Reminiscentia

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Não esteve ao lado dele quando foi preciso.

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- Não precisa segurar a minha mão com tanta força, Pansy. - foi o que seu pai lhe disse. Ela queria retrucar que sim, que havia necessidade, e que ela estava com medo. Mas apenas calou-se, emburrada. O pai não entenderia, ninguém entenderia.

Nem ela saberia explicar por que estava com tanto medo num dia em que os outros ficavam mais ansiosos. A verdade é que Pansy via as outras crianças na plataforma correndo, fugindo dos abraços saudosos dos pais, tentando lidar com o uniforme e se perguntava se algum dia faria parte daquela sincronia espontânea. Ela não sabia se aproximar das pessoas e queria mais era se esconder atrás do pai quando pensava que alguém vinha falar com ela.

Porém ninguém realmente ia até ela. É como se eles tivessem medo também. Contudo, medo de algo que eles desconheciam, ou talvez até de algo assustador que vissem nos olhos daquela menina. Fato é que Pansy sentia-se uma peça fora do quebra-cabeça – deslocada e sem par. Havia tantos meninos e meninas ali que podiam, e até de certo modo deviam, ser seus amigos, mas ela não conseguia enxergar motivo para fazer o esforço de começar uma amizade. Estava claro que ela não pertencia àquele cenário, tão claro para ela, quanto para todos os outros que a ignoravam.

Pansy Parkinson estava a poucos segundos de desistir, de dizer ao pai que mudara de ideia e que preferia atender à Beauxbatons, por mais que feminilidade ao extremo a repugnasse. Um mínimo momento antes de ela abrir a boca, olhou de novo ao redor da plataforma e viu algo que fez tudo mudar: Era um menino esguio, loiro, alvo, e ele olhava em sua direção sem desviar os brilhantes olhos azuis. Ele não parecia ter medo.

Aos poucos, quase inconsciente, Pansy foi-se afastando do pai, desfazendo o forte laço da sua mão com a dele. Ela se sentia flutuando, muito leve em direção àquele menino. De repente já havia chegado perto demais e precisava dizer alguma coisa.

- Olá. - foi estúpido e impensado, dito numa voz tão soprada que foi quase inaudível.

- Meu nome é Draco Malfoy. Suponho que você seja da família Parkinson, estou enganado? - ele estendeu a mão para cumprimentá-la, e Pansy ficou encantada com este gesto.

- Sim. Sou Pansy Parkinson.

- Acho que podemos ser bons amigos, Pansy. Duas famílias importantes como as nossas...

Pansy não deu ouvidos ao que Draco disse depois disso. Na mente dela só havia espaço para o fato de que eles estavam de mãos dadas, mesmo que o pequeno Malfoy não tivesse reparado neste detalhe. Ela estava feliz, sem medo, e já se esquecera do pai, daquelas crianças horríveis que a ignoraram, e de tudo mais que ela não gostava. Ela agora tinha a Draco, e Draco tinha a ela.

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- Não precisa segurar a minha mão com tanta força, Pansy. - Draco estava quase indo embora. Quase passando pela porta e partindo para uma guerra sem vencedores. Pansy não podia deixá-lo ir assim, sem lutar. Ela era uma guerreira também, apesar de nunca demonstrar e apesar de suas forças se condensarem em um único aperto forte antes da partida. As lágrimas que se debulhavam em seus olhos prediziam a derrota, dela e dele, mas ela tentava contê-las ao máximo.

- Já faz tanto tempo desde a última vez que ficamos assim... - foi a última sentença que disse a ele, e foi incompleta. Ela tinha mais a falar, mais a complementar, porém tudo parecia desnecessário agora que eles já não se veriam mais. Ela queria dizer de mãos juntas, atadas, apertadas como o abraço que eles sonhavam ter quando se reencontrassem.

- Está com medo, Pansy?

Não houve resposta porque ela não conseguiria falar sem soluçar. Ela diria que não, é claro que não, e como poderia quando ela teve Draco ao seu lado o tempo inteiro? Aquela penumbra sufocava a ambos, uma atmosfera frígida e sem cor, como se eles mesmos já não respirassem. Pansy pensou nisso e apenas ficou mais intenso o seu pranto. Draco também devia ter notado, porque ele se distanciava dela e parecia querer dizer que sozinha ela estaria melhor. Não estaria. Mas Pansy deixou-o ir, deixou seu amor e sua coragem atravessarem a porta. Draco sempre estivera ao seu lado, e Pansy sofria por não poder ter estado ao lado dele quando foi preciso.

Is it too late to remind you how we were?
But not our last days of silent, screaming blur

Most of what I remember makes me sure
I should have stopped you from walking out the door.

(You Could Be Happy - Snow Patrol)


N/A: Para o projeto Because Slytherins do it better, do 6V. Digo que AMEI esse projeto e acho que essa fic saiu de um modo digno, finalmente.