Haviam duas garotas deitadas em um gramado verde-esmeralda. Ali cresciam muitas flores-do-campo que ficavam entrelaçadas nas folhas de grama. Uma árvore grande e antiga fazia sombra em cima delas, deixando cair algumas folhas mortas na grama.

A ruiva, que se chama Lily Evans, fechou os olhos e, em silêncio, ficou escutando os passarinhos cantando, o vento batendo nas árvores e a sua própria respiração. Ela abriu seus olhos, que possuíam a cor da grama verde-esmeralda, e ficou olhando para as folhas da árvore.

Logo, ela olhou para sua amiga, Bridget Hamilton, uma garota de pele cor morena-claro e com traços orientais, hinduístas e indianos. Era óbvio ali que seus pais eram imigrantes da Índia, o que deixava-a mais exótica ainda. Seus longo cabelo negro se mantinha em ondas em cima da grama. Bridget, que também olhava para Lily, revelou um olhar divertido, com uma cor de mel neles.

O longo cabelo ondulado de Lily também descansava na grama, com várias floreszinhas em cima do mesmo, entrelaçados. Lily parecia uma bonequinha de porcelana. Tudo nela era delicado, embora seu gênio possuía características marcantes, assim como sua personalidade. Sua pele parecia de porcelana de tão branca e lisa que era. O sorriso de Lily era grande, exibindo dentes brancos e bem cuidados.

- Você acha que Hogwarts vai continuar a mesma coisa quando sairmos de lá? – Perguntou Bridget, bastante pensativa. Eu a olhei com uma interrogativa em minha mente.

- O que você quer dizer com isso? – Perguntei, ainda confusa.

Estávamos na casa de campo dos meus pais, que são trouxas. Era tão tranquilo ficar ali, olhando o tempo passar vagarosamente e assistir o sol se pôr, debaixo das árvores, junto com as plantas. Totalmente tranquilo, o que eu sempre sonho quando estou naquela rotina agitada de Hogwarts. Aliás, estamos no sétimo ano, ou seja, no último. Iria ser um ano bastante atribulado por causa dos N.I.E.M's. Era de se esperar que eu desejasse a tranquilidade que o mundo trouxa me fornece.

Meus pais não sabem nada sobre Você-Sabe-Quem e eu não pretendo contar suas abominações. Não vou envolver meus pais nisso ou deixá-los mais preocupados comigo, o que já acontece. Quanto menos eles souberem, melhor para eles, para a própria sobrevivência da minha família.

Bridget também é de uma família de trouxas, embora quando foi aceita em Hogwarts, os pais dela aceitaram com mais naturalidade do que minha família, pois na Índia há várias feiticeiras em público. Uma coisa que todo mundo sabe, mas ninguém publica na mídia. Se publicasse seria uma escândalo atrás do outro. O Ministério da Magia sofre muito com essas feitiçarias públicas do Oriente. É exótico e interessante, mas continua sendo uma dor de cabeça.

Assim, eu sou de uma pequena cidade ao sul da Inglaterra chamada de Little Key. Não tem mais de mil habitantes, é bem pequenina. Bridget veio passar as férias comigo pois seus familiares foram fazer uma viagem pra Índia. Ela ficou um mês com eles e logo veio pra cá. Aparatação é uma arte prática.

Bridget era bem mais alta que eu, que sou bem pequenina. Assim como Little Key. Ela era muito mais mulherão que eu, com um quadril largo e seios fartos. Bem, meus seios são grandinhos em relação ao meu corpo, mas não tenho o corpão que Bridget tem. Mesmo assim, minha auto-estima continua sendo muito alta, o que eu agradeço todo dia, pois eu não sei porque motivo ela é assim.

- Não sei – Respondeu Bridget, fechando os olhos novamente – Vamos para nosso último ano. Sentirei saudades da minha época de Hogwarts.

- Somos duas – Comentei, ainda olhando para as folhas da árvore que dava sombra – Mas sei que não é só isso. Desembucha.

Nós duas rimos por algum tempinho. Eu sabia que Bridget tinha mais o que falar. Ela nunca começa um assunto de repente, ele come pelas beiradas, como diz Dumbledore, que é o diretor de Hogwarts. Eu nunca tive contato direto com Dumbledore, mas escuto seus discursos com atenção, principalmente quando são instruções contra artes das trevas. E falando em artes das trevas, eu tenho uma simples intuição de que é isso que Bridget quer conversar.

