedor sem rumo na vida, sendo um idiota que não tinha nada em mãos. Os pensamentos felizes ecoam na cabeça, e a felicidade é plena.

Mas quando você sai da faculdade, percebe uma coisa. No final das contas você continua sendo um babaca. Você não vai arrumar o emprego dos sonhos num piscar de olhos, você vai continuar a ser a mesma pessoa, vai continuar tendo os mesmos amigos idiotas. Em sumo, você ainda é você – um perdedor sem rumo na vida e um idiota, só que agora a diferença é que você tem um rolo de papel com aproximadamente trinta centímetros na mão. E, olha, ele tem até uma fitinha.

E, awn, essa sensação é realmente uma delícia.

A diferença é que no meu caso, meu rolo de papel estava melecado de vodka – porque Naruto tinha tendência a ser infinitamente mais estúpido quando bêbado – e a palavra "Diploma" estava tão manchada que as letras eram quase ilegíveis.

E a única coisa coisa que me passou pela cabeça quando eu me formei em arquitetura foi: 'Que porra eu penso que estou fazendo?'

- Karin, posso saber onde você enfiou a porcaria do relatório? – perguntei impaciente.

- Ain Sasukinho, eu não lembro! – a ruiva fez um bico e me encarou perdida. Acho o que ela queria era ser sexy, mas eu estava com uma vontade meio incontrolável de dar um murro no meio da cara dela e arrancar aqueles beiços fora.

Odeio aquela ruiva. Fato. E odeio ela mais ainda quando ela perde um relatório que deveria ser mais importante que a minha vida nesse momento.

- Como assim você não lembra? – perguntei incrédulo.

- Não lembro, ué! Ele estava perto da minha gaveta de esmalte e...

- Karin, cala a boca, eu não quero saber. – cortei aquela voz irritante antes que eu realmente voasse no pescoço dela. O que não seria nada difícil. – É o seguinte, você tem até amanhã pra achar o relatório, porque, junto com ele, estava o projeto para as empresas Sabaku. E, a menos que você queira reconstruir a estrutura do prédio toda de novo e sozinha, acho melhor você achar. Rápido. – ela me olhou assustada e assentiu rapidamente, mexendo nos óculos. Seguiu com passos rápidos até a porta, mas antes de sair eu completei: - Isso sem contar em perder o emprego, óbvio. – disse olhando atentamente pra um papel se que encontrava em cima da minha mesa e ouvi ela engolir em seco, e logo depois o barulho da porta sendo fechada.

Um segundo para o meu cérebro processar a informação e mais meio segundo pra ele imaginar as conseqüências.

Fogo. Sangue. Tortura. Itachi. Arma. Eu. Morto. Fim.

- Itachi vai me matar. – murmurei desolado e suspirei alto, afundando na minha própria cadeira.

É claro que ele ia me matar. Ainda mais sendo o mais novo projeto da rede de hotéis dos Sabaku! Meu Deus, to fudido. Já estou até vendo o discurso: "Sasuke, como você pôde? É um projeto importante para a empresa! Quer destruir tudo o que o papai construiu? E, além do mais, Gaara é seu amigo! Ele vai ficar chateado e o nome da nossa empresa vai pro fundo do poço. Como um marmanjo de vinte e três anos não consegue cuidar de um projeto de hotel...?", e, bem, isso era só o começo. Depois ele ia ficar falando da empresa, falar que eu sou irresponsável, imaturo, que papai fez bem em deixar ele no comando e blá, blá, blá. Aí eu vou olhar pra ele com a maior cara de pau e dizer: "Olha a minha cara de preocupado!". Depois ele ia falar com o papai, e é aí que fode tudo de vez. Acho que ele ia me torturar, lenta e dolorosamente. Fazer cortes até o meu sangue sair todo por eles, arrancar pedaços da minha pele com uma pinça, cortar o meu cabelo com alicate e aí depois... ele ia me matar. Do jeito mais mortal possível.

Ah não, espera, acho que antes ele ia me dar algum tipo de veneno.

