Blue Blood – Minhas Memórias

Capítulo 23

Confiar

"A confiança é um ato de fé, e esta dispensa raciocínio."

(Carlos Drummond de Andrade)

As cores vibrantes do fim de tarde no céu de Tóquio combinavam bem com a agitação da cidade grande que, mesmo ao crepúsculo, continuava desperta e ativa como se o dia estivesse apenas começando. Pela janela do trem observava do alto a capital cada vez mais próxima e fiquei animada com a profusão de construções, gente, carruagens, ruas, lojas, que se avolumavam e cresciam e preenchiam completamente a paisagem conforme o trem se encaminhava para a entrada da cidade. Era tudo tão grande e bonito, maior que Yokohama e infinitamente maior que minha pequena cidade provinciana... Um misto de encantamento e apreensão se formou em meu peito. Afinal, eu nunca conhecera uma cidade tão impressionante quanto Tóquio.

A viagem fora longa, mas eu acreditava que, pelo menos até ali, havia valido a pena. Logo o trem começou a diminuir a velocidade ao entrar na estação, até parar completamente. Meu coração, por outro lado, acelerava de excitação. Peguei minha bagagem cuidadosamente e saí junto com Matsumoto e Toushirou, depois que todos os passageiros daquele vagão já haviam desembarcado.

Assim, a noite começou a cair. Por alguma razão, eu não sentia medo de estar numa cidade desconhecida, mesmo sob um céu noturno pouco iluminado e coberto por poderosas nuvens, que impediam a lua de guiar meus passos com a luz reconfortante de seu olhar. A iluminação artificial dos postes de luz a gás era uma boa substituta e eu não me sentia sozinha, pois Matsumoto e Hitsugaya ainda estavam ali, esperando que eu me decidisse sobre o que fazer naquele momento, e a estação de trem ainda se encontrava muito movimentada. Mas eu não poderia ficar ali para sempre, apenas observando as coisas e pessoas ao meu redor. Ela me convidou gentilmente para que eu me hospedasse consigo e Toushirou em um hotel e passasse com eles a noite. A proposta fora muito tentadora, mas eu podia sentir a pressão espiritual de Byakuya e receei que ele começasse a se afastar antes que eu pudesse encontrá-lo. Desse modo, decidi recusar o convite e ir ao encontro de meu irmão. Eu sabia que um grande sermão me esperava quando eu aparecesse na sua frente, mas ele nada poderia fazer além disso e me mandar de volta para casa estava fora de cogitação, pois o último trem estava prestes a partir. Ele não teria escolha a não ser me levar consigo. Eu queria mostrar a ele que havia sido capaz de enfrentar toda aquela viagem sozinha e, por isso, também seria capaz de participar daquela missão. A coragem e a vontade eu possuía e ele perceberia isso, mesmo que ficasse muito irritado. Tudo estava saindo como o planejado.

Despedi-me de Toushirou e Matsumoto. Antes de ir, ela me entregou um mapa da cidade e um papel dobrado no qual escrevera rapidamente alguma coisa antes de me entregar, dizendo para que eu o mostrasse a Byakuya. Eu assenti e em seguida me virei e olhei na direção onde ele estava, prestes a subir em uma carruagem. Em situações normais, a curiosidade em saber o que ela escrevera naquele bilhete me faria esquecer de tudo, mas naquele momento eu nem ao menos me preocupei com o que poderia estar escrito ali. Simplesmente saí correndo, desviando de algumas pessoas que apareciam no caminho, apertando fortemente a bolsa que carregava até sentir meus dedos arderem! O nervosismo começava a me consumir e o meu peito doía de ansiedade. Eu devia estar vermelha, meu corpo estava quente e minha pele parecia nem mais sentir o vento gelado daquela noite de outono que, no entanto, não era tão fria quanto a expressão costumeira de meu irmão. Mas, antes de conseguir alcançá-lo, senti a manga de meu quimono ser puxada fortemente, detendo minha corrida. Perdi o equilíbrio, mas não houve tempo de eu cair no chão, nem sequer de concluir algum pensamento. Fui amparada por mãos conhecidas... as mesmas mãos que me impediram de avançar.

― Mas o que...?

― O que você está fazendo aqui, sua doida?

― Renji! ― Eu o olhei e ele me encarava com as sobrancelhas franzidas, como se estivesse confuso e ao mesmo tempo irritado por me ver ali.

― Você perdeu completamente o juízo? Não tem ideia do perigo? Eu ainda não acredito que você tá aqui! Como encontrou a gente? Quem te trouxe, hein?

― Eu vim sozinha! ― disse, desvencilhando-me dele. ― Acha que sou incapaz de fazer até isso?

― É claro que não. Eu sei que você é esperta até demais. Só não entendo qual é a sua em querer deixar seu irmão bravo e preocupado de novo. Tá, eu entendo que você queria muito vir, mas... Caramba, eu ainda disse pra ele que você não ia se meter em encrenca de novo, apesar de tudo.

― Até parece que não me conhece, Renji. Achou mesmo que eu ia te deixar vir sem mim e ficar por fora de tudo?

― O problema não é esse, Rukia. Você não entende... Não sabe o que ele me disse...

― O que o nii-sama te disse?

― Que queria confiar em você...