- Ahh.. – Ela pensou sobre como poderia abordar o assunto – Será se Você-Sabe-Quem chegar ao poder, ele mudaria o jeito de Hogwarts?

Eu me sentei na hora, alarmada. Meus olhos se arregalaram e meu coração acelerou. Falar sobre Você-Sabe-Quem sempre me assustava, me deixava bastante intimidada, mesmo se não houvesse ninguém falando dele. Mas mesmo assim, eu levei um susto.

- Mas que pensamento é esse? – Perguntei confusamente – O que te deu para pensar esse tipo de coisa?

Bridget olhou para mim, observando minha reação exagerada. Ela continuou tranquila, mas eu sabia que ela estava nervosa. Aquela ruga de preocupação entre suas sobrancelhas estava bastante presente hoje. Bridget se sentou de frente pra mim e começou a fazer uma trança em seu cabelo negro.

- Não sei, Lily – Respondeu enquanto olhava para o nada – Nunca te ocorreu de que ele pode chegar ao poder?

Eu assenti.

- Já me ocorreu, sim, mas são três horas da tarde! Não é hora de ficar falando sobre coisas ruins, acontecimentos ruins, pessoas ruins! – Adverti-la.

Mas que coisa! Já não basta ter uma rotina em Hogwarts bastante atribulada, com essa situação piora. É óbvio que Hogwarts está fazendo de tudo para não ter nenhum Comensal da Morte lá dentro, mas devo te confessar de que tenho medo desse tipo de coisa. Quero dizer, tenho medo de que o mal de Você-Sabe-Quem penetre Hogwarts. Isso seria o ponto de queda para nós, estudantes. E Bridget falando disso às três horas da tarde de uma quinta-feira, no verão. E eu procurando tranquilidade. Ai,ai.

- Desculpe – Pediu, mas fez isso só por educação, pois ela continuou o assunto – Você viu o Profeta de hoje?

- Eu vi... – Respondi um tanto quanto melancólica - ... será mesmo que aquela família Black virou aliada de Você-Sabe-Quem? Acho meio difícil. Quero dizer, eu não os conheço. Mas quando vejo Sirius Black, sabe, aquele Black da nossa casa, não consigo imaginá-lo nesse meio. Ainda mais havendo o desaparecimento de muitas pessoas importantes.

Bridget conseguiu falar do que queria. Como eu disse, ela come pelas beiradas.

- Não acho que Sirius Black seja assim, igual sua família. Mas sei que os Black sempre foram chegados em artes das trevas. Uma vez vi a mãe deles na Borgin & Burkes comprando coisas bizarras. Eu acredito que eles sumiram com o Ministro da Magia, sim, mas sei que Sirius Black não tem nada a ver com isso – Falou, bastante pensativa – Ou será que tem?

Eu dei de ombros.

- Quem pode saber? – Perguntei desconfiada – Nós não o conhecemos. Ele pode ser da nossa casa e da nossa turma, mas nunca conversamos com ele. Nesses tempos negros, minha cara Bridget, temos que desconfiar de todo mundo. Até do ceu.

Eu olhei o cinza-negro que agora cobria o céu que antes era azul-claro e pacífico. Todo o cinza-negro agressivo tomava conta dele. Parecia uma tempestade violenta. Os pássaros pararam de cantar e o vento parou de soprar. Estava parecendo mais que uma tempestade, mais do que mau tempo.

Era apenas três horas da tarde, como o céu poderia ter ficado tão escuro e estranho assim? Não é da lei da Natureza. Logo, eu percebi que todas as plantas e animais do campo ficaram quietos. Depois de perceber, olhando assustada para uma Bridget em alerta, que também notara que algo não estava normal. Não. Não mesmo.

- Bridget, fale-me que você não está achando isso estranho – Pedi em voz baixa. O calor do meu sangue parecia ter roubado por algum ladrão de tranquilidade. Vários arrepios subiam minha espinha e eu estava compreendendo que todos esses fenômenos só teria um nome.

- Muito pelo contrário, Lily – Respondeu alarmada, olhando para trás ( era um campo aberto, perto de um bosque que dava pra ver minha casa de campo de longe. Estávamos em uma colina ) para ver se havia alguém – Estou começando a ficar com medo.

