Sacrifício.
Advertências:
Hetalia não me pertence.
Essa fanfic contém yaoi (Relacionamento homossexual entre dois homens)
Beta: Yuka-chan (Muito obrigada!)

Láquesis, aquele que sorteia. - Parte 1

Raivis ergueu as mãos para o alto, espreguiçando-se. Nunca imaginou que carregar apenas algumas roupas e itens pudesse ser um trabalho tão exaustivo. Entretanto, a mudança de quartos estava finalmente terminada. Caminhou rumo à janela, abrindo parte da cortina e olhando o lado de fora, apreciando a vista que dava diretamente para o jardim da frente da residência.

— Preferia o quarto antigo — falou consigo mesmo, dando um sorriso fraco. A vista dali poderia ser mais agradável e os aposentos mais confortáveis, mas Raivis odiava mudanças e já estava habituado com o seu quarto antigo.

— Raivis! — Eduard, o irmão do meio dos três bálticos, apareceu na porta, dando um sorriso leve ao perceber que ele já tinha terminado de organizar suas coisas no novo quarto. — Hoje é a sua vez de descer, esqueceu-se?

— Tem razão! — Respondeu, afastando todos os seus pensamentos desnecessários e quase saltando rumo ao corredor. Tinha esperado tanto por sua vez para descer para o porão e justo no dia se esqueceria? Seria um transtorno se demorasse mais.

— Não precisa ficar tão afoito — riu Eduard, vendo Raivis andar pelo corredor em passos rápidos e desajeitados e apoiou-se na porta assim que o menor saiu de vista. O sorriso de Eduard desapareceu enquanto voltava-se para o interior do quarto. Não entendia o desejo de Ivan em colocar Raivis ali. Porém, independente do motivo, não esperava boas coisas dele.

Não demorou até Raivis atingir sua meta e descer as escuras e estreitas escadas do porão, carregando em suas mãos uma modesta refeição rica em carboidratos. Normalmente teria medo do aspecto sombrio do local, mas sabia que no lugar mais escuro e frio do subsolo da construção havia algo confortante e agradável.

Assim que chegou ao fim da escada, visualizou um largo corredor repletos de celas, com grades enferrujadas, musgo no chão e paredes de pedra. Raivis caminhou lentamente por estar alerta sobre onde pisava, temendo cair por culpa da iluminação precária para por fim chegar ao final do corredor. Lá havia uma última cela e uma cadeira diante dela. O ocupante do local sorriu quando avistou o visitante, já ciente de sua presença graças dos passos suaves do letão que eram extremamente reconhecíveis para ouvidos bem treinados.

— Você está atrasado! — Falou a pessoa trancafiada, fazendo uma cena de falsa indignação, cruzando os braços e batendo um dos pés no chão, insistentemente.

— Perdoe-me! — Pediu Raivis enquanto colocava a refeição que trazia no chão, próximo de um vácuo entre as barras de ferro, empurrando os alimentos para dentro.

Será que havia sido muita falta de consideração a sua tardar em levar a comida de um prisioneiro? Em todo caso, Ivan havia pedido para que o acomodasse no novo quarto logo após o almoço.

— Não perdoarei! Já não basta tentarem me matar de fome nesse lugar — reclamou —, querem também me matar de tédio? — E continuou, imitando o gesto de Raivis e abaixando-se. Porém, ao invés de puxar a refeição para o seu lado, fez sua mão atravessar a grade, tocando, assim, a ponta dos dedos do pequeno.

Os olhos em tom lilás voltaram-se para a mão que tentava alcançá-lo, calejada pelo esforço e situações que precisava suportar. O letoniano tentou corresponder ao toque, deslizando seus dedos para perto dos do outro. Tentou simular uma carícia cuidadosa, temendo tocar nas áreas lastimadas e causar algum desconforto. Mas o outro logo tentou prender os seus dedos contra os do menor, evitando que ele se afastasse. Lentamente Raivis deixou de fitar o pequeno conflito entre os toques e voltou-se para o responsável por capturar seus dedos enquanto sorria suavemente, deixando todo o seu nervosismo de lado.

