1. RAPHAEL - és dono dos teus actos e escravo da tua consciência

O breu da noite era transformado num reino de prata pela luz da lua cheia que imperava no céu. Nada mexia, a noite era calma, sentia-se apenas o barulho das ondas do mar empurrando a falésia. Raphael estava no alto da colina olhando em seu redor. Os cabelos compridos, brilhavam mais que o luar. Estava sem camisa, uma estranha tatuagem nas costas surgia do nada - fúria divina - podia ler-se. De porte altivo, com graciosidade, baixou o olhar enterrou a sua espada na terra ajoelhando-se diante dela... ao longe a tempestade aproximava-se. Os relâmpagos pintavam o céu de bronze e fogo num cenário arrepiante.

Nas suas costas estava a pequena povoação de Glen Creachan, que parecia dormir. Uma leve brisa começou a levantar-se, os cabelos de Raphael acusavam-na esvoaçando com graciosidade. Na pequena Aldeia o silêncio era interrompido pelos gritos de Maria que ao fim de nove meses tinha entrado em trabalho de parto. Na casa ao lado, a brisa que se havia levantado abre uma janela mal fechada. No seu interior, a meia luz, uma mulher morena, vestida de negro dispõe sobre uma mesa alguns objectos. A sua frente tem um altar com um pentagrama, onde havia colocado, bem no centro um cálice com vinho. Três velas de cores diferentes - vermelha, preta e branca - estavam dispostas em triângulo. Ao lado uma faca de folha brilhante como a mais intensa das luzes, papel de pergaminho e uma pena compunham o resto do cenário. Tratava-se de um ritual, o pentagrama não agoirava nada de bom.

Katrina pega num sino e de forma lenta mas decidida fá-lo soar 9 vezes. Coloca o sino cuidadosamente sobre a mesa começando a falar de uma forma estranha, invocando algo que não sabia se poderia controlar.

"Renich tasa uberaca icar lucifer"

E por três vezes repetiu esta frase cada uma dessas vezes com mais intensidade, como que segura do que fazia.

" Ao leste eu te chamo e no ar da iluminação eu Katrina ivoco o teu nome e o teu poder. Imperador do inferno, mestre de todos os espiritos rebeldes. Abri os portões do inferno para que eu possa entrar e tornar-me um dos teus."

Katrina estende os braços na direcção do altar improvisado, com os olhos fechados, não por medo, mas por crença e respeito na entidade superior que começara a invocar.

"Renich tasa uberaca icar lucifer"

E por mais três vezes repetiu estas sinistras palavras, continuando a mostrar determinação e força.

"Evoco a presença dos mestres Satan, Leviatan, Belial, Astaroth, Azazel, Baalberyth, Belzebu, Abbadon, Asmodeus, Verrine e Floreous para testemunhar este pacto de sangue".

Pega na faca que estava sobre a mesa, ergue-a na direcção do céu baixando a cabeça na direcção do solo

"Nas vocare tu lucifer, percepts es hic rictus, salvé Lucifer senhor do mundo"

Com a graciosidade de uma criança coloca a faca sobre a mesa. Pega no cálice bebendo dele e metendo-o de novo no centro do pentagrama.

Na casa ao lado, Marie continuava em trabalho de parto, gritando de dor, tentando fazer uma respiração calma sob conselho da parteira.

Lá fora o vento começava a aumentar o tom do seu ralho, as árvores movimentam-se como que bailando em conjunto. O céu continuava a pintar-se cor de fogo, como se o inferno tivesse subido aos céus. Raphael continuava ajoelhado com os cabelos a vento, as tatuagens apareciam-lhe no corpo vindas do nada. Mantinha os olhos fechados, o rosto tranquilo e a luz que emanava do seu interior contrastavam com tudo o que se passava em seu redor.

Dentro de casa, Katrina continuava o ritual, convencida de saber o que estava a fazer, mas sem a noção das implicações daquele acto.

" Eu Katrina, na presença do senhor lucifer, renuncio a santíssima trindade, renuncio a Deus, renuncio a Jesus Cristo, renuncio ao Espírito Santo, a tudo o que é bom e sagrado. proclamo que Lucifer é o senhor deste mundo, o único Deus na terra e meu único mestre"

Suavemente pega no cálice e bebe colocando-o de novo no centro do pentagrama. Nas suas costas encontram-se já os onze príncipes do inferno invocados no inicio do ritual. Cabelos negros e olhos totalmente opacos caracterizam os seus rostos estranhamente belos mas agonizantes de sofrimento. Vestindo apenas calças com o tronco desprovido de roupa. No peito começam a surgir tatuagens de pentagramas vindas também do nada.