Eu me levantei em um pulo e empunhei a minha varinha, alerta ao silêncio que agora fazia ao nosso redor. Bridget observou meu gesto e também se levantou, empunhando a varinha dela. Nossos olhares se encontravam de vez em quando enquanto analisávamos o silêncio macabro que nos envolvia. Uma neblina foi se estabelecendo, não só onde estávamos, mas também no povoado de Little Key. Parecia que era de noite, mas não havia estrelas e nem a lua. A neblina foi se intensificando e, quando Bridget ia usar o feitiço de Lumus, fiz gestos negativos com a mão esquerda, a que estava mais perto dela.

Bridget, que continuava com a varinha empunhada, me olhou interrogativamente.

- Se você iluminar onde estamos, irão nos localizar – Cochichei em seu ouvido, tão baixo que só ela pôde escutar. A escuridão nos rodeava e ficávamos cada vez mais inseguras do que poderia estar acontecendo.

Bridget assentiu.

Esperamos mais um pouco e ouvimos passos na escuridão. Não ousamos nos mexer, pois nós duas processamos a idéia de que, quem quer que fosse ali, tal pessoa não saberia que havia duas bruxas perto. Se fosse um bruxo das trevas ( o que está sendo óbvio que é ) e soubesse da nossa localização, eles já haviam mandado um Avada Kedavra, Cruciatos ou Imperio. Então, decididamente, não era hora de coragem e bravura. Era hora de ouvir o silêncio e saber quem ali estava. Pelo menos assim preservaremos nossa vida.

Eu fiz um gesto com a cabeça para que Bridget se abaixasse, mas não se movesse de onde estava. Se déssemos algum passo, eles nos ouviriam e estaríamos perdidas. Ela se abaixou lentamente e se sentou na grama. Eu resolvi ficar de pé, com a varinha empunhada. Esperaria passar alguns minutos para fazer o mesmo gesto. Eu não poderia dar bandeira nessa situação.

Enquanto eu permaneceria de pé, Bridget empunhava sua varinha e olhava sempre para trás. A insegurança crescia violentamente em nós duas. O olhar alarmado e inseguro de Bridget estava me fazendo tremer nas bases, minhas pernas estavam tremendo.

Eu olhava para a direita e esquerda o tempo todo, cuidadosamente para não fazer nenhum barulho no cabelo ou no movimento. Ouvimos mais alguns passos e alguns vozes estranhas, grossas e obscuras. Estavam falando algo e, aproveitando o barulho de vozes masculinas e femininas conversando, eu me sentei silenciosamente do lado de Bridget.

Assim que fiquei do lado dela, nos demos as mãos, procurando abrigo uma na outra pois sabíamos que o que aconteceria ali, o que quer que fosse, seria sério. E foi só falar de Você-Sabe-Quem! O dia estava tão bom, tão sereno. Parece que esse nome é amaldiçoado.

Ouvimos uma voz feminina aguda, que começou a rir alto, do nada. Nós duas assustamos com a frieza da voz dela. E o pior, conhecíamos àquela voz estridente, fria e feminina: Belatriz Lestrange. Ela já se formou de Hogwarts tem uns três anos. Não nos conhecíamos, mas eu sabia que toda sua família tinha ligação com Ele. Ela era negativamente bizarra. Seus olhos negros saltados aterrorizavam seus inimigos, juntamente com sua loucura. Vários artigos sobre ela, uma Comensal da Morte, foram publicados no Profeta Diário. Todos sabem o que ela é.

Todos sabem a loucura dela com o Você-Sabe-Quem.

- E agora, Trevor, o que vai fazer? – Perguntou bizarramente, aparentamente rindo da situação complicada que alguém estava tendo, próximo dela – Assim que o Lord das Trevas descobrir que você deixou aquele pirralho do Sirius Black fugir, o que você fará agora? Hein? Hein?

E ela riu novamente. Na escuridão, eu não estava vendo Bridget muito bem, mas eu sei que nossos olhares se escontraram. Estávamos pensando a mesma coisa.

Tínhamos acabado de conversar sobre Sirius Black, o que, com essa confissão de Belatriz Lestrange, nos deixa claro que Sirius Black não faz as coisas que sua família faz. Ou seja, Sirius Black é confiável.

- Não é do seu interesse, Bela – Comentou uma voz masculina, bem grossa, mas parecendo um pouco trêmula, como se estivesse com medo – O Lord das Trevas confia mais em mim do que você.

A voz loucamente escandalosa de Belatriz Lestrange começou a rir.

Eu e Bridget estávamos encolhidas, grudadas em uma árvores antiga e gigante. Estávamos mortas de medo, trêmulas.

