Advertências:
As mesmas que a do primeiro capítulo.

"Tic Tac, Tic Tac, mas que som tão insistente. Tic Tac, Tic Tac, você nunca desiste? Tic Tac, Tic Tac, já notou que muitos ignoram sua presença? Tic Tac, Tic Tac, mas eu não, nunca. Você ganhou a minha admiração!"

Capítulo 3. O tempo.

Há quanto tempo estavam juntos? Kiku ignorava as datas, apesar de comemorá-las ao lado de Alfred, eles nunca se preocupavam muito com o número exato. Seria natural Kiku imaginar que seu descaso com a data fosse pelo simples fato de que não se importava mais com os momentos que vivia, estava simplesmente ao lado de Alfred e tinha abandonado todas as suas ambições e desejos quando aceitou casar-se com ele. Já para Alfred o mero desprezo pelos números era por desejar acreditar que manteria para sempre a sua juventude e o desejo de inovar e modificar diante das novas gerações.

E lá estavam eles comemorando mais um ano juntos, dessa vez o passeio havia sido diferente de qualquer outro que já tinham tido. No geral o jovem americano iria levar o seu companheiro há algum local da moda, jantar em um restaurante com pratos absurdos e comprar alguns jogos antes de voltarem para casa, mas esse ano seria diferente, a moda era o antiquado e por incrível que pareça, nunca haviam tentado fazer dessa as coisas dessa forma.

Kiku estava sentado no banco de um belo parque, vendo várias crianças correrem pelo caminho asfaltado de patins enquanto o vento batia no topo das altas árvores e o lago artificial que cortava o centro do parque formava pequenas ondas. Fechou os olhos por um breve momento, enchendo os pulmões com aquele ar tão agradável e aquele cheiro de grama recém aparada vinda do campo ao lado.

- Aqui! - A voz de Alfred chamou a atenção de Kiku, fazendo-o a abrir seus olhos e ver o seu marido que tinha acabado de chegar, trazendo junto aquele sorvete de casquinha que tinha saido para comprar.

- Muito obrigado. - Agradeceu Kiku, pegando-o na mão e lambendo o sorvete de chocolate que tinha sobre a casquinha, vendo Alfred sentar-se ao seu lado e começar a comer o próprio sorvete, que era de morango com confeitos coloridos. Por mais que tentasse dizer algo, era claro para todos o favoritismo do maior por coisas coloridas e extravagantes, principalmente se tratando de comida.

- Depois vamos para o outro lado do parque, há uma ponte lá e ficariamos bem tirando uma foto nela! - Falou Alfred, sem se importar com os bons modos e falando enquanto tentava tomar o seu sorvete, deixando um pouco do mesmo escorrer pelo canto dos lábios. Kiku deu um sorriso fraco, Alfred não tinha nenhum constrangimento em agir desse modo? Retirou um lenço de seu bolso e levou em direção do rosto do outro, limpando os resquícios do líquido rosa.

- Você precisa tomar mais cuidado. - Alertou Kiku ao terminar de limpar o canto dos lábios de Alfred, guardando o lenço e recebendo um olhar de insatisfação do marido, não compreendendo o motivo para tal.

- Olha quem fala! Seu sorvete está derretendo em suas mãos! - Rebateu Alfred, que já tinha devorado mais da metade de seu sorvete, enquanto as gotas do sorvete do asiático já escorriam entre os dedos dele sem que ele sequer tivesse notado.

- Ah..! - Kiku ergueu-se para que assim nada caisse em sua calça, esticando a mão para a frente e tentando aproximar e lamber, mas no momento que o fez, a bola de sorvete caiu no chão e logo converteu-se em uma pequena poça. A aflição de Kiku aumentou, sentindo sua mão ficar grudenta e tirando o lenço do bolso, pensando em como se limparia e se deveria deixar o chão nesse estado.

- Acalme-se, eu irei salvá-lo! - Falou Alfred, engolindo a casquinha de seu sorvete e rindo baixo pelo nervosismo do outro, passando a mão na cabeça dele e fazendo um breve sinal de que logo voltaria. Kiku apenas concordou, ficando parado imóvel no mesmo ponto, movendo os dedos e seguindo-os começar a grudar uns nos outros. Talvez ter aceitado tomar sorvete com o Alfred tivesse sido uma péssima idéia.

Não que Kiku fosse admitir como se sentia, mas sempre que saiam para comemorar essa data de união de ambos, ficava extremamente desconfortável com os passeios planejados pelo outro. Nesse ano, quando ele havia dito que iriam ao parque, pensou que talvez fosse um local calmo onde poderiam conversar um pouco e descansar, entretando estava mais desconfortável do que nunca.