- Sasuke? – ouvi uma voz soar ao fundo, calando o meu bate-boca mental.

- Suigetsu? – encarei, com uma sobrancelha arqueada, aquele ser estranho que tinha cabelos numa cor cinza/prateada/branco/azul mais estranha ainda, e que acabava de adentrar o meu escritório.

- Posso ir pra casa? Já terminei os orçamentos dos apartamentos, estão todos em ordem assim como você pediu. – ele me encarou, e seus olhos transbordavam tédio.

- Ótimo, mas você ainda não pode ir pra casa. – sorri irônico. Ah meu Deus, ele vai querer me matar. Mas, bem, Itachi já vai me matar de qualquer jeito. – Antes tem que ajudar a Karin a achar os desenhos do hotel que os Sabaku vão construir. A burra conseguiu perder. – revirei os olhos.

- O QUE? – ele guinchou, a voz alguns decibéis acima do normal. - Tá brincando, né?

- Agradeça a sua amada ruiva. – apoiei os dois cotovelos na mesa, sorrindo maroto com a cara mais sacana que eu podia. Por uns dois minutos ele ficou parado, tão tenso que parecia que não tinha juntas. Sua sobrancelha esquerda estava com um irritante tique nervoso, enquanto ele abria a boca diversas vezes sem emitir som. Depois de alguns minutos, vi ele dar meia volta, bufando irritado e xingando Karin de todos os palavrões possíveis.

Assim que ele saiu, me debrucei sobre a mesa e deitei minha cabeça sobre os braços, respirando lentamente.

Merda.

Dia de merda.

Trabalho de merda.

Assim que fui fechando os olhos, senti a sonolência vir com tudo. E, bem, qual era o problema de tirar um cochilo? Eu estava na minha empresa, mo meu escritório, tinha perdido um relatório que custaria a minha vida e estava plenamente satisfeito em passar as poucas horas que me restam dormindo tranquilamente.

- SASUKE! – ouvi uma voz estridente gritar em plenos pulmões, num tom tão alto que o timbre agudo ecoava pelas paredes. Eu quiquei na cadeira com o susto, e em resposta ao meu hábil pulo não tão bem sucedido, eu meti a cabeça na luminária, e automaticamente coloquei a mão sobre minha testa agora deteriorada.

Tudo bem, Sasuke, lembre-se: homicídio doloso acarreta em uma pena de doze a trinta anos de prisão.

– Cara, você tá péssimo. – o Uzumaki fixou suas orbes em mim, mas sua voz era mais debochada que preocupada. – Sério, suas rugas chegam ao queixo.

Homicídio doloso acarreta em uma pena de doze a...

- Ei, você tem alguma coisa na testa? Devia ter mais cuidado, sabe. Minha mãe diz que a cabeça é um órgão sensível. Ou era membro sensível? – ele botou a mão no queixo, pensativo. - Bem, não importa. – deu de ombros despreocupadamente.

Homicídio doloso acarreta em uma pena...

- Tenho algo importante a te propor! – sorriu colgate.

Homicídio doloso acarreta...

- Tá afim de um happy hour?

Ah, não importa, vou matá-lo.

- Naruto, vou arrancar as suas vísceras e te enforcar com elas! – peguei a primeira coisa que eu vi na frente (que por acaso era uma prancheta com a lista de materiais encomendados por uma empresa americana para a decoração de uma lanchonete, e que eu precisava mandar Itachi assinar e vistoriar, pra ver se a proposta estava dentro do orçamento. Na verdade, eu devia ter entregue isso a ele ontem. Bem, não interessa. Quem se importa com listas?) que era grande o bastante para fazer um estrago considerável no loiro e tampei em sua direção com todas as minhas forças. Só que o desgraçado pulou atrás do sofá de couro negro, e minha prancheta infelizmente não atingiu sua rota original, indo parar diretamente na parede.

E eu espero sinceramente que o 'creck' que eu ouvi tenha sido somente fruto da minha imaginação.