— Mas você não morreu. Não é, Gilbert? — Falou, fixando seu olhar naqueles intensos olhos vermelho carmesim.

Um som de um suspiro ecoou no local, vindo do prussiano, que logo soltou os dedos de Raivis. Agora com as mãos livres, o prisioneiro sentou-se no chão, observando o que o visitante havia lhe trazido.

— Oh! Chucrute! Rico em vitamina C! — Disse, assim que analisou o alimento. — Sabia que os navegadores germânicos conseguiam ficar semanas no mar sem adoecer porque sua alimentação era baseada no chucrute? — Contou em tom animado as informações que tinha, pegando os talheres e preparando-se para começar a comer. Raivis imitou-o, sentando-se no chão e ouvindo atentamente tudo o que lhe era dito.

— Mesmo? — O que estava de fora se demonstrava admirado. Poderia ser infantilidade de sua parte, mas adorava histórias e Gilbert carregava com ele diversas delas sobre a formação do Império Germânico e suas conquistas.

— Sim! — exclamou em resposta. — Quer que eu te conte uma história sobre os Vikings? Ah, a propósito ficaram conhecidos como vikings porque era o modo que os dinamarqueses chamavam os piratas! — Em seguida ergueu de leve a mão, como se quisesse especificar que esse detalhe era muito importante e não deveria ser esquecido.

O rosto de Raivis se iluminou. Conhecia alguma das histórias sobre eles, mas com certeza não possuíam nem um terço dos detalhes e emoção que eram de conhecimento do prussiano.

— Sim, por favor! — Pediu, fazendo um pequeno movimento para aproximar-se um pouco mais da grade.

Vikings... Eles eram muito corajosos. Afinal, viajavam além dos mares e negociavam com diferentes grupos de regiões distantes. Pessoas corajosas eram, sem dúvida, as que o letoniano mais admirava.

— Está bem — respondeu o prisioneiro. — Mas — observou — só se você me falar porque se atrasou tanto hoje.

Gilbert virou o rosto, como se estivesse pronto para ignorar Raivis caso ele não lhe contasse o seu dia. Não que tivesse mesmo coragem de fazê-lo, pois só via o acompanhante a cada três dias. Nos outros dias, os encarregados por lhe trazer a refeição eram seus irmãos. Portanto, prezava em demasiado as poucas horas que ficavam juntos.

Raivis não fazia idéia, mas naquele momento era a pessoa mais importante que Gilbert possuía próximo de si. Era como o irmãozinho que o prussiano amava entreter e proteger. Era o amante que tentava seduzir, confidenciar seus desejos e era, também, o carcereiro que se apresentava apenas porque era necessário trabalhar. Poderia contar mil e uma histórias se isso mantivesse o pequeno sorrindo, mas nada o fazia tão feliz quanto ouvir a voz suave do letão revelando suas histórias, inseguranças e ambições.

— Ah, isso foi porque o senhor Ivan pediu para que eu trocasse de quarto. — Explicou, desviando o olhar para o chão e sentindo que talvez devesse ter ignorado as ordens e ido de encontro com Gilbert primeiro, para não aborrecê-lo.

— Trocar de quarto? — Os olhos prussianos voltaram-se para o pequeno, adquirindo preocupação e curiosidade. — Foi colocado em um quarto menor? — Perguntou, cogitando a possibilidade de Ivan estar se aproveitando da vulnerabilidade de Raivis para colocá-lo em uma situação desconfortável.

— Não, muito pelo contrário! — Respondeu rapidamente. — O senhor Ivan decidiu que Toris e eu deveríamos trocar de quarto — prosseguiu. — O quarto do Toris é maior e tem vista para o jardim! — Falou deixando um pequeno sorriso nascer nos lábios. Não queria demonstrar qualquer nervosismo sobre essa pequena troca. Apesar de preferir o quarto antigo, deveria ser grato por essa mudança e mostrar a devida gratidão.

— E Toris foi para o seu quarto? — Perguntou mais uma vez, mordendo de leve os próprios lábios. Até onde conseguia observar, era óbvio que o irmão mais velho era o que mais sofria. Entretanto, não julgaria essa situação, porque era dever do irmão mais velho proteger e ocultar os irmãos mais novos da triste realidade. — Ele fez algo que desagradasse a Ivan?