"Confiar"... Quando Renji disse aquela palavra, senti um aperto em meu peito. Eu sabia que até ali havia tomado algumas atitudes que podiam abalar sua confiança em mim, mas naquele momento, ao ouvir Renji proferir aquela palavra em tom estranhamente triste, ao ouvi-la ecoando em minha cabeça, é que parei para pensar na gravidade dos meus atos... No quanto a minha relação com Byakuya estava abalada e precisava progredir. Eu queria que ele sentisse orgulho de mim de qualquer forma e, ao invés disso, tudo estava caminhando para que ele perdesse a confiança em mim que lhe restava! Eu não podia deixar isso acontecer. No entanto, não pensei em nada além do meu orgulho quando decidi ir a Tóquio sozinha. E, naquele momento, com Renji olhando pra mim com ar de desaprovação, eu estava realmente dividida. Um grande medo de encarar meu irmão me acometeu e, mais ainda, o medo de ouvir de sua boca que ele não confiava mais em mim para nada... De olhos baixos, sem saber o que dizer, apenas ouvi Renji falar:

― Já que você está aqui, vá falar com ele. Quer que eu vá na frente? Nós não podemos demorar mais.

― Tudo bem. Era o que eu pretendia desde o começo. Já vim preparada para levar uma bronca, já sabia que ele não ia gostar de me ver aqui. Mas eu tinha que fazer isso. Só isso.

― Eu sei.

Renji segurou minha mão gentilmente e nós fomos andando até onde Byakuya aguardava. Ele mais à frente e eu quase atrás dele. Pude ouvi-lo dizer, colocando a cabeça para dentro da carruagem que ainda estava de portas abertas, que havia uma "surpresa" o esperando. E foi assim que Byakuya me viu, quando saiu para ver a tal surpresa.

― Oi, nii-sama...

Ele me olhou de baixo a cima. Inexpressivo, impassível. Em seguida, deu-me as costas e olhou para Renji, ainda sem nada dizer. Não sei qual foi sua reação ao fazer isso, mas os segundos que demorou a se virar só serviram para aumentar meu nervosismo. E eu esperei, observando suas costas largas e seu cabelo comprido a balançar levemente com o vento, até que ele dirigisse novamente seu olhar a mim.

Quando se virou, seus olhos estavam fechados. Ele suspirou uma vez, como se estivesse tentando se acalmar. E, enfim, me encarou. Poucas vezes vi a expressão no rosto de Byakuya mudar, mas daquela vez havia sim algo de diferente em seu olhar. Parecia um pouco... desapontado. Mas ao começar a falar, percebi que sua voz, como sempre fora, continuava contida e calma e ele parecia nada sentir, o que fazia tudo ser ainda pior.

― Rukia. Penso que não terei escolha a não ser levar você comigo, não é?

― O senhor... não dirá nada, meu irmão?

― Apenas entre. Conversaremos no caminho.

Byakuya nada mais disse. Apenas pegou minha pequena bagagem e a depositou no outro veículo, junto com as outras. Então, subimos na carruagem, sob um silêncio sepulcral e a débil iluminação de um poste de luz.

Logo, o veículo começou a se movimentar. Não fosse pelo barulho do balanço da carruagem e das rodas trepidando sobre a rua escura de paralelepípedos, o silêncio dos primeiros minutos de viagem junto com meu irmão seria total. Havia uma pressão na atmosfera da pequena cabine, um desconforto que me dava mal estar. Eu só conseguia olhar para a janela ou para meus joelhos, mas não para o sério e altivo Kuchiki que estava bem a minha frente e certamente me olhava com ares de reprovação. Ah, ouvir um sermão teria sido muito melhor... Pois, aquela sensação da expectativa por qualquer reação de Byakuya não era nada agradável e não havia maneira de decifrar seus pensamentos.

O momento de tensão, porém, logo foi quebrado pela voz grave de meu irmão.

― Rukia, o que eu posso lhe dizer neste momento? Eu já devia esperar que você viesse atrás de mim, não é? E nem é necessário perguntar o porquê. E, não é de meu feitio confessar o que direi agora, mas isso me deixou nervoso, Rukia. Entenda que, na minha condição de irmão mais velho e de seu responsável, eu deveria confiar que você me obedecesse ao menos uma vez ― e foi o que fiz. Eu realmente acreditei por um instante que você me entenderia e que não me causaria preocupações novamente, saindo escondida e sozinha, o que me parece ser seu novo hobby. E é por esse motivo que eu devo lhe dizer que estou decepcionado. Me pergunto se é com esse tipo de atitude que espera que eu confie em você para qualquer coisa... É assim que quer ganhar minha confiança, tomando decisões sem pensar nas consequências, arriscando-se somente para afirmar seu orgulho?

Nii-sama, eu...― de novo, os vocábulos não vieram. A cada palavra de meu irmão, sentia-me mais e mais envergonhada. Ele falava tudo tão naturalmente, sem alterar o tom de voz, daquele jeito firme e sério que só ele possuía.

― Deixe-me continuar. É preciso que eu diga: Rukia, você é como eu. Seu orgulho muitas vezes fala mais alto do que a razão que deveria comandar seus passos. E é por isso que eu não consigo deixar de me preocupar. Sei que você não é uma garota desajuizada, pelo contrário. Mas você ainda tem muito a aprender e é por isso que eu não posso deixar de me preocupar. Então, apenas tente entender que nos arriscamos demais sempre que tentamos alimentar nosso orgulho... ― Ao dizer isso, a expressão de Byakuya mudou e seu olhar pareceu ter se tornado distante, como se uma lembrança ruim tivesse lhe ocorrido. Por alguns segundos ele parou e me encarou fixamente. Não pude aguentar a pressão de seus olhos escuros tão penetrantes sobre mim e acabei por desviar o olhar. Foi então que ele continuou ― reconheço e admiro sua coragem. Era isso o que queria ouvir, certamente. Mas ao mesmo tempo não podemos ser imprudentes como você foi hoje. Diga-me, o que faria se seu plano desse errado e você não tivesse conseguido me alcançar?