- Pare com isso, Bela – Pediu uma voz feminina que eu não conhecia – Sabemos que Sirius sabe demais sobre nossa situação perante o Lord das Trevas e sabemos também que ele está sob custódia de Dumbledore, o que complica mais nossa situação. Precisamos pensar.

Um silêncio foi estabelecido. A mulher com uma voz séria e baixa conseguiu dominar a loucura de Belatriz Lestrange. E parecia que tinha dominado Trevor também, seja lá quem for ele. Ouvimos alguns passos, entrando para a reunião dos Comensais da Morte. Dessa vez, seu passo se revelava sério. Duro. Frio.

Medonho.

- Que bom – Falou uma voz fria e obscura – Agora sei o que está se passando. Bela, você continua sendo minha melhor seguidora. É um potencial.

Eu e Bridget nos entreolhamos alarmadas. Mais alarmadas, trêmulas e com um medo palpável. A insegurança se fazia diante de nós duas e minha garganta havia dado um nó. A neblina só piorava e me fazia sentir pior do que eu já estava.

Eu não estava com medo. Eu estava apavorada. Não conseguia mexer nenhum músculo de meu corpo, minha própria respiração, que já estava silenciosa, não conseguia mais voltar ao seu ciclo. E eu sabia o que estava acontecendo.

Ele estava lá. O Você-Sabe-Quem estava a alguns metros de nós.

Alguns metros.

- Sou fiel a você, meu Lord – Falou Belatriz, apaixonadamente – Cissa tem uma coisa para te perguntar, meu Lord.

Houve uma pausa. Um silêncio.

- Meu Lord, agora que já sabe o que aconteceu, o que podemos fazer? – A Cissa perguntou. Cissa? Quem era? Essa eu não sei te responder, mas sei que é bem familiar. Acho que é da família Black, se não me engano. Nessa hora, de medo e pavor, eu não sei o que pensar.

Houve outra pausa mais longa que a última.

- Sei que ele estará em Hogwarts semana que vem – Começou Você-Sabe-Quem, com aquela voz de arrepiar todo o seu corpo – E também sei que ele está sob custódia de Dumbledore e dos Potter. Mas não é isso que me preocupa agora.

Outra pausa. Um silêncio penetrante, praticamente palpável.

- Deixe-me à sós com Belatriz – Ordenou friamente e escutamos duas pessoas aparatarem, Trevor e Cissa.

Outro silêncio estranho e pesado.

- Eu sou sua, Milorde – Falou apaixonadamente, obcecadamente, insanamente. Sua voz me fazia ter ânsia de vômito, eu não conseguia me sentir bem ouvindo sua submissão apaixonada à Ele. Isso me dava arrepios, gerava desprezo e me fazia ter certeza de que mesmo que ele pedisse que ela se matasse, ela o faria.

- Bela, Bela, Bela... – Começou a voz fria, ne tentativa de ser casual - ... Minha Comensal com mais potencial. Sei que posso contar com sua devoção eterna.

Ouvimos um barulho de grama amassada. Parecia que tinha se ajoelhado diante de Você-Sabe-Quem.

- Sim, Milorde! – Começou, parecendo estar no sétimo céu de tanto alegria – Qualquer coisa!

Houve outra pausa, parecia que ele a estava dominando-a, manipulando-a, apoderando-se dela... pouco a pouco. Sem perceber que estava sendo, na verdade, enfeitiçada pelo Imperio. Não tive certeza, afinal, eu não os enxergava diante daquela escuridão e aquela terrível e fúnebre neblina. Mas eu tenho certeza que Você-Sabe-Quem não confiaria nada a ninguém, o que é óbvio que ele colocaria a pessoa sob o Imperio, para não lembrar de nada e não contar nada para os outros.

Absurdamente fúnebre.

- Ouça-me com atenção, Belatriz Lestrange! – Começou ele – Eu quero a Adivinhadora que falou que eu posso chegar ao poder, exceto se duas pessoas se juntarem. Traga-me a mulher e o nome dessas duas pessoas.

Assim, após um longo silêncio, ouvimos a aparatação dos dois. Dez minutos depois, a neblina se dissipou e o céu voltou a ficar mais claro, mais de tarde, no azul-cerúleo. Os animais voltaram a caminhar e o vento voltou a bater.

Mas eu e Bridget ainda estávamos trêmulas e apavoradas para nos mexermos.