- Ah meu Deus, socorro! Ficou louco? – o Uzumaki berrou encolhido, me olhando com os olhos azuis esbugalhados. – Você é tão violento!

- Pode sair daí de trás, idiota! Anda logo! Vem aqui pra frente levar uma no meio dessa fuça! Agora! – berrei descontrolado, tampando o segundo objeto ao meu alcance em direção ao tufo de cabelos loiros. E o segundo objeto era uma agenda cafona de couro que minha mãe me deu mês passado. O objeto acertou uma estante de livros, abrindo e fazendo uma chuva de papéis pequenos voar por toda a sala.

Só um segundo: esses milhares de papéis que estão voando pela sala são...?

Arfei, engasgando com o próprio ar. Curiosamente, a agenda era tão cafona que eu não a usava – na verdade, eu meio que deixava ela escondida, não a abrindo quase nunca. Mas a secretária do Itachi insistia em colocar os papéis com os horários dos encontros de negócios que eu deveria ter com futuros clientes lá, junto com cartões de fornecedores e coisas parecidas. E, bem, eu não via essa agenda a quase um mês (porque, convenhamos, ela era realmente feia, portanto, eu a escondia bem. Como aquela mulher sempre acha?). Logo, eu não abri a maldita agenda por quase um mês.

O que me leva a conclusão de que eu perdi todos os encontros a negocio que eu deveria ter durante um mês. Um mês inteiro. O que me leva a outra conclusão de que a Uchiha Project deve ter perdido uns vinte e cinco clientes somente esse mês – por minha culpa.

O que me leva a conclusão-mór de que eu vou sofrer muito. Muito mesmo. O pior sofrimento de todos. Aí, depois que Itachi me fuzilar com todas as armas possíveis, meu pai vai vir me matar. E eu vou morrer com muita dor. Muita, mas muita dor. Na verdade, a morte provavelmente vai ser a melhor parte do processo todo.

PORRA.

- Sério, você precisa fazer terapia pra controlar a raiva, sabia? – Naruto disse colocando somente um pedaço do rosto no meu campo de visão, me encarando com o cenho franzido. – Ahn... Sasuke?

Mas eu estava chocado demais pra arremessar outra coisa nele – e confesso que uma parte de mim tinha um enorme receio em tampar mais alguma coisa e descobrir que, sei lá, tinha um projeto enorme que tinha que ser entregue amanhã e eu não estava lembrando dele. Ou qualquer coisa parecida.

Desabei na cadeira completamente mole e com a minha melhor cara de assustado. Na verdade eu estava paralisado, anestesiado, em transe, ou qualquer outra palavra derivada disso.

O que eu fiz?

Como esse monte de papel foi parar naquela merda de agenda? Abri a boca repetidas vezes, procurando verbalizar uma resposta para minhas indagações mentais, mas não tinha nada.

Eu não conseguia falar. Eu não conseguia pensar.

- Ei, já te falaram que você é bipolar? – ouvi a voz do meu auto-proclamado melhor amigo soar perto de mim, e, pela visão periférica, vi que ele estava ao meu lado. – Cara, isso tudo é remorso por ter tentado me matar?

- Cala a boca, Naruto. – murmurei, sentindo que minha cabeça ia explodir a qualquer minuto. Passei a mão pelos fios num sinal claro de desespero, ainda com o olhar vidrado nos milhares de papelzinhos no chão.

Talvez... talvez não seja tão ruim! É, isso mesmo! Quero dizer, Itachi com certeza vai ficar bravo, e vai gritar, e vai berrar, e vai querer me bater, e vai querer me virar do avesso, mas talvez ele me perdoe algum dia. Quero dizer, ele não precisa me perdoar exatamente – eu podia viver com a culpa de ter perdido alguns clientes, ora, essa empresa também é minha, eu posso fazer algumas burradas de vez em quando! – mas ele podia recorrer ao espírito de compaixão que existe dentro dele e não falar nada pro meu pai. É isso! Claro que ele podia!

Sou um retardado iludido.

- Não sei o que é, mas não pode ser tão ruim...!

