Cena 3. Saudade

Arthur estava sozinho em sua casa, sentado em sua escrivaninha diante da janela, lá fora chovia, como sempre. Não se importava muito com a chuva, era inglês, convivia com ela diariamente. Mas naquela noite em especial, sentia um desejo terrível de ver as estrelas no céu e fazer um pedido para elas.

- Arthur, você está bem? - Perguntou uma de suas amigas, pousando delicadamente sobre a escrivaninha do inglês, olhando-o com curiosidade. Um sorriso se fez nos lábios do loiro, seus amigos sempre percebiam quando algo estava errado com ele, sua pequena fadinha da água também.

- Estou pensando que seria muito bonito se não houvessem nuvens no céu essa noite. - Respondeu, esticando a mão e permitindo que a graciosa fadinha voasse até ela e se sentasse sobre a mesma.

- Não é o que o seu coração está dizendo! - Retrucou ela, fazendo uma expressão aborrecida, Arthur riu, nunca poderia enganá-la, não é mesmo?

- Eu quero vê-lo.. - Relatou, fechando os olhos e recordando-se do sorriso de Kiku, fazia tanto tempo que não podia vê-lo, mas recordava-se de cada pequeno detalhe da face dele quando sorria. - Desejaria a uma estrela que pudesse vê-lo o mais rápido possível se o céu estivesse limpo.

- Quero vê-lo, sinto-me sozinho essa noite. - Falou uma voz vinda atrás de Arthur, que fez o inglês virar-se para ver, tratava-se de seu espelho de moldura erudita, que como sempre, refletia os segredos dos corações das pessoas.

- Eu não me sinto sozinho.. - Disse Arthur, dando um sorriso fraco, sabia que não adiantaria discutir com o espelho que mostrava apenas o que lhe era refletido, mas não era exatamente solidão o que seu coração sentia.. Era algo mais como.. saudade.

- Não é o seu coração. - Respondeu o espelho, Arthur não compreendeu, mas a fadinha de sua mão logo voou, fazendo um movimento suave e deixando algumas gotas de água aparecerem e irem contra o espelho.

Os olhos de Arthur se manteram a atento ao reflexo do espelho que começava a modificar de cor, tornando-se mais escuro, as gotas que atingiram o espelho entraram dentro daquele reflexo e bateram contra a face de um jovem. Era Kiku, ele estava refletido no espelho, deitado no chão da sala com uma coberta e uma carta em mãos. As mãos de Kiku tocaram suavemente a gota de água de suas bochechas, secando-as e olhando para o teto, perguntando-se de onde aquilo havia vindo.

- Kiku.. - Arthur levantou-se, caminhando até o espelho e sorrindo fraco, o que ele fazia deitado na sala uma hora daquelas? E o que tinha em mãos? Queria saber como ele estava, se estava feliz e se sentia falta dos dias que ficaram juntos.

O reflexo de Kiku desapareceu, dando lugar ao reflexo de Arthur novamente, o sorriso que ele tinha na face desapareceu e caminhou rumo a escrivaninha. Ao menos o tinha visto, mesmo que fosse por um tempo breve, não poderia reclamar ou preocupar seus amigos. A pequena fada foi rumo a Arthur, voltando a ficar sobre a escrivaninha.

- Se você buscar uma estrela no céu e chamar o nome dele, talvez seu desejo se realize. - Falou com gentileza, desejando animá-lo, Arthur apenas deu um sorriso fraco e voltou o olhar para o céu, mesmo que não houvessem estrelas, rezaria para encontrá-lo novamente.

Cena 4. Querido

Kiku olhou em sua volta após sentir a gota bater em sua face, ouviu a voz de Arthur chamá-lo e olhou para todos os lados, onde ele estava? Levantou-se de forma desajeitada, correndo rumo a porta da entrada e abrindo-a, sentindo um forte vendo frio bater contra suas bochechas e olhando para o lado de fora, na esperança que ele estivesse ali.

- Arthur? Você está aí? Arthur? - Caminhou alguns passos descalços pela neve, ignorando a escuridão e o frio, encolhendo-se quando as rajadas de vento o atingiam, mas não hesitando em seguir adiante. Tinha ouvido a voz dele, ele o chamou! Ele.. Ele.. Estava ali? Não estava? Por que não estava?

Voltou para dentro, fechando a porta e sentando-se no chão, encolhido em uma tentativa de se aquecer. Por que não parava de ouvir a voz de Arthur ecoando em sua mente? Queria vê-lo, estar sozinho essa noite estava mais solitário do que poderia suportar e isso o assustava. Ergueu-se, voltando-se para a sala e deitando no chão novamente, cobrindo-se e pegando a carta que tinha em mãos.

Ficava a lê-la diversas vezes seguidas, sempre que lia as palavras escritas pelo inglês anunciando que iria visitá-lo e que desejava que se tornassem amigos o seu coração acelerava. Lembrava-se da tarde que caminharam juntos para casa, arrependia-se de não tentar segurar a mão dele naquele momento. Fechou os olhos, sorrindo de leve diante dos doces pensamentos, as coisas deveriam ser sempre e sempre assim.

As últimas palavras do inglês, "Muito obrigado por tudo", ainda ecoavam na mente de Kiku. Agora estavam separamos por um mundo tão distante e trazia consigo só o consolo da última promessa de "Nos veremos novamente". Quando isso ocorresse, ainda seria o mesmo? E Arthur? Teria mudado? Ainda iria amá-lo? Iria ter uma chance de mudar as coisas?

Talvez Arthur pudesse mudar, mas Kiku não esqueceria de como se sentia, não importava o quanto as coisas mudassem, não era possível apagar o que sentia dentro de seu peito. Se agora estivesse com Arthur iria transmitir suas palavras e seus sentimentos sem nenhum medo, pois tinha total certeza e confiança deles, sendo capaz de repetir isso milhares de vezes em voz alta.

- Irei sempre amá-lo..