Alfred não tardou em retornar, trazendo uma garrafa de água mineral, com cuidado ele abriu-a, despejando-a nas mãos de Kiku para lavá-las, depois utilizou o lenço do japonês para umidecê-lo, limpando os lábios dele e por fim os próprios, com o restante de água jogou-a no chão, dissolvendo parte do sorvete e jogando a garrafa fora.

Quando voltaram a caminhar, continuando com os planos pré-estabelecidos por Alfred, Kiku não pode esconder a admiração. Para Alfred tudo era sempre simples e fácil, nunca haviam dúvidas e ele sempre resolvia os problemas sem precisar pensar muito. Talvez se Kiku fosse um pouquinho desse jeito, nunca teria tido os problemas que teve e poderia ser uma pessoa que demonstrava seus sentimentos com maior facilidade.

- O que foi? Ficou algo no meu rosto? - Perguntou Alfred, lambendo os próprios lábios para se certificar que não tinha nada. Era estranho o japonês ficar olhando-o tanto, normalmente quando andavam juntos o outro só olhava para frente. Até mesmo quando estavam nos momentos íntimos o Kiku tinha vergonha de observá-lo, sempre desviando o olhar de forma tímida e fofa!

- Uhm..? Ah, nada! - Deu-se conta do que fazia, movendo a cabeça em um aceno negativo e acenando com as mãos, desviando o olhar um pouco, mas logo retornando a olhar para o americano, abrindo um sorriso. - Eu estava apenas pensando.. Você é bem alto e forte, não é? - Comentou, mesmo estando com o outro por tanto tempo, era a primeira vez desde que se casaram que o analisava dessa forma.

- É claro que sou! Mas diante de você qualquer um é grande, não é? - Falou Alfred, sentindo o seu ego inflar com tal comentário, interpretando-o como um elogio. Kiku continuou sorrindo, concordando com o comentário, sem se abalar com a possível ofensa. - Mas gosto que você seja pequeno, fica mais fácil abraçá-lo completamente! - Concluiu, pensando que sempre que abraçava o Kiku era bem envolver os braços em volta dele e aninhá-lo próximo de si.

- Você.. - O asiático parou de andar, piscando algumas vezes, impressionado pelo comentário feito pelo outro. Nunca havia pensado por tal perspectiva e muito menos cogitava que Alfred o fizesse. Não que o considerasse um idiota, precisava admitir que ele era mais inteligente do que muitos em determinados temas, mas o americano estava longe de aparentar ter reflexões tão sentimentais.

- Eu..? - Alfred virou-se para trás ao notar que Kiku tinha parado de acompanhá-lo, vendo-o voltar a encará-lo sem qualquer motivo. Devia mesmo haver algo em seu rosto, talvez devesse procurar algum espelho para verificar!

- Você me ama, Alfred? - Perguntou Kiku, sentindo um desejo repentino de desviar o olhar para o chão, mas optando por não fazê-lo. Por que agora, depois de tanto tempo, havia decidido perguntar-lhe isso? E se ele dissesse que não? Estavam casados, isso poderia apenas piorar o relacionamento que tinham.

- É claro que eu amo! - Respondeu sem hesitação, cruzando os braços e olhando o menor interrogativo. Por que ele fazia uma pergunta desse tipo do nada? Era como se não soubesse, já não havia dito isso várias e várias vezes? Todos os dias!

- Estou falando sério! Por que estamos casados? Já não lhe trago nenhum benefício significativo! Existem dezenas de outros que desejariam estar em meu lugar e usurfruirem dos status de estarem casados com você! - Falou Kiku, usando um tom forte, há muito não usava um tom assim, ao menos não com o americano. Tinha optado por ser submisso, mas depois de tantas coisas que já tinham ocorrido, seria mais doloroso manter-se em silêncio.

- Espere, não estou entendendo.. - As expressões de confusão de Alfred foram ganhando um aspecto infantil, olhando para o menor um pouco apreensivo. - Você não me ama? Mas você disse que amava. Está comigo para usurfruir da situação atual? Você vai me deixar, Kiku? Eu fiz algo errado? Não me deixe, eu amo muito você! - Os pés de Alfred começaram a se mover de forma involuntária na direção do outro, seus braços cairam próximo ao seu corpo, preparando-se para segurá-lo e impedi-lo de partir, mesmo que sua voz fraca e angustiada demonstrasse sua fraqueza naquele momento.

- Não é isso que eu estou dizendo! - Kiku recuou alguns passos ao notar Alfred se aproximar, não conseguia olhá-lo mais, deixando seus olhos vagarem no chão e seguirem os pés de Alfred, atento a cada passo que ele dava em sua direção. Estava magoando o americano? Não tinha a intenção de magoá-lo, havia feito apenas uma pergunta e necessitava da resposta. - Como você me ama?