- Tá vendo todos esses papéis no chão? – apontei bobamente pro chão da minha sala. – Cada um deles é um cliente que nós perdemos porque eu esqueci de comparecer às reuniões de negócios. – respondi num fio de voz, e senti o loiro o meu lado encher o pulmão de ar numa exclamação estupefata.

- Tudo bem, você está mesmo perdido. – o loiro deu uns tapinhas camaradas no meu ombro em consolo.

- Eu sei! O pior é que eu sei! – gemi de dor ao imaginar meu futuro fim trágico.

Suspirei enquanto colocava minha jaqueta de couro preta – ser um dos donos da empresa tinha suas vantagens, como não ter que usar o uniforme ridículo da Uchiha Project.

- O que você vai fazer? – o Uzumaki perguntou, me avaliando com um cenho franzido.

- Vou pra casa. Quero dormir e hibernar por pelo menos oito meses consecutivos. – levantei, pegando meu BlackBerry Torch em cima da mesa e procurando meu pager com os olhos.

Eu já tinha me ferrado demais por um dia, e se eu esquecesse o pager na empresa eu não faço idéia do poderia acontecer comigo.

- Você vai dormir? – Naruto estava numa oscilação entre incrédulo e indignado.

- Exatamente. – após pegar o irritante aparelho que é obrigatório a todos que gerenciam a Uchiha Project, eu rumei com passos decididos até a porta, pronto pra sair desse local com uma bela saída triunfal. E teria dado certo, se o loiro não tivesse se enfiado entre mim e a porta, quase me fazendo dar uma trombada com ele. – O que é agora?

- Não vou deixar você ir pra casa. – ele cruzou os braços. – Você precisa é encher essa sua cara! E, voltando a minha proposta inicial antes da tentativa de assassinato, tem happy hour hoje. E você vai, bastardo, sabe que precisa.

Eu ia abrir a boca pra contestar, mas a idéia me pareceu realmente tentadora. Bem, eu estava fudido, não tinha mais jeito, ia morrer umas quinze vezes - porque, sim, depois que Itachi me matasse meu pai me ressuscitaria várias vezes só pra depois me matar de novo – e não tinha nada melhor pra fazer.

Até porque entre dormir e encher a cara, encher cara sempre é a melhor opção.

- Ah, vamos seu arrogante! Você precisa encher a cara até beijar o chão! Todo mundo vai! – Naruto reafirmou seus argumentos, ao perceber que eu já estava cedendo.

- E suponho que você vai encher sua cara também porque é um amigo muito solidário que compartilha a minha dor. – retruquei sarcástico e o idiota a minha frente gargalhou alto, coçando a nuca despreocupadamente.

- Mais ou menos nesse estilo. – ele piscou, e eu soltei um meio sorriso.

- Ninguém sai do bar hoje sóbrio? – perguntei maroto pra ele, e vi um sorriso rasgar no rosto de Naruto.

- Ninguém sai do bar hoje sóbrio. – o Uzumaki me garantiu.

.:OoO:.

.:OoO:.

.:OoO:.

- ... e aí ela disse que queria só sexo! Eu não entendi porque, eu amava taaaanto ela!... – Chouji, um cara gordo que trabalhava no departamento financeiro choramingava enquanto bebia outra dose de sakê e comia um grande pedaço de carne. - ...Porque elas fazem isso? – ele soluçou enquanto abraçava a garrafa de bebida, e abriu a boca. Eca. Que nojo. Era impressão minha ou ele cuspiu carne na minha pessoa? Ah, Senhor, eca, que nojo. - ...ela significava tanto pra mim! – ele disse desolado e cuspiu mais um pouco de carne junto.

Mais uma vez: eca, que nojo.

Depois de irmos todos a um bar que ficava a umas poucas ruas de distância de onde nós trabalhávamos – todos eram funcionários da Uchiha Project, mas alguns eram de setores diferentes – nós sentamos e começamos a conversar sobre vários assuntos, desde bandas favoritas a times de futebol. E com o passar do tempo, a quantidade de álcool no organismo de todo mundo ali aumentou, até que nós chegamos num estado que ninguém mais conseguia completar uma simples frase com coerência.

