meu Deus, por que me abandonaste?
se sabias que eu não era Deus.
se sabias que eu era fraco.

Costumava rezar toda noite.

Sétimo nunca tinha sido muito chegado às leis de Deus, então simplesmente se virava e dormia em paz. Mas você rezava toda noite. Gostava de se ajoelhar com um crucifixo entre as mãos e murmurar todas as orações que seus pais haviam lhe ensinado quando só tinha cinco anos. Suas mãos cheiravam a peixe e você sorria, pensando no milagre da multiplicação.

Você agradecia. Agradecia por ter um trabalho, por D. Afonso ter lhe presenteado com mais um livro, agradecia simplesmente por estar vivo. Simplesmente agradecia todas as noites, por ter ido ao mar e voltado com vida. Afinal, quantos não voltavam? Rezava também antes de entrar no mar, mas era uma simples oração, um pedido de voltar com vida para a terra.

Miguel dormia com o crucifixo pendurado no pescoço. Dava-lhe uma sensação boa, de segurança. Deus o fazia se sentir seguro. Deus o permitia continuar vivo.


O sangue escorre pelo canto de sua boca e Miguel limpa com as costas da mão. Era noite e você não iria dormir. Era noite e não iria agradecer por estar vivo. Não iria agradecer mais nada.

Mas era inevitável, ao se esconder para o sono profundo do dia, o velho hábito de rezar. Só que dessa vez você não iria agradecer pela vida. Iria simplesmente implorar pela morte.


N/A: Quisera eu ter a habilidade do Drummond e ter escrito aqueles versinhos ali em cima.

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Set Outono
Tema 08. Tradição

ps: se alguém deixar um comentário falando de religião, eu mando tomar no cu.