― Eu os seguiria de alguma forma. Eu trouxe dinheiro e poderia me hospedar em algum lugar...

― Acha que seria fácil assim? Que aqui é como Karakura? Acha que em qualquer lugar existe um Urahara Kisuke para te amparar? Nada é tão simples como parece e nem sempre podemos contar com a sorte.

Meu irmão estava certo sobre tudo e não adiantaria discutir. Mas ele havia reconhecido o meu esforço, a minha coragem, e isso era o bastante para mim.

― Eu sei. Tem razão. Eu peço desculpas pela minha imprudência, nii-sama...

― Certo. Não podemos nos estender mais. Já estamos chegando ao nosso destino.

― Compreendo. Prometo que não atrapalharei. Eu só quero uma chance para provar que posso ser útil para o senhor, meu irmão! Sei que é difícil confiar em mim, ainda mais agora, mas eu não o desapontarei mais. E também agradeço por me entender.

― Você... É realmente como eu ― ele disse, abaixando a cabeça e fechando os olhos. Até pensei tê-lo visto esboçar um pequeno sorriso, o que era extremamente raro e, por isso, talvez tenha sido fruto da minha imaginação. Mas, a notar pelo sorriso genuíno que Renji dirigia a Byakuya, prefiro pensar que aquele pequenino gesto tivesse sido verdade. Por fim, ele continuou ― Mas só quero que saiba que não precisa provar nada para mim. Ainda que distante, eu a vi crescer. Eu, mais do que ninguém, sei do que você é capaz.


Não demorou muito para que chegássemos ao local da missão. Porém, antes de descermos do veículo, lembrei-me de entregar o bilhete de Matsumoto a Byakuya. Eu não o havia lido e, naquele momento, uma imensa curiosidade despontou em mim. Em especial quando ele terminou de ler o que estava escrito com os olhos levemente arregalados.

― O que foi? ― eu sussurrei, tentando arrancar dele alguma informação.

― Depois lhe digo. Mas saiba que nossos compromissos em Tóquio não acabarão aqui.

Estávamos numa parte periférica da cidade. Ali, numa ruela de terra, totalmente deserta e silenciosa, cuja única iluminação era a lamparina que Renji levava, nós deixamos para trás nossos pertences, os quais ficaram sob os cuidados de nossos empregados mais fortes que conduziram os veículos, e fomos caminhando com cautela e atentos ao mínimo ruído. Levávamos apenas nossas armas e Byakuya fez questão de andar bem atrás de mim, para que eu ficasse entre ele e Renji e, desse modo, mais protegida. Confesso que, naquela circunstância, não haveria outro modo de eu me sentir segura.

Quanto mais andávamos, mais podíamos observar casas simples de madeira, residências pequenas e mal-acabadas que completavam o aspecto macabro da paisagem. De quando em quando, ouvíamos uivos e latidos de cachorros ao longe. E também, o chiar de ratos que, além de nós, pareciam ser os únicos a andar por ali, embora a todo o momento eu tivesse a sensação de que estávamos sendo observados por olhos invisíveis.

Eu não estava acostumada com aquele tipo de ambiente. Vivi a minha vida toda numa área rica e próspera, frequentando belas e grandiosas residências, de pessoas finas e importantes, sempre vistas com suas roupas de tecidos caros e semblantes afáveis, ostentando todo o poder permitido aos que nasceram com o sangue azul da nobreza. Sempre andei por ruas largas e limpas, bem conservadas, arborizadas e aconchegantes para se ter uma agradável caminhada ao fim da tarde ou sob as luzes singelas das estrelas, à brisa morna de uma noite de verão. E, talvez por isso, nunca temi a noite. Naquele momento, no entanto, a escuridão da estreita viela me fazia ter medo. Um temor, é claro, somado à ansiedade de estar num lugar totalmente desconhecido, cuja paisagem era no mínimo tenebrosa. Aliado a isso, o fato de caminharmos em silêncio, cada um perdido nos próprios pensamentos, ou concentrado demais para pensar em qualquer coisa para dizer. Porém, eu ainda estava curiosa para saber que lugar era aquele. Sombrio, carente. Mas, talvez, o lugar perfeito para um esconderijo? Sim. Pois, ninguém iria imaginar que, debaixo do solo de um lugar tão pobre, se escondesse um projeto tão ambicioso quanto aquele que eu estava prestes a descobrir.

Avistamos há alguns metros a fachada de uma casa modesta, mas que parecia um pouco maior e mais conservada que as construções vizinhas. Havia um lampião a gás iluminando a entrada e era possível ver o aspecto desbotado das vigas de madeira que sustentavam uma sacada. Parecia uma residência familiar como qualquer outra, que se encontrava no final daquela rua. Para além dela, não parecia haver mais nada.

― Rukia – meu irmão sussurrou, aproximando-se mais de mim. ― Vamos por esse caminho, agora ― completou, apontando para outra ruela à direita.

― Afinal, para onde estamos indo?

― Saque suas armas. Pode ser que tenhamos de enfrentar alguns inimigos.

Caminhamos por aquela rua e viramos novamente, dessa vez à esquerda. Ali, as casas começavam a ficar escassas e dar lugar a uma vegetação alta e árvores de troncos baixos e retorcidos, cujos galhos já haviam perdido quase todas as folhas, o que deixava o ambiente com um aspecto ainda mais ameaçador.