Ou seja, ninguém ali sabia nem o próprio nome.

E, com origem ainda desconhecida por mim, o assunto "mulheres" veio à tona, e a única coisa em que cinco bêbados conseguiam ligar a essa palavra era desilusões amorosas. Então, estava tudo perfeito com todo mundo rindo de algum ator de um filme ruim, e, completamente do nada, todo mundo começou a choramingar e falar mal da raça feminina que teve a crueldade de quebrar seus corações.

Se eu não estivesse tão ou mais bêbado que eles eu até teria rido.

- É isso aí, as mulheres não valem nada! – um Naruto também já alterado bateu a palma na mesa e gritou com revolta, fazendo tudo que estava na mesa quicar e uma garrafa cheia de vodka cair em cima do colo de Kiba.

- São umas putas! Só servem para serem usadas! – Shikamaru disse de um jeito que pareceu sábio (se bem que qualquer coisa pra gente nesse estado era sábio), pegando o copo de tequila, o sal que o barman tinha deixado na mesa e o limão. Só que ao invés de colocar a pitada de sal debaixo da língua ele começou a colocar sal desesperadamente com a colher, bebendo uma longa dose do líquido amarelo amarronzado diretamente do gargalo.

- Salvem as prostitutas! – Kiba, numa comemoração completamente bêbada, levantou os punhos no ar, enquanto soluçava. Ele falava enrolado e quase não dava pra entender o que ele dizia, mas ninguém na mesa estava muito preocupado com isso. – Menino, mas tá geladinho aqui! – ele riu escandalosamente, sem se dar conta de que a garrafa de vodka estava entornando toda no seu colo.

Todos riram, e Chouji se engasgou com a lingüiça que ele comia, tossindo fervorosamente.

- Ai, porra, acho que vou morrer!

- E você, Sasuke? Qual foi a sua pior história de pé na bunda? – Naruto perguntou me encarando com a boca meio mole, como se ela estivesse dormente. Ele sorriu abobado por causa da bebida, dando leves tapinhas no braço de Chouji para supostamente ajudá-lo com as tossidas.

O mais legal de tudo é que ele parece achar que batidas no braço vão melhorar o estado do Akimichi – que já estava vermelho com os olhos cheio de lágrimas. No entanto, Naruto não parecia se importar com ele, já que não parava de me encarar, assim como todos na mesa.

- Sou esperto demais pra levar patada. – sorri debochado enquanto virava mais um copo de bacardi, e em resposta eu ganhei quatro pares de olhares céticos.

Franzi o cenho, olhando para eles sem entender. O que tinha demais em nunca ter levado um fora? Claro que com meu conjunto de qualidades inigualáveis – conjunto esse que abrangia desde o primeiro fio de cabelo até o último dedão do pé – não era como se alguma mulher quisesse me dar um fora.

Além do quê, não é como se eu já tivesse tido algum relacionamento que durasse mais de dois dias pra poder ter a chance remota quase inexistente de levar um fora.

Enfim.

- Seeeeei! – com a voz arrastada, o loiro cantarolou dando uma cotovelada amigável no braço de Kiba, mas acabou acertando o estômago dele e ganhou em resposta o dedo do meio. - Pode falar, bastardo, qual foi a sua pior desilusão amorosa? – Naruto soluçou e começou a rir igual a uma hiena.

- Já falei, eu não tive nenhuma desilusão. – revirei os olhos.

- Ah, qual é, Sasuke, todo mundo já teve uma! Uma namorada que te traiu, uma garota que você gostava e terminou com você, alguém com quem você queria casar e ela só queria sexo, sei lá... tem que ter alguma coisa! – Shikamaru olhou pra mim incrédulo, e eu apenas maneei a cabeça negativamente.

Mesmo que minha certeza quanto a esse assunto fosse absoluta, eu tentei com todas as minhas forças tentar lembrar de qualquer coisa que tenha acarretado num estúpido coração partido.