No alto da colina, Raphael continua de joelhos, segurando a espada com tensão, notando-se agora a força que faz para que o vento não o derrube. Raphael ergue os olhos aos céus

"Pai, que a tua justiça me acompanhe nesta hora."

Cruzando os dedos enquanto segura na espada Raphael reza

"Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome..."

Entretanto Katrina continua o cerimonial recitando também ela o pai nosso invertido em honra de lucifer.

"Nema lam od son-iarvil sam, oacatnet me riac seixied son oan e..."

Depois de ter profanado a mais pura e divina das orações, Katrina, volta a beber do cálice. Ao mesmo tempo os anjos negros abrem as suas asas elevando-se e circulando em seu redor.

Raphael, termina a sua oração envolto em raios e clarões naquela que podia ser a visão do Apocalipse. Estranho tudo indicar que se tratava de uma batalha, mas não haver exércitos de Deus para combater. Seria tão grande a crença do criador no seu filho guerreiro e na sua força ao ponto de menosprezar a força e o poder do que se avizinhava? Ou seria mais um dos incompreensíveis desígnios do senhor no seu interminável projecto de melhorar a humanidade e a sua obra?

Maria continuava em trabalho de parto, já cansada e com as contracções a aparecerem menos espaçadas... a transpiração lavava-lhe o corpo e o momento de alegria transformava-se em puro sofrimento.

Katrina, sob o olhar atento dos anjos negros que voam sobre a sua cabeça continua com o ritual. Pega agora num pergaminho ainda por escrever colocando-o diante dela. Recita em voz alta os termos do pacto com lucifer sendo todas as suas palavras escritas pela pena que parece desgovernada.

" _ Senhor Lucifer, meu supremo mestre, dái-me a força, a astucia para lutar contra os teus inimigos. Transforma-me no teu escudo, na tua mão na terra para que se abra o caminho do teu reinado. Peço-te apenas em troca dos meus serviços o amor incondicional de Raphael. Se me concederes este pedido prometo-te lealdade, nunca quebrarei esta aliança, a minha carne é a tua carne, o meu sangue é o teu sangue... assim seja feito".

Katrina pega na faca de lamina brilhante e ameaçadoramente cortante. Corta o pulso com suavidade fazendo o sangue percorrer os poros da sua alva pele com suavidade. empunhando a pena, colocanda o bico no sangue que perdia a pureza neste preciso momento. Assinava o pacto pela sua própria mão, sem consciência do mal que estava lançando no mundo, sem noção do poder que dava a quem não o necessitava.

Depois de assinar o pacto ergue o braço envolto em sangue, precipitando os anjos negros sobre ele. Ao toque da língua dos príncipes das trevas, o vermelho vivo do sangue transforma-se em negro, correndo pelo braço até ao interior do corpo de Katrina. Nem sempre a mais nobre intenção nos conduz ao melhor dos caminhos. Katrina havia selado o seu destino, sentir a carne dilacerar no fogo do mundo dos mortos pela eternidade.

De seguida pega no pergaminho, queimando-o no fogo da vela negra.

" Eu Katrina, entrego meu corpo para Lucifer, entrego minha mente para Lucifer, entrego minha alma para Lucifer"

Katrina termina de queimar o pergaminho, pegando no cálice e bebendo de um só gole o restante vinho que continha. Cálice que coloca escrupulosamente no centro do pentagrama. Ergue de novo as mãos aos céus direccionando o olhar para a terra

" Senhor Lucifer, mestre do mundo, senhor do ar, mestre da terra. lucifer, agradeço a tua gloriosa presença, que eu esteja sempre contigo... aqui encerro este ritual enviando-te os teus príncipes de retorno como testemunhas."

O pequeno sino começa a ser agitado fazendo soa-lo nove vezes. no preciso momento que o sino toca a nona vez, o bebé de Maria nasce. O sofrimento deu lugar a satisfação, e a alegria estampada na cara de Marie mostrava-o bem.

-"E uma menina"

disse a parteira, envolvendo-a num cobertor e devolvendo-a ao aconchego da mãe. Maria chorava e sorria, numa mistura de sentimentos enternecedora. Mas subitamente o seu rosto muda, dando lugar á preocupação. Passa-lhe a mão na cara e repara que os olhos da pequena bebé eram de um vermelho vivo cor de sangue e que lentamente se estavam a transformar em negro profundo. Maria grita, entrega a bebé a parteira que numa expressão de nítida incompreensão pega na criança olhando abismada para a mãe. Maria chora e interroga Deus sobre o porquê desta situação. Visivelmente transtornada Maria pede para levarem a pequenina, que não a quer e solta um grito dilacerante que se escuta em toda a região. Um grito de tal forma assustador que inquietou Raphael.