— Não, eu acho que nada — disse em resposta. — Mas Ivan disse que o cheiro do Toris é desagradável. Eu achei isso estranho, porque ele não está com nenhum cheiro estranho! — Contou, voltando a pensar na situação que havia ocorrido pouco antes do almoço.

Se Toris tivesse feito algo, ele contaria aos outros. Não contaria? Ou, na pior das hipóteses, Ivan falaria, chamando a atenção de todos para que não o imitassem.

— Raivis — chamou-o, abrindo os primeiros botões da blusa de seu uniforme e puxando um cordão que utilizava, com um pequeno frasco pendurado na ponta. — Fique com isso — acrescentou, esticando o item para que o outro o pegasse em um dos vãos das grades.

— Mas, isso... — Foi incapaz de concluir a frase, interrompendo-se. Olhou fixamente para o vidro, pois sabia o que era e já havia possuído um desses. — Melhor não — continuou, balançando negativamente a cabeça. — Eu não pretendo tirar a minha vida ou coisa semelhante — explicou, fazendo um aceno negativo com a mão, indisposto a aceitar.

— Não é o que você está pensando. Ele não tem gosto ou cheiro — detalhou —, você deve usá-lo para a sua proteção. Ivan não o tirou de mim por uma simples questão de honra. Porém, o que é honra quando as pessoas que gostamos correm perigo? — Depois sorriu de modo fraco. Era difícil admitir que preferia manter-se vivo ao lado dos que amava do que perder sua vida em pró de um ideal. — Pegue — insistiu.

— Uhum — emitiu um som suave de acordo, esticando sua mão até a grade e segurando o frasco. Sentiu as mãos prussianas percorrerem a sua e puxá-la para dentro, aproveitando-se do punho do letão ser pequeno e, por isso, capaz de atravessar as barras. — Gilbert? — assustou-se. O homem prisioneiro nunca havia tentado uma aproximação tão rude. O que pretendia fazer?

Ich liebe sie... — As palavras alemãs saíram fracas, de modo atípico. Raivis não compreendeu o que ele desejava dizer, mas sentiu a aproximação do maior e de seus lábios. Em seguida sentiu um beijo delicado em sua mão. Depois Gilbert apoiou um dos joelhos no chão e flexionou a outra perna, reverenciando-se formalmente, como se estivesse diante de um superior. — Empire Lettischen.

O pequeno trouxe sua mão lentamente para perto de si, fechada, colocando-a junto ao tórax e segurando com cuidado o vidro que havia recebido. Por algum motivo que desconhecia, seu coração estava acelerado e a área que havia sido beijada parecia formigar. Voltou o olhar para o chão – não se sentia bem vendo o outro ajoelhado à sua frente. Era desconfortável.

— Você me contou a sua história. Quer que eu conte a minha? — Um sorriso casual retornou aos lábios prussianos e mais uma vez ele se sentou no chão, notando que seria melhor restabelecer o diálogo alegre com histórias sobre vikings.

— Sim! Por favor! — Exclamou o letão, recuperando-se daquela estranha sensação e voltando ao seu lugar.

Poderia perguntar a Gilbert o que aquelas palavras significavam. Porém, sentia como se não fosse o momento certo para entendê-las.

Fim.

Tradução: Ich liebe sie é um "Eu te amo" formal. Empire Lettischen é "Império Letão". Tudo em alemão. Créditos: Google.

N/A: Minha primeira fanfic betada, estou emocionada! Agradeço a yuka-chan pelo esforço! O plano original era publicá-la completa (São duas partes), mas como ela ficou toda fofa divida, ficará divida! Espero que gostem desse capítulo, tem um pouco de GilboxRaivis. Então, por enquanto, a fanfic de três capítulos vai ficar com quatro (Mas pelo rumo, não duvidem se no próximo capítulo eu comunicar que serão seis).

Deixem um review (Não precisa ter conta no fanfiction para fazê-lo), isso me faz feliz!