― Tenha cuidado, Rukia. Alguns metros ali à frente, depois desse bosque, há um muro que pertence àquela residência que vimos no final da primeira rua. Precisamos passar por ali. É provável que haja guardas nos esperando, mas não há outra maneira de nos infiltrarmos no local. Pelo visto, vão aguardar até que nos aproximemos o bastante, já que não apareceram até agora. Não sei se percebeu, mas fomos vigiados durante o trajeto. E são pessoas fortes... Se achar que não está preparada para enfrentá-los, é melhor que espere aqui e observe a luta escondida. Voltar sozinha também é perigoso.

― Então é por isso que estava com a sensação de ser observada... E são muitos guardas?

― Poucos, provavelmente. Mas estão sendo muito bem pagos pelo serviço, se é que me entende.

Eu entendia meu irmão. Ele queria me fazer desistir da ideia de lutar a qualquer custo. Era visível e compreensível sua preocupação sobre mim, ainda mais por estarmos apenas em três, mas eu me sentia confiante. Talvez pela adrenalina, ou qualquer outra coisa que não saberia dizer ao certo, mas que me fazia sentir uma estranha força e vontade de seguir em frente, eu queria continuar naquela missão até que nossos objetivos fossem alcançados.

― Se cheguei até aqui, não é agora que irei recuar. Quero lutar ― eu respondi com convicção. Diante de minha insistência, percebendo que eu não cederia, Byakuya não tentou mais me fazer mudar de ideia, mas agora sua inquietação se fazia bem visível.

― Rukia, pegue essa espada ― disse Renji que, até então estava calado.

― Obrigada, Renji...

― Cuidado! ― nem bem o agradeci, ele gritou e eu imediatamente levantei a espada ainda embainhada, na direção da silhueta que aparecera do alto e cobrira meu campo de visão, mas meu irmão havia sido mais rápido e, antes que eu sequer sentisse a intensidade do golpe que receberia, ele se colocou à minha frente, defendendo-me do inimigo com sua própria espada, o estalido do choque das duas lâminas ecoando no ar.

― Muito covarde de sua parte atacar de surpresa uma garota, não acha? ― Byakuya disse, agora ainda mais irritado.

Não era possível ver o rosto do inimigo, coberto por uma máscara negra, tal qual o tecido de sua roupa. Apenas seus olhos brilhavam à luz da lamparina, olhos escuros e assassinos. O homem nada dizia, apenas atacava meu irmão quase que sem pensar. Byakuya se defendia, acompanhando os movimentos do adversário com agilidade e rapidez para escapar de seus golpes. Mas meu irmão era maior e parecia mais forte. Não demorou muito para que começasse a atacar também. Admirada, eu só conseguia observar sua luta.

Em golpes perigosos, o inimigo balançava a lâmina no intuito de atingir meu irmão em pontos vitais. Porém, num rápido contragolpe, Byakuya conseguiu travar a espada e fazê-la se soltar da mão do adversário, fazendo-a cair no chão. Aproveitando a oportunidade e, antes que o inimigo se recompusesse da distração, por uma questão de milésimos de segundo, Byakuya puxou-o com força pelo tecido e o atingiu em cheio no estômago com o joelho. Ele caiu e Byakuya apontou a espada para seu peito, desferindo-lhe um rápido e frio golpe mortal.

Nii-sama... Ele está morto?

― Sim. Não havia escolha. Agora vamos, não temos tempo a perder.

Enquanto corríamos, eu me perguntava onde meu irmão aprendera a lutar daquela maneira. Ele era realmente muito forte e talentoso, mas eu nunca o vira lutar até então. Foi assim que me dei conta do quão protegida eu havia sido a minha vida toda, a ponto de nunca ter sido exposta a uma luta sua ― ou, o que me parecia mais certo, nunca me ter sido permitido presenciar um de seus duelos. A imagem impressionante da morte do homem que me atacara também foi algo que permaneceu em minha cabeça. Uma imagem da qual eu precisava me acostumar, vivendo no meio de uma guerra, por mais triste que isso pudesse ser.

― Não fique com pena dele, Rukia. Era um assassino que estava acostumado a matar pessoas inocentes. Talvez fosse jovem e não houvesse tido muita experiência com pessoas mais fortes que ele e por isso caiu ― comentou Renji, talvez percebendo que eu ficara impressionada.

― Não estou com pena...

― Então, levante a cabeça. Fique contente por seu irmão ter ganhado a luta. Tivemos sorte agora, mas ainda há pessoas a enfrentar.

Mais três inimigos apareceram quando nos aproximamos do local onde nos infiltraríamos. Vestiam os mesmos trajes e máscaras que o outro, mas tinham tipos físicos diferentes. Um deles, de voz muito grossa e grande estatura, comentou que "aquele idiota" ― referindo-se ao companheiro que fora morto por Byakuya ― não havia prestado nem ao menos para causar algum dano em nós. Pareciam muito arrogantes, mas, mesmo possuindo fortes pressões espirituais, não se comparavam com os inimigos que já havíamos enfrentado, com cuja força admirável e alarmante nos acostumamos. Por ter presenciado a força de Ulquiorra, Nnoitra, Grimmjow, ou até mesmo de Neliel, aqueles homens misteriosos não me assustaram, a não ser pelos olhares sedentos de sangue que nos dirigiam, atacando-nos como se estivessem se deliciando com o simples pensamento de nos matar. A agressividade de seus golpes contra nós e suas técnicas marcadas pela força bruta, porém, não foram suficientes para nos deter. Saímos feridos e debilitados, mas trabalhando em conjunto e dando assistência uns aos outros, pudemos vencer mais uma batalha e ainda tínhamos forças para avançar. Eu mesma não sabia de onde tirara tanta energia, pois era claramente mais fraca do que nossos adversários. Minhas únicas cartas eram minha agilidade, dadas minha baixa estatura e leveza, e minha vontade. Ao mesmo tempo, sentia felicidade por poder provar-me útil, por ter tido a chance de mostrar ao meu irmão minha capacidade e, acima de tudo, por perceber que, ao lutarmos juntos, reforçamos nossos laços. Entre nós nascera ali uma nova relação, a confiança que eu sempre quis que ele tivesse em mim, a cumplicidade. Foi naquela batalha, ao lado de Byakuya, que eu senti que éramos realmente irmãos.

