Capítulo 4

Voltei pouco tempo depois, quando ela já estava dormindo. Ele tinha razão, eu sabia. Não conseguia me manter longe. Eu a observei por um bom tempo, pensando no por que de a Suzannah ter contado ao pai dela sobre mim. Ela se sentia incomodada com a minha presença? Suspirei, passando a mão pelo cabelo. Estava tudo silencioso, até que a mesma mulher que havia gritado na noite anterior reaparecera. Gritando.

Suzannah sentou-se rapidamente e ficou encarando a mulher que gitava intensamente. Ela parecia impaciente. Tanto Suzannah quanto a mulher.

- Por quê? – a mulher perguntou, quando parou de gritar. – Por que você não disse a ele?

- Olha – eu conseguia ver o esforço que ela fazia para se manter calma e tranquilizadora. - Eu tentei, certo? O cara não é a pessoa mais fácil de achar. Vou contatá-lo amanhã, prometo.

A mulher já havia se ajoelhado no chão e estava suplicante. Era realmente uma cena triste. Eu queira poder consolá-la.

- Ele se culpa. Ele se culpa pela minha morte. Mas não foi culpa dele. Você tem de dizer. Por favor.

- Olha, dona. – então, parecendo lembrar-se de alguma coisa, ela completou: - Ei. Por sinal, qual é o seu nome?

Milagres existem! Suzannah ouviu o que eu disse a ela!

A mulher apens continuava dizendo:

- Por favor. Você tem de contar a ele.

- Eu disse que vou contar. Me dê uma chance, certo? Essas coisas são meio delicadas, a senhora sabe. Eu não posso ir simplesmente abrindo a boca e falando. A senhora quer isso? – Suzannah parecia próxima de perder a paciência.

- Ah, meu Deus, não. Não, por favor... – continuou a mulher, agora mordendo o punho fechado.

- Então certo. Esfrie um pouco. Agora diga...

Mas ela já tinha ido embora.

Uma fração de segundo depois eu apareci. Quer dizer, eu estava lá o tempo todo, mas não estava e... esquece. Eu comecei a aplaudir baixinho.

- Esse foi o seu melhor desempenho até hoje – eu disse, baixando as mãos. -Você parecia envolvida, ainda que enojada.

Ela me olhou furiosa.

- Você não tem umas correntes para chacoalhar por aí? – ela perguntou mal-humorada.

Eu fui até a cama dela e me sentei. Eu precisava perguntar o por que da "visitinha amigável" do pai dela. Precisava saber se a incomodava tanto. E, ao mesmo tempo, não tinha certeza se queria ouvir a resposta.

- E você não tem algo que queira me contar? – eu perguntei.

Ela balançou a cabeça, sonolenta.

- Não. São duas da manhã, Jesse. A única coisa que eu tenho na cabeça agora é dormir. Você se lembra do que é dormir, não é?

Eu ignorei o comentário.

- Eu também recebi uma visita há pouco tempo. – continuei falando. - Acho que você conhece. Um certo Sr. Peter Simon.

- Ah. – e entao, ela se jogou deitada de novo e puxou o travesseiro sobre a cabeça. - Não quero saber disso.

Eu não queria saber, mas eu precisava. Como se eu precisasse de um motivo para me sentir mais infeliz. Vou te contar, sou doente. Um perfeito masoquista. Continuei encarando o espaço na minha frente enquanto jogava o travesseiro dela no chão, apenas de pensar nele.

- O que é? – ela perguntou irritada, com a voz esganiçada.

- Quero saber por que você disse ao seu pai que há um homem morando no seu quarto.

Eu estava furioso. Não com Suzannah. Isso de forma alguma. Comigo mesmo. Por não poder ser o suficiente para Suzannah. Por não poder ser nada para ela. E, para completar, eu sabia que ela diria isso. Que não me queria por perto e havia pedido para seu pai me expulsar.

- Ahn – ela respondeu. - Na verdade, Jesse, há um cara morando no meu quarto, lembra?

- É, mas... – meus pensamentos estavam embaralhados e minha fala não estava muito coerente. Ela me odiava [i]tanto[/i] assim? - Mas eu não estou realmente morando aqui.

- Bem. Só porque, tecnicamente, Jesse, você está morto.

- Eu sei disso. – Ela tinha que me lembrar sobre isso sempre que podia. Provavelmente para cortar qualquer esperança que eu ainda tivesse. Eu passei a mão pelo cabelo, frustrado com minha própria relutancia em admitir isso. - O que eu não compreendo é por que você falou com ele sobre mim. Eu não sabia que incomodava tanto a você eu estar aqui.

Será que ela realmente não gostava nem um pouco de mim?

- Não – ela falou.

Por um insamo momento, eu pensei que ela estivesse se referindo aos meus pensamentos.