Relacionamentos duradouros – zero.

Envolvimento amoroso (que não tenha como único objetivo o sexo) – zero.

Foras – zero.

Controle emocional sobre e minha vida – ok.

Porra, eu sou tão foda que eu devia, tipo, ganhar um Oscar. Devia mesmo.

- Mas não tem. – meu sorriso presunçoso aumentou – E não tem porque eu não dou chance de acontecer, simplesmente.

Dez segundos de silêncio para os cérebros embriagados absorverem a informação.

- Como assim? – Choji perguntou de boca cheia, me olhando praticamente sem piscar.

- Veja bem meu caro. – fiz minha melhor pose de psicólogo, me inclinando um pouco parar frente. Por alguma razão todos eles se inclinaram pra frente também, e nós ficamos parecendo um clube de velhinhas do asilo fofocando sobre alguma coisa. Hn. - Uma mulher só vai fazer um estrago na sua vida se você deixar! – expliquei como se fosse óbvio; mas era obvio, oras! – Por exemplo, se for você a terminar com ela, não corre risco de ela terminar com você. – dei de ombros. – Isso dá tão certo que deveria ser uma lei da física.

Após explicar a minha fórmula da felicidade, eu voltei a posição normal, dando um meio sorriso satisfeito por ser uma boa pessoa que ajudou quatro seres humanos idiotas a serem menos idiotas, amorosamente falando.

Oh, que lindo.

- Tradução...? – Naruto estreitou os olhos azuis, e eu reparei que todos eles ainda estavam debruçados sobre a mesa sem se mexer, completamente imóveis e me encarando confusos.

Como eles não conseguiram entender essa coisa tão simples? Será que eu vou ter que desenhar?

Pelo amor de Deus!

- Puta merda, Naruto, a bebida te emburrece! – disse revoltado e Naruto fez uma cara ofendida. Abriu boca para responder, mas eu fui mais rápido: - O que eu quis dizer é: vocês perdem muito tempo correndo atrás de mulheres perfeitas, que dariam uma boa esposa, que sejam carinhosas, bonitas, despertem o seu coração e todo aquele papo meloso de mulherzinha. E por quê? – abri os braços, usando meu melhor tom indignado. E foi aí que eu me perguntei por que diabos eu ainda não estava na Broadway. - Pra elas te traírem quando tiverem a oportunidade? Pra te darem um fora humilhante, que vai te deixar arrasado por dias? Pra terminarem quando vocês estiverem com o anel de noivado no bolso? Isso é ridículo! – quase cuspi as palavras, e, pela cara que eles fizeram, pareceu surtir efeito.

- Nunca pensei assim. – Kiba disse pensativo, encarando o nada inexpressivamente.

- Pois aí é que está o xis da questão. – disse depois de virar uma golada de whisky de um copo que estava em cima da mesa, e eu rezei mentalmente pra que não fosse o de Chouji. O líquido escuro desceu ardendo na minha garganta, mas depois de umas trinta rodadas como essa eu não sentia mais nada. – Eu acho burrice a gente se amarrar. Tem sempre muita mulher dando sopa por aí.

Espera, eu já ouvi essa frase em algum lugar?

- Mas como você faz isso? – encarei os quatro olhos curiosos à minha frente. Me perguntei o que era "isso" especificamente, mas dane-se. Vou falar o que me vier na cabeça.

- Simples: eu só quero uma transa, sem nenhum sentimento. Muito menos compromisso. – arqueei as sobrancelhas, e a resposta pareceu satisfatória. Todos ficaram perdidos em seus próprios pensamentos, enquanto eu estalava a língua no céu da boca.

- Mas isso não dá certo, Sasuke. – Shikamaru disse depois de um tempo, fazendo Kiba soltar mais uma risada histérica. Só não sei o por que. – Como a gente vai arrumar uma esposa? Somos um bando de marmanjos que não consegue arrumar uma mulher que preste, isso sim. – ele resmungou, bebendo algum líquido irreconhecível em seguida.