Sentia-me leve. Toda a tensão da viagem, do encontro, da conversa, da luta, todo o peso sobre minhas costas se esvaiu quando vi o último homem cair e notei que mais uma batalha chegara ao fim. Conquistei uma vitória junto com meu irmão, ao lado dele... Era tão incrível. Essa felicidade genuína me fez esquecer dos ferimentos, do cansaço, eu não sentia mais nada além daquele sentimento. Porém, Byakuya notou que eu estava ferida e me olhou com semblante preocupado.

― Você está bem, Rukia? ― ele perguntou.

― Sim. Estou muito bem. Estou estranhamente feliz ― eu o respondi com sinceridade, esboçando-lhe um sorriso.

― Que bom... ― por um instante ele pareceu aliviado. No entanto, ainda havia muito o que fazer e não podíamos mais nos demorar. Desse modo, recompôs-se e voltou à sua frieza costumeira. ― Guarde sua felicidade para o fim desta missão, se conseguirmos alcançá-lo. Não é hora para conversarmos.

― Há mais inimigos? ― eu perguntei, preocupada. Talvez não conseguíssemos vencer mais lutas, debilitados como estávamos.

― Não sinto mais nenhuma pressão espiritual suspeita aqui fora. Porém, o acesso ao local onde precisamos ir não é tão simples. Pode haver armadilhas e até mesmo mais guardas lá dentro. Precisamos ter cuidado.

Nii-sama, por que tivemos de vir por aqui? Temos de entrar na casa que está atrás daquele muro, não é?

― Arrombar a porta da frente e entrar por ela chamaria muita atenção. É imprescindível que sejamos discretos. Além disso, o risco de envolver as pessoas inocentes que vivem nas casas vizinhas seria muito grande. Eles pensaram em tudo para tornar as coisas muito difíceis para nós, precavendo-se caso fossem descobertos.

― Entendo. Mas como faremos para atravessar esse muro? Ele não é muito alto, mas...

― Não haverá necessidade de pulá-lo. Perceba que ali há uma barreira espiritual, um portal que, se aberto, dará acesso ao terreno da casa.

― Mas como vamos abri-lo?

― Eu o cortarei com a Senbonzakura. Pessoas como nós, que temos poder espiritual ou o estamos desenvolvendo, podemos ver e passar por ali. Ele não é percebido por pessoas comuns. As pessoas que vivem aqui não desconfiam deste local e devem pensar que aquela é apenas mais uma casa abandonada. Sua entrada principal é, de fato, por este muro. Além disso, como o terreno está muito bem camuflado nesta área esquecida da cidade, nós que estamos investigando levamos muito tempo para notar este lugar. Mas, por já termos lutado com algumas das criaturas aparentemente encomendadas por Aizen, eles já perceberam que também temos habilidades espirituais e é por isso que eu estou com o pressentimento de que lá dentro as coisas serão ainda mais difíceis.

― Compreendo...

Vi Byakuya usar sua linda zanpakutou, desta vez, de forma nítida. Passamos pelo muro e, dentro do terreno, tudo exalava energia espiritual, em especial, de dentro da casa à nossa frente. Foi então que fomos recepcionados por uma garota de cabelos pretos presos por uma longa trança para trás e com duas mechas soltas do comprimento de seu rosto, que saíam de cada lado de sua franja volumosa. Era uma mulher bem jovem e bonita, de expressão muito séria e elevado poder espiritual. Ela usava um quimono curto, mas parecia não sentir frio...

― Sinto muito, mas não passarão por aqui.

Nem bem terminou a frase, a estranha mulher nos atacou. Estávamos machucados, mas se juntássemos nossas forças, talvez pudéssemos derrotá-la. Dei suporte a Renji e Byakuya, mas ela era rápida demais e eu por vezes perdi seus movimentos. Porém, eu também aprendia rápido. Passado algum tempo da luta, comecei a me acostumar com o estilo daquela mulher, que mais parecia uma boneca. Ela não mudava sua expressão e durante toda a luta permaneceu com aquele rosto apático, como se não sentisse qualquer emoção ao lutar e estivesse apenas cumprindo alguma ordem sem vontade de fato. Seus golpes eram mecânicos, calculados, mas seguiam um padrão o qual os meus companheiros também perceberam. Ela seria uma oponente muito difícil para uma pessoa sozinha, mas três cabeças pensam melhor do que uma, mesmo que as três não estejam nas condições físicas mais adequadas. E, como se nossos pensamentos estivessem sincronizados, olhamos uns para os outros e decidimos o que fazer para pará-la.

