Epílogo


Agradecido vos sou, amável lorde, pela vossa gentileza, e peço-te, em vista do infortúnio que acaba de ferir-me, que escuseis ou escondais em vossa rica sabedoria as muitas liberdades que tomei contigo. Se houve excesso de minha parte, tua gentileza tem nisso culpa. Adeus, digno senhor. Não se compraz um coração turbado com discursos mui longos. A avareza desculpai-me; devera agradecer-te a maneira gentil com que aceitaste as minhas pretensões, ora alcançadas.

Lê-se, também, que assim como os precoces botões pelas lagartas são roídos antes de florescerem, os mais tenros entendimentos ficam transformados pelo amor em loucura rematada; fanados em botão, a perder vêm todo o frescor em plena primavera e as esperanças de um futuro opimo. Mas, por que perder tempo em dar conselhos a um partidário da paixão estulta?

Adeus, mais uma vez...

Moony

Riu-se, mesmo que seu coração chorasse.

Estava sentado em uma poltrona, o pergaminho seguro nas mãos. Soube há pouco que Remus John Lupin havia escapado da prisão e não fora encontrado desde então. O Largo fora revistado canto a canto, dois guardas ainda vigiavam a entrada principal. Tolice. Estivera ali e nem ao menos deixara pistas sobre onde estava. Ou estaria, em breve. Apenas uma despedida, na forma que Sirius sempre imaginara que fizesse.

Ouviu a porta se abrir e a garota de olhos azuis fitou-o com um sorriso inocente. Segurava uma boneca, a cor dos cabelos idêntica aos seus. Magenta. Era uma criança diferente, tinha de admitir. Aproximou-se, em passos curtos e pausados. Parou, há uma pequena distância da poltrona. Fixou o pergaminho, uma pergunta silenciosa formou-se em seu rosto.

Ele esticou o braço, oferecendo-lhe a concisa carta. Segurou-a diante do rosto e sorriu ao ler seu conteúdo. Ergueu os olhos para ele, uma nota de melancolia misturada à íris ilustres. Indicou a cadeira a sua frente, ela hesitou um momento e sentou-se defronte. Descansou a boneca em seu colo, uma expressão confusa estampada em sua face.

Ele inclinou o corpo para frente e segurou um cacho entre os dedos. Podia recordar com clareza a manhã em que a vira assim pela primeira vez. Sua prima Andrômeda quase enlouquecera, mas nada podia fazer para reverter a cor. A única que poderia dizer como fazê-lo era Dora e esta permanecia em silêncio. Ele imaginou se algum dia voltaria a ouvir sua voz graciosa.

"Trabalhos de amor perdidos", anunciou, indicando o pergaminho ainda seguro nas mãos dela. "Shakespeare." Ela sorriu.

"Os dois cavalheiros de Verona." Sirius paralisou ao som de sua voz, surpreso. "Deve tê-lo amado muito."

"Quem?", pediu, temendo que não respondesse.

"Moony." Ela baixou os olhos para a boneca, deslizando os dedos por seus cabelos coloridos. "Ele nunca soube meu verdadeiro nome."

"Podemos contar a ele..." Sirius sugeriu, alcançando seu queixo e erguendo-o com dois dedos.

"Como?" Ouviu-a perguntar em tom curioso.

Ele se levantou rapidamente, apanhando um pedaço de pergaminho deixado a esmo sobre a escrivaninha. Molhou uma pena no tinteiro, pedindo que se aproximasse. Ela obedeceu, fazendo-o sorrir ao reconhecer o entusiasmo em seu sorriso. Ambos sabiam que a resposta jamais chegaria às mãos de Remus, ainda sim, acreditavam que ele voltaria mesmo sem lê-la.


And the spirit of love is rising within me
talking to you now, telling you clearly
the fire still burns


FIM


N/A:

Eu sei que o mistério da fic ficou meio confuso, mas quando comecei a escrever, tudo pareceu bem simples na minha cabeça. Sirius e Ted formulam um plano de vingança contra os Black, usando Remus como arma principal. Porém, ao reler a fic eu percebi que tudo isso ficou meio implícito e desordenado. Enfim, espero que tenham entendido algo no final das contas. =P

Os trechos de Shakespeare pertencem respectivamente, na ordem que aparecem, às peças "Muito Barulho Por Nada", "Trabalhos de Amor Perdidos" e "Os Dois Cavalheiros de Verona". Eu posso ter alterado algumas palavras para dar mais sentido à fic, mas a essência permaneceu.

O título da fic e o quote final vieram da música Insight, assim como o nome dos capítulos, todos são das maravilhosas músicas da banda Depeche Mode. Minha própria trilha sonora particular para escrever slash.

Ah, se alguém quiser ver o trailer desta fic, ele está no meu profile. ;D