Ainda de joelhos, diante da sua espada, olhando os céus, esperando o seu adversário, esperando o momento do confronto, o momento de mostrar o motivo da sua criação. Diante de Raphael, vindo do mar, uma enorme onda começa a formar-se. A fúria da natureza é inexplicavelmente bela e assustadoramente sinistra. o que estaria por trás de tanta força. Da onda gigante começa a formar-se um anjo, podem ver-se claramente as asas de grande porte, traços do rosto, tudo envolto num azul claro fluorescente. Tamanha beleza escondia a verdadeira natureza daquela criatura, forjada nas entranhas do inferno sob a forma de água. A crueldade em estado liquido era Sallos, o demónio capaz de adquirir a sua forma através da água.

Raphael sabia que era chegada a hora, o momento estava diante de si. Ergueu-se, a lâmina da espada iluminou-se de fogo ao mesmo tempo que Raphael a arranca da terra como se das raízes de uma árvore se tratasse. Tomou a sua posição de combate, o tronco estava coberto de tatuagens. Olhando frontalmente para o anjo de agua, sem medo, com respeito, disse-lhe:

"Por Deus não passaras Sallos, em mim tens a tua última batalha."

Empunhando a espada benze-se em cruz

"Em nome do pai, do filho e do espírito santo"...

No preciso momento em que termina, duas imponentes asas douradas se abrem nas suas costas, vindas do nada, bem abertas, maravilhosamente belas. Com um grito ensurdecedor e o movimento das asas na direcção de Sallos, todo o vento é lançado sobre o anjo do Inferno com uma violência capaz de destruir a humanidade. Sallos não se defende e começa a desintegrar-se aos poucos pelo impacto do ataque. A calma é devolvida a paisagem, mas Raphael mantém no ar a sua posição de ataque. Não podia ter acabado assim, era fácil de mais.

Raphael olhava o mar esperando a resposta de Sallos, no entanto, por mais irónico que possa parecer o ataque ao anjo do criador veio do céu. A chuva começou a cair sobre Raphael como ácido. A pele ardia a cada gota que lhe tocava deixando feridas abertas de onde corria sangue dourado. O guerreiro da Luz fechou-se nas asas para se proteger formando um casulo e adoptando a posição fetal deixou-se cair por terra. As asas de Raphael fumegavam tal era a intensidade com que chovia. Como se tivesse sido regado com gasolina o Anjo iluminou-se com fogo, dando a ideia de que não conseguiria resistir ao ataque. Maior era a intensidade da chuva, mais o fogo crescia, la dentro Raphael não suportaria muito mais tempo. A chuva começou a dissipar-se a fogueira em que Raphael se tinha transformado também. À frente do casulo imóvel, a água que estava na terra começou a juntar-se, como que se de um íman e metal se trata-se. Começa a formar-se um corpo elegante da água, cintilante em tons de azul claro.

"podes sair Raphael, o medo não te fica bem e a cobardia não mostra a tua origem"

Sallos, príncipe dos demónios, um ser de fogo capaz de assumir formas de água, capaz de incendiar um mar. Abre as suas asas repentinamente, largando pequenas gotículas de água fluorescente que se espalham a sua volta incendiando tudo em que tocam. A visão é aterradora e bela o suficiente para fazer parar o mundo a contempla-la.

"foi este o guerreiro que ele mandou para me enfrentar! os critérios no céu eram mais exigentes quando eu era um dos vossos."

Aproxima-se do corpo de Raphael, ainda protegido pelas suas asas olhando-o com despeito. Das costas tira uma espada que ergue ao céu

"Tu que já foste meu pai, aqui te envio o teu filho Raphael, recebe-o no teu reino pois esse é o lugar dos fracos"

Com um grito estridente desfere um golpe certeiro sobre o corpo de Raphael que abre as suas asas defendendo-se do golpe travando-o com a sua espada de fogo. Raphael está visivelmente marcado pelo ataque de Sallos, seu corpo está banhado em ouro, a cor do seu sangue. o seu rosto não demonstra sofrimento, pelo contrário, impera nele a tranquilidade, a paz, o equilíbrio. Mas fisicamente esta debilitado, Sallos sabe disso, pressente isso, sente o cheiro do sangue divino. Sallos ajoelha-se, com a mão toca no sangue de Raphael que está espalhado por todo lado, ergue-se de novo sorrindo. Raphael mantém a sua postura de ataque.