- Não o quê? – perguntei quando recobrei um pouco o juizo. Seus olhos ainda estavam verdes, ela não estava com raiva. Eles ficaram de um tom verde escuro, como se ela estivesse chateada pelo fato de eu pensar que ela se incomodava comigo. Lutei para manter a sanidade, ignorando as fantasias que minha mente produzia. Fantasias em que ela não...

- Não me incomoda você morar aqui. – Ela completou meus pensamentos, se encolhendo, como se ela não tivesse certeza do que havia dito. Mas ela disse! Ela disse que não se incomodava comigo! Quase quis me dar um tiro por me permitir pensar que ela [i]gostasse[/i] da minha presença. Ela podia não se incomodar, mas quem falou em gostar? - Bem, não que você more aqui, já que... quero dizer, não me incomoda que você fique aqui. Só que...

- Só que o quê? – é claro que não podia ser tudo um mar de rosas.

- Só que eu não consigo deixar de ficar pensando em por quê.

- Por que o quê?

- Por que você está aqui há tanto tempo.

Eu olhei para Suzannah. Do que é que ela está falando? Ok, eu não tenho uma idéia muito clara de o por que ainda estou aqui. Talvez tenha alguma coisa a ver com o modo que eu morri, não sei. Mas agora sei que não vou embora. Não quando aqui é onde eu pertenço. Realmente, não há nada no mundo que possa me convencer a abandonar Suzannah. Possivelmente nem se ela me quisesse longe, eu consiguiria partir.

- Claro – ela falou, cortando o silêncio. -, se você não quiser conversar sobre isso, tudo bem. Eu esperava que a gente pudesse ter, você sabe, um relacionamento aberto e honesto, mas se é pedir demais...

Aberto e Honesto? Ela devia estar de brincadeira.

- E quanto a você, Suzannah? – eu retruquei. - Você tem sido aberta e honesta comigo? Acho que não. Caso contrário, por que seu pai viria atrás de mim daquele jeito?

Ela pareceu ter levado um choque e sentou-se mais ereta.

- Meu pai foi atrás de você?

Ela ainda tinha dúvidas sobre isso?

- Nombre de Dios, Suzannah – eu respondi, irritado. – O que você esperava que ele fizesse? Que tipo de pai ele seria se não tentasse se livrar de mim?

- Ah, meu Deus – ela parecia sem graça. - Jesse, eu nunca disse uma palavra sobre você com ele. Juro. Foi ele quem puxou o assunto. Acho que ele anda me espionando, ou sei lá o quê. Então... o que você fez? Quando ele foi atrás de você?

Eu dei de ombros.

- O que eu poderia fazer? Tentei me explicar do melhor modo possível. Afinal de contas, minhas intenções são as melhores possíveis.

Droga! Será que eu não posso controlar minha maldita boca?

- Você tem intenções?

É claro que eu tenho intenções! Eu queria dizer de volta. Também queria andar até ela e abraça-la, dizer o que eu realmente sentia e pedir para ela ficar comigo para sempre, mas isso seria patético. Além do mais, não se pode ter tudo que quer. Minhas malditas intenções! Ah droga... E agora, ela tinha plena consciência de que eu tinha intenções.

Tentando distraí-la da idiotice que eu acabara de dizer, peguei o travesseiro do chão e joguei na cara dela. Bem, eu nunca disse que era romântico. Mas, talvez assim ela se esquecesse do que eu havia dito.

- Então o que meu pai disse? – ela perguntou, afastando o travesseiro. - Quero dizer, depois de você garantir que suas intenções eram as melhores possíveis?

- Ah – eu sentei-me na cama. – Depois de um tempo ele se acalmou. Eu gosto dele, Suzannah.

- Todo mundo gosta. – ela respondeu, fungando. - Ou gostava, quando ele era vivo.

- Ele se preocupa com você, você sabe.

- Ele tem coisas muito maiores com que se preocupar – ela disse, numa voz pequenininha.

Eu pisquei, curioso.

- Como o quê?

- Ah, não sei. Que tal o motivo para ele estar aqui em vez de no lugar aonde as pessoas devem ir depois de mortas? Essa pode ser uma sugestão, não acha?

Eu falei em voz baixa, querendo que ela não ouvisse, mas ao mesmo tempo, implorando a Deus para que ela ouvisse:

- Como você tem certeza de que não é aqui que ele deve estar, Suzannah? Ou eu, por sinal?

Ela me encarou. Droga! Eu não consigo ficar de boca fechada! Nunca!

- Porque a coisa não funciona assim, Jesse. – ela falou como se não eu tivesse dito nada estranho. - Talvez eu não saiba muito sobre esse negócio de mediação, mas disso eu sei. Esta é a terra dos vivos. Você, meu pai e aquela dona que esteve aqui há um minuto não pertencem a este lugar. O motivo para estarem presos aqui é porque há alguma coisa errada.

- Ah. Sei. – achei que o melhor agora era apenas concordar com ela.

