Capítulo 1

Eu tinha decidido manter uma postura diferente em relação a ela. Eu a trataria como havia tratado minhas irmãs. Um pouco de preocupação, sarcasmo, indiferença e provocação. Certo. Isso deveria funcionar, não é? Mas não estava, pelo menos não do jeito que eu queria. Pelo menos eu estava tentando. Ela não precisava de um cara que, além de estar morto e morar em seu quarto, estava, vamos encarar os fatos, apaixonado por ela.

E por estar morto e morando em seu quarto que eu não podia estar apaixonado por ela. Eu havia cometido um deslize, certo? Apaixonara-me muito rápido. E isso não estava certo. Ela, obviamente, não me via do mesmo modo, o que era uma sorte, ironicamente falando. Irônica pelo óbvio e sorte, pois assim eu não precisaria me preocupar em dividir o quarto com ela. Afinal de contas, seria extremamente inadequado. E eu sabia que não era forte o suficiente para resistir a certas... tentações.

Sacudi minha cabeça, para expulsar esses pensamentos. Eu estava sentado no meu lugar de costume; no assento da janela do quarto. No assento rosa, no quarto... rosa. Chegava a ser apavorante a quantidade de rosa que cabia em um cômodo só. E era chocante o contraste que esse quarto feminino, delicado e rosa fazia com sua habitante. Não que Suzannah não fosse feminina. Não que ela não fosse delicada (o que não [i]parecia[/i] ser, pelo modo que se vestia e se comportava, mas era óbvio que ela o era). Não que rosa não combinasse com ela.

Era só que Suzannah era... diferente. Especial. Não podia caber em um local tão... padronizado? Não, não é essa a palavra. Estereotipado. Isso.

Por mais que eu lutasse contra meus próprios sentimentos, devo admitir que não estava tendo muito resultado. Raramente conseguia tirá-la da minha cabeça ou ir vê-la na escola. Não que ela tenha conhecimento desses fatos. Isso nunca.

Suspirei de frustração. Era o primeiro fim de semana desde o acidente com Heater, no colégio. O acidente que todos estavam julgando ser fruto de um terremoto. Porque ninguém, fora Suzannah, o padre e eu sabíamos a verdade. E ninguém sabia porque ninguém podia enxergá-la. Literalmente. Porque Heater era a causa do acidente, que não havia sido muito acidental, já que ela derrubara parte da escola de propósito, com o intuito de matar Suzannah. Trinquei os dentes de raiva da memória. E ninguém sabia disso porque ninguém podia ter visto Heater. Não podiam vê-la porque ela, como eu, estava morta.

Suspirei e olhei o quarto vazio. Suzannah havia saído para uma festa. [i]Festa[/i]. Onde haveria outros homens. Onde eles a convidariam para dançar. Homens com interesses. Interesses iguais aos meus. Ou piores, sem realmente gostar de Suzannah. Tremi com o pensamento. E esses homens estariam vivos. Ela poderia aceitar qualquer um deles, porque estavam vivos.

Ah, droga! Suspirei novamente.

- Perdedor. - murmurei para mim, em voz baixa. Não que alguém fosse ouvir de qualquer maneira, mas enfim...