- Como eu amo você? Eu vou todos os dias trabalhar, mesmo querendo ficar em casa ao seu lado, porque quero ter muito dinheiro e nunca lhe deixar faltar nada! E quando eu chego em casa eu te beijo e passamos algum tempo juntos até que possamos ir nos deitar! Mesmo que eu esteja cansado, quero te tocá-lo e beijá-lo, porque é o momento em que ficamos mais próximos e totalmente unidos. - A voz de Alfred vacilou por um momento e ele parou de tentar se aproximar, respirando fundo e pensando em como solucionaria essa crise repentina. - Se você quiser um anel de diamantes, posso lhe dar! É só me falar como quer que eu te ame que eu te amarei, mas é só dessa forma que eu entendo de amor! Se você não me dizer como devo agir eu não saberei!

- Hum.. - Um suspiro rápido se fez no ambiente após ouvir tal discurso, Kiku sentiu-se um pouco mais confiante e voltou o olhar para o Alfred, deixando um sorriso brotar em seus lábios sem se dar conta ou ser necessário forçá-lo. - Você já me deu um anel de diamantes, esqueceu-se? Para você é sempre tudo tão fácil, nunca aceita um "não". Quando o recebe fica insistindo e insistindo e no final todos cedem aos seus desejos. - Comentou, deixando Alfred apreensivo. Não era correto fazer isso? Correr atrás do que se deseja até se obter.

- Se você quiser ir embora eu irei tentar impedi-lo. - Alertou, por mais que desejasse a felicidade de Kiku, se essa felicidade implicasse em divorcio, não iria permitir nunca que ele a obtivesse. Poderia ser egoismo de sua parte, mas só era feliz quando estava com o outro, como poderia deixá-lo ir? E se ele encontrasse outra pessoa? Era uma pessoa ruim por querer ter a pessoa amada apenas para si?

- Eu não vou embora, nós sabemos disso. Eu por muito tempo pensei em como seria tê-lo recusado naquele dia, mas apenas quando tive chance de mudar isso que eu notei o quão importante é para mim tudo o que temos. Eu pensei que você não me conhecesse, mas eu estava errado, você me entende melhor do que qualquer um, só que você não tenta me dizer quem eu sou.. - Falou Kiku em tom calmo, por que havia demorado tanto tempo para notar coisas tão simples? Os momentos de silêncio e até a aparente pouca importância que Alfred tinha por si era porque ele não tentava adivinhar os gostos de Kiku e o menor sentia-se agora um tolo por nunca ter tentado dizer.

- Kiku.. Vamos continuar? - Um sorriso se fez nos lábios do americano, estava aliviado por ouvi-lo dizer que não iria deixá-lo e vê-lo compreender por fim como se sentia. Esticou uma das mãos na direção dele, esperando que ele a tomasse e juntos pudessem prosseguir o caminho, ainda havia muito o que fazer.

- Sim. - Respondeu, esticando a mão na direção da do outro e sentindo os batimentos de seu coração acelerarem. Estaria agindo estranho por começar a se sentir desse modo depois de tanto tempo? Tocou na mão do outro, entrelaçando os dedos e passando a caminhar ao lado dele, sentindo um sorriso bobo nos próprios lábios.

As feridas não doiam mais, suas ambições não o sufocavam. Era exatamente o que desejava ser e estava exatamente onde queria estar. Demorou um pouco para entender o que eram todas aquelas declarações vindas do americano, mas agora já compreendia o significado e sentia-se exatamente igual. E pela primeira vez depois de muito tempo tinha a certeza de que não estava sozinho.

"Tic Tac, Tic Tac, você nunca vai parar? Tic Tac, Tic Tac, seguindo o mesmo compasso de meu coração que começa a palpitar. Tic Tac, Tic Tac, segundo por segundo, dando voltas e mais voltas. Tic Tac, Tic Tac, me perco no tempo sem você."

Fim do capítulo.
Eu já havia escrito o capítulo 3 faz algumas semanas, entretando decidi que não era a hora de publicá-lo. Como a idéia original eram cenas aleatórias, nesse capítulo pulei para o futuro e depois retornarei ao passado para explicar esse "Estado de paz" dos personagens. Decidi fazê-lo porque o meu Alfred tem passado uma péssima impressão e deixar esse capítulo para o final da fanfic iria ficar incoerente com os atos relatados antes. Digamos apenas que o Kiku nesse capítulo passa a aceitar/amar o Alfred, mas depois eu explicarei o que modificou tanto a visão dele. Está um capítulo bem parado e sem grandes acontecimentos, mas era a hora de "suavizar" um pouco.