- Você não pode dizer que está feliz aqui – ela falou. – Você não pode dizer que gosta de estar preso neste quarto por cento e cinqüenta anos.

Antes que eu pudesse me conter, as palavras saltaram de minha boca e eu estava sorrindo idiotamente.

-Não foi muito ruim. As coisas melhoraram recentemente.

E muito.

Quando disse isso, seus olhos ficaram derrepente muito verdes. Como se ela estivesse... feliz. E confusa. Mas feliz. Acho melhor eu parar de imaginar coisas. Isso não vai me fazer bem.

- Bem, sinto muito o meu pai ter ido atrás de você. Juro que eu não contei a ele.

Ela parecia se sentir tão culpada que me doía vê-la assim. Eu faria qualquer coisa para ela ficar mais feliz.

- Tudo bem, Suzannah – eu disse baixinho. - Eu gosto do seu pai. E ele só faz isso porque se preocupa com você.

- Você acha? – ela puxou a colcha. - Eu tenho minhas dúvidas. Acho que ele faz isso porque sabe que me chateia.

No instante em que ela puxou a colcha, eu vi algo que não havia reparado antes. Nos dedos, e em grande parte das mãos, ela parecia estar com uma séria reação alérgica. Involuntáriamente, eu estendi a mão e segurei a mão pequena e macia de Suzannah.

Eu provavelmente não deveria ter feito isso. Não iria me ajudar muito a mantê-la fora da cabeça depois da corrente elétrica que passou de seus dedos por toda extensão de meu braço. Não que fosse desconfortável. Isso nunca. Sua mão era macia e suave, pálida em comparação à minha. Delicada, como uma peça de porcelana. Mas ao mesmo tempo, forte e decidida. E, no momento, com algum tipo de alergia.

- O que há de errado com os seus dedos? – perguntei. Ela olhou para mim e para as mãos como se desejasse que eu não tivesse perguntado isso.

- Sumagre venenoso – ela falou com voz amarga. - Você tem sorte de estar morto e não poder encostar nisto. Queima. Ninguém me falou disso, você sabe. Sobre o sumagre venenoso. Sobre palmeiras, claro, todo mundo disse que havia palmeiras, mas...

- Você deveria tentar pôr um ungüento de folhas de grindélia – eu interrompi o discurso que ela estava fazendo.

- Ah, certo – ela falou sarcasticamente.

Eu franzi a testa e me apressei para explicar.

- É uma planta com flores amarelas pequenas. Cresce no campo, Tem propriedades curativas, você sabe. Há algumas naquele morro atrás da casa.

- Ah. Quer dizer aquele morro onde ficam todos os pés de sumagre venenoso? – ela parecia achar a idéia de procurar pelas folhas de grindélia repulsiva.

- Dizem que pólvora também funciona. – completei.

- Ah. Sabe, Jesse, - eu ainda não havia me acostumado ao modo que meu corpo reagia quando ela dizia meu nome. A voz suave, meus ouvidos captando o menor som que ela produzia. Meu rosto relaxava e eu lutava contra a vontade de abraçá-la. - talvez você fique surpreso em saber que a medicina avançou além dos ungüentos de plantas e pólvora no último século e meio.

- Ótimo – eu disse, soltando suas mãos, antes que meu corpo não me obedecesse mais. - Foi só uma sugestão.

- Bem. Obrigada. Mas vou colocar a fé na hidrocortisona.

E a única coisa que eu conseguia fazer era olhar para ela. Patético, Jesse.

- Suzannah – eu disse finalmente, quebrando o silêncio.

- O quê?

- Vá com cuidado com essa mulher. A mulher que esteve aqui.

Eu sabia que Suzannah andara procurando por Thaddeus "Red" Beaumont porque o associara a mulher-que-vivia-gritando-no-nosso-(opa, nosso, não.)– quarto-da-Suzannah. E eu sabia da fama de Beaumont entre os... bem, fantasmas.

Ela deu de ombros.

- Certo.

- Estou falando sério. Ela não é... ela não é quem você acha.

- Eu sei quem ela é.

Fiquei surpreso. Ela realmente sabia no que estava se metendo?

- Você sabe? Ela contou?

- Bem, não exatamente. Mas você não precisa se preocupar. Eu estou com as coisas sob controle.

- Não. – Eu levantei-me da cama. - Não está, Suzannah. Você deve ter cuidado. Desta vez deve ouvir o seu pai.

Por favor, por favor, por favor, Suzannah. Ouça o que eu estou dizendo!

- Ah, certo – a voz dela soava incrivelmente sarcástica e seus olhos clarearam. Ela estava irritada. E, dessa vez, era comigo. - Obrigada. Você acha que poderia ser mais assustador com isso? Tipo será que você podia babar sangue ou alguma coisa assim?

Eu me enchi de irritação e fui embora, antes que eu pudesse descontar em Suzannah.