- E as mulheres são todas umas vadias! – Naruto gritou revoltado e deu um tapa forte na mesa de novo, fazendo algumas latinhas vazias caírem no chão.

Vou te contar, acho que ele não vai sossegar até derrubar essa porcaria de mesa inteira.

- E ainda reclamam dos homens! – Chouji disse entre goladas de cerveja, inflando suas enormes bochechas coradas.

- Realmente. – fiz uma pausa quase dramática - Se pra elas todos são iguais, porque elas escolhem tanto? – perguntei mais pra mim mesmo, virando outro copo cheio de sakê.

- O Sasuke teve uma boa idéia, minha gente! – Kiba subiu em cima da cadeira, ignorando os protestos de "Pára, Kiba!" e "Senta nessa porra logo!". Com seu dedo em riste apontado pra todo mundo naquela mesa, ele tentou fazer uma voz séria. – Vamos todos virar solteirões permanentes! Sem mulher fixa ou compromisso, a gente transa e expulsa a mulher da cama antes de amanhecer, no melhor estilo Sasuke Uchiha! – ele botou ambas as mãos na cintura, e eu tentei não pensar em como ele parecia uma garota fazendo isso. – E se der errado a gente mata o Sasuke. Fim da história.

- Sabe, mesmo sabendo que eu vou me arrepender disso amanhã, eu concordo com o garoto-cachorro. – Naruto disse e soluçou de novo, dando um sorriso bêbado logo depois.

- Naruto, se você lembrar quem é você amanhã vai ser muita coisa! – o Akimichi disse e enfiou uma coisa na boca tão rápido que nem deu pra ver o que era. Devia ser algo de frango. Ou de carne. Ou talvez nem seja algo comestível.

Ah.

- Olha quem fala! – Shikamaru arqueou uma sobrancelha, vendo Chouji gritar alguma coisa em uma língua ainda não catalogada pelo homem para o garçom.

- Então tá decidido: a partir de agora estamos abertos em tempo integral para a solteirice! É uma aposta, e se alguém descumprir vai arcar com um severo castigo determinado pelas pessoas aqui presentes. – o Inuzuka, em algum momento que eu não vi, tinha descido da cadeira e estava sentado na cadeira outra vez. – Viva la vida looooca! – ele cantarolou balançando o corpo de um lado para o outro, erguendo o copo para um brinde, o qual foi correspondido com vários e animados berros de "Aêê!" e "É isso aí!". - Cara, até me sinto um novo homem! – Kiba disse e soltou a sua discreta risada outra vez.

Chouji riu de boca aberta e cuspiu um pedaço de macarrão na cara de Shikamaru, que ralhou com o gordo alguma coisa que tinha "problemático" no meio.

- Ah, cara, esse seu método é bom, mas sempre tem uma exceção. – Naruto disse para que só eu ouvisse, olhando os três a nossa frente que ainda travavam uma discussão completamente sem sentido.

- Como assim? – arqueei uma sobrancelha pra ele, franzindo levemente o cenho.

- A exceção da regra, ô cassete! – o loiro, confuso com o que ele próprio disse, me encarou e o bafo veio com tudo na minha cara, fazendo meus olhos se encherem de lágrimas.

Puta que pariu, que cheiro de cadáver. O que foi que essa criatura comeu?

- Naruto, você não tá em condições de falar qualquer coisa que seja. – olhei pro loiro que olhava pra mim com a cara franzida em confusão, com um olhar tão perdido que era quase choroso.

- É A EXCEÇÃO DA REGRA, SASUKE! – o filho da mãe berrou histericamente no meu ouvido, e eu me encolhi quando a voz dele ecoou no meu cérebro.

Senhor, dai-me paciência. Ou uma escopeta, também serve.

- Tá gritando porque, se eu tô do seu lado? – fuzilei o loiro com os olhos, mas ele não pareceu se importar. – E se toda regra tem uma exceção e isso é uma regra, qual é a exceção? – perguntei sacana, vendo o queixo dele cair e ele fazer sua melhor cara de bosta.