" estas ferido Raphael, teria sido menos penoso para ti deixares as coisas terminarem com o último golpe"

" Nunca Sallos, nunca o reino do céu se deixará dominar sem lutar."

"o reino dos céus tem os dias contados, vem Raphael, junta-te a nós, evita a tua destruição e faz parte do novo mundo... a ordem de fogo a que Lucifer preside"

"Eu Sallos... sou o portador da magia da vida e da morte, da criação e da destruição... sou dono dos meus actos, mas escravo da minha consciência... e a minha consciência jamais aceitaria dobrar-se diante de lucifer"

"Tu é que sabes Raphael, eu tenho tempo para me divertir contigo"

Sallos avança com a sua espada apontada a Raphael que fica impávido esperando o adversário. Quando Sallos já está demasiado próximo, desenha um circulo de fogo com a espada, formando um escudo protector onde toda a fúria do anjo da morte se desfaz. Sallos transforma-se numa chuva miudinha azul clara que se espalha por todo lado.

Sem que Raphael se pudesse recompor recebe pelas costas um duro golpe de um jacto de água que o projecta com tal violência pelos chão abrindo uma vala profunda até se imobilizar. Raphael ergue-se de forma heróica resistindo ao poderoso ataque. A sua volta começa a criar-se uma cortina de água que o envolve saindo dela golpes certeiros que o debilitam. As costas são o sitio privilegiado para tais ataques, a parte mais exposta dos anjos. Na barreira de agua que o envolve começa a misturar-se o sangue dourado de Raphael levando-lhe as forças. Raphael solta um grito agonizante, um grito da alma, de quem está a sofrer, nem tanto pela dureza dos golpes mas pela sua impotência face ao mal... logo ele em quem o criador tinha depositado inteira confiança. Ouve-se o riso abafado de sallos, dando como certa a sua vitória.

" desiste Raphael, não vale a pena morrer pela causa de Deus... onde está ele agora que vê o filho agonizar e não o protege? Que pai é este que envia o filho para uma morte anunciada? Desiste Raphael..."

Raphael começa a fraquejar, as palavras de Sallos envolvem-no como a cortina de água que ele criou. As mãos cerradas de Raphael começam a abrir-se lentamente deixando cair por terra a espada. O fogo da lamina apaga-se. Raphael parece rendido. Do seu corpo cansado começa a sair uma luz clara de intensa força que se sobrepõe ao breu da noite. Raphael abre os olhos, enche os pulmões e com toda a força sopra contra a água que o rodeia. os golpes nas costas reduzem a sua intensidade, a água vai-se moldando diante de Raphael tomando a forma de Sallos. Um sopro mais frio que o vento do árctico começa a congelar Sallos, acabando por o transformar numa estátua de gelo. Imóvel e bela, a estrutura de gelo não demoraria muito a manter a forma... apesar de ser água, no seu interior estava o fogo do inferno.

Raphael fica de joelhos, banhado no dourado de seu sangue, segurando a espada que lhe havia caído das mãos e se cravara no chão. No momento em que toca na espada esta ilumina-se de fogo novamente, Raphael levanta-se a custo, primeiro uma perna depois a outra, ficando diante de Sallos, olhando-o nos olhos. Levanta a espada, benze-se de novo com ela em cruz

"Em nome do pai, do filho e do espírito santo"

E com um golpe de fúria corta a estátua em cruz ao mesmo tempo que a envia para o reino dos mortos

"A verdade não é medo e eu sou filho da verdade, a mentira esconde-se nas sombras, é das sombras que vens é para as sombras que te envio, em nome do pai do filho e do espírito santo"

Sallos desfaz-se num aguaceiro que tombando sobre Raphael não lhe provoca dano algum. O anjo da luz vencera o demónio e acabara de o enviar para junto de seu príncipe. Raphael olha para o céu e com a clemencia no olhar agradece ao criador

"Obrigado pai por não me teres abandonado"

A vitoria não lhe retirou as dores, tão pouco lhe devolveu as forças. Raphael enterra a sua espada na terra e cai para o lado desamparado, sem esboçar um movimento defensivo, ficando seu corpo imóvel ainda com vida abandonado a sua sorte. É neste estado que um vulto se aproxima de Raphael. Com o manto que a cobria, Katrina limpa o rosto do anjo que lhe sorri.

"Katrina! Porque invocaste Lucifer? Porque lhe entregaste a vida que não te pertencia?"

"Para te ter Raphael, para que fosses meu. As minhas preces foram escutadas e aqui estas tu, a precisar de mim. Deixa-me ajudar-te."

