Luzes do Norte

"Two worlds collided"

Harry deitaria sobre suas pernas cansadas e lhe afagaria os cabelos, diria como é bonito aquele tom de vermelho, olharia no fundo de seus olhos até que ela se afogasse no verde. Harry lhe seguraria os pulsos e diria que os dele são mais ossudos, beijaria as pontas de seus dedos e lhe diria tudo o que sentia. Dentro de si crescia uma ânsia por escutar o que ele tinha a dizer.

...

Harry colocaria os dedos gelados sobre as bochechas vermelhas e quentes dela e lhe diria que não havia necessidade de ficar envergonhada. E o ar se tornaria palpável com tudo que poderiam dizer um ao outro. Apenas se olhariam. Ele desviaria os olhos para baixo das lentes dos óculos e encararia os pés dela desfocados, também com a vergonha de se saber entendido.

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Harry colocaria as mãos timidamente em sua cintura, a abraçaria devagar, e suas cabeças se inclinariam em direções opostas. Seria um beijo sem graça e gentil, que ela acabou dando em outro garoto. Harry ficaria enciumado.

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Harry sumiu. Harry ficaria impressionado.

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Harry desapareceu com os passos de dança que ela experimentou com Neville. Dois para frente, um para o lado, Neville pisa em seu pé, ela faz uma careta de dor; e por um instante seu vestido parece lhe conferir tanta graça e fazer parte dela mesma. O instante se repete, transforma-se em horas, horas em que ela percebe que não poderá, nunca, tirá-lo da cabeça – mas pode viver com isso, em vez de viver por isso. Harry ficaria intrigado.

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Harry notaria sua voz controlada e sua naturalidade e finalmente a olharia nos olhos e se sentiria examinado, compreendido, alcançado. A impressão daquele amadurecimento ficaria presa em sua mente e ele pararia para refletir até tentar entender o que aquela menina via demais nele, por que ela parecia ser a única que não ficava corada ao ver sua cicatriz, mas ao encará-lo de frente. Harry notaria – mas não era para Harry.

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Harry nunca fez nenhuma daquelas coisas.

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Mas ela teve certeza, quando foi necessário ter certeza, de que Harry entenderia que ela tinha vergonha de qualquer presença diferente em sua casa, quando tinha onze anos. Harry entenderia que seus olhos verdes como sapinhos cozidos nunca foram percebidos por outra pessoa que não os relacionasse a Lily – que apenas a poeta fracassada via seus olhos como seus. Harry entenderia sua companhia. Harry acabaria entendendo. Tão quieto; não havia forma melhor de compreendê-lo do que ficar em silêncio também.

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Ela mesma tardou a compreender. Durante todo o resto de sua vida, olhar para Harry era como viver longos dias ensolarados.