No momento em que ela se virou para desferir um golpe contra meu irmão, nós três nos deslocamos e eu apareci na sua frente, não mais com a katana que Renji me dera e eu usara para lutar, mas com minha pequena e leve adaga que sentia mais facilidade em manusear. Atingi-a no lado esquerdo do abdômen, ao mesmo tempo em que Byakuya e Renji apareciam detrás, um de cada lado dela, resvalando suas espadas em seu pescoço de tal modo que as pontas de cada lâmina se encontrassem. Ela estava imobilizada. Os dois eram fortes e seguravam os braços dela para trás com as mãos livres. Com qualquer movimento que tentasse fazer para se mexer, correria o risco de ter seu pescoço cortado com as duas espadas. Sua pele era resistente, mas não tanto quanto a pele de Nnoitra.

―Você perdeu. Leve-nos até o seu chefe ― disse Byakuya.

― Eu só obedeço a Mayuri-sama.

― Não seja idiota! ― eu gritei, inconformada. Cada vez mais estava convencida de que aquela mulher era tudo menos humana. ― Você será morta pelo meu irmão, é isso que quer?

― Mayuri-sama os matará de qualquer forma...

― Se acha isso, por que não nos leva até ele?

Visivelmente contrariada, ela resolveu ceder. Renji a acompanhou, mantendo-a imobilizada, e eles foram à frente enquanto eu e Byakuya os seguíamos. Depois de entrarmos na casa, descemos uma longa escadaria em espiral pouco iluminada até sairmos num corredor longo e estreito, que parecia não ter fim. Andamos por alguns minutos, descendo cada vez mais para o subsolo, e aquele trajeto demorou momentos tão intermináveis que eu imaginei que, naquele ritmo, poderíamos chegar ao centro da Terra.

Andando devagar por corredores tão apertados, nada além de paredes, teto e chão a nossa volta, eu já começava a perder o ar quando finalmente paramos em frente a uma porta de ferro.

― Dê-me a chave ― ordenou Byakuya, estendendo a mão. De dentro do quimono, a contragosto, ela tirou um molho de chaves, destacando a maior delas e entregando a ele. Desse modo, meu irmão abriu com certo esforço a grande porta, que parecia ser muito pesada. E, conforme a entrada ia se abrindo, pouco a pouco nos era revelado o que se escondia por trás dela.

Minha curiosidade era demais. A cada pedacinho do novo ambiente que ia se fazendo diante de nós, eu só conseguia perder o fôlego. Meus olhos estavam vidrados... E sobre nós, uma grande quantidade de diferentes tipos de energia espiritual se fazia sentir. O ar ficara mais pesado, tão pesado que só me restou me apoiar na parede para não cair. Senti meu corpo imensamente cansado, de forma que eu tive de fazer um grande esforço apenas para me manter em pé. Afinal, o que era aquilo? Havia alguém dentro daquele lugar? Como uma pessoa normal aguentaria? Era aflitivo demais...

― Mayuri-sama, estas pessoas querem vê-lo ― disse a mulher, que parecia não sentir absolutamente nada.

― Nemu, eu lhe disse que não queria ser incomodado por ninguém ― respondeu uma voz masculina e irritadiça de dentro do local. ― Não há jeito, terei de puni-la mais tarde! Como não conseguiu impedi-los de vir?

― Perdão, senhor... Eles são fortes demais...

― Não presta para nada. Só me dará mais trabalho, mas farei uns ajustes em você. Acho que está ficando velha.

― Sinto muito.

― Mas diga logo quem são e o que querem!

― Eu não sei seus nomes, senhor... Mas querem conversar.

― E eu lá tenho tempo pra conversar? E como você não me pergunta nem ao menos os seus nomes? Não seja tão inútil!

― Sinto muito, senhor...

O homem sequer olhou uma única vez para trás durante aquele pequeno diálogo, continuando centrado no que fazia. Porém, sem nem mesmo ter visto seu rosto, eu já o achava um homem horrível. Sua atitude tão grosseira era repugnante! Como podia tratar tão mal aquela mulher? Ela não era uma pessoa comum de fato, talvez realmente fosse uma espécie de boneca. Porém, eu ficara nervosa por ela, mas ela mesma parecia não se importar, ou talvez já estivesse acostumada com o jeito tão rude e agressivo de seu patrão. De qualquer forma, não conseguia admitir aquilo. Mesmo enfraquecida pela intensidade da pressão espiritual que emanava do local, eu quis me pronunciar, apenas para evitar que Nemu ouvisse mais desaforos. Entretanto, meu irmão fora mais rápido.

― Eu sou Kuchiki Byakuya. Talvez já tenha ouvido falar de meu nome.

― Kuchiki, hein... Pois então, que entrem.

Renji e eu seguimos Byakuya. Nós dois estávamos cansados, mas ele ainda parecia bem. Não podia deixar de admirar a força de meu irmão. Contudo, naquele momento, o que eu mais admirei foi o local onde estávamos. Lá dentro, pude ver perfeitamente a grandiosidade daquela construção subterrânea. Era um imenso laboratório, muito bem equipado com os instrumentos científicos mais modernos e caros da época, objetos os quais eu nunca imaginaria que pudessem existir ou apenas conhecia por gravuras de livros, além de prateleiras sobre as quais havia uma grande variedade de recipientes, bem como mesas nas quais estavam depositados cadáveres ― alguns muito bem conservados ― dos mais diversos seres, inclusive seres humanos. Eu nunca havia entrado num laboratório como aquele e o que vislumbrei ali não só me deixou admirada como, ao mesmo tempo, aterrorizada. Não apenas pelos corpos em estudo, mas também porque naquele laboratório havia algo que talvez não existisse em mais lugar algum: recipientes fabricados especialmente para lacrar energias espirituais... almas! Nunca pensei que na minha vida veria algum dia almas recolhidas daquela forma, enclausuradas em cápsulas tão pequenas, mas ao mesmo tempo tão resistentes. Eram os tais Gikongan que Yoruichi havia mencionado! Então, eles realmente existiam. E era por isso que daquele lugar emanavam energias tão instáveis e eu me sentira tão mal... Bem, descobrir a explicação não ajudou nem um pouco.