Katrina pega na cabeça de Raphael com cuidado ajudando-o a levantar-se. O anjo, em toda a sua bondade apoia-se em Katrina e caminhando de forma tosca vai sentar-se junto de uma árvore. Katrina olha-o com compaixão enquanto lhe limpa o sangue do corpo bastante mal tratado. o corpo de Raphael estremece de dor, mas o rosto não mostra o sofrimento que lhe corre na alma. Ele sabia que Katrina se tinha entregue por ele, pelo amor proibido que lhe sentia, ao fogo do Inferno. Se antes era um amor impossível agora tornara-se num amor mortal, num amor negro, desejado a qualquer preço... um mero capricho.

"Porque o fizeste Katrina Porquê?"

"Porque te queria mais que tudo Raphael, porque te desejo mais que viver, porque te queria para toda a eternidade a meu lado"

Katrina aproxima-se do rosto de Raphael que havia fechado os olhos ao escutar as palavras que ela lhe sussurrava. Sem que o anjo pudesse contar encostou os lábios nos dele com a suavidade da seda. Raphael não a afastou, nem tão pouco desenhou uma defesa. Sentia também ele amor por Katrina, um amor que jamais poderia viver mas que nem o criador lhe podia arrancar do peito.

Katrina sentou-se no colo de Raphael de pernas abertas, beijando-o com paixão. Tinha a aceitação de Raphael. Katrina percorria o corpo dormente de Raphael, lentamente e com a ternura de um primeiro amor. A excitação da mulher aumentava a cada instante, o desejo queimava-a por dentro. Raphael não a rejeitava, estranhamente desejava-a de igual forma, colocando as suas mãos nas nádegas de Katrina e apertando-as de forma firme mas delicada. O bem e o mal coabitavam num amor estranhamente consentido por Deus. Katrina movimentava-se em cima de Raphael como se estivesse a fazer amor, beijando-lhe o tronco, tocando-lhe a pele com a língua. Raphael como se fosse um qualquer mortal acariciava-a por dentro das roupas, o que fazia Katrina assumir uma excitação já por si bem maior que o normal. Com uma mão apertou-lhe o queixo, com a outra abriu-lhe as calças acariciando Raphael. Katrina tinha o momento pelo qual tanto tinha esperado e desesperado. Raphael não conseguia negar nem queria, faziam amor com a paixão de dois adolescentes, como se depois pudessem ser felizes. O calor dos corpos, a transpiração e o sangue dourado de Raphael misturavam-se nas roupas de Katrina que se movimentava contra Raphael, desesperadamente ao mesmo tempo que beijava o ser da Luz. No rosto de Raphael via-se o prazer, o prazer que lhe estava restringido pelos céus, pela entidade que momentos antes defendera com a sua própria vida. Katrina atingia o clímax, atingia o momento de maior prazer da sua vida, não o conseguia disfarçar nem no rosto nem nos movimentos de gata que o corpo transmitia. Beijou e mordeu com violência Raphael junto do pescoço, num instinto primário, cravou-lhe as unhas nas costas como um demónio faria. Raphael acusou a dor, via-se no rosto, as suas asas abriram-se caindo lentamente por terra ao mesmo tempo que o anjo fechava os olhos sentindo-se que o espírito o abandonava. Katrina continuou a beija-lo sem se aperceber que Raphael, o seu Raphael já não estava ali.

Recuperando o fôlego, e não acreditando no que via, Katrina pegou-lhe mais uma vez no queixo chamando-o com insistência.

"Raphael, Raphael... acorda Raphael"

Katrina, sentada ainda no colo de Raphael, não se contém, lança um grito no ar abraçando o anjo com toda a força que tinha. Não acreditava em tão grande castigo, de um momento para o outro passou da extrema felicidade e prazer ao choro e pranto maior.

Do céu, uma luz intensa descia sobre os dois. katrina assustada, liberta o corpo de Raphael, com relutância, como se este lhe pertencesse, escondendo-se atrás do tronco de uma árvore. Surge nessa luz um vulto ainda mais brilhante, radiante, não tinha asas com aparência humana. Olha para Raphael, coloca um joelho por terra, ao mesmo tempo que lhe acaricia o cabelo com a mão

"Raphael... meu filho... vamos para casa"

Pegando-o no colo com o respeito e a dignidade que merecia o guerreiro, ergueu-se e caminhou na direcção da intensa luz vinda do céu. Antes de mergulhar na claridade celestial parou, voltou-se parcialmente, sabendo da presença escondida de katrina.

"Aquele que o teu ventre demoníaco vai gerar será o Salvador... e chamar-lhe-ás Raphael"

Com estas palavras entra no feixe de luz mais intensa que a dor e desaparece deixando no ar milhares de pequenos pontos brilhantes.