- Ah, Sasuke, você entendeu! Não faz pergunta difícil! O que eu quero dizer é que vai aparecer uma mulher que vai mexer com você, aí eu quero ver onde vai parar essa sua regrinha idiota. – ele disse apontando aquele dedo dele na minha cara e depois virou mais um copo de bebida.

- Não vai aparecer. – disse convicto.

- Vai sim, aposto o que você quiser. E você vai ficar tão desesperado pra não perdê-la que vai fazer de tudo. Tudo, tá me ouvindo? Aí vai acabar quem nem a gente. – ele disse apontando pra ele mesmo e para os outros três que ainda brigavam à nossa frente com um sorriso.

Analisei as opções:

Naruto era um idiota que surpreendentemente dava algum jeito de piorar seu estado catatônico de burrice e sempre sofria por se entregar demais às relações; Kiba era outro imbecil que se achava o cara mas sempre acabava num bar chorando horrores por causa de casos amorosos; Shikamaru era um gênio, mas parecia dar descarga na própria inteligência quando se envolvia com uma mulher.

E Chouji... bem, era o Chouji.

- É impossível. – eu ri alto dando outro gole da bebida, a ardência na minha garganta sendo completamente bem-vinda na minha situação atual. – Naruto. – o loiro me encarou firmemente e eu devolvi um olhar divertido – Escreve o que eu to falando... – fiquei sério - ... eu nunca, nunca mesmo, entendeu? Absolutamente nunca vou me apaixonar. – Naruto franziu o nariz e eu dei um meio sorriso – E isso é uma regra.

'Que eu nunca vou quebrar', completei em pensamento.


N/A: AH, PODEM FALAR, EU MEREÇO OU NÃO MEREÇO UM BEIJO? –NNN

POAKSPOAKSPAOSK', ah, lindas, que saudade de vocês! Que saudade de Doctor's Dog! *-* Alguém mais aí sentiu saudade dessa fic?

Tudo bem, para começar, eu queria agradecer imensamente à Pisck, porque, se não fosse por ela, eu não teria coragem de tirar essa fic do hiatus. Obrigada, linda, de verdade! (:

Bem, eu fui reler essa fic e percebi que... bem, estava uma merda. Faz muito tempo desde que eu escrevi isso, e eu era uma escritora bem imatura. Então, eu achei vários erros, uma linguagem bem simples e exposição muito rápida dos fatos, fazendo a fanfic ficar... boba. Portanto, eu peguei aquele capítulo e o editei, fazendo ele ficar decente, no mínimo, porque é o que vocês merecem.

E, sinceramente, Doctor's Dog é uma das minhas idéias preferidas, e eu amo muito ela. E eu amo ela tanto que eu vou transformá-la em livro um dia, alterando os personagens e provavelmente aumentando a história, mas o tema é basicamente o mesmo (e só pra lembrar alguns engraçadinhos, qualquer um que usar e/ou pegar essa história sem o meu consentimento é considerado plágio, ok?)

Eu também gostaria de pedir desculpas à vocês, leitoras. Eu sei que é chato quando a gente gosta de uma fic e a autora põe ela em hiatus – por um longo tempo, inclusive -, mas eu realmente tive meus motivos. Espero que entendam e me perdoem. Mas eu gostaria de pedir humildemente – e se não for muito – que não desistam dessa fic.

Eu vou postar dois capítulos seguidos, porque eu peguei aquela coisa porca que eu tinha escrito e transformei em dois capítulos que eu achei surpreendentemente satisfatório. Eu gostaria que todo mundo que lesse deixasse um review, pra eu saber se gostou ou não, como está e coisas assim.

As reviews lindas de apoio que eu recebi vão ser respondidas no próximo capítulo, okay?

Meus sinceros obrigados a quem leu isso até o final e não vai parar de ler Doctor's Dog. Eu amo vocês 3

Beijos pra todos vocês, meus amores! ;*

Keiko Haruno Uchiha