― E então, o que querem aqui? Algum serviço especial? ― ele perguntou, levantando-se da cadeira e nos encarando. Eu me assustei com seu rosto, inteiramente pintado, com uma grossa faixa de maquiagem preta a colorir sua face de cima a baixo, exceto nas laterais, as quais eram completamente brancas. Um homem realmente excêntrico.

― Quero informações. O senhor atualmente está fazendo trabalhos para Aizen, estou certo?

― Não lhe devo explicações. Estou sendo pago para fazer um serviço, apenas. Faço tudo em nome da ciência.

― Eu posso oferecer uma quantia maior em troca de informações. Será sigiloso. Não contatarei as autoridades. Nós sabemos o que você faz aqui, afinal. Já lutamos contra as criaturas sobre-humanas que são fabricadas por você.

― Então, são vocês! ― ele exclamou, abrindo um sorriso. ― Muito espertos... Ah, e que lindas criaturas, não acham? Ele quis que eu os chamasse de "Espadas". Sinceramente, para mim o nome pouco importa, mas já que é para utilizar um vocábulo estrangeiro, penso que "arrancar" seria mais adequado, afinal, o processo de retirada de suas almas originais de seus corpos é fundamental para que eles nasçam. De qualquer forma, o que ele tinha em mente era tão magnífico que eu não pude deixar de concordar em ajudá-lo! ― Enquanto falava, seus olhos brilhavam e ele aumentava seu sorriso de forma sinistra. Parecia deslumbrado, um cientista louco realmente apaixonado por desvendar mistérios e criar experiências mirabolantes. ― Ah, sim! ― ele continuou ― como são belos! Fortes, resistentes, possuem a pele perfeita. Suas almas, quanto trabalho para modificá-las, fortalecê-las e deixá-las invencíveis! Mas eu consegui, é claro. Um corpo perfeito com um espírito perfeito. São como deuses! Embora, de fato, muitos testes tenham sido feitos e muitos não tenham saído exatamente como o esperado, ou ainda com pequenas imperfeições... os últimos apresentaram resultados realmente satisfatórios! Vocês não acham que esses sacrifícios valem a pena, para atingir a perfeição? ― ele perguntou por fim, apontando para os cadáveres abertos em cima das mesas e as cápsulas que continham suas almas.

― Por que ele quer fazer isso? Qual é seu plano? O que você sabe? ― perguntou Byakuya, ignorando a última parte do abominável discurso de Mayuri.

― Primeiramente, o que receberei em troca, se lhe contar? Eu preciso apenas do necessário para continuar com meus experimentos. Não posso correr o risco de entregar Aizen e perder minha verba em razão de uma traição tola. Mas, é claro, estou aberto a acordos. O senhor havia dito que faríamos tudo em sigilo, não é? Quanto tem a me oferecer?

― Eu cubro o que ele pagou. Mas terá de se mudar daqui. Posso até mesmo lhe oferecer um local de trabalho mais isolado para que ele não o procure. Quanto à segurança, o senhor não precisa se preocupar.

― Eu não estou preocupado com isso. Mas os seus termos parecem bem interessantes.

― O que faz aqui dentro também não me diz respeito, mas se disser o que sabe sobre os planos dele, não precisará se preocupar em trabalhar para mais ninguém além de si mesmo.

― Hum... Isso parece ainda mais interessante.

― Então?

― Está bem. Aceitarei fazer um acordo. O senhor me parece um homem de palavra. Pelo que conheço da estimada família Kuchiki, não há motivos para desconfiança, não é? Homens honrados estão cada vez mais difíceis de se encontrar hoje em dia.

― Eu agradeço. Se puder nos contar tudo o que souber, será de grande ajuda.

― Bem, eu não acho que ele tenha me dito tudo ― comentou Mayuri, segurando o queixo em tom pensativo. ― Mas para que eu pudesse atender os seus pedidos, eu precisaria saber ao menos quais seriam seus objetivos. E, acreditem, ele é um homem que pensa grande. É muito ambicioso, uma qualidade que eu admiro. Queria criar um grande exército invencível e é por isso que procurou meus serviços, mas o grupo de vocês está atrapalhando um pouquinho seus planos. Parece-me que sua meta é aplicar um golpe político, derrubando o primeiro-ministro: forjará sua morte para que todos pensem que foi suicídio e, dessa forma, pretende ser nomeado em seu lugar, colocando todos os seus aliados no poder, fazendo amizade com o Imperador, mas claro, com todo o poder político em mãos.

― Quer dizer que ele não desistiu da ideia do xogunato? Quer se tornar um novo Xogum?

― E alguém achou que ele desistiria? Como puderam subestimá-lo dessa forma? E sabem do que mais? Vão ficar de boca aberta quando eu lhes contar o que vem a seguir!

― Diga, não há mais tempo para suspenses.

― Pois então, vocês não vão adivinhar! Saibam o verdadeiro motivo da guerra que está acontecendo agora: foi Aizen quem arrumou tudo isso. De algum jeito ele persuadiu o governo a declarar guerra contra a China para aquisição do território coreano! ― ao dizer isso, o sorriso de Mayuri se tornou ainda maior. ― hah! Não é irônico? Este homem ainda tem muitas cartas na manga... Mas foi através disso que ele conseguiu se aproximar do novo governo, depois de tanto tempo de reclusão. E está se mostrando muito fiel... Eles estão caindo direitinho na armadilha!

― Mas como? Eles eram inimigos e suas convicções políticas eram completamente contrárias! Como de repente os políticos aceitaram sua volta e se tornaram amigos dele? É impossível.

― Eu não sei dizer ao certo o que ele fez para conseguir isso. Só sei que está tudo saindo como o planejado. O governo confia nele e nem cogita que pode estar sendo enganado, alvo de um golpe político. Tenho a impressão de que ele tenha usado de alguma espécie de hipnose... Imagino quantas coisas aprendeu, tendo ficado tanto tempo escondido na Europa. Ele teve tempo de sobra para elaborar seus planos.

― Eu concordo. Faz sentido que tenha estudado e aprimorado seus conhecimentos em diversos assuntos.

― Pois é. Mas isso é tudo o que sei. Agora, se quiserem detê-lo, terão de se apressar, pois não demorará muito até que ele mate Ito Hirobumi¹.

― Precisamos descobrir quando e como se darão seus ataques. Mas primeiro precisamos alertar o governo.

― Acho que não conseguirão. A família Kuchiki anda com suas relações políticas em baixa, não? Ainda mais agora com Ichimaru Gin tão próximo de Aizen e dos figurões do governo e da polícia federal. São todos um bando de corruptos, essa é que a verdade. Mas, o que nós não fazemos por dinheiro, não é?

― Quanto ao seu pagamento, fique tranquilo. Amanhã à noite enviarei um encarregado especialmente para lhe entregar a devida quantia. Como garantia, fique com este adiantamento. ― Meu irmão retirou do quimono uma pequena bolsa de couro amarrada firmemente com uma fita dourada e carregada de moedas de ouro de iene². Mayuri prontamente a abriu para verificar seu conteúdo. ― Muito obrigado por suas valiosas informações.

― Disponha ― Mayuri respondeu sorrindo enquanto seus olhos brilhavam ao observar as moedas douradas.

Nada mais havia a ser dito. Nemu nos escoltou de volta para fora da casa e andamos em silêncio novamente passando pelos corredores estreitos e escuros. Eu não tinha forças para dizer uma palavra sequer, não apenas pelo cansaço de meu corpo, mas principalmente pela fadiga mental proporcionada por aquela conversa reveladora com Mayuri. Que dor de cabeça! Meu cérebro latejava tentando digerir todas as informações, tentando compreender nossa real situação. Será que haveria saída? Será que tínhamos condições de vencer Aizen e seu plano diabólico? Eu estava com medo do que o futuro traria, imaginando um Japão preso ao domínio de Aizen Sousuke, reprimido numa ditadura, escravizado por sua loucura assim como aqueles pobres espíritos em corpos que não eram seus. O vislumbre desse futuro me fez suar frio e era tão horrendo quanto as experiências de Mayuri... Quanto mais eu andava de volta por aqueles corredores, mais apertados e sombrios eles me pareciam. À sensação sufocante das paredes tão altas que me engoliam, à escuridão do caminho à frente que não parecia ter fim, cuja luz das velas que Nemu levava não alcançavam, seguíamos pelo ambiente claustrofóbico que se misturava com os medos que atormentavam meu cérebro naquele momento e eu apenas desejava sair dali de qualquer jeito. Onde estava a saída? Por que ela não chegava? E por que ninguém dizia nada? Naquele silêncio, ouvia unicamente meu coração disparado e os passos atrás de mim. Um barulho descompassado, que também não tinha fim! E no que é que eu pensava mesmo? Já não mais pensava. Só queria achar a saída, me ver livre daquele lugar!

E quando me vi do lado de fora do muro, minhas pernas perderam toda força. Meus ferimentos ardiam e foi então que eu percebi como estava machucada. Doía, mas eu não tinha ânimo nem para chorar.

Senti mãos quentes e firmes me ampararem e então foi como se meu corpo estivesse flutuando. Alguém me carregava e eu imaginei que fosse Renji, mas não pude abrir minhas pálpebras tão pesadas para verificar. E, embora eu soubesse que era impossível, eu desejei que o dono daquelas mãos fosse Ichigo... Esta é a última lembrança que tenho daquela noite.

Continua...


Glossário e Notas:

(1) Ito Hirobumi (1841 - 1909): ele é uma figura que realmente existiu e teve quatro mandatos como primeiro-ministro do Japão (entre 1885 e 1888, 1892 e 1896, no ano de 1898 e entre 1900 e 1901).

(2) Naquela época existiam moedas de iene de ouro e prata e outras unidades de dinheiro menos valiosas, sen e rin.

Ufa! É um milagre! Sim, eu ainda existo e essa fic também! xD Peço mil desculpas por tantos meses sem atualizar. Talvez vocês nem se lembrem mais dessa história... Eu na verdade estava prestes a desistir dessa fic, mas nas férias de julho voltei a escrevê-la e pretendia postar antes de agosto, mas aconteceram alguns imprevistos desagradáveis e, enfim, só consegui postar um mês depois do esperado. Bem, antes tarde do que nunca, né? Então, se ainda se lembrarem ou estiverem com vontade, por favor, leiam e comentem. Esse capítulo me deu mais trabalho do que eu esperava e ficou até mais longo do que eu esperava, mas fiz com carinho pra vocês.

Então, é isso... podem me espancar, jogar pedras, me jogar dentro de um poço, façam o que quiserem comigo... acho que eu mereço, depois de deixá-los órfãos por tanto tempo... Espero que esse capítulo ao menos tenha valido toda a espera!

Beijos e obrigada por lerem e por aguardarem bravamente.